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Carta à Berta / Desabafos de um Vagabundo / Miga, a Formiga / Estro

A partir de julho de 2022 os blogs do Senhor da Bruma, assinados por Gil Saraiva, são reunidos em "alegadamente". Os blogs: Estro (poesia), gilcartoon (cartoons) e Desabafos de um Vagabundo (plectro) passam a integrar este blog. Obrigado.

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Desabafos de um Vagabundo: Série II - n.º 4: O Impossível Apenas Demora Mais Tempo

Desabafos SII - 04.jpgDesabafos de um Vagabundo

O IMPOSSÍVEL APENAS DEMORA MAIS TEMPO

Hoje, ao intervalo, a seleção feminina portuguesa de futsal universitário estava a perder contra o Brasil, na final do mundial de futsal universitário feminino, por uns expressivos 5–1. As meninas portuguesas foram para intervalo com o peso da derrota que se anunciava e, nos rostos de cada uma, apenas se espelhava a frustração.

Ninguém sabe o que o treinador Ricardo Azevedo disse às jogadoras no final do primeiro tempo, durante o intervalo. O que sabemos é que o treinador substituiu a guarda-redes, trocando Madalena Galhardo, a número 12, por Ana Pinto, a número 1. Incrivelmente tudo mudou e a quarenta segundos do final da segunda parte Portugal já tinha conseguido marcar dois golos, estando a perder por 5–3 uma vez que Ana Pinto manteve inviolável a baliza nacional.

O quarto golo da equipa portuguesa nesta final do mundial apareceu aos 40 segundos para o final do jogo e o quinto golo, o do empate, chegou, qual filme de ficção, a 1,1 segundos do final da segunda parte, colocando o resultado em 5–5 nesta mirabolante final do campeonato do mundo de futsal feminino universitário. O resultado não se alterou durante as duas metades do prolongamento e a escolha da equipa feminina campeã do mundo de futsal universitário ficou para ser decidida nos penáltis.

A grande heroína desta final foi mais uma vez Ana Pinto que conseguiu defender primorosamente o quinto penálti brasileiro. Com esta defesa Portugal ganhou nos penáltis por 5-4 contra o Brasil. Assim, a equipa feminina de futsal universitário de Portugal consagrou-se Campeã Mundial. Um feito inédito do futsal feminino universitário português. Um resultado construído na garra, na fibra, no muito acreditar destas heroínas inacreditáveis.

Eu, que tenho por lema, que “O Impossível Apenas Demora Mais Tempo” pude ver em direto, graças ao canal 11, o canal da Federação Portuguesa de Futebol, a absoluta e inequívoca confirmação desta minha máxima. É com reverência que tiro o meu chapéu a estas valorosas guerreiras do futsal feminino, um conjunto de estudantes universitárias que elevaram até ao supremo topo o nome do país que representam, o nome de Portugal.

Viva a Seleção Feminina de Futsal Universitário de Portugal. São as campeãs do mundo. Somos todos, mais uma vez, Campeões do Mundo. Caramba! Viva Portugal, porque o impossível apenas demora mais tempo., porque a realidade superou uma vez mais a ficção. Sonhar não paga imposto, acreditar nos sonhos também não e concretizar um sonho é chegar mais alto, mais longe e mais além. Parabéns Seleção, parabéns Portugal, parabéns Seleção Feminina Portuguesa de Futsal Universitário. Viva Portugal!

Gil Saraiva

 

 

 

Desabafos de um Vagabundo: Série II - n.º 3: Adeus Shinzo Abe - A História da Carochinha sobre um Assassinato Político

Desabafos SII - 03.jpg Desabafos de um Vagabundo

Adeus Shinzo Abe

A HISTÓRIA DA CAROCHINHA SOBRE UM ASSASSINATO POLÍTICO

Morreu ontem, tragicamente assassinado pelas costas, com aquilo que se diz ser uma arma artesanal composta por tubos metálicos, o ex-primeiro-ministro japonês, Shinzo Abe, em Nara, enquanto participava na campanha eleitoral do LDP, o Partido Liberal Democrático japonês, relativa às eleições que se realizam, já este domingo, no Japão.

Shinzo Abe, poderia dizer-se também, poderia ter sido, se este assassinato não tivesse ocorrido, eleito o próximo Primeiro-Ministro japonês. Primeiro porque nunca perdeu uma batalha eleitoral e já, por duas vezes, vencera as eleições nipónicas. Segundo porque ele era o homem que pretendia mudar, finalmente, a Constituição japonesa, escrita depois da Segunda Grande Guerra Mundial, pelos ocupantes americanos, tornando obrigatoriamente os japoneses numa nação pacifista, que não podiam utilizar armas nucleares.

A história da Carochinha sobre o assassinato de Shinzo Abe, que está a ser vendida na imprensa nacional e internacional, não passa de areia para os olhos dos analistas políticos a nível mundial.  Segundo esse relato infantil Tetsuya Yamagami, o suspeito do ataque, que terá utilizado uma arma artesanal, tendo sido apanhado pelos serviços de segurança de Abe e entregue polícia, que posteriormente revistou a sua casa, tendo encontrado no local armas semelhantes fabricadas pelo alegado autor. Reza a mesma fábula que Yamagami se encontrava desempregado desde maio. Ainda nos é dito que entre 2002 e 2005 integrou o exército nipónico, no âmbito do serviço militar.

Na minha perspetiva, a história oficial de um homem que se desloca até ao local do crime de comboio, com intensão de matar, ter admitido disparar contra o antigo primeiro-ministro, com uma arma feita em casa por guardar rancor contra uma “organização específica”, cujo nome ninguém divulgou, por acreditar que o antigo líder era um dos membros da dita organização, não tem pés nem cabeça, nem é provável que uma arma artesanal disparada à toa num comício, atingisse mortalmente a vítima no pescoço e no peito com uma precisão profissional. Afirma a mesma versão oficial, apesar disso, que esta foi mesmo a razão pela qual Tetsuya Yamagami matou Shinzo Abe.

Para cúmulo do disparate, para quem acredita neste tipo de conto fantástico, interrogo-me para que é que foi criada no Japão uma monumental task-force composta por 90 pessoas, para investigar o caso? Então o assassino não confessou? A arma do crime não eram uns tubinhos? O caso não está resolvido?

Num dos países do mundo onde a criminalidade é quase irrelevante, onde a própria máfia japonesa evita a todo o custo crimes visíveis no território nacional, onde a Constituição proíbe expressamente a violência, aparece um pacato desempregado, que depois de uma viagem de comboio chega a um comício, aponta dois tubos ao político no palanque, e o consegue matar, pelas costas, com uma precisão diabólica atingindo a vítima no pescoço e no peito. Nem num filme policial de quinta categoria, produzido nas Ilhas Far Away um argumento destes chegava à tela.

Porque é que não nos dizem que Shinzo Abe, que já por duas vezes, num total de 13 anos, levantara a economia japonesa, se preparava para fazer aprovar a mudança da Constituição japonesa, passar a fabricar armas nucleares e a instalar silos no seu território, obrigar a Rússia a devolver-lhe as ilhas japonesas anexadas a quando da Segunda Grande Guerra Mundial, entalando Putin entre a Europa, os Estados Unidos  e o Japão?

Quando as autoridades mundiais concordam em divulgar uma história da Carochinha para entreter a população e a comunicação social, enquanto ocorre, à vista de todos, um assassinato político, friamente calculado, algo vai terrivelmente mal neste mundo. Tenho pena de Tetsuya Yamagami que, com os seus dois pauzinhos para comer arroz, foi acusado de assassinato, mas sinto, com pesar, a morte de Shinzo Abe, mais uma provável vítima do regime soviético. Adeus Shinzo Abe.

Gil Saraiva

 

 

 

Desabafos de um Vagabundo: Série II - n.º 2: Adeus José Eduardo dos Santos

Desabafos SII-2.jpg Desabafos de um Vagabundo:

Adeus José Eduardo dos Santos

Morreu hoje, em Barcelona, mais um ex-ditador da Língua Portuguesa, o antigo Presidente angolano, José Eduardo dos Santos. O homem que governou Angola durante trinta e oito anos e o grande arquiteto não apenas da paz em Angola, mas do seu próprio clã, o clã dos Santos. O seu afastamento do poder foi ditado pela saúde e não pelo raciocínio.

Amado pelos que o rodeavam e odiado por quase todos os outros, liderou sucessivos governos onde reinou a rainha corrupção. Foi esta mesma imperatriz que lhe permitiu criar um império em torno da família. Sendo o rosto mais visível o da sua filha mais velha, Isabel dos Santos, que, durante anos a fio, foi a mulher mais rica de África e uma das mais poderosas do mundo.

José Eduardo dos Santos sucedeu a Agostinho Neto e, quase quatro décadas depois, escolheu João Lourenço para liderar os destinos de Angola em vez de se fazer suceder por um elemento do seu próprio clã. Se o antigo presidente esperava clemência de Lourenço, no respeitante à sua pessoa, esta foi-lhe concedida. Mas o mesmo não aconteceu com o resto do clã. João Lourenço herdou Angola em plena crise petrolífera e necessitava dos fundos desviados pelo clã para repor alguma ordem nas contas públicas.

Na minha pouco romântica perspetiva, a mudança de presidente não terminou com o reinado da corrupção em Angola, longe disso. À primeira vista ela apenas mudou de mãos, sendo que desta vez, os intervenientes estão mais opacos que nunca. Para Portugal tudo continua na mesma. Não importa ao nosso Governo a falta de democracia no país irmão nem mesmo a perseverança da maldita corrupção, apenas desejamos manter forte a relação comercial e o intercâmbio com Angola, porque, se rezarmos à Nossa Senhora de Fátima, um dia, deixará de haver fome nesse país africano de que tanto parecemos gostar.

A hipocrisia do poder tem destas coisas. Mesmo que o canibalismo fosse uma realidade em Angola, que não é, o Governo de Portugal diria que se tratava apenas um fenómeno residual, proveniente de uma cultura ancestral do povo e, em ano de Europeu Feminino de Futebol, chutaria para canto a vergonha de tais práticas, exatamente como faz com a malfadada corrupção. O que importa é manter o status e a influência de Portugal em África, mesmo que para isso se percam os largos milhões de euros do BES Angola. Do alto do seu corta-palha sorridente, Marcelo Rebelo de Sousa, estará novamente disposto a ir distribuir beijinhos e abraços ao povo irmão, se for necessário reforçar mais os laços desta paz podre pós-colonial.

José Eduardo dos Santos morreu hoje, em Barcelona, e Tchizé, uma das filhas do antigo tirano, que já tinha apresentado queixa por tentativa de homicídio do seu pai contra a sua madrasta, Ana Paula dos Santos, e o médico pessoal do líder em coma, é o rosto mais visível do inconformismo. O clã divide-se depois da morte do imperador. Nada voltará a ser como dantes. A história é inflexível no seu percurso e não reza pelos fracos, por muito poderosos que possam ter sido no passado. Durante os próximos dias a nossa comunicação social aflorará ao de leve os defeitos do ditador e do clã, dando largo realce às excelentes e solidarias relações pós-coloniais entre Angola e Portugal. Se algum idiota se lembrar de tentar decretar luto nacional pela morte de um líder da Língua Portuguesa não se admirem em demasia, afinal Camões está morto e as suas cinzas já não se mexem na tumba. Vale tudo para manter o relacionamento. Adeus José Eduardo dos Santos!

Gil Saraiva

 

 

 

Desabafos de um Vagabundo: Série II - n.º 1: Um Adeus a Boris Johnson

Desabafos SII -1.jpgDesabafos de um Vagabundo  

Um adeus a Boris Johnson

Finalmente demitiu-se de líder do Partido Conservador o inconformado, rebelde e inexplicável Boris Johnson. “L’enfant terrible” para já apenas se demitiu enquanto líder do partido, mas continua a ser o primeiro-ministro britânico enquanto é escolhido um sucessor. Pelo menos é isso que o atual Primeiro-Ministro britânico pretende fazer. O homem considerado o responsável máximo pelo Brexit foi, contra a sua vontade, obrigado a sair.

Amado por uns, odiado por outros, Boris Johnson nunca deixou que a sua pessoa fosse indiferente. Longe disso. Venceu na sua luta para tirar o Reino Unido da União Europeia, ultrapassou a crise dramática da Covid-19 em terras de sua majestade. Tornou-se peça chave no apoio europeu à Ucrânia, contra a invasão russa, mas acabou por cair devido aos problemas internos, gerados em catadupa, nos corredores do poder, muito fruto da sua irreverência de vagabundo carismático e irresponsável, ou seja, Boris Johnson, demite-se pelas mesmas razões porque foi eleito, por ser o “l’enfant terrible” da política britânica.

Na minha perspetiva, Boris Johnson nunca foi diretamente responsável pelos factos passados que acabaram por o fazer demitir-se, nem as festas, nem o último escândalo.

Das festas em tempo de confinamento ao seu conhecimento de alegações de conduta sexual imprópria de um deputado antes de o promover para o governo, tudo é apenas resultado do seu feitio balofo, despenteado e totalmente rebelde e irreverente. Era como se o Primeiro-Ministro apenas tivesse de prestar contas a si próprio. Cai assim por motivos de lana-caprina, algo que nunca seria suficiente para causar a demissão um presidente americano, nos nossos dias, conforme se viu com Donald Trump, um outro poderoso balofo como Boris Johnson.

Johnson irá abandonar as rédeas do Reino Unido, com um terço da população britânica infetada pela Covid-19, ao longo de dois anos, e mais de 180 mil mortos provocados pelo vírus. No que respeita às suas relações com Portugal as coisas correram-nos de feição. Os britânicos continuaram a ver assegurados os seus direitos de virem para Portugal viver tranquilamente os anos da reforma, os emigrantes portugueses viram assegurados os seus direitos no Reino Unido e foi assinado, entre os dois países, o maior acordo comercial da história da velha aliança.

O humor mundial sofre um revés, uma vez que Boris era um dos personagens preferidos dos cartoonistas, dos rapazes da “Stand-Up Comedy”, dos comediantes em geral, para dizermos o mínimo. A política externa britânica ficará mais débil, porque o que se perdoava a um “l’enfant terrible” não se perdoará a um político sério. Por colorir a cinzenta política mundial resta-me desejar a Johnson um feliz regresso ao anonimato e pouco mais. Adeus Boris!

Gil Saraiva

 

 

 

Carta à Berta: Registos da Memória - X - Cabo Verde, Ilha do Sal, Cidade de Santa Maria - Mulheres

Sal RM 10.JPG

Olá Berta,

 Oiço muitas vezes em Lisboa falar mal dos cabo-verdianos. Diz-se que têm máfias terríveis, gente ruim e que são dos mais terríveis bandos organizados que existem no nosso país. Não faço ideia se tais acusações têm algum fundo de verdade. Podem ate ter. Porém, desde que tenho memória, nunca me foi dado a conhecer um único cabo-verdiano que corresponda a essa descrição.

Dos meus testemunhos, e já foram muitos, só tenho a dizer deste povo acolhedor, afável, alegre e cheio de vida. Ainda não conheci nenhum que me quisesse mal. Muito menos roubar ou assaltar ou maltratar. Mas isso sou eu e a minha sorte. No entanto, não podia acabar estes registos da memória sobre a Ilha do Sal, sem homenagear esta gente que me acolheu de coração aberto e a quem só tenho que agradecer.

Na azafama de mais um dia em Cabo Verde, a ida ao mercado de ar livre na cidade de Santa Maria, ali, na Ilha do Sal, faz parte dos hábitos de todos os dias. Depois é preciso levar as compras para casa antes de tratar do almoço. Hospitaleiros, afáveis e de uma simpatia contagiosa, os habitantes, homens e mulheres, gostam da interação com quem os visita.

Uns 15 minutos depois desta fotografia estive à conversa com estas cinco ilustres representantes do sexo feminino. Foi uma conversa de quase um quarto de hora e não mais porque as damas estavam com alguma urgência em regressar a casa. Da esquerda para a direita conversei com Melissa e Kiara (presa pelo pano vivo de azul às costas da mãe), e também com Eliane, Luana (ainda na barriga da mãe e a quem desejei um feliz nascimento) e Mayara, a pequenina que completava o grupo.

Fui inclusivamente convidado para o almoço, que declinei, por já ter marcado refeição num dos restaurantes da artéria principal da cidade. A simpatia chegou ao ponto de me informarem que o local que eu havia escolhido não era grande coisa e era caro, sendo mais um sítio para explorar turistas burros. Agradeci os elogios e elas riram todas com gosto. Depois deram-me os nomes das casas onde poderia comer bem, por menos de metade do preço, e seguiram na sua rotina habitual.

E assim termino mais esta carta, minha muito querida Berta, fazendo votos que estes dez pequenos relatos sobre Santa Maria te tenham agradado e deixado com vontade de visitar o arquipélago. Garanto-te que vale a pena. Despeço-me com um abraço virtual, este teu amigo,

Gil Saraiva

 

 

 

Carta à Berta: Registos da Memória IX - Cabo Verde, Ilha do Sal, Cidade de Santa Maria - O "PIRATA"

Ilha do Sal  - Pirata.JPG

Olá Berta,

Não poderia deixar de referir, nestes registos da memória referentes à Ilha do Sal e à cidade de Santa Maria, em Cabo Verde, O Pirata, uma discoteca vestida a rigor e que nos remete para os tempos idos dos aventureiros do mar, das águas, dos oceanos. Se alguma vez fores à Ilha do Sal, minha querida Berta, tira uma noite para te divertires neste espaço. Garanto que não há maneira de te arrependeres de o ter feito.

A casa relembra tempos idos de aventura, viagens e ilustres malfeitores, romanceados na literatura em textos de empenho, valor, coragem e glória. Posso dizer que se trata de uma danceteria, uma discoteca, um poiso para se beber uns copos e abanar o capacete depois do cair da noite que tudo isso é verdade. A decoração deste espaço em Cabo Verde, Ilha do Sal, cidade de Santa Maria, denominada “PIRATA” não se fica apenas pela fachada do edifício.

Com efeito a decoração do interior e as vestes dos anfitriões, bem como de todo o “staff”, tenta, ao pormenor, recriar um passado romântico e aventureiro, de época, ao turista acidental que ali chegue na procura de diversão, dança, música, uns copos, enfim, de uma noite bem passada. As moças bonitas e tisnadas naturalmente pela sua origem crioula, tentam, com   um sorriso cristalino, do tamanho do mundo, trajadas a rigor, levar os visitantes ao consumo, enquanto uns jovens piratas de porte atlético, bronzeado e cativante, fazem o mesmo papel com as damas que ingressam no espaço em busca de dança e alegria.

Por hoje, fico-me alegremente por aqui, ainda com os ritmos mornos de Cabo Verde no espírito, cheio de vontade de regressar ao Pirata. Mas nem sempre a vontade coincide com a capacidade. Presentemente, com esta pandemia, a casa está provavelmente encerrada. Uma pena. Despeço-me com um sereno beijo, este teu eterno amigo,

Gil Saraiva

 

 

 

Carta à Berta: Registos da Memória VIII - Cabo Verde, Ilha do Sal, Praia de Santa Maria - Num Bar da Praia

Gil  2011 Praia de Santa Maria.JPG

Olá Berta,

Como podes ver pela fotografia que acompanha esta carta, que mantém os meus registos da memória de há 10 anos atrás, na Ilha do Sal, junto à cidade de Santa Maria, em Cabo Verde, uma década faz diferença na fisionomia de uma pessoa.

Para já, e enquanto eu não for atacado por nada que me faça perder a memória, ainda me parece que foi ontem que eu estive ali sentado a beber aquela cerveja. O tempo tem destas coisas… passa e nós nem damos por ele passar. É como se, na nossa mente, os momentos, os instantes de prazer o obrigassem a ficar retido num presente que apenas existe no nosso cérebro e em mais lugar algum.

Se fechar os olhos, depois de olhar esta fotografia, este ali ainda sou eu, tal e qual como no dia em que foi captada a imagem e, no entanto, já lá vão 10 anos. Esta magia do tempo sentido e do tempo passado sempre me fascinou. Eu continuo adepto ferrenho o tempo sentido a que costumo chamar de instante, momento ou registo da memória. Recordar não me magoa, dá-me novo vigor.

A testa a querer franzir denota a ligeira preocupação de que a fotografia me roube, por pouco que seja, a maravilhosa sensação de estar acompanhado pela felicidade. Um trago de cerveja, o corpo quente, a mente entregue à paisagem, sem outras preocupações que não a do receio daquela máquina fotográfica, num tripé sem sentimentos ou emoções dignas de registo. Não me parece aceitável que ela queira partilhar comigo aquela liberdade simples de me sentir feliz e sem problemas. Paranoia, acabo por pensar, num clique, ela deixa de estar ali, assim presente. Apesar de tudo, quem tem a cerveja sou eu.

Termino, por agora mais uma carta, minha querida Berta, espero que te tenha agradado, pelo menos do mesmo modo que ela me fez, com um sorriso no pensamento, mais uma vez, alguém de bem com a vida e feliz. Fica o beijo da despedida, deste teu grande amigo,

Gil Saraiva

 

 

 

Carta à Berta: Registos da Memória VII - Cabo Verde, Ilha do Sal - O Areal de Santa Maria

O Areal de Santa Maria.JPG

Olá Berta,

Mais uma vez continuo nas férias de Cabo Verde, no caso o registo é de 2011, há uma boa década atrás. Estes registos da memória ficaram gravados porque é difícil para mim, na maioria das vezes, identificar-me com um local e nele me sentir em total harmonia. Porém, nesta ilha quase que perdida a meio Atlântico sinto-me sempre revestido de uma felicidade adicional. Mas vamos ao tema de hoje:

Mais do que a memória que fica de uns dias passados num qualquer paraíso, a areia clara e quente da Praia de Santa Maria, na Ilha do Sal, em Cabo Verde, com a linha de palmeiras e casario baixo a delimitar o acesso ao interior, transmite paz, plenitude, harmonia e beleza. Na serenidade dos colmos que nos oferecem uma parca sombra, tudo parece disposto na perfeição. As marcas na areia registam pegadas de passeios serenos, múltiplos, infindos.

As cadeiras prontas para receber os corpos ávidos de Sol parecem gotas de água a lembrar-nos que, nas nossas costas, se encontra um Atlântico de um azul sem fim, com recortes de anil até tonalidades de cristal ou mar profundo. Tudo aqui se conjuga na procura singular de nos relaxar o corpo e afagar a mente.

Espero que a imagem que junto na ilustração desta carta faça a devida justiça ao que ainda tenho na memória quando, vista pelos teus olhos, a puderes observar. Por hoje, já saudoso, despeço-me com um beijo forte entre amigos de velhos tempos,

Gil Saraiva

 

 

 

Carta à Berta: Registos da Memória VI - Cabo Verde, Ilha do Sal - O Velho Calçadão de Santa Maria

Ilha do Sal Calçadão de  Santa Maria.JPG

Olá Berta,

Cabo Verde, mais concretamente a Ilha do Sal, tem uma magia que eu nem sei bem explicar. Espero que nestes meus registos da memória te consiga transmitir minha querida amiga o que senti naquela terra que adoro.

Acompanhando os seus primeiros resorts turísticos, junto à cidade de Santa Maria, na Ilha do Sal, em Cabo Verde, o velho calçadão é local de passeio, de luz, de Sol, de praia, de oceano que se estende até ao infinito, de palmeiras que resistem ao tempo em que a água potável se torna recurso escasso e valioso. Aqui e ali, artistas locais vendem óleos deste céu e deste mar, por entre as vestes garridas das gentes e do casario baixo, também ele pintado de cores vivas como a gente que as habita.

O velho calçadão pode não ter a imponência moderna do novo, mas não lhe fica atrás na beleza do circuito. Inspira facilmente poetas e escritores, no seu desenrolar calmo até à urbe, indicando aos turistas onde passear, comer, beber ou escutar a morna que sempre toca em algum lugar. De um dos lados os candeeiros de rua fazem fila, prontos a iluminar nas noites os veraneantes que desejem sentir a brisa tépida da beira-mar. São como que os guardiões do velho caminho gasto pelos passos de quem por ali se cruza apressado, meditativo ou em passeio. Há locais assim, no mundo inteiro, locais onde de dia e noite passeia a paz.

Espero que mais esta pequena narrativa te tenha agradado. Neste primeiro registo aqui irei deixando para ti dez imagens deste paraíso na Terra. Despeço-me, por hoje, com um enorme abraço,

Gil Saraiva

 

 

 

Carta à Berta: Registos da Memória V - Cabo Verde, Ilha do Sal, Santa Maria - Beira Mar em Odjo d'Água

Cabo Verde Sal Praia Odjo d'Água.JPG

Olá Berta,

Espero que os meus Registos da Memória sobre Cabo Verde, mais propriamente sobre a Ilha do Sal e a Cidade de Santa Maria te estejam a agradar. Hoje deixo-te um registo da beira mar em odjo d’água.

De dia, vista de um dos patamares do Resort Hoteleiro de Odjo d’Água, a praia esconde a mística que se vislumbra em noites de Lua Nova. Aliás, o pequeno cabo em arco, relembra mais um recanto do paraíso do que qualquer coisa que nos reporte aos mistérios ancestrais destas ilhas africanas de Cabo Verde, das quais Santa Maria é apenas mais um delicioso exemplo. Até os telhados ornados em tons lilases das buganvílias nos parecem transportar para um recanto do paraíso, dedicado à adoração dos deuses do Sol e do Oceano.

Na verdade, o pequeno Resort Hoteleiro de Odjo d’Água, nascido das ruínas ancestrais do velho Farol de Vera Cruz, pelas mãos de um empresário autóctone, de seu nome Patone Lobo, tem por missão transpirar, para quem o visita ou nele se aloja, o esplendor da cultura africana e cabo-verdiana, com temáticas alusivas em cada quarto, no bar, no restaurante, nas esplanadas e até mesmo junto à praia. Feito em socalcos sobre o promontório, a fonte que dá origem ao nome de Olho de Água, tem uma singela dama de branco na frente de um enorme pote de barro, de onde brota infinita uma cristalina água sempre corrente.

Por hoje é tudo, recebe a despedida deste teu amigo, amanhã continuarei com os meus registos de outras férias bem passadas, beijo grande,

Gil Saraiva

 

 

 

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