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Carta à Berta

Carta à Berta é o local dos Desabafos de um Vagabundo, do Senhor da Bruma, essa bruma a que chamam de internet, de um Haragano, o Etéreo, qual cavalo selvagem que galopa entre cartas alegadamente, quiçá, sem fundamentos.

Carta à Berta é o local dos Desabafos de um Vagabundo, do Senhor da Bruma, essa bruma a que chamam de internet, de um Haragano, o Etéreo, qual cavalo selvagem que galopa entre cartas alegadamente, quiçá, sem fundamentos.

Carta à Berta: Livro - O diário Secreto do Senhor da Bruma - Os Primeiros Apontamentos - I.7

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Olá Berta,

O “Diário Secreto do Senhor da Bruma” continua a sua análise da Teoria do Suicídio. Ao fim ao cabo, quem se quer matar tem todo o direito de o fazer com a máxima segurança e com a consciência plena daquilo em que se pretende envolver.

Afinal, caso seja bem-sucedido não é propriamente fácil conseguir voltar atrás. Há que ter todas as certezas, por forma a evitar falhas clamorosas que nos podem, dependendo da sua gravidade, acabar por nos deixar vivos e pior ainda dependentes da boa vontade e paciência de terceiros. Um verdadeiro pesadelo, se queres que seja franco, minha querida Berta. Sem perder mais tempo aqui fica mais uma análise:

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I

Os Primeiros Apontamentos (final - I-7)

Fevereiro, dia 7:

A Teoria do Suicídio – Métodos e Processos:

213) Escute atentamente, durante 15 minutos, um debate político entre Ventura e Chicão. De seguida tente imaginar um país governado por estes 2 indivíduos. Se dez minutos depois ainda não sentir que vai morrer de vergonha por ter esta gente como líderes de partidos ditos democráticos, porque elegeram deputados numa democracia, que ainda por cima é a nossa, relaxe. Você não tem qualquer tendência para o suicídio. Esta experiência não tem validade prática se testada em idiotas, cretinos, malfeitores, criminosos, xenófobos, racistas, homofóbicos, pedófilos ou outros insetos.

Fevereiro, dia 8:

203) Tome um veneno eficaz para morrer e parta em paz. Todavia, antes de o fazer recomendo 3 passos essenciais. Depois de os ter seguido de um modo preciso e rígido terá a certeza de que tomou, sem dúvida alguma, a opção mais acertada.

1) Na escolha do tal veneno infalível, depois da sua pesquisa profunda sobre qual a melhor opção, informe-se meticulosamente de todos os seus efeitos. Não apenas enquanto tempo o vai matar ou as dores que sentirá quando este começar a fazer efeito, mas, também, o que acontece pela toma, a cada um dos seus órgãos internos. Depois tente averiguar a forma como essa poção afeta o seu corpo sem vida, isto é, se retarda o apodrecimento dos órgãos ou se pelo contrário o acelera, que tipo de bicharada atrai e assim por diante. Já agora tente descobrir quanto tempo poderá levar até só restar de si cinza ou pó.

Fevereiro, dia 9:

2) De seguida faça um demorado estudo comparativo entre o veneno escolhido e os outros, que, entretanto, tinha relegado para segundo plano, pelo menos avalie mais outros 9. Verifique igualmente qual é a margem de erro do seu veneno. Se o fizer pode descobrir que apenas fulmina 80 ou 90% das vítimas e que as outras acabam por ficar em estados mais ou menos vegetativos, deficientes ou dolorosos para o resto da vida. Tem de ter a certeza que isso não acontece consigo.

Fevereiro, dia 10

3) Pense aquilo que sentirão, pensarão e dirão de si amigos, colegas, parentes, familiares próximos e, não esqueça de avaliar também os mexericos dos inimigos.

3.1) Se, no final de tudo isto, ainda se mantiver resolvido a suicidar-se pelo método 203, não se atreva a dizer que teve o meu apoio. Apenas acho que, enquanto pessoa, você não passa de uma vulgar beterraba, com sabor a nabo e um absurdo cheiro a alho.

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Não entendo, minha querida Berta, porque é que alguém há de querer terminar com a sua própria vida, a não ser em casos absolutamente extremos de doença e dor. Mesmo esses só os considero aceitáveis se forem irreversíveis.

Contudo, para meu espanto, a teoria do suicídio é um tema que parece despertar interesse no seio de algumas camadas mais jovens da população. É claro que não vou dizer, como os meus pais diziam, ou seja, que os valores estão todos em decadência. Pelo contrário, acho que muitos deles melhoraram incrivelmente, de tal modo, que alguns deles são direitos, enquanto antes eram meras ideias de alguns idealistas. Tempos estranhos estes em que vamos vivendo, muito estranhos mesmo.

 

Por hoje é tudo minha adorada amiguinha. Espero que tudo continue bem por esses Algarves e que tu, principalmente, continues de saúde e alegre. Despede-se este que te considera e admira, com um beijo terno, sempre ao teu dispor, caso precises,

Gil Saraiva

 

 

Carta à Berta: A Teoria do Amor - Parte III - Viagem Para o Paraíso

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Olá Berta,

Desculpa ontem ter enviado 2 cartas, mas tive que desabafar. Há coisas que não devem ficar para o dia seguinte. Sei que não te importas destes pequenos abusos da minha parte, mas mesmo assim, por seres a amiga que és, acho que fica bem uma justificação.

Mando-te a terceira parte do poema que te tenho enviado aos poucos porque, ao fim ao cabo, são 4 poemas num só. Não quero que apanhes um enjoo de linguagem poética. Assim, aos poucos digeres melhor. Aqui vai:

 

"OS OUTROS - TRAGÉDIA EM QUATRO ATOS"

 

                   III

 

"VIAGEM PARA O PARAÍSO"

 

Perante os migrantes vindo do Oriente,

A Europa justa vai abrir os portões,

Dizem os líderes da União Europeia,

Criam cotas, repartem apoios, vão à televisão…

Mas a verdade esconde-se, abriga-se,

E o que se fala nada quer dizer, nem tem tradução;

Mas todos prometem intenções tão boas,

Numa teoria que jamais será Tese, Lei ou Saber.

 

Aceitam milhares, dizem os jornais,

Mas fazem-se muros, que é farpado o arame,

Entram meia dúzia, um pouco mais, mas de pouco não passa,

A custo, a medo, que a vergonha não esconde a cara…

 

Impera o cinismo, dizem que é cedo,

Mas para os migrantes o tempo parou,

E tentam entrar de qualquer maneira nessa Europa

Onde solidariedade se escreve a borracha,

Onde esperança é palavra oca que o vento varreu…

 

Por entre os milhares, fugidos da Síria curda,

Entre fome e sangue, entre dor, pânico e sobrevivência,

Uma família que o lar perdeu na perdida Kobane,

Já na Turquia, procura uma forma de chegar à Grécia, a Kos,

Nem terra, nem ar, que apenas o mar é solução…

 

E ali, em Bodrum, a dois passos da Europa,

Um casal com dois filhos decide arriscar,

Um entre os milhares que já são milhões.

 

Da praia de Ali Hoca partem de barco feito borracha

Que apaga vidas…

Onde cabem dez viajam cinquenta,

E dá-se a tormenta, o naufrágio, mais um,

Sobrevive o pai, sucumbe a mãe e as duas crianças,

De três e cinco anos que a idade é tenra

Mas a morte não.

 

A viajem acaba, como começou, em calamidade,

Igual a tantas outras que a precederam,

E assim chegaram, todos ou quase, por fim, finalmente,

A um paraíso que não tem país.

 

Sabes, minha amiga, costumo dizer que a maior sorte que tive em toda a minha vida foi ter nascido em Portugal. Para esta gente que nasceu nestes lugares, para onde o inferno tem os portões abertos, sobreviver já é uma aventura. Quando penso nisso e nos meus problemas acho que reclamo de barriga cheia.

Deixo-te um beijo de despedida, com as saudades que imaginas deste teu velho amigo de sempre,

 

Gil Saraiva

Carta à Berta: A Teoria do Amor - Parte I - Almas Gémeas

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Olá Berta,

Espero que o dia te esteja a correr de feição. Pelo que li nas notícias o clima tem estado favorável e ameno em quase todo o país. Até o vento virou brisa, que sopra apenas para pentear as árvores, as que mantêm a folhagem o ano inteiro, como se as quisesse compensar das maldades dos últimos 15 dias em que andou depressivo.

Pelo que me disseste, ao telefone, queres aproveitar estes meus momentos de boa disposição, de maior sensibilidade e de mais alegria, para saberes o que eu penso sobre o amor. Ora bem, minha amiga, não sou de grandes teorias nesse campo, aliás, prefiro sem qualquer dúvida dar provas dele, quando tal se mostra necessário, do que me pôr com majestosas dissertações sobre o tema. A outra alternativa que uso, na aproximação a este tópico, é a poesia.

Contudo, não sou pessoa de virar costas aos desafios, ou de mudar de assunto sem dizer o que penso e avançar com uma opinião porque, quando me pedem uma abordagem sobre algo, é por realmente haver curiosidade em saber o que eu penso sobre esta ou outra problemática, qualquer que ela possa ser. No caso concreto, eu até tenho uma teoria bem definida e sou dos que pensam que os géneros feminino e masculino têm diferentes formas de atingir esse sentimento. Porém, embora seja um processo em constante evolução, não deixa de ser a minha Teoria do Amor.

TEORIA DO AMOR

Parte I – AS ALMAS GÉMEAS

A) Noção. Objetivo. Quantidade. Busca. Caminhos. Alvos.

1) Noção: o que é uma alma gémea e quantas existem? Segundo a minha teoria, que contraria o pensamento corrente de que: para cada pessoa apenas existe uma outra que, se descoberta atempadamente, pode ser a sua alma gémea, eu penso exatamente o oposto. Vamos por partes.

2) Objetivo: uma alma gémea é aquela pessoa com a qual podemos partilhar uma existência, em total harmonia, sentindo-nos envoltos numa espécie de casulo de perfeita simbiose e entendimento.

3)Quantidade: Cada ser humano tem no mundo cerca de 155 mil e 62 almas gémeas possíveis. Mas este não é um número para se reter.

a) Busca: com efeito, há que ter em conta o universo de cada um, a área geográfica que se cobre durante a vida e os fatores externos.

b) Caminhos: dou-te uns exemplos: as diferentes histórias locais, regionais e nacionais, os fatores culturais, políticos, religiosos, sociais, sociológicos, antropológicos e mais o facto de a disparidade de idades entre 2 almas gémeas só excecionalmente ultrapassar os 20 anos de diferença entre elas, faz com que a quantidade de almas gémeas possíveis de entrar seja, de facto bastante mais reduzido.

4. Alvos: tudo contabilizado, e escuso-me de te aborrecer com os algoritmos usados, permite-me concluir que apenas temos 10 almas gémeas durante a nossa vida para descobrir.

B) Para que servem?

1) Exemplos: nada melhor do que exemplificar para se explicar esta questão: Cada parafuso tem um tipo de porca que lhe serve na perfeição. Quando me refiro a um “tipo” não estou a dizer que é apenas uma, podem ser várias. No caso das almas gémeas estas são anilhas de rosca dificílimas de encontrar.

2) Resultado: quando se encontram, rosca e parafuso, formam um par funcional perfeito, na compreensão, no carinho, no respeito mútuo, na solidariedade e mais importante que tudo, no amor que sentem de forma mútua e absoluta.

C) O que é o Amor na perspetiva das Almas Gémeas?

O Amor é o conjunto de vivências partilhadas por 2 almas gémeas, desde o momento em que se encontram pela primeira vez até que se separem. Se forem almas gémeas puras a separação apenas acontece com o falecimento de uma das 2.

D) Como se distingue uma alma gémea pura de uma impura?

1) Alma Gémea Pura: aquela que só se separa do seu par única e exclusivamente se este morrer.

2) Alma Gémea Impura: trata-se de uma falsa alma gémea. Muitas vezes o par confunde atração, arrebatamento, paixão, frenesim, entusiasmo, até sexo, com a compatibilidade absoluta entre 2 almas gémeas. Mas, ao fim e ao cabo, no final descobrem (uma delas ou ambas), que tudo não passou de um enorme erro de casting e nada mais.

Gostaste, Berta? Esta é a primeira parte da minha teoria do amor. A que explica as almas gémeas em si mesmas. Quantas há, quais as hipóteses de se encontrarem e o que é preciso para que tudo resulte. Na carta de amanhã, envio-te a segunda parte da minha teoria. Nessa vou-te responder à questão: o que é o amor? Será uma resposta num sentido bem mais lato que que aqui expliquei. Uma resposta sem pontos nem alíneas, apenas com alguns parágrafos, para que entendas o que penso sobre o tema.

Deixo-te um beijo, saudades e muito carinho, este que não te esquece,

Gil Saraiva

 

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