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Carta à Berta

Carta à Berta é o local dos Desabafos de um Vagabundo, do Senhor da Bruma, essa bruma a que chamam de internet, de um Haragano, o Etéreo, qual cavalo selvagem que galopa entre cartas alegadamente, quiçá, sem fundamentos.

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Carta à Berta: "António Costa - O Grande Golpe - Peça em Três Atos" - "Ato II - Costa e BB - O Telefonema"

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Olá Berta,

Eu já sabia que a minha querida amiga ia dizer que eu punha os nossos governantes a falar de um modo muito vulgar nas reuniões. Não te esqueças que eu já fiz parte de uma direção distrital do Partido Socialista, ainda por cima enquanto elemento da Comissão Executiva de uma Federação Regional. Também sei que já passaram um pouco mais de 2 décadas, mas o vocabulário não mudou. Não foi o facto de eu ter saído dessas lides que alterou fosse o que fosse na linguagem utilizada pela maioria dos dirigentes entre portas.

Para facilitar as coisas vou apresentar a chamada para o Reino Unido no nosso português coloquial em vez do inglês brejeiro em que a mesma decorreu. A tradução facilita o entendimento de quem lê. Mas vamos ao que mais interessa, ou seja a nossa peça:

“Segundo Ato: Costa e BB – O Telefonema (leia-se Bi Bi de Boris Brexit)

Enquanto Augusto Santos Silva rabiscava num papel o novo número pessoal de Boris Johnson, acabadinho de ser arranjado por intermédio do embaixador britânico em Portugal, António, alinhava numa folha A4 as ideias base para a conversa. A meia hora seguinte serviu para todos darem sugestões sobre quais deveriam ser os assuntos discutidos e sobre a ordem em que os mesmos poderiam ir sendo apresentados. Era necessário pressionar seriamente o Primeiro-Ministro britânico, sem o chatear.

Por fim Costa passou a limpo os tópicos e sentiu-se preparado para avançar para a chamada.

       - Olá Boris, daqui é Costa… António Costa… Primeiro-Ministro de Portugal. Sim, sim, esse mesmo, o velho aliado a quem vocês fodem sempre que podem... — explicava Costa no decorrer da troca de piadas iniciais entre governantes.

       - Não é bem assim amigo Costa. Digamos que o Reino nem sempre pode fazer tudo aquilo a que se compromete. Às vezes, dá merda, fruto das circunstâncias. Mas a que devo esta chamada? O meu embaixador em Portugal já me tinha informado que transmitira o meu número ao teu homem dos negócios estrangeiros. Precisas de algum conselho sobre como podes sair da União Europeia? — ripostava Johnson com ar brincalhão.

       - Não pá. Preciso é que mantenhas a porra do corredor aéreo com Portugal e te deixes de moralismos hipócritas, caralho. Arriscas-te a afundar-me o PIB e isso pode gerar uma puta de uma bola de neve que nem com o dinheiro de Bruxelas me safo. Preciso mesmo que eleves a fasquia da velha aliança. — afirmou Costa tentando manter um ar sério e preocupado.

       - Puta que pariu. Isso está assim tão grave? Afinal serão apenas 15 dias. Não me digas que vais ao fundo por meia dúzia de ingleses não irem de férias? Não posso querer! — argumentou Boris.

       - Talvez se deixasses de oxigenar o cabelo e arranjasses um pente te fosse mais fácil entender que não estamos a falar de meia dúzia. Mas enfim, caralho, o que eu preciso é que não anuncies o fecho do corredor na quinta-feira. Posso contar contigo? — Costa parecia preocupado.

       - É pá, foda-se. Que culpa tenho eu que vocês tenham passado a média das 20 infeções por 100.000 habitantes? Tu sabes que esse é o nosso critério para manter os corredores aéreos... — justificava Boris com ar de quem nada poderia fazer.

       - Também sei que tinhas ficado de negociar a maioria dos termos do Brexit com a chanceler alemã e que ainda nem sequer tens nada que se veja. Estás em cima da linha de água para fazeres uma saída airosa no que ao acordo com a União diz respeito. E, até agora, nada de nada, caralho. — Costa preparava-se para lançar a escada. — Talvez não te lembres, mas eu recordo-te que a Presidência do Conselho Europeu é de Portugal durante o primeiro semestre de 2021.

       - Hum… isso quer dizer o quê meu velho e bom amigo? Estás a propor uma troca de favores, é? Acho que sabes que não consegues fazer nada se os outros estiverem do contra. Ainda não estou bem a ver onde queres chegar... — avançava Boris cautelosamente. Aquela poderia vir a ser uma aliança muito interessante para si. Se pudesse manipular um pouco a agenda negocial…

       - É pá, tu mudas o critério dos corredores aéreos para a percentagem de infetados por cada 100 mil testados. Nesse parâmetro estamos no topo dos melhores classificados da União. Já eu, pelo meu lado, articulo contigo a forma de trabalharmos a agenda do Brexit como te for mais conveniente, entre janeiro e junho. Podes até dar liberdade de escolha sobre o corte dos corredores ao País de Gales e à Escócia. Tens é de manter para eles o corredor aberto para Açores e Madeira e o Inglês para todo o território português. No continente o peso deles no turismo é residual. Não ultrapassa os 5%. Que te parece? — indagava António Costa esperançado no seu novo isco.

       - Hum… e o teu voto? Posso contar com o teu voto público quando a altura chegar? Desde que chateaste a Holanda publicamente que tens uma forte influência solidária nos países do Sul e do Leste. Votas comigo? Quer dizer, não precisas concordar com tudo, há coisas que vou exigir para depois as deixar cair durante as negociações. Posso avisar-te do que não faço questão de ter apoio. Então? — Boris parecia agora muito mais empenhado numa negociação. Até se esquecera de praguejar.

       - Podes contar comigo. Porém, os dossiers das pescas e do trabalho dos emigrantes ficam de fora. Sabes que em ambas as situações quem se podia foder era eu… — um silêncio fez-se ouvir do outro lado, Costa esperou.

       - Bem, bem… foda-se… nas pescas dava-me jeito o teu apoio, mas seria mau para ti, eu entendo. Ok, temos acordo. Vamos fazer assim, vou pôr vários elementos do Governo a dizerem que os corredores podem vir a ser fechados, mas que está tudo em análise. Na quinta-feira fazemos saber que os corredores não fecham e na sexta-feira sai o comunicado oficial do Governo Britânico. Parece-te bem? Já com essa ideia da mudança de critérios ou a junção desses com o atual, para parecer mais verosímil. Que tal? — questionou Boris.

       - Caralho! Estava a ver que não. Estamos combinados. Nós vamos manter as nossas infeções elevadas até sábado, dia 12. Depois vamos baixando para que possas manter a avaliação. Se não conseguirmos já será culpa nossa. Entendido? Estamos combinados? — Costa esperou pela confirmação de cortesia pelo lado de Boris.

       - Claro que sim. Mas baixa-me os infetados entre dia 13 e 18 de setembro. Deixa os 300 e os 400 para depois disso, senão pouco poderei fazer. Não há nada como um bom acordo para o Sol nos sorrir. Gostei da conversa António. Fica bem e está atento às notícias de quinta-feira. Puta que pariu. Já tinha visto que tu eras habilidoso, mas agora comprovei. Boa negociação. «Bye, bye». — Boris desligou a chamada francamente satisfeito com a conversa.

Os quatro ministros de Costa presentes na sala aplaudiam satisfeitos. Correra tudo de feição. Seria difícil arranjar uma outra situação em que tudo se tivesse passado exatamente conforme o que desejavam.”

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Por hoje é tudo, minha querida amiga Berta. Fica com uma despedida cheia de saudades deste teu velho amigo, recebe os mil beijinhos da praxe e espero voltar ao contacto contigo já amanhã

Gil Saraiva

 

 

 

 

Carta à Berta: Covid-19 >>> Portugal - União Europeia - Europa - Mundo

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Olá Berta,

Como bem sabes não sou um fã da desgraça e muito menos desta pandemia que assolou o mundo. Não gosto de coitadinhos e não aprecio gente que se faz de vítima para conseguir a atenção e a solidariedade de terceiros. Porém, reconheço que muita coisa vai mal e pior ainda agora, principalmente, desde que fomos invadidos por esta coisa chamada de Covid-19. A pandemia pôs a nu fragilidades e, em muitos casos e situações, revelou mais nitidamente muitas das assimetrias existentes por este mundo a fora.

Não sou, nem nunca fui um nacionalista ferranho, todavia, adoro ser português e tenho muito orgulho em sê-lo. Considero que vivemos num país especial. Não é apenas o facto de estarmos estrategicamente situados no centro do mundo Ocidental. É o sermos o melhor destino turístico do mundo já há três anos consecutivos, é mantermo-nos como o terceiro país mais pacifico e seguro do globo, apenas ultrapassados pela Islândia (que conta com menos de meio milhão de habitantes) e pela Nova Zelândia (que tem uma população que é em número menos metade da portuguesa), ou seja, estou convencido que vivo num país realmente especial, moderado em usos e costumes, moderado no clima e cujo passado de mais de oito séculos muito me orgulha, independentemente das asneiras que alguns dos nossos líderes foram fazendo ao longo da História.

Ultimamente, por causa do novo aumento de infeções, andam por aí umas vozes a dizer que o país perdeu o rumo, que não soubemos sair do confinamento, que agora é que está tudo a caminhar para o caos.

Desculpa que o diga de uma forma mais grosseira, amiga Berta, mas é tudo uma grande treta. Continuamos a ser um país moderado até quanto à pandemia. Nos indicadores que importam estamos proporcionalmente colocados se levarmos em consideração a população de Portugal face aos outros países e territórios. A tabela do «worldometer» que divulga, entre outros dados, os números da pandemia em termos mundiais e europeus, é disso a melhor das provas, não deixando dúvidas sobre o tema.

Mas analisemos mais de perto os dados europeus. O site que referi identifica 48 países e territórios na Europa (podes consultar, minha amiga, a tabela que te enviei a ilustrar esta carta com os primeiros 14 países em termos de população). Ora, dos 48 referidos existem 13 que não chegam ao milhão de habitantes, e que vão desde o Vaticano ao Luxemburgo. Depois há mais 10 que não conseguem ultrapassar a barreira dos 5 milhões, situados em números entre a Estónia e a Irlanda. Em seguida vêm mais outros 10 que se ficam abaixo dos 10 milhões e acima dos 5, enquadrados em crescendo entre a Noruega e a Hungria. Em resumo existem 33 países e territórios na Europa cuja população não alcança os 10 milhões de habitantes.

Quando imaginamos que somos um país pequenino no Velho Continente, convém sabermos que há 34 países e territórios na Europa com uma população menor que a nossa, pois a Suécia, embora ultrapasse os 10 milhões de habitantes, tem menos umas largas dezenas de milhares de pessoas do que nós. Aliás apenas, 13 países nos ultrapassam em população, desde a Grécia com mais 222 mil indivíduos que Portugal até à Rússia com quase 146 milhões de habitantes… e sim, estou a contar com a Rússia, que abrange 2 continentes, estendendo-se bem Ásia adentro.

Pelo que atrás vai dito ficamos com a perfeita noção que somos o décimo quarto país mais populoso da Europa. Ora, não é, portanto, estranho que ocupemos igualmente esse mesmo lugar no que respeita aos países mais infetados do continente. A proporção é a mesma. Também somos o 14.º no que aos novos casos diários de infeções diz respeito e isso também acontece já há mais de uma semana. Pode parecer estranho, contudo, é também essa a posição que ocupamos quanto ao total de mortos e ao número de casos críticos em cada país ou território europeu.

Mas as coisas ainda são melhores se pensarmos nos casos recuperados da pandemia onde estamos em sexto lugar em números absolutos. Já quanto ao número de mortos diários e no número total de infetados por milhão e de óbitos por milhão de habitantes ocupamos orgulhosamente o 18.º nos primeiros dois e o 19.º no último destes parâmetros.

De referir que somos o décimo país (de 27) com mais população no seio da União europeia e igualmente o décimo com mais casos registados até ao momento. Todavia, no número absoluto de testes realizados por cada país europeu estamos orgulhosamente acima da média, no 10.º lugar entre os 48. Mas se olharmos para os testes por milhão de habitantes passamos rapidamente para o terceiro lugar do ranking, só sendo ultrapassados pela Rússia, logo seguida do Reino Unido. O destaque ainda é mais espantoso porque podemos dizer que somos o país da União Europeia que mais tetes realiza por milhão de pessoas. Ao todo já testámos mais de 20% da população nacional. Um facto absolutamente revelador da nossa firme determinação em combater a pandemia, com mais testes por milhão de habitantes que Alemanha, França, Itália, Espanha, Holanda, Polónia, Roménia, Grécia ou Bélgica, só para falar dos casos mais flagrantes.

Podia continuar com o mesmo tipo de comparação em relação ao mundo onde somos o 89.º país ou território do mundo com mais população, havendo 125 países ou territórios com um número de habitantes inferior ao nosso. Posso afirmar que relativamente ao globo, contando os países com população igual ou superior à nossa, ainda estamos mais bem colocados do que a nível exclusivamente europeu. Todavia acho que já seriam números a mais para uma só carta, pelo que me fico por aqui. Julgo que até me agradeces por não me alargar em demasia.

Porém, só para dar uma ideia, acima dos 10 milhões de habitantes somos o quinto país que mais testes faz, por milhão de habitantes, no mundo inteiro, apenas sendo ultrapassados por colossos como a Rússia, o Reino Unido, os Estados Unidos e Austrália.

Como podes comprovar, minha querida Berta, temo-nos portado muito bem nesta coisa do Covid. Recebe deste teu amigo um beijo de despedida e carinho, saudosamente,

Gil Saraiva

 

PS: Apenas um aparte, querida amiga, a saga do fogo em coberturas continua, agora alargada ao país. Desta vez foi a cobertura, no sótão, localizado no terceiro piso de um restaurante, em Felgueiras. Com este, em 4 dias úteis (desde a passada sexta-feira), já são 11 as coberturas, sótãos ou águas-furtadas que ardem pelo país. Espero que isto tenha um fim, pois não consigo compreender tanta coincidência.

 

 

 

Carta à Berta: Afinal de Contas...

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Olá Berta,

Hoje vou abordar 2 temas distintos. A verdadeira dimensão da pandemia em termos mundiais e o problema demográfico de Portugal que se agrava a cada ano que passa. Daí escolher hoje o título:

Afinal de Contas…

Já deves saber que o mundo ultrapassou pelos dados oficiais os 7,2 milhões de infetados com o vírus pandémico e que mais de metade destes casos continuam ativos. A somar-se a isso estão uns assustadores 410 mil óbitos oficialmente declarados como resultantes deste flagelo.

Contudo, os dados reais são entre 2 a 3 vezes superiores a isto, para as infeções, podendo as mortes oficiais apenas serem um quinto dos óbitos, na mais positiva das hipóteses, e por motivos muito diferentes, consoante o país que os reporta. Espanha, que está a ferver de urgência para reabrir as fronteiras, deixou de reportar mortes no boletim oficial do Governo, como se tivesse resolvido o pior problema, contrariando os dados regionais enviados pelas autarquias. O Brasil, desde a primeira hora sempre adulterou o número de mortes por questões de resistência presidencial e por problemas ligados aos seguros de vida que, no país, não cobrem as mortes causadas por Covid-19.

A Venezuela, Cuba e Rússia, entre outros, por questões políticas e de regime quase não anunciam falecimentos, quiçá para tentarem parecer mais eficazes do que na realidade são. Todavia, uma grande quantidade de países não reporta, devidamente, os dados, sejam infetados ou fatalidades, por falta de recursos para diagnóstico, seja de quem está infetado, seja de quem morreu por Covid-19.

Nalguns casos as organizações de saúde consideram que nem um quinto dos casos reais são comunicados no que se refere às infeções e, pior ainda, apenas cerca de 10% das mortes são anunciadas, e apontam-se os casos do Bangladesh, do Paquistão e da Índia como alguns dos mais evidentes.

Em resumo, é possível e credível pensarmos que já há muito que foram ultrapassados os 25 milhões de infetados e que o valor real dos óbitos no mundo deve andar, na verdade, na casa dos 2 milhões até ao momento.

Contudo, por mais que os países tentem esconder a realidade, quando chegarmos ao final de 2020 e compararmos os números de óbitos do ano com os 5 ou 10 anos anteriores, é que saberemos, de forma mais aproximada e realista, qual foi o verdadeiro valor da mortalidade e em quanto é a que mesma se desviou dos padrões esperados.

Já o próximo ano de 2021, vai trazer outro tipo de novidades em termos nacionais. O Censos 2021 irá dizer-nos, entre muitas outras coisas, quantos somos. Já estaremos nós abaixo dos 10 milhões de habitantes? Teremos de tomar medidas drásticas para parar o acelerado decréscimo populacional em Portugal? A falta de uma taxa de natalidade, que nos ajude a manter o índice populacional, e envelhecimento da população, em nada ajudam nesta demanda que, numa primeira análise parece perdida.

Neste momento Portugal ocupa o octogésimo sétimo lugar em termos de população no ranking mundial, entre mais de 213 países e territórios, ou seja, 60% dos Estados, e Zonas com algum tipo de Autonomia do mundo, detêm um menor número de habitantes do que nós, no seu espaço geográfico. Se continuarmos a perder população à velocidade de 40 mil habitantes por ano, dentro de 30 anos teremos perdido entre 13 a 20 lugares do ranking, ficando situados, provavelmente, na metade que corresponde aos países de menor população mundial. Uma mudança de paradigma significativa.

Mais grave ainda poderá ser o nosso reposicionamento no espaço da União Europeia dos 27, onde apoios e contribuições são definidas pelo número de habitantes de cada Estado membro. No presente momento temos, com menor população do que nós: Malta, Luxemburgo, Chipre, Estónia, Letónia, Eslovénia, Lituânia, Croácia, Irlanda, Eslováquia, Dinamarca, Finlândia, Bulgária, Áustria, Hungria, Suécia, República Checa, Grécia, (tomados como referência os Censos de 2011). Com mais população estão apenas 8 Estados membros: Bélgica, Holanda, Roménia, Polónia, Espanha, Itália, França e Alemanha.

Porém, após o Censos 2021, é quase certo que passaremos a ter menos população que mais 3 países: Suécia, República Checa e Grécia. Países que estatisticamente já possuem mais população que a portuguesa, mas a quem, a efetiva contagem de 2021, trará outro peso e importância no contexto da União, para quem apenas os números reais contam.

Nos próximos 30 anos ainda nos arriscamos a ser ultrapassados pela Áustria e pela Hungria o que nos colocará no topo da metade inferior dos países com menos população no seio da União Europeia. Ora, nada disto teria grande importância se a distribuição de verbas entre os Estados não estivesse direta e indiretamente ligada ao número de habitantes. Mais grave ainda será o continuo envelhecimento da população nacional, a diminuição assustadora da população ativa e a pressão cada vez mais ostensiva sobre o SNS e sobre a Segurança Social.

Em conclusão, analisando as 2 temáticas, no caso português, urge combater agora com determinação a pandemia e devem ser aproveitados os recursos que ai vêm para termos uma eficaz política de crescimento populacional que não nos obrigue a definhar enquanto povo.

Por hoje é tudo, minha muito querida amiga. Este teu permanente amigo despede-se com o usual beijo de saudades e carinho, sempre às ordens,

Gil Saraiva

 

 

Carta à Berta. Lisboa, Capital Verde Europeia 2020

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Olá Berta,

Em 2004, um ano que já lá vai, perdido na memória da primeira década do século XXI, era eu editor e jornalista do boletim oficial “TerrAzul”, da Associação da Bandeira Azul da Europa, escrevi uma série de eco crónicas para o semanário Expresso. São elas a base de algumas reflexões que, passados estes anos, e já sem o fervor ambientalista de então, acho relevante analisar agora. Não me vou dedicar aos artigos em si, mas ao evoluir das problemáticas então apresentadas. Espero que te agrade.

A vida é uma teia complexa de eventos que interligam de forma, mais ou menos perfeita, factos, atitudes e comportamentos. No final do segundo milénio a preocupação com o ambiente era crescente e ganhava adeptos, mais ou menos ferrenhos, em quase todas as frentes. Nasceram os partidos ditos ecologistas, desenvolveram-se as associações ligadas à defesa do ambiente. As sementes estavam lançadas. Era agora necessário cuidá-las.

A sociedade civil e os senhores do poder em todo o mundo foram, aos poucos, cedendo à necessidade: Era imperativo tomar medidas! Finalmente, na Conferência das Nações Unidas para o Ambiente e Desenvolvimento, que ficou conhecida como a Cimeira da Terra ou ECO92 ou RIO92, realizada no Rio de Janeiro em 1992, geram-se, entre outros, 2 documentos basilares: A Agenda 21 e a Agenda 21 Local.

 O conceito de “Desenvolvimento Sustentável” amplamente difundido na ECO92 possuía, por fim, amiga Berta, instrumentos e conceitos operacionais para uma aplicação eficaz e efetiva de políticas para ele direcionadas. Estavam inventadas as fórmulas de referência para a construção de um plano de ação a ser desenvolvido global, nacional e localmente, quer pelas organizações do sistema das Nações Unidas, quer pelos Governos e Autoridades Locais.

Mas onde? Onde aplicar semelhante plano? A resposta é por demais evidente, minha querida amiga: Em todas as áreas onde a atividade humana provoca impactos ambientais desfavoráveis.

É desde o RIO92 que quase duas centenas de países passam a considerar o “desenvolvimento sustentável” como elemento efetivo da sua estratégica política conjugando ambiente, economia e aspetos sociais.

A primeira Conferência das Partes (COP1 - Conferência das Partes designada também por Conferência das Partes da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas) ocorreu em 1995 na cidade de Berlim e nela foi firmado o Mandato de Berlim, no qual os países do Anexo I assumiram maiores compromissos com a estabilização da concentração de GEE ( a Emissão de Gases com Efeito de Estufa), por meio de políticas e medidas ou de metas quantitativas de redução de emissões.

Um salto significativo foi dado depois pelo Protocolo de Quioto em 1997, onde uma série de metas ficaram definitivamente estabelecidas e acordadas. Já no atual milénio, em setembro de 2002, a Conferência das Nações Unidas sobre o Desenvolvimento Sustentável, em Joanesburgo, reafirmou, inequivocamente, o imperativo de plena implementação da Agenda 21, entre outros documentos essenciais.

A Agenda 21, minha amiga, que se traduz na criação de objetivos e indicadores que possam aferir progressos e estabelecer metas a atingir para um desenvolvimento sustentável, tornou-se a ferramenta ideal para a aplicação de medidas e premeditação de objetivos no que ao ambiente dizia respeito.

Portugal (e é o nosso caso que nos importa mais diretamente, embora esteja globalmente inserido na estratégia mundial) tem, em termos de legislação ambiental, uma posição relevante na salvaguarda do Planeta. O nosso único problema é que parece que nos ficamos pelo papel, pela palavra escrita, pela promessa assinada.

As medidas tardam a ser implementadas e algumas das que florescem parecem temer ser coladas a adjetivos como “fundamentalista” ou “pseudo-qualquer-coisa”, mas nem tudo se perde e, aos poucos, lá vamos encontrando o traçado correto, pois temos os instrumentos para ir e chegar bem mais longe...

Começámos tão bem, nestes anos de definição de estratégias que temos de ir em frente, nem que seja… por um “desenvolvimento sustentável”.

Estes 2 últimos parágrafos servem para vermos como a passagem dos textos aos atos é enganadora. Portugal, que implementou entre 1992 e 2004 um excelente conjunto de medidas na legislação, passou os 15 anos seguintes a assobiar para o lado, a ver a banda passar. É certo que houve alguma evolução positiva, mas as centrais a carvão não deixaram de funcionar. As energias alternativas foram subsidiadas quase exclusivamente numa perspetiva muito mais económica do que sustentável e a meada ainda teria muito fio se lhe resolvêssemos pegar seriamente. Tudo correu de tal forma que, a dada altura, nós, que partimos na carruagem da frente da defesa do ambiente, perdemos literalmente o nosso lugar no comboio.

Apenas em 2019 a coisa voltou a ser importante para o país e a tomar uma relevância, muito por força de novos movimentos e partidos, pelas eleições legislativas, pelo Acordo de Paris em 2015, pelas COP seguintes e depois pela Cimeira do Clima em Madrid,  convocada pelo Secretário Geral das Nações Unidas, António Guterres, para coincidir com a COP25 e dela tirar um proveito sustentável com a aprovação de novas medidas e metas a alcançar para o equilíbrio climático, envolvendo, praticamente, todos os países.

Infelizmente, Berta, graças à Austrália, Estados Unidos e Brasil, seguidos da Índia, China e Rússia, num patamar abaixo, tudo volta a ficar adiado, uma vez mais, para a COP26. O caso australiano, então, é perfeitamente surpreendente e absurdo, se tivermos em linha de conta que o estado de calamidade que o país atravessa é, quase na totalidade, devido aos incêndios, fruto das próprias alterações climáticas, que geram tempestades secas, repletas de raios, que vão gerando o caos, à medida que provocam incêndios, que alteram o comportamento dos ventos, que, que, que… numa reação em cadeia sem fim à vista.

Mais grave ainda é sabermos que estes 6 países são os produtores diretos de mais de 50 por cento das emissões produzidas no planeta, e que, por isso mesmo, são diretamente responsáveis pelo agravamento do problema, que continua sem solução à vista. Durante este ano resta-nos seguir com a União Europeia o caminho da Sustentabilidade. A UE resolveu continuar o seu trajeto, independentemente dos outros parceiros mundiais o fazerem ou não. É por causa disso que Lisboa é, a partir de ontem, a Capital Verde Europeia 2020, com obrigação de plantar, este ano, 20 mil árvores, entre outros objetivos.

Este, minha querida amiga, é o atual ponto de situação, esperemos que os anos 20, agora iniciados, sejam mais auspiciosos para todos nós. Despeço-me com um beijo saudoso, este teu amigo de sempre,

Gil Saraiva

 

Carta à Berta: A Teoria do Amor - Parte III - Viagem Para o Paraíso

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Olá Berta,

Desculpa ontem ter enviado 2 cartas, mas tive que desabafar. Há coisas que não devem ficar para o dia seguinte. Sei que não te importas destes pequenos abusos da minha parte, mas mesmo assim, por seres a amiga que és, acho que fica bem uma justificação.

Mando-te a terceira parte do poema que te tenho enviado aos poucos porque, ao fim ao cabo, são 4 poemas num só. Não quero que apanhes um enjoo de linguagem poética. Assim, aos poucos digeres melhor. Aqui vai:

 

"OS OUTROS - TRAGÉDIA EM QUATRO ATOS"

 

                   III

 

"VIAGEM PARA O PARAÍSO"

 

Perante os migrantes vindo do Oriente,

A Europa justa vai abrir os portões,

Dizem os líderes da União Europeia,

Criam cotas, repartem apoios, vão à televisão…

Mas a verdade esconde-se, abriga-se,

E o que se fala nada quer dizer, nem tem tradução;

Mas todos prometem intenções tão boas,

Numa teoria que jamais será Tese, Lei ou Saber.

 

Aceitam milhares, dizem os jornais,

Mas fazem-se muros, que é farpado o arame,

Entram meia dúzia, um pouco mais, mas de pouco não passa,

A custo, a medo, que a vergonha não esconde a cara…

 

Impera o cinismo, dizem que é cedo,

Mas para os migrantes o tempo parou,

E tentam entrar de qualquer maneira nessa Europa

Onde solidariedade se escreve a borracha,

Onde esperança é palavra oca que o vento varreu…

 

Por entre os milhares, fugidos da Síria curda,

Entre fome e sangue, entre dor, pânico e sobrevivência,

Uma família que o lar perdeu na perdida Kobane,

Já na Turquia, procura uma forma de chegar à Grécia, a Kos,

Nem terra, nem ar, que apenas o mar é solução…

 

E ali, em Bodrum, a dois passos da Europa,

Um casal com dois filhos decide arriscar,

Um entre os milhares que já são milhões.

 

Da praia de Ali Hoca partem de barco feito borracha

Que apaga vidas…

Onde cabem dez viajam cinquenta,

E dá-se a tormenta, o naufrágio, mais um,

Sobrevive o pai, sucumbe a mãe e as duas crianças,

De três e cinco anos que a idade é tenra

Mas a morte não.

 

A viajem acaba, como começou, em calamidade,

Igual a tantas outras que a precederam,

E assim chegaram, todos ou quase, por fim, finalmente,

A um paraíso que não tem país.

 

Sabes, minha amiga, costumo dizer que a maior sorte que tive em toda a minha vida foi ter nascido em Portugal. Para esta gente que nasceu nestes lugares, para onde o inferno tem os portões abertos, sobreviver já é uma aventura. Quando penso nisso e nos meus problemas acho que reclamo de barriga cheia.

Deixo-te um beijo de despedida, com as saudades que imaginas deste teu velho amigo de sempre,

 

Gil Saraiva

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