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Carta à Berta

Carta à Berta é o local dos Desabafos de um Vagabundo, do Senhor da Bruma, essa bruma a que chamam de internet, de um Haragano, o Etéreo, qual cavalo selvagem que galopa entre cartas alegadamente, quiçá, sem fundamentos.

Carta à Berta é o local dos Desabafos de um Vagabundo, do Senhor da Bruma, essa bruma a que chamam de internet, de um Haragano, o Etéreo, qual cavalo selvagem que galopa entre cartas alegadamente, quiçá, sem fundamentos.

Carta à Berta: Campo de Ourique - Uma História de Três Gerações

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(Campo de Ourique – 1º Andar de casa da R. Tenente Ferreira Durão - Foto de autor, direitos reservados)

Olá Berta,

Aos 102 anos de idade, a poucos meses de fazer 103, faleceu, no lar onde atualmente se encontrava, a Dona Irene. Uma senhora cuja morada oficial ainda é, na Rua Tenente Ferreira Durão, aqui, Bem na zona central do bairro de Campo de Ourique. Conheço o caso devido à minha amizade com a nora da Dona Irene, a minha amiga Ilda. Uma menina de 72 anos, com um sorriso afável, sempre pronta a ajudar quem precisa, amante convicta de animais.

A casa da Dona Irene, que fica no primeiro e último andar, tem estado ocupada pelo seu neto. Um jovem que ainda se passeia pela maravilhosa década dos quarenta. O funeral a que só puderam ir o filho, nora e netos, mas não os bisnetos, foi de caixão selado, sem que ninguém pudesse sequer identificar a senhora. Não houve direito a velório de igreja, nem a câmara ardente, nem mesmo a um último adeus. É que a Dona Irene faleceu vítima de Covid, no dia a seguir à família ter sido informada, pelo lar onde se encontrava, de que a centenária menina, se encontrava quase recuperada de uma febre que acusara Covid e que já apresentava melhorias significativas.

Na verdade, ao dia das melhoras significativas, seguiu-se uma noite da qual a Dona Irene não chegou a acordar. Há quem chame a este óbito uma morte santa. Para mim, se não está há espera que alguém faleça, é somente um choque e ao mesmo tempo triste, seja qual for a perspetiva em que se queira olhar toda a situação.

Independente do pesar da família, tema que não vou abordar por respeito, Campo de Ourique perdeu mais um dos seus centenários residentes. Até aqui, imagino eu, esta é a história, com mais ou menos drama, do que tem acontecido a quase quinze mil portugueses desde que a Covid entrou no pais. Seria até bom que todos tivessem partido com a mesma calma silenciosa da Dona Irene e, sabemos bem, que infelizmente não é essa a regra.

Estou a tentar, amiga Berta, não colocar demasiado sentimentalismo nesta carta, até porque, pessoalmente, eu não conhecia a Dona Irene, nem imagino sequer o tipo de pessoa que foi ou deixou de ser em vida. Apenas sei que faleceu, que era sogra de uma grande amiga e que as traseiras da sua casa dão precisamente para as traseiras da minha. A fotografia que junto é precisamente da parte de trás da casa dela.

O que me faz confusão, e que me levou a descrever toda a situação, tem três dias. Ou seja, ontem, no dia que se seguiu ao funeral, o neto da Dona Irene, um homem que trabalha num dos restaurantes, que ainda fazem entregas ao domicílio em Campo de Ourique, no caso a Padaria do Povo, recebeu, na caixa do correio, o aviso do senhorio dando-lhe 30 dias para entregar a casa. Assim, sem mais nem menos, porque é o que a lei permite, mas que a ética condena de forma severa. Não sei quem é o senhorio da casa, mas, num tempo como este em que vivemos, o ato é desumano.

Penso por mim, que em tempos também já fui senhorio. Eu teria não apenas transmitido os meus pêsames, como indagaria se ele pretendia manter-se na casa e se estaria preparado para a atualização da renda, de acordo com a legislação em vigor. Perguntaria também, caso ele não achasse ter condições para lá se manter, de quanto tempo precisaria ele para se mudar. Só perante a resposta, e sendo esta negativa, quanto à manutenção, é que tentaria encontrar um prazo razoável, mas com o acordo de ambos, se possível, para a entrega da chave.

Eu entendo até a pressa do senhorio em rentabilizar um bem que tem estado alugado a baixo preço há muitos anos. Mas a humanidade, a ética e a solidariedade nunca deixaram de fazer parte do perfil da pessoa humana ou deixaram? Provavelmente o problema deve ser meu que sou um romântico. Procuro sempre a melhor solução para evitar o conflito e para não criar stress ou nervosismo aos outros. Um sócio, que tive há mais de 20 anos, dizia-me que eu tinha a mania que era a Santa Casa da Misericórdia. Porém, ele estava errado, tratava-se apenas de procurar ser humano para com os outros humanos.

Não sou melhor nem pior que ninguém, nem me quero armar aqui em santinho. O que digo aqui é o que tenho praticado toda a minha vida e, confesso, nem sempre me saí bem pelo facto de ser como sou. Quando digo “saí bem” estou a falar económica ou financeiramente, mas sempre fiquei de consciência tranquila. Em paz comigo mesmo. Que é realmente aquilo que mais devia importar nas relações sociais. Para quem é ateu como eu, e que não tem a ajuda da fé e da religião, continuo a considerar que esta é a melhor forma de nos sentirmos bem connosco e de alcançar paz de espírito.

Afinal, a vida dá muitas voltas e um dia, sem sabermos ler nem escrever, podemos muito bem vir a encontrarmo-nos do outro lado de uma situação idêntica. A justiça é uma balança moral com dois pratos equilibrados e muitas vezes diverge dos ditames da lei. A economia de mercado, o capitalismo, a procura do maior lucro e a sociedade de consumo, não podem tornar-se, quase exclusivamente, nos únicos valores universais. Hoje, como ontem, foi mais um dia triste para mim (para alguém alegre como eu, dois dias assim, já é uma eternidade).

Espero que me tenhas entendido, querida amiga Berta, eu sei que tenho este feitio fora do tempo em que vivemos, porém, se queres saber, na verdade, acho que ainda há muita, mas muita gente, como eu. Despeço-me com o carinho do costume, este teu amigo,

Gil Saraiva

 

 

 

Carta à Berta: Campo de Ourique Está Triste

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(Campo de Ourique – Jardim da Parada - Foto de autor, direitos reservados)

Olá Berta,

Campo de Ourique está triste. Desde que este ano começou apenas sai duas vezes de casa. Em ambas as situações por razões de força maior. Na primeira foi para dar um salto à clínica de análises Joaquim Chaves, bem na esquina da Rua de Infantaria 16 com a Rua Tenente Ferreira Durão e a segunda para ir a uma consulta no Hospital Egas Moniz. É claro que em qualquer delas aproveitei para ir ao pão, à porta do Trigo da Aldeia, e passar no minipreço para comprar algumas coisas que gosto de ser eu a escolher, em vez de encomendar pela internet.

Contudo, porque já que me fazia falta andar um pouco, aproveitei para dar um pequeno passeio higiénico e rever o meu bairro. Acabei por regressar a casa invadido por uma melancolia imensa. O maior centro comercial de ar livre do país está quase totalmente encerrado. Como no meu quarteirão tenho três supermercados, não me tinha apercebido da diminuição das pessoas, nem do panorama que é ver loja atrás de loja encerrada, algumas das quais já dá para perceber que não voltarão a abrir portas.

Porém, foi no Jardim da Parada que se me apertou a alma e que senti o coração chorar. No percurso que fiz consegui contar apenas três pessoas atravessando, como eu, o jardim com destino a algum lado, certamente por razões de primeira necessidade.

A hamburgueria, encerrada, lembrava um jazigo do cemitério dos prazeres. Bem perto as mesas metálicas, pintadas de verde, pregadas no chão, acompanhadas das suas quatro cadeiras, a condizer, gritavam pela falta dos velhotes da sueca e dos mirones envolventes, como se fossem mobiliário de um longínquo Chernobil. Ao passar pelo lago não vi patos, nem cagados, nem mesmo pombos nas redondezas, apenas folhas mortas navegando perdidas à tona de água sem destino ou rumo certo.

Foi como olhar para uma paisagem e vê-la a preto e branco, distante, perdida, abandonada. Os bancos do jardim, todos eles, sem exceção, com fitas vermelhas e brancas e um autocolante garrido a proibir o seu uso. Ninguém por ali para dar de comer aos pombos que, aliás, nem existiam naquele momento. Deles apenas vislumbrei algumas penas, mais pequenas do que as que sentia no meu âmago, esquecidas no chão, como despejos de uma batalha fantasma.

A solidão das estruturas do parque infantil lembrava, vagamente, que aquele era um lugar para crianças, mas não se escutava o chilrear da pequenada cheia da energia que, noutras alturas, até me costumava incomodar e que hoje me chegava à memória com uma saudade imensa. Na solidão do jardim as enormes árvores agigantavam-se mais ainda e a luz do Sol parecia ampliar uma sinistra presença de um ambiente surreal. O pequeno quiosque de livros gratuitos, feito na cabine telefónica transformada, estava despido.

Aquele vazio, sem nada nas prateleiras, apenas me lembrava um equipamento abandonado e fora de contexto. Foi nessa altura, uns metros à frente, que me deparei com a estátua da Maria da Fonte e, não sei porquê, dei comigo a chorar, ao olhar para aquela figura de pedra que normalmente me fazia lembrar a revolta popular que a imortalizara.

Hoje, a Maria da Fonte parecia gritar de desespero e revolta pelo que a pandemia fizera ao seu jardim. A ideia de que ela reclamava o regresso do povo, como nunca o fizera nos cem anos da sua presença no jardim, ardia-me na alma, murchando-me o coração. Maria da Fonte parecia gritar, agitar-se em desespero e chorar ao mesmo tempo e eu, confuso, perdido nas memórias de outros tempos, ali fiquei durante uns minutos que me pareceram horas, tentando apaziguá-la, para no final terminar, novamente, a chorar com ela, solidariamente, essa mágoa imensa. Campo de Ourique está triste, muito triste.

Um beijo, querida Berta, até amanhã,

Gil Saraiva

 

 

 

Carta à Berta: Novo Incêndio em Campo de Ourique

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Olá Berta,

É comum ouvir-se a expressão: “Não acredito em bruxas, mas, que as há, há!” É precisamente esse o caso do que se anda a passar em Campo de Ourique. Sexta-feira tivemos o incêndio na cobertura do prédio (umas águas-furtadas) na Rua Francisco Metrass, número 59, pelo início da tarde (13, 30). O resultado final foi um edifício dado como inabitável lá para a hora de jantar. Com o piso superior a desabar (interiormente) sobre o piso de baixo.

Relativamente à minha morada, a distância é curta e apenas a Rua Almeida e Sousa me separa da zona do infeliz incidente. Uma distância, em linha reta, bem abaixo dos 100 metros, talvez a uns 30 apenas, mais coisa menos coisa, da minha porta.

Ontem, segunda-feira, 3 dias, 4 horas e 10 minutos depois da deteção do primeiro fogo, temos, segundo me informou o senhor Victor Gil, chefe dos Sapadores de Lisboa de serviço no local, pelas 17,40 da tarde, os Bombeiros foram avisados de um novo incêndio, tendo a primeira viatura chegado ao local apenas 6 minutos mais tarde. No total tratava-se de um edifício com 11 habitações das quais 7 estavam habitadas por um total de 11 pessoas. O fogo, cujas chamas foram filmadas das traseiras do edifício localizado na Rua Tenente Ferreira Durão, na cobertura do número 19, segundo o chefe Victor Gil foi dominado às 19 horas e 12 minutos.

Posteriormente, sempre com o apoio pronto dos Bombeiros Voluntários de Campo de Ourique, passou-se à fase de rescaldo. A ocorrência foi dada como terminada já depois das 20 horas. Entre sapadores, voluntários, proteção civil, polícia municipal e PSP, este fogo teve a intervenção de mais de 50 operacionais. A rua esteve cortada ao trânsito até depois das 21 horas e já se sabe que o prédio está inabitável.

Na internet encontram-se disponíveis vários videoclipes do incidente. Tratou-se de um fogo intenso e teve até direito a ser registado pela objetiva de um drone, segundo fonte do Correio da Manhã.

Este fogo localizado na rua para onde dão as traseiras da minha casa, está localizado, mais uma vez a menos de 100 metros, em linha reta do meu prédio. Qual é a possibilidade de uma coisa destas se repetir desta forma, consecutivamente num espaço de 76 horas de diferença, com esta proximidade e com caraterísticas tão semelhantes às do primeiro incêndio? Vejamos as coincidências.

Dois incêndios seguidos no mesmo bairro, a uma distância de menos de 100 metros um do outro e a menos de 100 horas de intervalo temporal, ambos em coberturas, igualmente ocorridos da parte da tarde, tendo o piso da origem do fogo desabado também no piso debaixo, os dois em portas ímpares, os dois com números terminados em 9, verificando-se como resultado final a inabitabilidade de ambos os locais. A única diferença visível é não se conhecer ainda a origem deste último fogo. Talvez, mais tarde, as peritagens o indiquem.

Por tudo isto é que eu sou levado a repetir, minha querida amiga Berta, nesta hora em que me despeço de ti com o habitual beijo virtual, que: “Não acredito em bruxas, mas, que as há, há!”

Gil Saraiva

 

Nota um dos vídeos pode ser visto em: https://www.cm-tv.pt/atualidade/detalhe/video--chamas-consomem-cobertura-de-predio-em-lisboa-veja-as-imagens

 

 

 

Carta à Berta: Campo de Ourique: Um Incêndio à Porta de Casa...

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Olá Berta,

Ontem, à hora de almoço, quase às 13 e 30, tive o fogo a aquecer um início de tarde, já por si quente, embora arejado por uma brisa que se sentia na pele. Por outras palavras, um incêndio no terceiro andar, umas águas-furtadas, da minha rua, a Francisco Metrass. Por baixo, no rés-do-chão, ficam a Cervejaria Europa e, ao lado no mesmo prédio, a Farmácia Porfírio.

Relativamente à proximidade do edifício onde vivo distam uns 30 metros, mais coisa menos coisa, mas existe uma rua (a Almeida e Sousa) a separar-me do ocorrido. Foi perto, mas não demasiado próximo de mim. Não tendo o meu terceiro andar sido sequer penalizado pelo fumo intenso provocado pelo incêndio e, muito menos ainda, pelo trabalho dos Bombeiros Sapadores de Lisboa, coadjuvados pelos Bombeiros Voluntários de Campo de Ourique.

A fotografia que te envio ilustra a minha perspetiva do local do incêndio e foi tirada já quase no final dos trabalhos a meio da tarde. Não me perguntes porquê, mas optei por não colocar imagens do incêndio propriamente dito. Não sei se é devido à proximidade e vizinhança, se por outro motivo que agora não discorro, mas poderás ver online, se tal te interessar, bastantes fotografias ilustrativas do fogo e até vários clips, com pequenos filmes, descrevendo o que se passou. Eu preferi só incluir a imagem que te envio.

Reconheço que, mesmo sendo jornalista, a cobertura de um evento que me é próximo me tira algum discernimento e lucidez, mas vou tentar dar-te uma ideia aproximada dos acontecimentos.

Pese embora o facto de saber o nome da pessoa residente no sótão onde o incêndio teve início, não pretendo aqui crucificá-lo, nem nada que se pareça, pelo que vou utilizar o nome fictício de Manuel.

O senhor Manuel é um ancião do bairro. Vive sozinho, nas águas-furtadas de um prédio sem elevador, que corresponde a um terceiro andar. A sua idade, que já ultrapassou as 80 primaveras dá-lhe o direito de se achar sabedor das coisas da vida e de rejeitar conselhos de vizinhos atrevidos e metediços na vida privada e alheia, com que nada tem a ver, muito menos a comentar.

Na realidade o senhor Manuel já fora advertido, vezes sem conta, pelos vizinhos do seu prédio e pelos outros do prédio das traseiras do edifício, que assar sardinhas ou fazer grelhados, na varanda oposta à fachada da casa, era perigoso e que um dia ainda causaria um problema qualquer. Contudo, pensava o nosso ancião, ele não estava xexé nem sequer para lá caminhava, sabia perfeitamente aquilo que fazia. O problema deste raciocínio é que os imponderáveis acontecem, independentemente da idade dos protagonistas, e muitas vezes sem nada ter a ver com a sua atenção ou falta dela relativamente ao que estão a fazer.

Foi o caso de ontem. O ancião desta narrativa, afastou-se por uns minutos do almoço que estava a grelhar na varanda, quiçá para ir ver se os acompanhamentos já estavam confecionados e o desastre aconteceu. Poderia ter acontecido a qualquer um, porém, para azar do senhor Manuel foi a ele que lhe calhou a fava.

O incêndio espalhou-se rapidamente e o discernimento do protagonista, aflito com a situação, não foi suficiente para que reagisse em tempo útil. Tanto que, quando foi retirado das águas-furtadas, quase meia hora mais tarde, ainda andava, no meio de um fumo imenso, à procura do telemóvel e da chave da entrada para fechar a porta antes de abandonar a habitação. Com algum esforço acabou por entender que a porta teria de se manter aberta para que os bombeiros pudessem atuar e foi conduzido, atordoado e confuso, à saída do prédio.

Foram quatro as vítimas de inalação de fumo e as duas águas-furtadas do edifício ficaram sem cobertura e com estragos avultados. Até o prédio vizinho, mais recente, foi afetado pela água utilizada para apagar o fogo. Também os andares imediatamente anteriores às habitações do topo se viram afetados pela água, como não poderia deixar de ser. Quando às 18 horas vim para casa para escrever esta carta, amiga Berta, ainda os homens da Companhia do Gás, tentavam aferir se as condutas do prédio teriam ou não sido afetadas pela tragédia. Não cheguei a saber o resultado.

Conforme já dei a entender a pronta atuação dos bombeiros do bairro e dos sapadores da capital impediu uma tragédia de maiores dimensões. Contudo, embora seja fácil colocar a culpa no senhor Manuel, eu acho que se trata apenas de um retrato menos bonito da situação social em que vivemos desde finais do século passado. Todos sabemos que por toda a cidade e pelo país fora temos anciãos a viver sozinhos em suas casas sem a mobilidade necessária e muitas vezes o discernimento requerido, para que situações trágicas possam ser evitadas.

Deveria existir algum mecanismo social que ajudasse a prevenir estas situações. Mas entre dever e haver vai muito mais do que a diferença dos verbos. Aliás, recordo-me que no prédio onde habito, já lá vão umas dezenas de anos, vivia um casal de reformados no rés-do-chão (e ainda hoje vivem). O homem estava ausente e a senhora resolveu ir ao mercado municipal, situado no início da rua, fazer uma pequena compra. Porém, esqueceu-se da comida do cão ao lume.

O incêndio que se gerou foi igualmente debelado, atempadamente, pelos mesmos corpos de bombeiros que atuaram hoje e também não houve consequências de maior a relatar, exceto na referida cozinha. Hoje o casal vive com uma neta, o que me deixa muito mais descansado, ainda mais porque a memória e o discernimento da senhora se têm vindo sempre a degradar.

O que eu quero dizer, amiga Berta, é que o caso de hoje não é, nem será proximamente único e excecional. Na mesma situação aflitiva estão centenas de anciãos no nosso querido Bairro de Campo de Ourique (já para não falar do país). Muitos deles sem a totalidade e plenitude das suas capacidades. Algum tipo de acompanhamento e aconselhamento deverá ser alargado, pois já existem algumas iniciativas neste sentido, por forma a se poder ajudar a prevenir futuras situações trágicas desnecessárias e que nalguns casos podem até mostrar-se fatais.

Quanto ao incêndio de hoje não me posso esquecer de deixar demonstrada a minha solidariedade para com a Cervejaria Europa e para com o seu gerente, o senhor Paulo, que não só perdeu hoje a receita dos 19 clientes, que a quando do incêndio se encontravam a almoçar, mas que, quando me vim embora, ainda não sabia se poderia voltar a usar o gás proximamente.

Hoje foram 400 euros perdidos num almoço que até estava a correr melhor do que o costume, para os tempos de pandemia que vivemos. Porém, no momento a situação para ele e funcionários ficou mais incerta e insegura. Os mesmos votos deixo à farmacêutica, a Doutora Graça, e a todos os funcionários da Farmácia Porfírio que hoje se viu obrigada a fechar portas. Que as coisas corram pelo melhor a ambos é o que desejo. Despeço-me com um beijo amigo,

Gil Saraiva

 

 

 

Carta à Berta: DGS condena à morte o Desporto em Portugal. (o que vai ser do Clube Atlético de Campo de Ourique - CACO?)

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Olá Berta,

Hoje, por causa das últimas notícias da DGS relativas ao Desporto, estava a pensar num clube pelo qual tenho um especial carinho. Estou a falar do CACO, o Clube Atlético de Campo de Ourique. O que vai ser desta gente se a DGS não alterar o seu comportamento? E o Ginásio Clube Português? E os Alunos de Apolo? E tantos outros pelo meu bairro e pelo país fora. Como poderão desenvolver-se as modalidades? Quem suportará a imensidão de testes à Covid requerida pela Autoridade de Saúde?

Aliás, generalizando, amiga Berta, sabias que existem em Portugal quase 700 mil atletas federados? É uma quantidade imensa de gente que faz mover o país como não fazia há 20 anos atrás, onde os praticantes eram menos de 50% do número atual. Se juntarmos a estes, aqueles que criaram os seus negócios e serviços para poder servir os desportistas e se lhes juntarmos a malta da dança, da música e dos eventos, e todos os que se movimentam à sua volta, estamos a falar de mais de 25% da população portuguesa.

Ora a DGS, fechada na sua sapiente redoma de idiotas intelectuais, está a condenar à morte o Desporto em Portugal. A quantidade de condições impraticáveis, que anunciou para que o desporto possa retomar, de alguma forma, à vida das populações, está a pôr em perigo eminente hábitos saudáveis e ativos com mais de 20 anos.

Ninguém diz que não devem ser tomadas medidas e cautelas para evitar a propagação da pandemia. Agora, criar normas e regras, para uma área tão vasta, sem ouvir os intervenientes, é absolutamente obtuso e absurdo, até mesmo intolerável.

Estará a DGS a apelar à desobediência civil? Quererá a DGS criar uma guerra aberta com mais de um quarto do país? O que se passa no mundo estranho e “pseudo-visionário” de Marta Temido e Graça Freitas?

Terá o poder subido à cabeça destas senhoras? Por favor, pela saúde e bem-estar de todos, regressem ao bom senso. Falem com as federações, as confederações, até mesmo com as associações, empresas do setor, sindicatos, todos os que sejam úteis, e o quanto antes, para não se verem com uma crise nacional de insurreição, dentro de pouco tempo, entre mãos.

O povo português é calmo, sereno e tolerante. Todos sabemos disso. Porém, não admite ser pisado e tratado sem respeito por muito tempo. Mais de dois terços das normas da DGS são inconstitucionais, violam descaradamente direitos fundamentais numa altura em que não existe um estado de emergência declarado, que as justifique. Isto tem de acabar o quanto antes. É preciso inteligência ativa no seio do Governo e muito rapidamente.

Nos termos presentes, a DGS condena à morte o Desporto em Portugal. Todavia, arrisca-se a mais cedo ou mais tarde ter de se sentar no banco dos réus. A pena de condenação efetiva sucederá, certamente, pouco depois. Deem um passo atrás enquanto é tempo. Não fiquem sentados de camarote à espera que o povo se revolte. Ele já foi paciente com a brincadeira de põe e tira máscara de Graça Freitas e do seu chorrilho de asneiras na altura.

Por favor governantes deste país não estiquem mais a corda, porque na ponta pode estar um laço, que se vai apertando, e que poderá vir a ser a vossa condenação à forca popular. Ganhem juízo e senso enquanto há tempo. Tomem todas as medidas que tiverem de ser tomadas, porém com a devida ponderação e consultando sempre os setores afetados. É negligência e soberba não ouvir os interessados ou os seus representantes antes de anunciar comportamentos, normas e medidas. As coisas têm de ser exequíveis, ponderadas e delineadas cuidadosamente.

A DGS não é o Ministério da Agricultura, nem as pessoas podem ser tratadas como varas de porcos ou manadas de gado que se mandam abater. O respeito mútuo tem de ser um prossuposto imperativo.

Além disso, eu quero ver o CACO jogar, quer ganhe ou perca, principalmente no Hóquei em Patins, uma das modalidades mais queridas dos portugueses. O que vamos dizer às crianças? O que podem fazer clubes como estes que mal sobrevivem no contexto atual, e se sobrevivem é à custa do esforço conjunto dos seus dirigentes, atletas e apoiantes? O que mais quer a DGS deles?

Mais não digo, minha muito querida Berta, sinto-me triste por ver o desrespeito como o povo a que pertenço tem sido tratado. É preciso agir e quanto antes. Recebe um beijo de despedida, deste teu velho amigo,

Gil Saraiva

 

 

 

Carta à Berta: Espetadas Avante Campo de Ourique

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Olá Berta,

Recebi hoje, pela manhã, por correio eletrónico o teu pedido urgente. Vais dar uma festinha com churrasco à família que te vai visitar e precisas de uma sobremesa doce, ao mesmo tempo fresca e que seja à base de fruta.

Não me pareceu um desafio muito fácil de criar, assim, em cima da hora. A minha amiga tem o dom de me pôr a inventar coisas de um momento para o outro. Porém, enquanto via as notícias da uma da tarde, surgiu-me uma ideia brilhante. Podes servir algo simples e bastante saboroso, mas vou ter de testar.

Fui ao minipreço, que tem um supermercado mesmo aqui à minha porta, comprar os ingredientes e estive a fazer o teste. A minha querida Berta está com sorte. A invenção resulta muito bem e não dá muito trabalho a fazer. Como a sobremesa foi feita no meu apartamento, com ingredientes comprados aqui no bairro, resolvi chamar-lhe: “Espetadas Avante Campo de Ourique”.

Acrescentei o nome “Avante” às espetadas porque, tal como a menina vai dar a sua primeira festa desde o Covid, também o Avante vai ser a primeira grande festa do país depois do início da pandemia. Para além disso, trata-se de uma sobremesa simples, bem organizada, com lugares para a fruta muito bem definidos, coisas que têm tudo a ver com o momento que atravessamos, em que tudo deve ser bem organizado.

Sendo assim cá vai a receitazinha da Espetada Avante Campo de Ourique:

Ingredientes, para 20 unidades, por ordem de entrada no pau de cada Espetada:

  1. --- 1 Uva Branca ou Uva Preta (em 10 começar com a uva branca e nas outras 10 com a preta).
  2. --- 3 Mirtilos.
  3. --- 1 Cubo de Kiwi (se não se arranjar, usar maça verde).
  4. --- 3 Framboesas.
  5. --- 3 Groselhas (na falta de algum destes usar uva preta mais pequenas que as outras).
  6. --- 1 Amora preta das grandes.
  7. --- 1 Uva preta (ou branca, sem grainhas, sempre de cor diferente à primeira colocada).
  8. --- 1 Morango, a fechar o topo da espetada (se sobrar pau na espetada  usar mais 2 ou 3 mirtilos antes de colocar o morango).

Molhos e Preparação final:

Arranjar uma bandeja grande de alumínio, madeira ou pvc, forrar a mesma com folha de alumínio, depois começar a colocar as espetadas de forma a caberem 10 espetadas de cada lado, com apenas o coto inicial de fora da bandeja. Para que o aspeto fique atraente e prático para que todos se possam servir de uma espetada sem afetar as outras que se encontram ao seu lado.

1) Correr toda a espetada com Sumo de Lima.

2) Juntar Mel na zona das uvas.

3) Colocar Caramelo no topo dos mirtilos.

4) Pôr Sumo de Limão entre o kiwi (ou a maça) e a amora.

5) Usar um Top de Chocolate para sobrepor no morango

Levar ao frigorifico até ser hora de servir.

6) Antes de levar para junto dos convidados colocar fios alternados de Chantilly de Lata de Pressão com um fio de Top de chocolate por cima.

Não esquecer que tem de ser servido bem fresco.

E pronto, minha querida Berta, podes apresentar uma espetada de frutos vermelhos, bem a condizer com a festividade dos comunistas, com o pomposo nome de Avante Campo de Ourique, fazendo um sucesso no seio da tua família ao fechar da churrascada. Despeço-me com um beijo amigo,

Gil Saraiva

 

 

 

Carta à Berta: Campo de Ourique - Evolução Covid-19 - Votação sobre o dia de Aniversário do Bairro

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Olá Berta,

Peço imensa desculpa, sei que estás curiosa por saber qual é o meu próximo pensador, e que já deveria ter dado continuidade ao Diário Secreto do Senhor da Bruma. É verdade e tens razão. Quando assim é não há muito mais a acrescentar em jeito de desculpas, uma vez que, efetivamente, elas não existem.

Contudo, há assuntos que queria referir e que não pretendia mesmo deixar cair no esquecimento. Eles têm surgido, uns atrás dos outros, em catadupa e não há como evitá-los. Espero, já amanhã, retomar o diário. A não ser que por ironia surja algo importante.

Ora eu, que quando penso que existem motivos para criticar não me coibo de o fazer, também estou disposto em dar a mão à palmatória quando, mesmo contra algumas das minhas perspetivas, as coisas correm de forma diferente, para melhor, daquilo que eu previa ou vaticinava. É o caso do tema de hoje.

Não é uma temática muito original, nem sei sequer quantas cartas para ti, amiga Berta, já dediquei ao Covid-19, mas foram bastantes, e hoje é mais uma delas. Embora esteja em pulgas para me referir ao caso específico de Campo de Ourique, vou começar do geral para o particular. Aliás, vou tentar ser sucinto e não partir para grandes devaneios, porém, quero deixar bem claro que tiro o meu chapéu à DGS.

Com efeito, a Direção Geral de Saúde, por competência efetiva, sorte ou mero acaso, nem importa qual das situações ocorreu, conseguiu um feito notável e nada esperado por este atento observador. Prefiro pensar, apesar de tudo, que o feito se deveu efetivamente à competência e não a um qualquer acaso.

Ora, relembro aqueles que se possam ter esquecido, nos 2 últimos dias de abril, do corrente ano, Portugal ocupava a décima quarta posição nos 213 países e territórios com casos de pandemia no mundo. Hoje, 3 meses e 3 dias depois, se tudo correr normalmente, devemos passar a ocupar o lugar 45 de um ranking em que descer é muito mais valorativo e importante do que subir.

Mas, mais relevante ainda é que, dos países com a mesma população que nós ou superior à nossa, atingimos a trigésima sétima posição, quando antes estivemos colocados no triste top 10. Aliás dos países com igual ou maior número de habitantes que Portugal, em termos de testes à população, só temos à nossa frente, em percentagem de testagem por milhão de habitantes, o  Reino Unido, a Rússia, os Estados Unidos da América e, nós, estamos num muito honroso quarto lugar, quando já estivemos quase no fim da tabela possível.

Tudo isto demonstra um trabalho gigantesco que tem vindo a ser feito pelo Governo e pela DGS a quem tenho efetivamente que elogiar neste momento.

Não farei o mesmo à Ministra da Cultura, pois a triste senhora devia estar colocada noutro Ministério, talvez o dos Estrangeirismos despropositados como o “drink” do outro dia em que se falava do estado deplorável em que se encontram muitos dos intervenientes do setor.

Finalmente o particular. Soube, de fonte fidedigna, que Campo de Ourique baixou, para menos de metade, o número de casos ativos que registava há uns 17 dias atrás. Uma recuperação assinalável que não podia deixar de evidenciar, nem de manifestar o meu vivo aplauso. Com efeito, é preciso uma boa consciencialização de todos para que algo deste género se consiga. Isto demonstra que a minha aldeia no meio de Lisboa se mantém atenta, embora, como em todo o lado, surjam, aqui e ali, alguns imbecis dispostos a contrariar a tendência.

Aproveito a ocasião para lembrar os utentes dos grupos de Campo de Ourique para o voto que se manterá ativo até final de agosto, no dia de aniversário de Campo de Ourique. Relembro aqui as datas possíveis, para votar é procurar o meu post do passado dia 16 de julho e efetuar a votação na opção pretendida. Todo o sistema e o que está em causa vem explicado na minha publicação desse dia.

Para os que desejem participar relembro que a votação termina no dia 31 de agosto e que só voltarei a fazer referência à escolha, no próximo dia 14 de agosto. Não deixem de participar.

O resultado será publicado, em todos os grupos participantes, a 4 de setembro.

DATAS PROPOSTAS PARA O ANIVERSÁRIO DE CAMPO DE OURIQUE E SUA ORIGEM:

  1. 5 de julho => Criação oficial, por atribuição de moradas aos primeiros residentes permanentes e instalados, do Bairro de Campo de Ourique, em 5 de julho de 1880.
  2. 12 de janeiro => Nomeação primeira, efetuada de forma oficial, da designação de “Bairro de Campo de Ourique” pela Câmara Municipal de Lisboa. 12 de janeiro de 1880.
  3. 15 de novembro => O projeto que dera entrada no mês anterior teve a sua aprovação oficial por parte da Câmara Municipal de Lisboa em 15 de novembro de 1878.
  4. 18 de outubro => Entrega na Câmara de Lisboa do 1.º Projeto de Edificação para a Tapada do Campo de Ourique em 18 de outubro de 1878.
  5. Nenhuma delas => Não acho nada disso relevante e Campo de Ourique passa bem sem aniversário.

Nota: Apenas o grupo “Nascemos Felizes em Campo de Ourique” não participou, pois não consegui a adesão, em tempo útil, ao grupo conforme tinha planeado.

 

Hoje fico-me por aqui, recebe um beijo deste teu amigo eterno, minha querida Berta, contigo sempre na memória me despeço, este que sempre te recorda,

Gil Saraiva

 

 

 

Carta à Berta: Covid-19 em Campo de Ourique - Parte II

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Olá Berta,

Graças à simpatia de um elemento do Grupo Tertúlia de Campo de Ourique, no Facebook, o Senhor Abel Rosa, que até discordava com a crónica, tive acesso a uma notícia da passada sexta-feira, publicada no jornal diário Público, a qual trazia alguns dados sobre a pandemia em Lisboa. Neste grupo gerou-se um debate vivo a propósito da carta que te enviei ontem intitulada “Covid-19 em Campo de Ourique. Dá a origem desta parte II.

Foi um debate muito interessante, com uma elevada participação das pessoas que me pareceram genuinamente interessadas em saber mais, aliás, os 93 comentários, 35 manifestações de gosto, tristeza ou espanto e mais de 2 milhares de visitas ao blog onde publico as tuas cartas, são disso prova evidente. A destacar convém ainda referir as intervenções dos administradores do grupo, neste caso pai e filho, nomeadamente Marcelino Laranjo e César Laranjo.

Este último, mais irreverente, bastante contrariado com a forma como a crónica estava escrita, considerando-a até desnecessária e alarmante, entre outras coisas. O pai, foi mais simpático e garantiu-me saber, de fonte segura, que não existiam casos de infeções ativas nos supermercados do Pingo Doce em Campo de Ourique, esclarecendo a dúvida que, sobre esse assunto, eu levantara na crónica, o que me descansou mais, pois moro em frente a um deles. Gostei muito, também, das intervenções de Joana De Mello Moser.

Infelizmente a divulgação do jornal Público não reporta o número de casos acumulados desde o início da pandemia, nem quantos desses já recuperaram. Apenas refere o número de óbitos existentes em cada uma das freguesias, quantos são os casos ativos e como se comportaram as freguesias entre o dia 9 e dia 15 de julho no que concerne a novas infeções. No caso de Campo de Ourique, a atualização avança até dia 17 pois podemos somar os casos divulgados pela reportagem da Sic.

Junto envio a informação do jornal Público colocada num quadro que permite uma melhor leitura da informação, onde já incluo a atualização da Sic, 2 dias depois, em 17 de julho, que apenas respeita o “upgrade” dos casos no caso Lar dos Cegos em Campo de Ourique.

Dados Covid-19 Lisboa 15 de julho.jpg

Porém, da análise dos dados torna-se evidente que os 55 casos ativos no Bairro, avançados por mim, na carta de ontem, nada tinham de alarmante e correspondem exatamente à verdade. Contudo, alegadamente cai, sem que por isso me caiam os parentes na lama, a hipótese de existirem infeções nos supermercados Pingo Doce da freguesia.

Deves ter reparado, amiga Berta que mudei a imagem principal nesta sequência da Carta de ontem. O desagrado à forma como a imagem estava composta pareceu-me por demais evidente e por isso tinha que ser trocada. Espero que a apresentação dos factos acalme os mais alarmados.

Infelizmente, eu, no meu caso concreto e pessoal, fiquei bem mais alarmado com os factos do que estava anteriormente. Primeiro o ritmo de crescimento de casos em Campo de Ourique (em 9 dias), num total de 13, parece-me imenso. E depois, tendo em conta a área de Campo de Ourique (1,65 quilómetros quadrados) e o número de habitantes, com uma densidade populacional de 13,4 mil pessoas, a segunda maior de todo o Concelho de Lisboa, depois de Arroios que tem 14,8 ainda fico mais preocupado.

Afinal, Santa Clara, que tem 3,36 quilómetros quadrados, ou seja, pouco mais do dobro da área de Campo de Ourique e sensivelmente o mesmo número de habitantes, na casa dos 22 mil, está confinada. Com uma densidade de 6,69 habitantes por quilómetro quadrado tem 110 casos ativos. Precisamente o dobro da nossa freguesia. Porém, tem também o dobro da área o que significa que, por quilómetro quadrado, temos tantos infetados ativos (55) como a única freguesia confinada do Concelho de Lisboa.

Não sei se me estou a deixar influenciar pelo facto de ser uma pessoa pertencente a 2 grupos de risco, mas sinto-me realmente preocupado com a situação. Mas cada caso é um caso e não quero que se pense que estou a fazer um grande alarde dos dados ou a tentar gerar qualquer tipo de pânico em quem quer que seja. Já basto eu. Os números estão na imagem que te mando e qualquer um, tal como eu fiz, pode fazer qualquer outro tipo de análise mais otimista.

Uma coisa é certa, amiga Berta, a situação é séria e recomendo a todos os máximos cuidados quando se deslocam por Lisboa, afinal, 1200 casos ativos, no Concelho, representam mais de 25% de todos os casos de Lisboa, desde o início da pandemia, ainda por resolver. Se todos os infetados cumprirem o confinamento os riscos serão bem menores. É o que desejo.

Por hoje fico-me por aqui, despeço-me com o habitual beijo de saudades, deste teu amigo de todos os dias, que não te esquece nunca,

 

Gil Saraiva

 

 

 

Carta à Berta: Covid-19 em Campo de Ourique

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Olá Berta,

Sempre que me chegam aos ouvidos notícias sobre Campo de Ourique, o meu muito adorado bairro, tudo em mim se focaliza para tentar saber mais. Infelizmente, nestes tempos de transparência, cada vez as coisas são mais baças e obscuras. Uma situação irritante e quase atentatória do direito de informar, mas que teima em ser cada vez mais frequente e deveras preocupante.

Segundo uma fonte próxima da proteção civil, Campo de Ourique tinha, pelos dados de ontem, mais de 50 casos de Covid-19 ativos. A situação não parece alarmante, pois que apenas menos de uma dezena se encontra em instalações hospitalares da capital, estando a grande maioria a recuperar em suas casas ou nas instituições referenciadas pela proteção civil.

Um dos casos mais conhecidos foi, ainda no decorrer deste mês, a Sede da Fundação Lar de Cegos de Nossa Senhora da Saúde, na Rua Silva Carvalho, noticiada pela comunicação social no dia 17 deste mês, mas sobre a qual já existiam informações anteriores a circular, desde o dia 8 de julho, pelo menos, tendo o edifício sido descontaminado no passado dia 13. Ao todo, estão ainda com a infeção ativa 17 pessoas, sendo as mesmas: 13 utentes, 3 funcionárias e uma enfermeira. A Sic realizou mesmo uma peça de reportagem na entrada das instalações esta sexta-feira.

O que me aborrece é não saber nada sobre os outros 33 casos (ou mais), existentes no bairro. A minha fonte não quer ser publicamente identificada e recusa-se a avançar com mais detalhes informativos. Por outro lado, nos órgãos do poder local a uma coisa que se confirma é a garantia de não poderem dar informações desse género à imprensa remetendo, quem os questiona sobre estes assuntos, para a Administração Regional de Saúde da área em causa, neste caso  a de Lisboa e Vale do Tejo, que, por seu lado, diz não ter autorização do Ministério da Saúde para divulgar detalhes de freguesias.

Uma verdadeira pescadinha de rabo na boca nesta que devia ser a transparência informativa prestada a jornalistas profissionais que, apesar de tudo, apenas tentam fazer o seu trabalho de informar a população sobre o que se passa na sua zona habitacional, neste caso, no Bairro de Campo de Ourique e na sua freguesia.

Em resumo, apenas temos conhecimento oficial garantido de 17 ocorrências, fazendo, os outros 2 terços, parte de uma especulação que eu, pessoalmente, considero perigosa. Uma outra fonte, uma funcionária de limpeza do Grupo Jerónimo Martins, garante-me que alguns destes casos envolvem os 2 supermercados do Pingo Doce no bairro, estando vários funcionários confinados nas suas casas, por causa do problema, e assegura-me que o restante pessoal nem sequer foi testado, com receio do alarme que isso poderia provocar.

As coisas ganham ainda maior preocupação e relevância quando é publico que a Junta de Freguesia de Campo de Ourique, que durante este período de pandemia, dá apoio a doentes, idosos e grupos de riscos, na sua área de intervenção, nomeadamente, entregando produtos farmacêuticos e alimentares a esta gente, abastece-se, no que concerne à alimentação, graças ao estabelecimento de um protocolo, nos 2 supermercados Pingo Doce em exclusividade.

Os riscos que os cruzamentos destas informações levantam, geram um alarme preocupante que tem de ser evitado a todo o custo. É imperativo saber, se há algum fundamento na alegada existência deste problema que atribui parte das 33 ou mais ocorrências, por identificar no bairro, aos 2 supermercados Pingo Doce existentes em Campo Ourique.

Na minha situação a preocupação é imensa. Não só faço parte dos grupos de risco, como moro mesmo em frente a um dos Pingo Doce, na Rua Francisco Metrass. Ora, embora não compreenda a opacidade informativa do poder, considero uma obrigação do mesmo, um comunicado relatando a verdade dos factos ou até um desmentido sobre a possibilidade de existência de um surto nestes 2 supermercados.

Já nos chega a preocupação real com o caso do Lar dos Cegos, numa das principais artérias do bairro. A pergunta mantém-se: Quantos casos de Covid-19 identificados existem afinal em Campo de Ourique? Ou de outra forma: Quantos casos ativos existem em Campo de Ourique? Importa que alguém nos consiga esclarecer. A não informação ou a desinformação, numa zona onde vivem quase 30 mil pessoas em 1650 metros quadrados de área á assustadora fase à elevada densidade populacional, uma das maiores de Lisboa.

Desde ontem que medito sobre o meu dever de trazer ou não toda esta embrulhada à discussão pública, porém, tendo a informação chegado a mim, manter o silêncio parece-me mais grave do que expor um problema sobre o qual me faltam elementos para poder, cabalmente, compor uma notícia factual acertada. Espero, por isso mesmo, um possível desmentido sobre a gravidade da situação, um esclarecimento com transparência sobre quantas ocorrências já tivemos em Campo de Ourique e quantas ainda se mantém ativas.

Não serve de nada virem, por exemplo, dizer que não existem casos na Jerónimo Martins, alegadamente confirmados por uma funcionária de limpeza que trabalha no Grupo, e não nos esclareceram cabalmente sobre o que é que subsiste na realidade. Eu, e toda a população da freguesia, mediante a atual situação, temos o direito de ser informados, esclarecidos e se for o caso, descansados quanto ao alarme provocado pelo cruzamento destas notícias.

Desculpa lá este meu desabafo extra de hoje, amiga Berta, uma vez que até já te tinha enviado a costumeira carta diária, contudo, tenho de agir de acordo com a minha consciência e ela, neste momento, diz-me que tinha de fazer esta carta e este desabafo. Despede-se de ti este teu amigo, com o carinho de sempre e com um beijo,

Gil Saraiva

 

 

 

 

Carta à Berta: Livro - O diário Secreto do Senhor da Bruma - II - Abordagens Sobre a Burrice (fim - II - 8)

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Olá Berta,

Termino hoje o segundo capítulo e as abordagens sobre a burrice do Diário Secreto do Senhor da Bruma. Para que o entendimento do tema seja global, juntei todos os provérbios que encontrei sobre o tema, aos quais, perdoem-me os puristas dos ditos populares, anexei mais 15 de minha autoria que, julgo eu, não envergonham os originais prenúncios da sabedoria popular. Contudo, não serei eu a julgar em causa própria, um dia, quem sabe alguém opinará de forma certamente mais esclarecida.

Todavia, mesmo antes de entrar no novo capítulo, aviso já que provavelmente não será um tema muito do teu agrado. Penso que pouca gente gosta de filosofia e o terceiro capítulo será integralmente preenchido com os meus 9 filósofos de eleição, desde o início do século XX aos nossos dias. Mas para já regressemos à burrice:

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II

Abordagens sobre a Burrice (fim - II - 8)

Março, dia 16:

Nos provérbios sobre asnos e burrice, muitos há que não carecem de qualquer explicação. Exemplificando: Às vezes não se respeita o burro, mas a argola a que ele está amarrado. / Quem não pode, aluga um burro. / Jumento e padre com manha, são poços de artimanha ou, noutra versão, Jumento e filho de padre são poços de manha. / Mulo ou mula, asno ou burra, rocim nunca. / Burro e carroceiro nunca estão de acordo. / Amarre o burro à moda do dono. / Jumento não topa duas vezes na mesma. / Burro (ou burro velho) não amansa, acostuma. / Burro mau, indo para casa, corre sem pau. / O burro adiante para que não se espante. / Burro que geme, carga não teme. / Burro velho não toma andadura e se toma pouco dura. / Burro velho, albarda nova. / A burra velha, cilha nova / Criado que faz o seu dever, orelhas de burro deve ter.

Março, dia 17:

Os ditos populares são igualmente ótimos justificativos de atitudes e procedimentos. Escolhi alguns exemplos disso: Em janeiro todo o burro é sendeiro. / O burro gosta de ouvir seus zurros. / O burro sempre vai na frente. / É batendo na cangalha que o burro entende. / Quem gaba o noivo é o burro do sogro. / Quem o asno gaba, tal filho lhe nasça. / A burra de vilão, mula é no verão. / O burro se amarra é no rabo do dono. / Asno tonto arrieiro louco. / Com palha e milho se leva o burro ao trilho. / Burro de carga é que aguenta tranco. / Burro que muito zurra, pede cabresto. / Não é mel para a boca do asno. / Olhar como um burro para um palácio. / Em maio deixa a mosca o boi e toma o asno. / Cada asno com seu igual. / Quando o burro é jeitoso, qualquer albarda lhe fica bem. / Quem não aguenta trote não monta burro.

Março, dia 18:

Por outro lado, existem outros provérbios sobre a burrice que usam comparações com outros animais, principalmente com o cavalo, ou que se servem de uma mesma temática para enfatizar a burrice. São exemplos disso: A gente, queira ou não queira, tem de ir de burro à feira. / Queira ou não queira, o burro há de ir à feira. / Não é por grandes orelhas que o burro vai à feira. / Burro em cada feira vale menos. / O boi conhece o dono e o jumento a manjedoura. / A gente não deve ficar adiante do boi, nem atrás do burro, nem perto da mulher: nunca dá certo. / Cavalo grande, besta de pau. / Burro grande, cavalo de pau. / Antes bom burro que ruim cavalo. / Filho de burro não pode ser cavalo. / Andar de cavalo para burro. / Aonde vai o burro vai a cangalha. / Quem come carne na véspera de Natal, ou é burro ou animal. Asno de muitos, lobos o comem. / Com a morte do asno não perde o lobo. / Todo o burro come palha, é preciso é saber dar-lha.

Março, dia 19:

Não se pode deixar para trás os ditados que se apresentam como detentores de uma lógica evidente e bem popular. Encontrei vários exemplos desse género: A paixão torna o homem cego, surdo e burro. / Todo o malandro é um burro de sorte. / O burro come da carga que leva. / Asno contente vive eternamente. / Coice não é privilégio do burro. / Burro bravo dá coice até no vento. / Palavra de burro é coice. / O burro acredita em tudo o que lhe dizem. / Burro velho não acerta com a encruzilhada. / Amor de asno é coice e dentada. / Um olho no burro, outro no cigano. / Dar com os burros na água. / Burro com fome, cardos come. / Burro onde encosta, mija. / Cor de burro quando foge. / Temos a burra nas couves. / Quem tem burro e anda a pé, ainda mais burro é. / Vozes (ou zurros) de burro não chegam aos céus. / Se o burro soubesse a força que tem não puxava arado. / Besta é quem serve de escada para os outros subirem. / Se ferradura desse sorte, burro não puxava carroça. / Para trás mija a burra.

Março, dia 20:

Os provérbios sobre a burrice, pelo Senhor da Bruma:

Depois de tantos provérbios, acabando por me sentir inspirado, achei por bem tentar criar uns ditos que bem poderiam ser tão populares como alguns dos que tenho vindo a referir. Assim, dando largas à inovação, apresento as minhas modestas propostas para novas expressões: “Maçonaria e fanatismo dão força aos burros e chamam-lhe populismo.” / “Sua grande besta não é insulto é perdão.” / “Burro é o político que festeja na sondagem.” / “Amarrar o burro com corda de palha não é asneira é burrice.” / “Burro de cigano não compra cigarros.” / “Ao roubar o seu banco burro é o banqueiro se não souber esconder o dinheiro” / “Não é burro quem quer, tem de merecê-lo primeiro.” / “Burro que gira na nora detesta sogra.” / “O cúmulo da burrice é uma besta quadrada a andar em círculos julgando que chega a lugar algum.” / “Burro, não sendo boi, no espelho não vê cornos.” / “Burra infiel come mais do que um farnel” / “Masoquista é um burro que se acha inteligente.” / “Burro confinado não trota, ganha entorses.” / “Vírus de burro não zurra.” / “Toda a pandemia é louca se as bestas andam à solta.”.

----- “ ----

Achei divertidíssimo criar os 15 ditados anteriores. Deparei-me com as mesmas dificuldades com que os criadores de ditos se confrontam, ou seja, exprimir numa única frase todo o conteúdo de uma ideia. Ora, se já é difícil gerar uma quadra, estilo Aleixo, pelo poder de síntese a que obriga, reduzir isso a uma única expressão é totalmente de doidos. Todavia, bem ou mal, lá fiz as minhas versões.

Por hoje é tudo, amiga, recebe um beijo de despedida do eterno amigalhaço,

Gil Saraiva

 

 

 

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