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Carta à Berta

Carta à Berta é o local dos Desabafos de um Vagabundo, do Senhor da Bruma, essa bruma a que chamam de internet, de um Haragano, o Etéreo, qual cavalo selvagem que galopa entre cartas alegadamente, quiçá, sem fundamentos.

Carta à Berta é o local dos Desabafos de um Vagabundo, do Senhor da Bruma, essa bruma a que chamam de internet, de um Haragano, o Etéreo, qual cavalo selvagem que galopa entre cartas alegadamente, quiçá, sem fundamentos.

Carta à Berta: As Escravas Sexuais da Segunda Guerra Mundial

Berta 42.jpg

Olá Berta,

Recebi hoje a tua última carta. Não precisas de me escrever diariamente só porque eu o faço. Para mim é apenas uma forma de desabafar e de te manter por perto. Confesso, contudo, que sabe bem abrir a caixa do correio e encontrar uma carta tua em vez da conta da eletricidade. Já há muito tempo que não tinha essa expectativa ao ir ver o correio. É revigorante, fresco e nostálgico.

A minha carta de hoje é, por incrível que te possa parecer sobre a Segunda Grande Guerra Mundial. É verdade! Com efeito, ainda hoje, continuam a ser divulgadas coisas que mal dá para acreditar terem realmente acontecido. Todavia, mais uma vez, o assunto versa as mulheres.

É do conhecimento geral o abuso, de todo o tipo, a que foram sujeitas as judias e não só, pelo regime nazi. Uma escravidão inaceitável e só possível descrever no contexto de terror que se viveu na época. Das experiências horrorosas efetuadas pelos médicos e carrascos do nazismo à escravidão sexual aconteceu um pouco de tudo.

Porém, para meu espanto, não é daí que vem a novidade. Os 23 documentos hoje divulgados têm origem no país do Sol Nascente. O, na altura, Grande Império do Japão. Se um dos grandes realizadores de cinema fizesse um filme, cujo argumento fosse parecido com o que por lá aconteceu, seria, rapidamente, apelidado de uma grande metragem irrealista.

Contudo, como costumo dizer tantas vezes, a realidade tem a terrível mania de ultrapassar a ficção. Infelizmente, nem sempre nos revelando o melhor dos homens, dos governos e do poder instituído. Afinal, estas revelações referem-se ao segundo quartel do século XX, e têm pouco mais de 80 anos as primeiras, e menos do que isso algumas das outras, entre as quais, se encontram provas documentais com apenas 74 anos de idade… foi quase ontem.

Embora muita gente possa dizer que as coisas foram iguais no passado, de uma forma generalizada, em toda a parte, julgo que esta situação é incomparável com os atos de escravatura, praticados em Portugal e na Europa nos séculos XV, XVI, XVII e XVIII, em que os direitos humanos ainda eram uma miragem absurda e inconcebível, se bem que igualmente condenáveis em absoluto.

Ora, os documentos agora revelados, são prova documental que o exército japonês, solicitou escravas sexuais (em média: uma para cada 70 soldados), ao governo nipónico e que a solicitação foi não apenas aceite, como foi levada a cabo com uma eficácia tremenda.

O Japão, ainda tenta suavizar a coisa, dizendo que parte das mulheres eram gueixas japonesas, profissionais do sexo, cuja existência nada tinha a ver com situações de escravatura sexual. Como se o sistema de gueixas no oriente fosse algum clube de voluntárias, ardentemente desejosas de serem tratadas como coisas.

O problema é que, neste século, nesta década e neste ano, continuam a existir gueixas na terra do Sol Nascente, quase com a mesma inexistência de direitos que há uns séculos atrás. Reconhecer tratar-se de escravatura sexual, poria em causa muito do que hoje ainda se passa e isso o Estado Nipónico não tem qualquer interesse em considerar.

O mais grave dos documentos trazidos a lume é que revelam que o Japão fez escravas sexuais raptando mulheres da Coreia do Sul, de Taiwan, das Filipinas, do próprio Japão e da Austrália. Quase todos os documentos usam a mesma expressão para descrever estas vítimas da guerra: “mulheres de conforto”. Duvido que fosse para conforto das mesmas e que, as operações militares desencadeadas para as raptar, se destinassem a servir de agências de viagens com vista à angariação de voluntárias para servir sexualmente 70 homens por cada uma delas.

Os relatos falam em dezenas de milhares de mulheres ao serviço deste esquema de escravatura hediondo. Sendo que os números agora apurados apenas uma ponta de um grande icebergue. Com efeito, há quem aponte para as centenas de milhares de escravas sexuais ao serviço do exército, marinha e aviação nipónica.

Fonte oficial do Governo Japonês já pediu desculpas formais aos países vizinhos pelo uso abusivo de “mulheres de conforto” oriundas desses países. Provavelmente, o assunto será esquecido a nível das grandes esferas do poder.

Com efeito, e tendo em conta que os últimos carregamentos remontam há 74 anos atrás, poucas serão as sobreviventes desta tragédia. Porém, a existirem, sejam elas muitas ou poucas, considero que todas elas deveriam receber o mesmo pedido de desculpas por parte do poder japonês e uma indeminização que as deixasse confortáveis e em paz para o resto das suas existências.

É triste, este nosso mundo, visto nesta perspetiva, do lado negro da humanidade. Mais ainda porque sabemos que o tráfico e esta escravatura continua por todo o mundo, civilizado ou não. A urgência de medidas e sanções pesadas e firmes tem de partir das instituições internacionais, seja a ONU, ou qualquer outra, a organização que se responsabilize por tomar conta deste tema, não importa, desde que atue. Alguém tem de o fazer e com eficácia, de uma vez por todas, para sempre.

Desculpa lá o desabafo Berta, eu sei que entendes perfeitamente a minha indignação. Despeço-me com um beijo amigo. Este que não te esquece,

Gil Saraiva

Carta à Berta: Violência Contra Mulheres

Mulher arde na Índia.jpg

Olá Berta,

Hoje é um dia em que, 5 minutos depois de acordar, ao abrir as notícias no computador fiquei possuído por uma angústia extrema. A razão prende-se com a violência contra mulheres. Não estou a generalizar para a violência doméstica, estou apenas a falar do absurdo abuso contra quem é mulher. O que li é algo que vem de longe da nossa Europa, mas o facto de ser mais grave do que aquilo que acontece entre nós, não nos transforma em anjinhos ou meninos do coro e, o que se passa por cá, é na verdade igualmente revoltante, para não dizer repugnante e mesmo abjeto.

Na investigação que depois efetuei descobri um estudo recente da União Europeia sobre o tema e que analisa e compara a gravidade do mesmo nos 28 Estados Membros. Os números do relatório sobre a “Violência contra as mulheres: um inquérito à escala da União Europeia — Síntese dos resultados” são avassaladores.

O inquérito de 48 páginas, que pode ser pedido em livro, gratuitamente, através do número europeu gratuito composto por 13 algarismos, 00800 6 7 8 9 10 11, é, realmente, extremamente grave. De qualquer maneira eu coloquei o “link do pdf” disponível no meu blog, para facilitar o acesso e a consulta de quem queira ler, mais em detalhe, o estudo realizado.

Para quem não está habituado a consultar este tipo de relatórios o discurso e a apresentação são tão cinzentos, como os textos e os gráficos em análise. Recomendo que, em vez de tentarem ler tudo online, imprimam e vão lendo e analisando, ponto por ponto.

Usem a tabela das siglas dos países como uma folha de consulta em separado. Assim, uma vez chegados às tabelas poderão mais facilmente verificar onde e com que frequência, em percentagem, certas práticas e crimes são mais repetidos nesta barbárie a 28.

Separem também as tabelas finais do resto do inquérito, usem-nas, igualmente, como folhas de consulta à medida que leem. O relatório é demasiado formal para o meu gosto, todavia, os dados estão todos lá e, depois de uma análise cuidada, fica mais fácil retirar as devidas conclusões. Existe inclusivamente uma página que sugere “os caminhos a seguir”. Porém, peca pela forma, mais uma vez cinzenta.

Por fim, recomendo o uso de 2 marcadores fluorescentes, um amarelo e outro laranja ou verde, de forma a sublinharem e entenderem melhor a relação dos textos com as tabelas e as siglas dos países. Contudo, isto não é um método obrigatório, mas apenas aquele que eu uso quando faço uma investigação deste tipo, por forma a retirar todo o sumo daquilo que estou a consultar. Cada um pode ler e seguir o caminho que entender melhor.  

Ora, voltando ao tema, eu já sabia, que a violência contra mulheres era crítica, mais frequente do que há uns anos atrás se imaginava, mas não fazia ideia que, na Europa dos 28, uma das zonas mais civilizadas do globo, num dos locais onde melhor se vive e mais qualidade de vida se tem, ela fosse de tal forma alarmante que, quase se pode dizer, tratar-se de uma coisa comum, banal e enraizada nos hábitos de uma imensidão de agressores, perante a benevolência quase pacífica de amigos, vizinhos e conhecidos. Assusta ler este inquérito e mais do que ser um texto, por si só gritante, é algo que exige dos Estados medidas imediatas e muito mais drásticas do que tudo o que foi feito até aqui. É preciso parar este flagelo.

Contudo, Berta, não te vou falar dos números deste inquérito, se quiseres saber algo mais sobre ele basta ires ao meu blogue, onde guardo as cartas que te escrevo e clicares, na coluna da direita, no local onde diz:” Inq. Violência sobre Mulheres UE”.

A minha má disposição de hoje tem a ver com uma notícia que vem de um local bem longe da Europa, como te dizia no início desta carta, ou seja, vem da Índia. Onde hoje, um grupo de 5 homens raptou e pegou fogo a uma jovem de 23 anos, no “distrito de Unnao”, no norte do país, quando esta se dirigia para a estação de comboio da localidade. A razão prendeu-se com o facto de a rapariga se estar a dirigir para o tribunal onde ia ser julgado o caso da sua alegada violação.

A jovem, foi interpelada, agredida, raptada e arrastada para um campo fora dos olhares de terceiros. Uma vez nesse local os 5 selvagens regaram-na com gasolina e em seguida pegaram-lhe fogo. A rapariga, que foi encontrada pouco depois do crime ser cometido, foi conduzida a um hospital em Lucknow e está em estado crítico com queimaduras em 90 porcento do corpo. Será transportada ainda hoje para a capital, Nova Deli, não se sabendo, contudo, até ao momento, qual é a probabilidade de sobrevivência.

Segundo depois consegui saber pela BBC, a polícia deteve 5 homens, todos adultos, sendo 2 deles os alegados violadores da vítima, que iriam ser julgados, em tribunal, neste mesmo dia. A denúncia da violação provinha de março deste ano e só 9 meses depois, a partir desta data, é que a justiça se iria pronunciar, tendo os acusados ficado em liberdade até ao julgamento.

Segundo dados divulgados pelo Expresso online, na Índia, a média diária de violações é de quase 100 mulheres por dia. Porém, este é apenas o número oficial, mas, as Organizações Não Governamentais, estimam que o real valor possa ser cerca de 5 vezes superior ao apresentado pelas autoridades. Tal facto indicaria que, por ano, mais de 180 mil mulheres sejam violadas neste país. E, minha amiga, só estamos a falar da violação, os dados da violência contra mulheres estimados para esta zona do globo entram na casa dos milhões com o maior à-vontade.

Só na capital, Nova Deli, a informação mais recente aponta para que de 3 em 3 horas uma mulher seja violada na capital, quando, os dados oficiais de 2015 referiam uma de 4 em 4 horas, segundo informação do Expresso. Ora, se estes são dados oficiais, isso significa um quotidiano na capital indiana onde pelo menos uma ou 2 violações ocorrem a cada hora que passa. Um cenário absolutamente dramático, horripilante e intolerável, seja qual for a perspetiva em que for visto ou analisado.

É importante que estes assuntos ascendam, e muito, na agenda política mundial, não apenas na Índia, na China ou na Austrália, na América Latina, Estados Unidos ou em África, mas também aqui, na Europa e nomeadamente em Portugal. ISTO TEM DE PARAR JÁ!

Despeço-me muito triste, minha querida amiga Berta, isto não é o mundo em que um poeta, como eu, possa viver tranquilo e escrever odes sobre o mais perfeito ser do universo conhecido: A Mulher. Recebe um beijo deste que não te esquece,

Gil Saraiva.

Crime e Castigo, a Pena para um Infanticídio

Bebé em contentor.jpg

Olá Berta,

Hoje, dia do meu aniversário, acordei pelas 9 horas e picos, tratei da minha higiene, comi qualquer coisa e fui até à televisão, curioso por saber que notícias do dia dos meus anos. A primeira que ouvi foi a da descoberta de um bebé, recém-nascido, ainda com parte do cordão umbilical e vestígios do parto, deitado ao lixo, num contentor perto de Santa Apolónia, em Lisboa. A notícia, avançada pela TVI, já garantia que a criança, um menino, tinha sido levada para o hospital D. Estefânia e que já se encontrava livre de perigo. Um sem-abrigo, ajudado por um outro transeunte terá dado o alerta, evitando assim mais um infanticídio em terras lusas.

Conforme sabes, eu não faço parte dos fanáticos da desgraça alheia, nem mesmo dos que seguem avidamente os crimes que se praticam em Portugal e no mundo. Prefiro a fantasia, seja um filme policial, de ação, espionagem, ficção científica, entre outros, à crua realidade do nosso quotidiano. Mas há coisas que me incomodam seriamente. Os incendiários, o tráfico de seres humanos, a escravatura, as violações, a violência doméstica, a tortura, os raptos, os homicídios paranoicos, o infanticídio, a prostituição forçada, contra a vontade dos próprios, e o canibalismo. A ordem pode não ser exatamente esta, mas, de facto, todos estes crimes, mesmo os que não implicam morte, mexem realmente com o meu equilíbrio emocional.

Dito isto, o crime descrito pela reportagem da TVI, ou a tentativa do mesmo (é-me igual), é dos que mais me revoltam as entranhas. Que mãe ou que pai é capaz de deitar no lixo um ser acabado de nascer, depois do mesmo ter sido transportado num ventre durante 9 meses? Podem dar-me mil explicações atenuantes, contudo, não aceito nenhuma como justificação de tamanha monstruosidade.

Quem não pode cuidar de uma criança ou não a quer, tem sempre, como recurso, a entrega dessa vida às instituições, que delas cuidam e que as tentam encaminhar para quem delas possa tratar, acarinhar ou até dar o próprio nome por um processo legal de adoção.

Num curto espaço de tempo, este caso, mais o do contentor, encontrado perto de Londres, com os 39 cadáveres de vietnamitas, faz-me pensar que nada evoluímos enquanto seres civilizados a viver no século XXI já no terceiro milénio d.C.! Continuamos tão selvagens e bárbaros como sempre fomos, apenas as roupagens e os métodos mudaram.

Muitos são os países que aboliram a pena de morte para os crimes praticados nos seus territórios. Eu sou normalmente favorável a este tipo de decisões políticas, práticas e legislativas, mas, quando me deparo com estes tipos de crime, a minha vontade é que os culpados, se descobertos, sejam votados a mortes bem mais horríveis do que as suas vítimas poderiam ter tido ou tiveram. Não me consigo conter. Nem sequer encontrar atenuantes para casos destes, por mais floreadas ou trágicas que elas sejam.

Não me vou alargar mais sobre este tema, porque, afinal, o que eu poderia ainda acrescentar sobre o assunto aproximar-me-ia, sem qualquer dúvida, perigosamente, dos selvagens que critico.

Deixo-te um beijo saudoso, com carinho, deste teu amigo de sempre,

Gil Saraiva

 

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