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Carta à Berta / Desabafos de um Vagabundo / Miga, a Formiga / Estro

A partir de julho de 2022 os blogs do Senhor da Bruma, assinados por Gil Saraiva, são reunidos em "alegadamente". Os blogs: Estro (poesia), gilcartoon (cartoons) e Desabafos de um Vagabundo (plectro) passam a integrar este blog. Obrigado.

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Carta à Berta: Série: Quadras Populares Sujeitas a Tema - 15) Vegan

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Olá Berta,

Eu sei que o início temático, nestas minhas últimas cartas, tem sido um pouco pesado. Por isso, para aliviar a coisa, escolhi para o dia 7 de fevereiro o terceiro aniversário da nossa vitória no Festival da Eurovisão. Foi a 7 de fevereiro, precisamente há 3 anos que “Amar pelos Dois” de Salvador Sobral, terminou com a maldição das classificações secundárias de Portugal neste evento. Vencemos e deixámos a concorrência a milhas, relativamente aos pontos que cada canção atingiu, na final do certame de 2017.

Salvador Sobral era nessa altura um músico desenquadrado da ribalta festivaleira, que sofria de um grave problema de coração, sendo visto, por quem o conhecia, como uma espécie de anti-herói de quem não seria de esperar feito algum. Contudo, o mais imprevisto dos prognósticos concretizou-se quando conquistou o mundo, fazendo história ao interpretar o tema escrito pela irmã, Luísa Sobral, trazendo o ambicionado caneco para o país que oficialmente o desdenhava, mas que secretamente o ambicionava como de pão para a boca.

O ano passado o cantor, depois de uma operação bem-sucedida do transplante ao coração e da respetiva recuperação da mesma, regressou finalmente aos palcos, lançando o seu segundo álbum “Lisboa, Paris”.

Nos últimos tempos, o cantor, que sente orgulho de ter vencido o Festival da Eurovisão, mas que não dá relevância à excelente passagem que teve nos “Ídolos”, adora apresentar em palco, clássicos que considera imortais, com especial destaque para com aquele que julga ser o maior interprete de todos os tempos, ou seja “Jacques Brel”. Ouvi-lo no papel do seu herói é uma experiência singular que te recomendo, minha querida amiga.

Passemos agora às quadras populares sujeitas a tema com que me tens desafiado. O tema Vegan foi, entre os últimos o mais difícil. Contudo, gostei do resultado.

Série: Quadras Populares Sujeitas a Tema - 15) Vegan.

 

Vegan

 

Dizes que carne não comes,

Vegan, é que é boa malha,

Ficas magra, quase somes,

Todo o burro come palha…

 

Gil Saraiva

 

Com esta quadra me despeço até à carta de amanhã. Recebe um beijo amigo, deste sempre presente compincha, que não te esquece nunca,

Gil Saraiva

Carta à Berta: Série: a Arte de Bem Comer em Campo de Ourique. 3) Dali, Cozinha Surreal

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Olá Berta,

Deixei para hoje um restaurante e bar, quase pub, que nasceu em novembro de 2019, em Campo de Ourique. Estou a falar de um espaço, anteriormente ocupado pelo Túnel 16, snack-bar e restaurante, onde, agora, uma nova marca se assume como um dos mais inovadores e admiráveis espaços de restauração em toda a cidade de Lisboa.

A decoração, minha saudosa amiga, a lembrar velhos tempos, é paradoxalmente refrescante. O jogo de ornamentação varia entre espelhos, discos e capas de vinil, protegidas do ambiente por um acrílico transparente ou molduras com vidro frontal, que facilitam a limpeza e manutenção das paredes primorosamente alindadas, dando à limitada área de apenas 24 lugares sentados, uma dimensão que esta, efetivamente, não tem. É, portanto, altura de entrar no terceiro restaurante desta minha seleção de restaurantes do bairro.

Série: a Arte de Bem Comer em Campo de Ourique.

3) Dali, Cozinha Surreal:

O espaço culinário mais original de Campo de Ourique.

Estou, repito, a falar do Dali, Cozinha Surreal, na Rua Infantaria 16, no número 43, a pouco mais de 20 metros da Rua Ferreira Borges, mesmo em frente ao Quartel de Campo de Ourique, à direita de quem sobe, em direção à Rua Silva Carvalho. O local é notoriamente digno de elogios, mas, cara Berta, o que mais surpreende, não é o bigode, à Dali, de um dos coproprietários e barman do recinto, o senhor Victor Cavalheiro, um verdadeiro gentleman na arte de bem servir, mas o menu surreal com que somos brindados, de uma imaginação como não me lembro de ver outra.

É que, se os preços da carta de bar visam afastar, logo à partida, clientes de fraco nível económico, a ementa apresenta valores acessíveis e pensados para nos surpreender, deliciar o palato e confortar o estômago com as iguarias apresentadas.  São 8 as regiões do globo contempladas em outros tantos pratos no menu.

Entre a seleção de comidas do Brasil apresentada encontramos a “Moqueca Brasileira de Peixe e Camarão”, do Oriente aparece o “Tartar de Salmão Maçaricado” e dos Estados Unidos da América podemos saborear as famosas “Asas de Frango Picantes”. Depois de Itália aparece o “Carpaccio de Vitela”, da vizinha Espanha é sugerido encomendar o “Polvo à Galega”, já do país dos mestres da culinária, ou seja, de França, vem o “Boeuf Bourguignon”. Por fim, as mil e uma noites da Arábia suportam um “Quibe Vegan de Abóbora e Quinoa”, bem dentro dos teus gostos, querida Berta, enquanto, de Portugal, não se pode perder o “Pica-Pau na Panelinha”.

Mas há mais, muito mais, a “Picanha Brasileira” um bom naco alto e malpassado de carne suculenta e deliciosa, o “Cachorro Quente” e o “Hambúrguer Dali”, ambos de inspiração americana, o “Camarão no Varal” das terras de Shiva, as espanholas “Gambas al Aguillo” ou o “Presunto Ibérico Genuíno”, o prato italiano de “Duo de Bruschettas de Pomodoro e Brie com Parma”, as francesas “Ostras Gratinadas” e o tradicional “Bacalhau à Gomes de Sá”, feito de forma irrepreensível.

Posso ainda destacar-te, cara amiga, como entrada os “Corações de Frango Grelhados” inspirado em Terras de Santa Cruz, as sobremesas “Brownie de Nozes” com gelado, uma tradição americana, a “Cartola” brasileira, de banana e queijo, ou o “Queque de Cacau” e o “Bolo de Rolo”.

A cozinha, aberta de segunda a sábado, com o mesmo horário do estabelecimento, do meio-dia à meia-noite e ainda aos domingos do meio-dia às 17 horas, tem num duo feminino o segredo das iguarias apresentadas, ambas sócias do Dali, ambas vindas do Brasil, Jaqueline Leite e a chef Carol Silva.

Os vinhos de reserva têm todos rótulo português e são de curadoria especial da Wine Concept, de Lisboa. Terias muito que provar ali, Berta, tu que és uma fã incondicional do vinho tinto. Todavia, voltando ao Dali, o restaurante faz, desta forma, um esforço em possuir uma adega que represente os principais vinhos de todas as regiões do país, com uma carta pronta a proporcionar excelentes descobertas aos apreciadores, principalmente, no que aos vinhos tintos diz respeito.

Contudo, aqui ficou-me a dúvida, pois sei que o sócio Tavinho Viera, é o responsável pelas opções vinícolas do Dali, estará este senhor também ligado à Wine Concept, deixo essa descoberta para os mais curiosos, uma vez que o que aqui me interessa é apenas e só aquilo que, como cliente, consigo desfrutar numa casa.

A não perder a recente criação da “Happy Hour” que se inicia pelas 17 horas. Caso o cliente não tenha preocupações económicas, recomendo ainda que não deixe de beber o “Cognac Especial” da casa, um “Camus” de ir às lágrimas e chorar por mais. Antes que me esqueça, recomendo a quem aqui deseje vir, principalmente, às horas das refeições, que faça marcação pois os lugares, como já referi, não são abundantes. Basta ligar para o número 966 259 945 e dizer o dia, hora e quantas pessoas são.

Se a habilidade e mestria das cozinheiras Jaqueline e Carol, é fundamental para a genialidade da casa, o atendimento, serviço e simpatia de Victor, um vero Cavaleiro feito Dali, é, sem qualquer margem para dúvida, o maior segredo daquele que considero ser, à distância, o espaço culinário mais original, desconcertante e arrojado de Lisboa.

Tipo: Especialidades / Cozinha do Mundo

Aberto: Todos os dias das 12 às 24 horas

Fecha: Domingo depois das 17 horas.

Preço: Restaurante: Acessível / Bar: Puxado

Classificação Única no Género: 5 Estrelas

Termino por aqui o meu discurso. Julgo que quando vieres a Lisboa, minha querida amiga, desejarás passar pelo Dali. Despeço-me com um beijo, este que não te esquece e muitas saudades sente,

Gil Saraiva

 

 

Carta à Berta: Greta Thunberg e a Síndroma de Asperger

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Olá Berta,

A minha carta de hoje tem a ver com a miúda de 16 anos que anda a tentar pôr os políticos do mundo na ordem. Vou-te falar um pouco de Greta Thunberg, principalmente, pelo facto de ela ser o tipo de criança ou adolescente que mexe com o meu sistema nervoso.

A jovem, começou na sua terra natal, na Suécia, a fazer greve às aulas em prol da necessidade de se agir de imediato às urgências climáticas, provocadas pela ação humana, através da queima dos combustíveis fósseis, do consumismo exacerbado da sociedade capitalista e de mais uma outra dúzia de fatores.

Deste modo, conseguiu chamar a atenção da comunicação social do seu país, pela acusação direta aos adultos, e em primeiro lugar aos políticos eleitos, de estarem a hipotecar o mundo e a sua própria vida, enquanto adolescente e futura mulher adulta, por falta de medidas e ações que realmente possam fazer a diferença, defendendo que estas terão de ser imediatas e não apenas urgentes.

O seu protesto acabou por gerar a adesão de dezenas de outros jovens suecos, depois de centenas e a coisa foi sempre acontecendo em crescendo até, finalmente, neste mundo, extravasar as fronteiras suecas e se espalhar pelo globo, com o apoio explicito do próprio Governo Sueco e de muitas associações ligadas à defesa do ambiente e dos animais, causas que juntou numa luta única. Muitos milhares de estudantes acabaram por aderir à sua greve, primeiro no país e finalmente no planeta, com destaque evidente nos países do ocidente.

Aproveitando o apoio oferecido pelo Governo sueco, outros países juntaram-se à iniciativa, vendo aqui uma clara oportunidade de colocar nas agendas nacionais e internacionais o problema, de ficarem bem na fotografia, e de distraírem os seus eleitores de uma outra série de questões, não resolvidas, pelos seus próprios governos.

A jovem foi convidada a intervir com discursos, em vários países, com destaque para os efetuados em Londres e em Estocolmo, um em outubro de 2018 e o outro em novembro do mesmo ano. Em dezembro apresentou-se na Cimeira do Clima, na ONU, com uma redação bastante incisiva, perante os 196 países reconhecidos pela organização.

Finalmente, partiu numa jornada, que a levará a percorrer o globo, carregando na bagagem a sua gritante e urgente mensagem. Foi indicada para o Prémio Nobel da Paz que não ganhou, mas recebeu muitos outros, de menor calibre, mas com peso e importância internacional, que têm ajudado a financiar o périplo mundial agora empreendido.

Toda esta atividade iniciou-se publicamente a 20 de agosto de 2018, quando a rapariga decidiu fazer a sua primeira greve até à realização das eleições gerais na Suécia, que se ocorriam dai a 3 semanas. Porém, a sua precoce consciência ecológica e defesa dos direitos dos animais começou 4 anos antes, apenas com 12 aninhos, quando decidiu tornar-se vegan. A sua crescente indignação com a estagnação política do seu Governo, face ao incumprimento do Acordo de Paris, foi crescendo e culminou com a sua primeira greve às aulas 4 anos mais tarde. Desde então não mais parou e a última greve estudantil, realizada às sextas-feiras, teve a adesão de mais de um milhão de jovens a nível internacional.

Podia, minha querida Berta, gastar mais umas 2 ou 3 páginas a descrever os prémios, os discursos e todas as ações empreendidas por Greta e pelos que agora coordenam os seus movimentos e iniciativas. Todavia, pelo que atrás está descrito, e graças ao que tens ouvido na comunicação social, sei que não preciso de me alargar mais neste sentido, uma vez que a ideia global está apresentada. Contudo, alguma imprensa, ainda dá mais importância à jovem, pelo facto de esta sofrer de uma patologia séria, estando a adolescente diagnosticada como padecendo da Síndrome de Asperger, uma condição que afeta as suas capacidades de interação social e de comunicação.

Ora, é precisamente aqui que, para mim, a porca torce o rabo. Exatamente neste pequeno ponto, apresentado em notas de rodapé pela comunicação social, como mais um fator admirável a favor de Greta Thunberg que, apesar deste “handicap”, consegue fazer-se ouvir. A maneira como tal síndroma é apresentado leva-nos imediatamente a sermos ainda mais solidários com a jovem.

Afinal, achamos logo, que o problema realça e valoriza toda a sua luta interior e exterior, colocando-a num patamar de excelência e superação ainda mais formidável e merecedor de maior e muito mais evidente admiração. Já não estamos a falar de uma mera jovem, mas sim de uma jovem ativista que, apesar do seu problema psicossomático, está a lutar, por todos nós, em prol de um mundo mais equilibrado, mais sustentável e melhor.

Porém, poucos serão os que se dão ao trabalho de ir ver o que é a patologia diagnosticada com detalhe. E é no detalhe que a coisa, no meu modesto entender, se torna grave, amiga Berta, requerendo um cuidado e uma atenção especial para algo que, não tendo cura, deve ser gerido com as devidas cautelas.

A síndrome de Asperger é uma perturbação neuropsiquiátrica que se encontra inserida no espetro do autismo. Muitos dos indivíduos que a apresentam detêm capacidades mentais normais ou acima da média. As capacidades cognitivas dos doentes não costumam ser afetadas, mas existem algumas dificuldades na comunicação não-verbal e nos relacionamentos interpessoais. O problema só é normalmente diagnosticado a partir dos 4 ou 5 anos de idade. Entre outros sintomas, destacam-se de forma relevante: a descoordenação dos movimentos; deficiências na comunicação não-verbal, com principal incidência na utilização deficiente de expressões faciais e corporais e na fuga permanente ao contacto visual; conversas em forma de monólogos e repetição continua de expressões; interesse confinado a temas muito específicos; falhas na compreensão dos outros; dificuldade em mostrar empatia, bem como em entender o humor ou a ironia; resistência à alteração de comportamentos e de rotinas que fujam ao foco do paciente; comportamentos obsessivo-compulsivos; perturbação depressiva e ansiedade, entre outros.

Seria de esperar que a família de Greta, ciente destes problemas, ajudasse a rapariga a não alimentar o seu comportamento obsessivo-compulsivo e a sua fixação específica nos temas da problemática ambiental e animal. Mas acontece que estamos perante uma ascendência de artistas, atores, cantores e gente do espetáculo, que já vem de há 3 gerações atrás, habituados à ribalta e que valorizam o protagonismo e a fama como um natural modo de vida.

Os cuidados a ter com Greta, enquanto portadora desta síndroma, com o seu atual mediatismo e com a sua reforçada agenda programática, são basicamente postos de lado pela família, descurando coisas  como a socialização controlada, a monotorização dos relacionamentos, o desenvolvimento de competências sociais básicas, o estímulo ao contacto visual e físico ou, ainda, a forma de como a ajudar a entender o conceito de empatia e os sentimentos de compreensão pelos outros, coisa que desconhece quase em absoluto.

Apenas a valorização do talento e dos sucessos alcançados pela jovem estão a ser levados em linha de conta, pelo que estes ajudam na sua autoestima, sem se pensar no que, uma luta sem consequências reais de mudanças a nível mundial (é neste ponto que se encontra a fasquia da adolescente), pode levar a profundas crises de ansiedade, com consequências depressivas de elevado risco, cujo final corre sério perigo de poder ser fatal.

Um bom exemplo de uma gestão cuidada deste problema de saúde é a forma como foi gerida a ascensão e a carreira da cantora Susan Boyle. Aqui houve o cuidado de a valorizar sim, mas tendo em conta os estímulos a reforçar, as competências a desenvolver, o entendimento e a empatia a criar em relação a terceiros e à gestão do seu próprio e genuíno sucesso.

Temo, minha amiga, que o aproveitamento de Greta pelos movimentos ambientalistas e dos animais, acrescido ainda com o evidente deslumbramento familiar, possam levar esta jovem a um beco sem saída do qual depois não haverá retorno. Não seria a primeira vez que um comportamento obsessivo-compulsivo levaria a um suicídio como forma última de fazer vingar uma obsessão.

Despeço-me saudoso com um beijo, no seio desta genuína preocupação, este teu amigo que muito sente a tua falta,

Gil Saraiva

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