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Carta à Berta

Carta à Berta é o local dos Desabafos de um Vagabundo, do Senhor da Bruma, essa bruma a que chamam de internet, de um Haragano, o Etéreo, qual cavalo selvagem que galopa entre cartas alegadamente, quiçá, sem fundamentos.

Carta à Berta é o local dos Desabafos de um Vagabundo, do Senhor da Bruma, essa bruma a que chamam de internet, de um Haragano, o Etéreo, qual cavalo selvagem que galopa entre cartas alegadamente, quiçá, sem fundamentos.

Rosa Mota versus Rui Moreira e Super Bock: Parte II

Rui Pilatos.JPG

Olá Berta,

Não era para te escrever hoje, mas, a questão que envolve a campeã olímpica, Rosa Mota, a marca de cerveja Super Bock, por intermédio da empresa proprietária da bebida, a Super Bock Group, e a Câmara do Porto, liderada pelo autarca Rui Moreira, continua sem mostrar sinais de diminuição no que concerne à polémica, não existindo qualquer abrandamento ou cedência de posição por entre aqueles que defendem cada um dos intervenientes e as opções e atitudes por estes escolhidas.

Os doutos defensores do ataque à posição de Rosa Mota, veem agora acusar a atleta por ter o seu nome associado ao consumo de cerveja e, por tabela, a uma bebida, por a atleta fazer parte da Confraria da Cerveja. Porém, digam lá estes cérebros o que disserem, uma coisa é, em termos estritamente pessoais uma pessoa estar associada a uma bebida, porque até gosta de a consumir na privacidade da sua vida, outra é, enquanto atleta, ver o seu nome misturado com uma marca alcoólica no seu pavilhão desportivo (“seu”, enquanto detentor do nome da desportista), ou será que Rosa Mota aparece equipada para correr a maratona, enquanto atleta, por entre os capotes dos confrades nas reuniões? Eu diria que esta é uma diferença bem superior à que existe entre a água e o vinho.

Todavia, outros ainda afirmam que existe uma publicidade da TAP, lançada no tempo da Maria Cachucha, na qual Rosa Mota, faz o papel de hospedeira e onde é filmada a entregar miniaturas de garrafas de Vinho do Porto, a pessoas que representam os passageiros. Ora, esta defesa dos “Superboqueiros Camarário-parvos” não faz o menor sentido. Primeiro, a publicidade é à TAP e não ao vinho, segundo, um dos papeis das hospedeiras passa pela entrega de bebidas aos passageiros e, certamente, o Vinho do Porto pagou para aparecer. Terceiro, duvido que o guião previamente entregue a Rosa Mota esclarece-se que isso iria acontecer, precisamente dessa forma, ou que tivesse um papel relevante (que não teve) no conjunto de toda a publicidade que constitui o anúncio. O que Rosa Mota estava a publicitar era a capacidade da equipa de bandeira em bem receber aqueles que transporta e não a demonstrar quão fácil seria transformá-los em bêbados perus de Natal.

Contudo, este espernear de pernas ou patas, não sei bem qual é o caso, traduzido pela busca minuciosa de situações que provem que Rosa Mota escapa por pouco  a fazer parte dos Alcoólicos Anónimos é de toda ridícula, mas demonstra, por outro lado, que alguém anda a gastar muito dinheiro em defesa das posições tomadas quer pela Câmara de Pilatos, quer pelos glutões da Super Bock. Espero bem que não seja o Rui Pilatos, pois nesse caso o dinheiro gasto a denegrir a atleta é de todos nós e eu, pela minha parte, não o admito.

Além disso, nas 2 situações que acima te descrevo tudo não passa de uma forma desajeitada de se tentarem misturar alhos com bugalhos, o que, não fosse a persistência desta gentinha, nem deveria ter merecido os comentários que te envio. Porque será que nem a Câmara nem a Cervejeira reconhecem o erro e o reparam? Só há uma razão possível: O dinheiro fala mais alto do que a honra, a palavra e a verdade!

Aliás, aproveito o facto para esclarecer aqueles que, usando o anonimato, atacam a Carta à Berta, no meu blog, alegadamente.blogs.sapo.pt, através de comentários, maioritariamente anónimos, que o blog só publica os pontos de vista concordantes com a posição política, social ou estética tomada no mesmo, não dando direito a contraditório naquilo que é um espaço de alegada opinião restrita e específica. Escusam por isso de continuar a espernear sobre o assunto neste local, ocultos no manto do anonimato, que por aquelas bandas jamais vos será atribuída voz.

Aliás, nada do que é referido anteriormente tem qualquer importância. O relevante aqui é saber se o Presidente Rui Pilatos Moreia pela Calada, faltou ou não à palavra dada, ao seu compromisso para com a atleta, que não precisa de respeito apenas pelo facto de ser atualmente uma sexagenária sénior da nossa sociedade, mas, principalmente, pela elevação do orgulho de se ser português, de que é total responsável, aos píncaros olímpicos mundiais.

Na sua frenética lavagem de mãos o referido Pilatos alega ainda não estar a par das conversações entre a atleta e a Super Bock, como que a insinuar que a atleta possa ter vendido o seu nome, secretamente, em troca de dinheiro ou de 2 grades de minis, à cervejeira, sem ter dado conhecimento do facto à entidade responsável pelo nome do pavilhão e agido mesmo à sua revelia. É neste ponto que o edil assume o papel de um personagem da BD chamado Grão-Vizir Iznogoud, um maléfico, dissimulado e ignóbil governante que queria ser Califa no lugar do Califa, criado pelo génio do falecido artista Jean Tabary, que aqui adaptei para a imagem ilustrativa desta carta que te envio, minha querida Berta. Neste caso, é mais uma questão de faltar à palavra dada, de esconder que se faltou ao prometido, de limpar uma imagem a todo o custo nem que para isso se seja badalhoco com outra pessoa que é um símbolo nacional.

Lembrando outras bandas desenhadas, considero que ao contrário das histórias de Spirou, não há “Refúgio para esta Moreia”. Desculpa o desabafo deste vagabundo que em tudo o que diz apenas faz afirmações alegadamente corretas, porém, ou muito me engano, ou este tema ainda me fará gastar mais um ou outro desabafo contigo.

Despeço-me com o carinho do costume, sempre saudoso. Recebe um beijo deste teu amigo do peito,

Gil Saraiva

O Tabaco e o Álcool

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Olá Berta,

Esta carta é mais um dos meus desabafos contigo. Estava a ler as outras que te enviei (sim, eu guardo uma cópia) e reparei em algo que escrevi, mas ao qual, nessa altura não dei relevância. Foi aproposito de o álcool matar mais gente em Portugal do que o tabaco, lembras-te?

Quando fiz a afirmação, nessa carta, foi porque me recordei de uma notícia de 2018 que tinha lido num qualquer jornal nacional. Para o caso não importa qual. O que é interessante é que depois de pensar no assunto achei que me devia ter enganado redondamente.

“Porquê?” Perguntas tu. Bem, porque se assim fosse certamente o Governo, que é tão moralista no que ao fumo diz respeito, tão preocupado com a saúde pública, tão pronto a encher de impostos, de imagens horríveis, de proibições de locais onde se pode e não pode fumar, de imposições de frases nos próprios produtos de consumo… certamente o Governo, dizia eu, já estaria a fazer o mesmo com o álcool, fosse este cerveja, vinho, bebidas espirituosas ou brancas, fosse lá o que fosse.

Ora, não é caso. Pois bem, se o Estado não ataca quem bebe da mesma maneira que o faz com quem fuma então, a notícia do jornal estava errada ou tinha uma gafe monumental e eu enganei-te sem o querer fazer. Não gosto de te dar falsas informações quando tu és a minha única confidente. Uma coisa é falar alegadamente de um certo assunto, outra é mentir mesmo com desconhecimento do ato. Devia ter ido verificar se o que estava a afirmar era confirmado por outras fontes. Mas não o fiz. Pronto a emendar o meu erro nesta carta, lá fui eu verificar o tema através da web, percorrendo todos os sites oficiais que consegui encontrar, bem como as notícias que durante os últimos 2 anos saíram sobre o assunto.

Para meu enorme espanto, não só a notícia é verdadeira como o álcool cada vez mata mais gente do que o tabaco. Pelo que averiguei foi em 2015 que o álcool apanhou o tabaco no número de vidas que ceifa alegadamente por ano. Contudo, qual campeão, cada vez se distancia mais do outro vício. No ano passado já matava mais 4 pessoas por dia do que tabaco e, este ano, parece disposto a ultrapassar as 5 pessoas. Isto quer dizer que, se o tabaco mata quase 33 pessoas por dia em Portugal (32,9 para ser exato), o álcool deverá atingir no final deste ano as 38 vítimas diárias, chegando quase aos 14.000 óbitos anuais por terras lusas.

Face a estes espantosos e chocantes números, que, se somados e extrapolados para 10 anos, nos reduzem a população do país em 2,6 por cento a cada década que passa (260.000 pessoas), que a manterem-se assim, abateram 26 porcento dos portugueses em apenas um século (2,5 milhões de indivíduos), considero imperativa a tomada de medidas por parte do Estado.

Já estou a imaginar as garrafas de Vinho do Porto cheias de rótulos a dizer “Beber Mata!”, imagens de acidentes de automóveis cheias de peças retorcidas e pedaços de corpos, misturados com estas numa só imagem, namoradas e esposas pontapeadas pelos maridos ébrios em retratos de horror, tudo, a bem da saúde pública, escarrapachados nos rótulos das bebidas com álcool. Seja uma mini da Sagres, que logicamente deixará de poder fazer publicidade e terá de retirar o patrocínio à seleção nacional de futebol, seja no vinho, tinto, branco, às bolinhas ou lá o que for.

Uma vez iniciada a campanha vou poder ver o vinho a subir 10 cêntimos a cada 3 meses, as bebidas brancas e espirituosas na ordem dos 50 cêntimos, a cerveja, quiçá, uns 2 cêntimos por trimestre. Os rótulos das garrafas, mostrarão fígados quase liquefeitos sob o efeito do álcool, corpos com mais manchas que as vacas malhadas da Suécia, bêbados a dormir à sombra dos Jerónimos ou debaixo da Ponte 25 de Abril. Ficarão famosas as frases inscritas em milhares, talvez milhões de garrafas: “O álcool causa impotência depois de lhe ter aberto o apetite”, “85% das violações ocorrem sobre o efeito do álcool”, “o álcool potencia a violência doméstica e os maus tratos incutidos aos animais”, “o álcool pode gerar violência gratuitamente de forma inesperada”, “é proibido beber em restaurantes, bares e recintos fechados”, “não é permitido o consumo de álcool em manifestações da Função Pública ou outras manifestações sindicais ou políticas, em concertos e festivais de música, parques de campismo e florestas”… enfim, as hipóteses são imensas, não será de espantar que apareça numa publicidade turística qualquer um anúncio do género: “beber causa perda de memória, cuidado, pode acabar por ser sodomizado e não saber”. Sim, porque vai certamente haver alguém, uma entidade qualquer, preocupada com o facto de podermos levar no cu e não nos lembrarmos disso, por termos bebido em excesso.

Sabes que mais minha querida Berta, acho que a hipocrisia devia ter um fim. O tabaco é taxado e perseguido apenas por ser uma boa maneira dos Estados ganharem com isso e fazer o cínico papel de estarem preocupados com o povo. No fundo, apenas os cifrões lhes interessam. Se eu fosse milionário punha o Estado em tribunal pela aplicação de medidas que não visam a saúde pública, mas que apenas fazem do tabaco um bode expiatório para que outras coisas sigam o seu caminho sem que ninguém repare.

Tem um resto de bom dia, deixo um beijo deste teu saudoso amigo,

Gil Saraiva

Uma Blasfémia Chamada SUPER BOCK

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Olá Berta,

É com alguma tristeza que me encontro a escrever hoje. Perguntar-me-ás se o meu desalento tem algo a ver com o regresso do outono e eu terei de o negar categoricamente. Desta vez, o meu estado sombrio tem a ver com a honra, a palavra e a dignidade das pessoas e dos atos.

Estou a falar da reabertura do Pavilhão Rosa Mota. Um local cuja toponímia enaltecia e dava brio, valor, destaque e grandeza ao nome de quem, por Portugal, fez subir a Bandeira Nacional e tocar-se a Portuguesa por variadíssimas vezes com as suas conquistas desportivas, no palco internacional, levando o nome deste pequeno país a todo o mundo, pelo orgulho e a raça do povo que sentia representar, de um povo que cantou em uníssono os Heróis do Mar à luz do Ouro Olímpico de Rosa Mota.

Sabes Berta, ainda me lembro de mim, em pé, em frente à televisão, mais hirto que pau de virar tripas, a vibrar interior e exteriormente e de lágrimas no olhos a ver a Rosa, que coitada até sai ao pai, a receber o Ouro em 87 em Roma nos Campeonatos do Mundo de Atletismo, pelo primeiríssimo lugar na prova da Maratona. Julgava eu então, que, pelas pernas daquela minorca portuguesa, se atingira a plena conquista, elevando o nome do Povo Luso aos píncaros do desporto mundial. Porém, vi-me no ano seguinte em Seul, ajoelhado na alcatifa, porque me faltaram forças nos joelhos e nas pernas, tal a comoção, a ver aquela pequena figura a receber o ouro pela Maratona, a prova rainha dos Jogos Olímpicos, símbolo supremo do desporto terráqueo, ao som do hino nacional, enquanto a bandeira portuguesa se ia erguendo até ao topo máximo da glória. Ah, Berta, sobram-me dedos de uma mão para contar o número de vezes em que me senti assim. Isto é algo que jamais se apaga das memórias de quem vivenciou momentos tais.

Contudo, regressemos ao meu estado sombrio, estava a falar desse pavilhão agora denominado Super Bock Arena, um espaço que vangloriza, em letras garrafais, maiores do que barris, o consumo do álcool, como se o mesmo fosse uma glória que tarda em se afirmar. Por baixo, em letras que lembram contratos de seguradora ou de banco, pode ler-se, envergonhadamente, Pavilhão Rosa Mota. Esta heresia cometida pelo presidente da Câmara do Porto, Rui Moreira, seus acólitos e pelos concessionários do espaço para os próximos 20 anos não lesa apenas Rosa Mota, mas sim, fere de morte a memória coletiva de todos nós, os portugueses.

O Palácio de Cristal, uma obra de inspiração inglesa, foi demolido em 1951, no seio de um processo muito problemático, mesmo para a época em que aconteceu. No seu lugar apareceu um projeto futurista que foi denominado Pavilhão dos Desportos, isto entre 1952 e 1988, pois que, a partir daí, com o fito de eternizar o nome da campeã olímpica da maratona nos Jogos Olímpicos de Seul em 1988, mudou a sua toponímia para Pavilhão Rosa Mota, tendo sido posteriormente deixado ao abandono, por sucessivas governações da autarquia do Porto, nos últimos 20 e tal anos.

Ora o contrato de recuperação Pavilhão Rosa Mota realizado entre a Câmara e o futuro concessionário, a Super Bock, não tinha, em lugar algum, a alteração do nome do pavilhão, como uma condição determinante para que a recuperação se fizesse ou para que as obras avançassem.

Foi em 2017 que, depois de várias peripécias em reuniões entre Rosa Mota e os patrocinadores e entre estes e a autarquia e entre esta e a atleta, que o alegadamente o ignóbil edil concordou com a alteração da toponímia, quando as obras se encaminhavam para o seu desfecho. Faz lembrar um tal de Judas que traiu Cristo por 30 vinténs.

Precisando de um estratagema o autarca (por quem eu nutria alguma admiração, devo confessar), chamou à edilidade a campeã e com desculpas de extrema necessidade, lá convenceu, muito a contragosto, a atleta a aceitar que, por baixo do nome Pavilhão Rosa Mota, figurasse a inscrição Super Bock Arena. Porém, na inauguração tudo estava invertido. Coisa de somenos achou Rui Moreira, para quem nem devia haver polémica. Um insulto nacional digo eu e diriam mais de 10 milhões de portugueses se fossem chamados a opinar. (continua depois da imagem)

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Agora pergunto eu: Como é que o nome de uma bebida alcoólica, sabendo nós que o álcool mata 13.500 portugueses por ano, mais do que o tabaco que só chega aos 12.000, consegue associar a sua marca ao nome de uma notável atleta e a um pavilhão desportivo (ou multiusos como lhe chamam agora), enquanto que o tabaco é banido de todo o lado, sofre impostos absurdos e é obrigado a ostentar imagens das consequências do seu consumo? Afinal se é pelo critério da prevenção todas as garrafas de vinho, cerveja ou bebidas brancas deveriam ter o mesmo tipo de rótulo que o tabaco, o mesmo tipo de imagem e a sua propaganda proibida. Isso sim, seria coerente.

Era bom que os portugueses desta vez não fossem pacíficos e como forma de protesto ninguém voltasse a entrar nessa coisa insultuosa chamada de Super Bock Arena, até o verdadeiro nome do pavilhão ser reposto com dignidade e sem associações que deveriam ser consideradas criminosas. Quanto tempo ainda terá de passar até que este tipo de atitudes e conivências continue impune em Portugal? Poderia acrescentar mais uma série de detalhes ao que descrevo, todos, uns e outros no domínio estrito do alegadamente, mas acho que o que te conto já é suficiente para que me entendas.

Eu, pela minha parte, não só nunca mais naquele lugar meterei os pés como jamais voltarei a beber Super Bock. É pouco, mas se formos muitos pode vir a fazer a diferença. Porém, como não vivo no Porto, não poderei não votar em Rui Moreira nas próximas autárquicas, mas tenho imensa pena de ali não poder votar.

Desculpa o desabafo Berta. Despeço-me com um beijo saudoso,

 

Gil Saraiva

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