Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Carta à Berta

Carta à Berta é o local dos Desabafos de um Vagabundo, do Senhor da Bruma, essa bruma a que chamam de internet, de um Haragano, o Etéreo, qual cavalo selvagem que galopa entre cartas alegadamente, quiçá, sem fundamentos.

Carta à Berta é o local dos Desabafos de um Vagabundo, do Senhor da Bruma, essa bruma a que chamam de internet, de um Haragano, o Etéreo, qual cavalo selvagem que galopa entre cartas alegadamente, quiçá, sem fundamentos.

Carta à Berta: Série: Quadras Populares Sujeitas a Tema - 13) O Ambientalista

Berta 102.jpg

Olá Berta,

Terminou, organizado pela ARS alentejana, sob a égide do Serviço Nacional de Saúde, na Universidade de Évora, a Conferência Internacional – Envelhecer em Segurança no Alentejo. Compreender para Agir. Mas depois, mais especificamente, a temática perde o pendor regional que a embebia para se voltar para os problemas de como prevenir as quedas e a violência sobre idosos.

Devo confessar que quando li “Compreender para Agir” pensei orgulhosamente que estava, o nosso pouco abonado Serviço Nacional de Saúde, a investir realmente sobre uma região onde o idoso precisa efetivamente que se aja. Aliás, seria natural que a Conferência nos apresentasse um rumo, com diretrizes determinadas sobre como intervir no seio do Alentejo junto dos idosos, muitas vezes totalmente isolados e sem meios ou qualquer tipo de apoio. Após Conferência, portanto, veríamos o fruto dessa reflexão resultar em medidas concretas, a implementar pela Administração Regional de Saúde do Alentejo, no terreno.

Porém, enganei-me redondamente. No final do programa, uns dizeres, nas referências, incluíam a palavra FEDER. Foi aí que todo o meu castelo desmoronou. Aquilo a que pomposamente se chamara de “Conferência Internacional – Envelhecer em Segurança no Alentejo, Compreender para Agir”, mais não era que a reunião de algumas personalidades pagas a peso de ouro, por fundos comunitários, para se deslocarem a Évora e se ouvirem entre si, a falar sobre idosos. Pior, a parte do “Compreender para Agir” apenas serviu para uma apresentação por parte da ARS alentejana do que já estava previamente traçado para a região.

Assim sendo, não só não compreenderam as especificidades da realidade alentejana na terceira idade, como dali jamais resultará qualquer ação prática em benefício dos alentejanos, muito menos da sua população sénior. A batelada de euros gastos neste evento, pagamentos de participação aos ilustres oradores, mais deslocalização (incluindo deslocação, horas extras, compensações de interrupção do trabalho normal, entre outros extras que sempre se inventam) e ainda a hospedagem dos mesmos, para além dos fundos pagos à Universidade pela cedência de espaço, infraestruturas e staff, etc., serviu unicamente os interesses dos oradores e organizadores do evento.

Tudo bem pago pelos contribuintes europeus para botar discurso e se masturbarem mentalmente, em conjunto, numa orgia filosófica de grupo fechado. A minha revolta quanto a estas ações subsidiadas pelo tal de FEDER é tal que só me apetecia mesmo mandá-los a todos FEDER.

Desculpa o desabafo, minha querida amiga, mas este tipo de coisas, em que se usa uma população necessitada, para unicamente masturbar ilustres personalidades, irrita-me solenemente. Se querem bater uma ou duas que o façam na privacidade dos seus lares, sem recurso aos fundos de todos nós. É pornográfica toda a situação e, portanto, revoltante.

O melhor é regressarmos às nossas quadras sujeitas a mote e ao desafio que me lançaste. O tema de hoje é o ambientalista. Um mote muito em voga, na crista da onda, que muitas vezes serve mais interesses ocultos do que o ambiente em si. Mas vamos lá à minha quadra:

 

Série: Quadras Populares Sujeitas a Tema - 13) O Ambientalista.

 

O Ambientalista

 

Proteger o ambiente

Está na moda outra vez,

Mas ainda há muita gente

Que diz que faz, mas não fez.

 

Gil Saraiva

 

Com esta quadra me despeço, por hoje, com a mais elevada estima e carinho, este teu amigo do peito,

Gil Saraiva

Carta à Berta: A População Portuguesa – Perspetivas

A População Portuguesa – Perspetivas.jpg

Olá minha querida Berta,

Acabei de reparar que esta já é a vigésima carta que te escrevo. Sabes o que isso significa? Quer dizer que te foste embora há já duas dezenas de dias. Não ligues aos arrufos deste que sente a tua falta. O importante é que estejas bem e feliz.

A novidade de hoje é a divulgação dos dados do INE, Instituto Nacional de Estatística, relativos a 2018, no que à evolução da população diz respeito. A conclusão continua desfavorável uma vez que a população existente continua a decrescer. As estatísticas do organismo são claras, Portugal perdeu mais 14 mil habitantes, face a 2017.

Não sou muito daqueles que gosta de jogar com os números para dizer barbaridades, uma vez que estes podem ser usados e interpretados de forma a ajustarem-se áquilo que defendemos. Porém, por estar curioso, resolvi comparar os dados dos últimos 20 anos. Estava com interesse em saber realmente o que se passou com a população desde os últimos 2 anos do século passado até 2018. Afinal, 20 anos é um quinto de século. Uma boa amostragem para podermos avaliar tendências. Fiquei satisfeito por saber que, arredondando as contas na casa dos milhares de pessoas, temos mais 58 mil residentes em 2018 (face a 1999). Infelizmente a minha satisfação ficou por aqui, todos os outros números são desastrosos seja qual for a perspetiva.

Atualmente, dos zero aos 24 anos, tendo o país mais 58 mil habitantes do que há 20 anos, perdemos 705 mil crianças e jovens. Uma verdadeira tragédia geracional. Passámos de 3 milhões e 74 mil jovens para 2 milhões 508 mil jovens abaixo dos 25 anos de idade, ou seja, em apenas 20 anos, desapareceram 22,4 porcento das crianças e jovens do país, em linha consonante com o que aconteceu entre 74 e 99..

Se este número se vier a repetir nos próximos 20 anos, chegaremos a 2038 com apenas 1 milhão 377 mil crianças e jovens até aos 24 anos, ou seja, em idade escolar. O que implicaria uma redução superior a 43 porcento desta faixa populacional. Agora se extrapolarmos isto para um igual período de tempo até 2078, a população escolar dos zero aos 24 anos existente em Portugal seria de apenas 459 mil indivíduos dos 0 aos 24 anos e estaríamos à beira da extinção enquanto povo.

Mas a coisa não melhora quando olhamos para a terceira idade, ou seja, para a população com 65 ou mais anos. Em 20 anos, até 2018 esta faixa etária aumentou em 601 mil idosos, qualquer coisa como mais 27 porcento de idosos do que em 1999. Isto aponta, se a tendência não se alterar no próximo ciclo de 20 anos, para mais um milhão e 202 mil seniores, um aumento de 52 porcento face a 1999, passando a constituir esta faixa etária um terço da população nacional em vez de um quinto que representava em 1999, ou seja, se nada for feito em 2078 os habitantes em Portugal seniores serão mais de 2 terços da atual população, atingindo o número absurdo de 6 milhões 912 mil.

Esta barbaridade absoluta colocaria a população ativa entre os 25 e os 64 anos com apenas 2,45 milhões de pessoas, tudo isto tendo em consideração que a população se mantem na casa dos 10 milhões de residentes, como nos últimos 20 anos, ou seja, o mesmo seria dizer que cada pessoa a trabalhar teria de suportar, com os seus impostos e com o seu vencimento 1 jovem a estudar e 3 pensionistas reformados. Algo absolutamente impraticável.

Pois é Berta, e este é o cenário favorável em que a população envelhece, mas se mantém estável em termos globais, porque, se a dada altura começar a decrescer face à constante diminuição de população jovem, então tudo se precipitaria não para daqui a 60 anos, mas para daqui a 30.

Não penses, minha amiga, que entre o 25 de abril de 1974 e 1998 a situação foi diferente, a única diferença foi que crescemos nesses anos quase 2 milhões em população por força do regresso dos emigrantes e graças aos retornados das ex-colónias. Mas nem isso mascarou o cenário horrível que tem assolado Portugal. Em 74 quase 50 porcento da população estava em idade escolar, eram perto de 4 milhões de crianças e jovens até aos 24 anos para 8 milhões e picos de população. Agora são 2,5 milhões na casa até aos 24 anos para mais de 10,275 milhões de habitantes, ou seja, perdemos 50% da nossa juventude em 44 anos.

É prioritário que o Estado tome medidas efetivas imediatamente, é impossível que eu seja o único a olhar para estes números. Aliás isto requer como nunca, a união esmagadora dos partidos com acento parlamentar numa política concertada de combate ao envelhecimento sem a contrapartida de um aumento gigantesco da natalidade. A gravidade dos números aponta para que sejam tomadas medidas ontem, porque amanhã poderá já ser demasiado tarde para reverter a situação.

Deixo-te um beijo saudoso, deste teu grande amigo que não te esquece,

Gil Saraiva

Mais sobre mim

foto do autor

Sigam-me

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

Em destaque no SAPO Blogs
pub