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Carta à Berta

Carta à Berta é o local dos Desabafos de um Vagabundo, do Senhor da Bruma, essa bruma a que chamam de internet, de um Haragano, o Etéreo, qual cavalo selvagem que galopa entre cartas alegadamente, quiçá, sem fundamentos.

Carta à Berta é o local dos Desabafos de um Vagabundo, do Senhor da Bruma, essa bruma a que chamam de internet, de um Haragano, o Etéreo, qual cavalo selvagem que galopa entre cartas alegadamente, quiçá, sem fundamentos.

Carta à Berta: Livro - O diário Secreto do Senhor da Bruma - III - Conversas com a Consciência: 1) Zygmunt Bauman (fim)

(continuação – III – 4)

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Zygmunt Bauman

Olá Berta,

Começo esta carta satisfeito por te saber bem e a gozar umas merecidas férias na praia. Continuo zangado com o Governo por esconder a verdade sobre a saúde pública dos portugueses. Enquanto não começarem a ser revelados os dados sobre o coronavírus a nível das freguesias é muito mais fácil ao Estado manipular a informação e distorcer a realidade em seu proveito próprio.

Quanto à apresentação, no Diário Secreto do Senhor da Bruma, daqueles que me influenciaram o raciocínio e o meu próprio pensamento, Zygmunt Bauman foi sem dúvida aquele que me ajudou a escolher a esquerda como o lado onde a minha consciência tem mais facilidade de selecionar modelos e se adaptar ao universo político.

Não fez de mim, logo à partida, um socialista humanizado, é certo, porém, tornou mais fácil o entendimento do que mais me desagradava na política, ou seja, o lucro pelo lucro e um capitalismo sem regras, que não são, de certeza, as minhas zonas de conforto.

Eu preciso de uma ética com valores e princípios humanos e universais, onde a pessoa ocupe lugar de destaque, pois somos e sempre seremos um ser social, que evolui coletivamente, mas respeitando a individualidade de cada individuo e a privacidade do seu ego único e próprio, enquanto unidade integrada de um meio coletivo, solidário, fraterno, livre, social e ao mesmo tempo sensitivo e sensível perante o quotidiano envolvente. Mas regressando a Zygmunt Bauman:

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III

Conversas com a Consciência

(continuação – III – 4)

Abril, dia 5:

De acordo com Bauman, nos tempos atuais, as relações entre os indivíduos nas sociedades tendem a ser menos frequentes e menos duradouras. Uma de suas frases poderia ser traduzida, na língua portuguesa, por "as relações escorrem pelo vão dos dedos". Segundo o seu conceito de "relações líquidas", formulado, por exemplo, em Amor Líquido, as relações amorosas deixam de ter aspeto de união e passam a ser um mero acumular de experiências, que se sucedem num encadeamento dinâmico, que pouco guarda dos antigos laços para a vida anteriormente tão em voga e vulgarmente considerado o verdadeiro caminho.

Abril, dia 6:

Devido a isso, a insegurança passaria a ser uma parte estrutural da constituição do sujeito pós-moderno, conforme Zygmunt escreve em Medo Líquido. Bauman é frequentemente descrito como um pessimista, na sua crítica à pós-modernidade. De facto, enquanto os cientistas, poetas e artistas se desdobram e empenham na exaltação das virtudes do capitalismo, ele mantém-se na contracorrente, procurando expor a face desumana do capital.

Abril, dia 7:

Zygmunt Bauman, é, assim, o desencantado que encanta. É ele que afirma que: “na nossa sociedade, expor o privado é uma virtude e um dever público”. Aliás, o sociólogo polaco, ficaria mundialmente conhecido por criar o conceito de “modernidade líquida”, que usa para definir os dias de hoje e os que vêm pela frente. A ideia acabaria por pegar e quase se tornar uma moda, trazendo à tona, por diferentes ocasiões, ao longo dos anos, os seus livros, aparecendo estes entre os mais vendidos dentro dos escritores do pensamento. Trata-se de um feito e tanto para um pensador que não é dos mais fáceis de ler, nem dos mais simples de entender.

Abril, dia 8:

Em síntese: é essa desumanização do capital que é acompanhada, de mão dada, pelo crescente tentáculo da globalização, no seu conceito de modernidade líquida, que não tem grandes barreiras ou limites bem definidos, que tornam Zygmunt, na minha perspetiva, um dos 9 eleitos entre os últimos grandes pensadores universais. Aliás, se tivesse que espremer, numa só palavra, o que impressiona em Bauman eu usaria, inequivocamente, a sua introdução fundamental no campo filosófico e cognitivo do conceito de: desumanização. Todavia, sendo esta a minha perspetiva, isto é apenas aquilo que eu retiro de Zygmunt Bauman e não o que o mundo pensa dele.

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Sei que não relatei no Diário a essência deste pensador, mas apenas referi porque é que ele se tornou num dos meus pilares da formação da minha consciência. Foi essa a abordagem que resolvi escolher na relevação do meu Olimpo do Pensamento Contemporâneo e penso, sinceramente, que isso é que é realmente importante.

É claro que Bauman disse muito mais e escreveu o suficiente para não poder ser resumido a uma única ideia. Certo. Não argumento contra isso. Mas foi a sua explicação deste caminho para uma sociedade desumanizada aquilo que mais me cativou, neste filósofo do mundo contemporâneo, e que foi tão importante para que as escolhas do meu próprio sentir se tornassem mais simples.

Assim farei na narrativa, amiga Berta, ao abordar todos os outros pensadores que, por este ou aquele motivo, me ajudaram a criar esta minha consciência afinista e solidária, mas também individual, criativa e livre.

Amanhã começarei a carta com a apresentação do segundo dos pensadores. Inacreditavelmente, trata-se de alguém nascido no meu ano de nascimento, em 1961. Mas deixemos o assunto para o seu devido tempo e lugar. Afinal, vou falar dele por algumas, talvez bastantes, linhas.

Por hoje, despeço-me com um beijo natural, daqueles que se dá por carinho e amizade. Porque os amigos são parte integrante de quem somos enquanto seres sociais, sabes que podes sempre contar com este velho parceiro dos tempos da irreverência, que sente, e muito, a falta da tua presença física, mas que jamais te esquece,

Gil Saraiva

 

 

Carta à Berta: Livro - O diário Secreto do Senhor da Bruma - III - Conversas com a Consciência: 1) Zygmunt Bauman

(continuação - III - 3)

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Olá Berta,

Sei que não sou pessoa que normalmente se ponha, nem muito nem pouco, a filosofar. Apesar desse pequeno grande detalhe adoro filosofia e teorias sobre o pensamento. Porém, é mais um hobby meu do que uma coisa para partilhar com terceiros. Foi aliás o meu gosto pelo pensamento humano que me levou a passar 3 anos e meio no curso de Filosofia.

Esses, pois tenho também de incluir o de Estudos Portugueses, foram os 2 únicos cursos que tive pena de não ter chegado ao fim. Não na altura, em que me apoiei perfeitamente nas minhas decisões, mas mais tarde, alguns bons anos depois.

Psicologia Clínica e História foram formações relevantes, todavia, nem hoje as terminaria se pudesse. Quanto a direito nunca fiz estágio nem, consequentemente, me inscrevi na ordem. Simplesmente detestei o curso, salvou-se, apesar de tudo, esse tempo vivido em Coimbra, graças à convivência universitária e ao meu crescimento pessoal enquanto individuo e ser humano com ideias próprias.

Já o jornalismo foi a minha profissão de eleição. Comecei aos 18 e  15 anos depois lá consegui a carteira profissional de jornalista através da pressão exercida pelo meu editor de então, embora com uns meses largos de atraso, graças ao tolo do meu diretor dessa altura, nos idos de 1996. Tolo porque achava que se me pedisse a carteira me teria de pagar mais do que até então pagava.

Portanto, já lá vão 40 anos de atividade e 25 enquanto detentor de uma carteira profissional. Nem a atividade paralela de funcionário aduaneiro durante 12 anos, nem mesmo os 16 anos de gestor de empresas, se comparam no tempo e na preferência ao meu amor pela profissão de jornalista.

Uma verdadeira paixão, principalmente, no que concerne aqueles fabulosos anos em que me dediquei de corpo e alma à investigação, mesmo com as ameaças de morte que os jornais onde trabalhei receberam, em meu nome, por força da publicação de certas verdades. Se bem me lembro foram 22. Um número bonito que ainda hoje me faz sorrir.

Contudo, a formação privada que tive, com 2 grandes mestres, em artes plásticas e, por outro lado, a escrita e a poesia, com o imenso apoio da minha mãe, formada em Românicas, foram os pilares fundamentais da constituição da minha consciência emocional e sensitiva. Disso não tenho a menor dúvida.

Desculpa se me alonguei em divagações, porém queria que entendesses o meu interesse pelo universo das ideias e do pensamento e porque tenho, como referências um certo número de pensadores contemporâneos. Mas vamos ao Diário:

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III

Conversas com a Consciência

(continuação – III – 3)

Março, dia 30:

Apontamentos sobre quem pensa. Os Últimos 9 Grandes Pensadores da Humanidade (segundo eu):

Não me parece relevante, no âmbito destas minhas notas, estar aqui a explanar todo o pensamento, atividade, teorias e suas aplicações, no que a cada um dos pensadores diz respeito, nem mesmo apresentar qualquer defesa relativamente às ideias de cada um. Isso poderá ser um trabalho para quem quiser ir mais longe no conhecimento da obra e nos contributos desta minha seleção de sábios para a humanidade e para o pensamento, dos últimos 120 anos. Basta-me referir porque os considero fundamentais, importantes e influenciadores do meu existir.

Março, dia 31:

Para os intelectuais as minhas escolhas podem vir a parecer estranhas ou inaceitáveis. Aliás, quem lidera as instituições ligadas ao conhecimento, à matemática, à ciência, à tecnologia e, consequentemente, à filosofia e ao pensamento, paradoxalmente, é muito conservador no que se refere à aceitação de novos paradigmas ou valores que possam pôr em causa o status quo pré-estabelecido. A história é farta em demonstrar a imensa dimensão deste fenómeno com o decorrer das eras e dos séculos.

Abril, dia 1:

1) Zygmunt Bauman (19/11/1925 a 09/01/2017) –Sociólogo, pensador:

Bauman, foi inicialmente um marxista ortodoxo, com ideias estalinistas, de origem judaica, não praticante, ateu, educado na Polónia, sob forte influência da URSS. Teve uma curta carreira militar. Integrou os quadros da inteligência polaca aos 19 anos e atingiu o posto de major oito anos mais tarde, no entretanto, lecionou como professor universitário em Varsóvia.

Abril, dia 2:

Em 1968, Bauman, foi expulso do seu país, por críticas ao governo comunista polaco. Por esse facto viajou para Israel, onde agarrou o ensino universitário e passou a lecionar na universidade de Telavive (ou Tel Aviv), onde se manteve até 1971. Foi nesse ano formalmente convidado pelos britânicos para se instalar em Leeds. Zygmunt não terá hesitado muito na decisão e mudou de vez, definitiva e convictamente, para terras de Sua Majestade.

Abril, dia 3:

 Uma vez instalado no Reino Unido, iniciou o leccionamento na universidade de Leeds. Cedo se tornou cidadão britânico. Foi por essa altura que começou, metodicamente, a adaptar as suas ideias à realidade. Rapidamente se tornou um defensor de um conceito em tudo inovador: o socialismo de cariz humanista, que o guiaria pelo resto da vida, até à sua morte, com 91 anos, em 2017. Bauman publicou cerca de 35 livros até 1999 e mais do que isso entre 2000 e 2017. Há quem o considere um fenómeno, um autêntico génio, no que à capacidade de racionalizar o meio diz respeito.

Abril, dia 4:

Contudo, independentemente de já ter muita obra publicada entre os 27 anos e os 46 anos, a sua visibilidade e fama têm as fundações com a mudança para terras britânicas. Na realidade, a sua notoriedade fortalece-se, com espetacular evidência, a partir de 1989, já com a bonita idade de 64 anos, quando começa a debruçar-se sobre a problemática da modernidade, do pós-modernismo e dos possíveis rumos a tomar daí em diante.

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Devido à minha longa introdução, não consegui terminar, sem me alongar demasiadamente, a apresentação de Zygmunt Bauman. Terá de ficar para amanhã. Despeço-me com um beijo e uma piscadela de olho, feliz por ter sabido que estás muito morena pela praia que tens feito, querida Berta, sempre ao teu serviço,

Gil Saraiva

 

 

 

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