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Carta à Berta

Carta à Berta é o local dos Desabafos de um Vagabundo, do Senhor da Bruma, essa bruma a que chamam de internet, de um Haragano, o Etéreo, qual cavalo selvagem que galopa entre cartas alegadamente, quiçá, sem fundamentos.

Carta à Berta é o local dos Desabafos de um Vagabundo, do Senhor da Bruma, essa bruma a que chamam de internet, de um Haragano, o Etéreo, qual cavalo selvagem que galopa entre cartas alegadamente, quiçá, sem fundamentos.

Carta à Berta: O jornal do Bairro de Campo de Ourique - O Javali

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Olá Berta,

Fez este mês 6 anos e meio que lancei em Lisboa, no Bairro de Campo de Ourique, um jornal local gratuito, semestral, destinado ao bairro e a quem o visitava. A ideia manteve-se viva e ativa durante 3 anos e permitiu que fossem editadas 6 publicações e distribuídos um total de 18 mil jornais. Foi uma iniciativa que me ajudou imenso a desenvolver a minha relação de proximidade com as duas freguesias que compunham, à época, a zona a que me dediquei, nomeadamente a freguesia de Santa Isabel e a Freguesia de Santo Condestável. Foi um trabalho gratificante e extremamente enriquecedor para um jornalista profissional que, como eu, se dedicava pela primeira vez à imprensa local.

Hoje em dia, as duas freguesias estão unidas e tomaram o nome do Bairro, passando a chamar-se Freguesia de Campo de Ourique, pelo que constituem a mais densa freguesia de Lisboa em termos de população e de concentração de comércio e serviços, num total de quase 2.500 empresas de comércio, negócios e serviços, encaixadas numa área de 1,65 quilómetros quadrados, com uma população que ultrapassa os 25 mil residentes.

Para fazeres uma ideia mais abrangente do Bairro, basta que te dê a noção que no número de estabelecimentos ligados à restauração ultrapassam já os 250, incluindo quiosques alimentares, padarias, cafetarias, leitarias, pastelarias, confeitarias, doçarias, cafés, tascas, tasquinhas, snack-bares, bares, pubs, “bistros”, “croissanterias”, “gastropubs”, cantinas, postos sociais de refeições, mercearias com refeições, “take-aways”, churrasqueiras, hamburguerias e restaurantes.

Convém realçar que, só no campo da restauração podes encontrar mais de 25 países, das mais variadas zonas do globo, representados pelos seus pratos típicos apresentados nas ementas. Quanto à gastronomia nacional, é fácil descobrir restaurantes representativos dos arquipélagos portugueses, do Norte, do Centro e do Sul do país. Tens nessa área os restaurantes tradicionais, regionais, vegetarianos, continentais e depois os especializados. Podes comer em espaços com ementas económicas, acessíveis ou relativamente caras, podendo escolher onde ir tendo em conta o que se tem na carteira disponível para tal.

Mas regressando ao princípio da carta, o jornal chamava-se “O Javali” porque era essa a figura que eu via quando olhava para o mapa e para os limites do bairro. Havia quem dissesse que via um elefante e quem não visse coisa alguma, mas “O Javali” foi o nome que acabou por ficar. Infelizmente a publicação nasceu no tempo da Troika e da austeridade e a administração decidiu, por motivos de viabilidade económica, encerrar o jornal ao fim de 3 anos de navegação adversa, bem como a revista do bairro que intercalava com ele e da qual te falarei amanhã ou num outro dia.

Tive imensa pena na altura. Ali se contaram, em formato A3 e em 48 páginas, em duas línguas, português e inglês, narrativas de grandes personalidades do bairro, a história de casas, ruas, monumentos, instituições e pessoas, para além da promoção do comércio e serviços locais. Também se lançavam propostas de itinerários, se destacaram os pontos de interesse e as novidades do bairro.

Lançamos receitas de culinária, fizeram-se entrevistas, ouviram-se as gentes na primeira pessoa e até houve lugar para as previsões dos astros para cada signo.   Quem sabe, alguém no bairro, um dia no futuro, não voltará a pegar na ideia e a lançar uma outra publicação, agora que a austeridade já não tem o mesmo peso que na época.

E não te incomodo mais com os meus saudosismos, minha querida amiga, despeço-me com um beijo carinhoso, deste teu amigo de sempre,

Gil Saraiva

 

 

Carta à Berta: A Teoria do Amor - Parte II - O que é o Amor? Comparo... o amor com o meu bairro. O Bairro de Campo de Ourique...

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Olá Berta,

Como o prometido é devido e não de vidro, aqui vai a segunda parte da minha Teoria do Amor. Nada melhor do que leres, descontraidamente, a opinião de um poeta perdido entre a latitude das suas palavras e a longitude dos seus versos. Espero que estejas a passar um excelente dia após esta quadra de Natal. Por aqui as coisas continuam amenas como o tempo que, finalmente, resolveu instalar um período de bonança durante as festividades, em todo o país. Ora bem, aqui vai disto:

TEORIA DO AMOR

Parte II – O QUE É O AMOR?

Ao contrário do que dizia Camões eu não sou dos que acham que o amor é fogo que arde sem se ver. Amor que não se vê é o amor não correspondido, aquele em que apenas uma das partes é detentora do sentimento mais puro. Mas esse não é o objeto da minha teoria. A razão é simples: Quem ama e não é acompanhado, com o mesmo sentimento, pela pessoa amada, mesmo que não o mostre, sofre e sofre muito. É como ter um carro topo de gama e não o poder conduzir, bater um recorde mundial sem ter ninguém para o comprovar, ganhar o Euromilhões e perder o comprovativo, mas, tudo isso junto, elevado a uma potência que eu nem sei calcular. O amor não correspondido é mais uma forma de dor e sofrimento do que uma verdadeira forma de amor.

Infelizmente, não deixa de ser uma subespécie de amor, mas sem a maravilhosa envolvência que faz dele o mais sublime dos sentimentos. Falta o brilho no olhar, a nostalgia do crepúsculo, o encanto do pôr ou do nascer do Sol. Falta a dualidade una.

O amor superlativo, puro, verdadeiro, não se constrói apenas com um ser. Tal como no tango são precisos 2 para o objetivo se cumprir. Senão vejamos: Uma coisa é escutar um tango, mesmo que este seja tocado ao vivo, outra, completamente diferente, é vê-lo ganhar vida, fibra, raça e glória, nos passos eternos de um par que o interpreta com mestria imortal. Sentimo-nos elevados, emocionados, a transbordar sentimentos, durante aqueles poucos minutos em que a música é soberbamente interpretada pelo casal que, com a sua indescritível destreza, nos eleva o espírito e quase nos faz sentir que somos nós quem dança como se não houvesse amanhã.

Ora, muito bem… o tango pode fazer com que vibremos por minutos, contudo, o amor faz o mesmo, mas durante o resto da vida dos dois seres que, depois de se encontrarem pela primeira vez, o partilham para a eternidade. Vibram para sempre num tango sem fim, magicamente interpretado por dois corações, 2 almas gémeas, que tiveram a fortuna de se encontrarem e se desfrutarem mutuamente numa simbiose tão única que 2 parecem um. Um paradoxo brilhante e vivo em cada caso, em cada par, que o encarne com verdade.

O amor, o verdadeiro amor desafia a matemática e as leis da física. Um mais um deixam de ser 2 e passam, na mais límpida realidade, a ser, apenas e só, um. Podem até, aos olhos de terceiros, parecer 2. Mas o importante passa-se noutro nível bem superior. Um amor, uma vida, uma experiência, um sentimento, uma viagem, um ser superior. Porque o amor é o único sentimento que distingue o ser humano dos restantes animais.

Podem os apaixonados pelo mundo animal dar milhares de exemplos de como eu estou errado. Todavia, embora entenda a confusão, os animais não amam, nem conhecem o amor, dedicam-se. Seja ao seu parceiro numa monogamia livre e selvagem, que pode durar uma vida, seja, no caso de alguns animais domésticos, ao seu dono ou dona, ou, no plural, aos seus donos.

Até acho aceitável que se use, em termos ternos e comparativos, a palavra amor, mas não é verdadeiramente a mesma coisa. Existe toda uma dimensão na fusão dos pensamentos e dos egos que não se consegue encontrar no mundo animal. Aliás, não é de estranhar que muitos destes defensores desta quase forma de amor, nunca tenham, eles mesmo, encontrado a sua alma gémea no espetro da sua própria espécie. Porém, sou dos que respeita e valoriza a relação do ser humano com as outras espécies animais deste mundo. Os bichos podem não amar, mas sentem, e é muito bonito respeitar todo e qualquer ser que sinta.

Comparo muitas vezes o amor com o meu bairro. O Bairro de Campo de Ourique é uma excelente imagem para explicar o que é o amor. Mesmo antes de ser uma e uma só freguesia, o bairro era composto por 2 freguesias, lado a lado, ombro a ombro, sempre, complementando-se e dando a sua quota parte ao outro para que este se sentisse completo. Se uma tinha a Escola de Hotelaria e Turismo, o outro tinha a UAL, com os seus cursos de artes e arquitetura. Um possuía a grande diversidade de comércio e serviços e a outra tinha as ruas estreitas, o povo simples e dedicado, e a colina suave que a levava ao seu par. Um, Santo Condestável, a outra, Santa Isabel, um par perfeito feito de um amor chamado Campo de Ourique.

Santa Isabel nunca foi igual ao Santo Condestável, nada disso, são elementos complementares de um bairro único, quiçá, no mundo. Ela com a Casa Museu Amália Rodrigues, ele com a Casa Fernando Pessoa, ambos a fazerem fronteira com o romântico e delicioso Jardim da Estrela. Um local de namoro urbano onde, fossem eles pessoas, os teríamos muitas vezes visto a namorar. Ela com o Ginásio Clube Português, o Clube Atlético de Campo de Ourique e os Alunos de Apolo, ele com as Piscinas Municipais, onde o convite à natação, torna ainda mais fluída toda a relação. Diferentes, complementares, mas um só bairro, um só par, num bater de corações em uníssono, tão uníssono que parecem uma e apenas uma entidade: o Bairro de Campo de Ourique. Parecem? Eu disse parecem? Nada disso, são uma entidade!

Em resumo, o amor é o ser abstrato, que podemos visualizar numa única paisagem que, para os olhos de quem ama, traduza a unidade de uma dualidade. A paisagem pode ser diferente em cada observador, mas o seu significado será sempre o mesmo. Seja Santa Isabel e Santo Condestável formando Campo de Ourique, onde uma única flor vermelha é capaz de florir sozinha, sob a proteção firme da Maria da Fonte, seja a Bruma trazida pelo Atlântico à Serra de Sintra, que se transforma na Serra da Lua, seja a Ria Formosa, que se gera no espaço entre a costa e as ilhas que a cercam, formando uma maravilha sem igual no Sotavento Algarvio. O amor só existe a 2 e só se vive a um, uno e indivisível.

Não te zangues comigo, minha amiga Berta, se não fui romântico o suficiente ao falar de amor. Posso não ter escolhido os exemplos que tu escolherias, não ter escrito versos languidos e apaixonados, mas a intensão era apenas dizer-te o que acho que é o amor. Não com muitos floreados, de forma clara, e dentro do possível objetiva. Espero ter dito o suficiente para ter o teu entendimento.

Despeço-me com o beijo costumeiro, este teu amigo do coração,

Gil Saraiva

 

Carta à Berta: O meu canto do Paraíso - CAMPO DE OURIQUE

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Olá Berta,

Li a tua última carta e peço desculpa se nunca te trouxe a conhecer o bairro onde vivo, para além de uma ou outra refeição que nos reuniu num dos restaurantes da zona. Dizes que, apesar de um passeio ou outro comigo pelo Jardim da Parada e por outras pequenas vindas ao Bairro, sabes muito pouco sobre ele. Acho que te posso dar uma pequena ajuda quanto a este meu bairro, para mim, o melhor de Lisboa.

O Bairro de Campo de Ourique, minha amiga, coincide com uma nova freguesia portuguesa, homónima, do concelho de Lisboa, resultante de uma fusão em 2012, que junta as freguesias de Santo Condestável e Santa Isabel, que já anteriormente davam nome ao Bairro.

Campo de Ourique pertencente à Zona do Centro Histórico da capital, com 1,65 km² de área e 22 mil habitantes. Talvez seja por só ter metropolitano na sua periferia, no Largo do Rato, que o Bairro funcione como uma pequena aldeia, onde as pessoas se conhecem e convivem como tendo uma identidade própria, característica dos pequenos povoados. Pelo formato da sua área ficou com uma configuração que, no mapa, nos faz lembrar um animal. No meu entender a figura parece um javali, uma fêmea, pronta para ir às compras pelo Bairro, que, pela profusão de comércio num tão pequeno espaço, é designado como sendo o Maior Centro Comercial de Ar Livre de Portugal. São mais de 1.500 espaços comerciais e de serviços e, pelo menos, 250 estabelecimentos ligados à restauração. Por aqui, Berta, podes provar um pouco de quase tudo. Neste mundo da restauração encontras imóveis com as mais diversas variantes, sejam eles edifícios de hospedagem, restaurantes, pastelarias, tascas ou cafés. Se fossem todos implantados a nível térreo isso daria uma atividade de comércio ou serviços, com uma implantação de um estabelecimento por cada m² e um restaurante ou similar a cada 6,2 m². Um verdadeiro absurdo.

Contudo, se quiseres investigar os pontos de interesse, tudo depende da abordagem que fizeres: na área do Desporto e da Dança é aqui que encontramos a sede dos Alunos de Apolo, especialistas nacionais nas danças de salão, ou o CACO, Clube Atlético de Campo de Ourique e até o Ginásio Clube Português. Na área da governação não existe apenas a Junta de Freguesia, pois é, também aqui, que está situada a Presidência do Conselho de Ministros do país e até a Embaixada Britânica.

A nível histórico, cultural e educacional, para além de várias galerias de arte, encontramos a Estátua da Maria da Fonte, enquadrada pelo acolhedor Jardim da Parada, que na toponímia se designa por Jardim Teófilo de Braga, que já conheces; a Casa Museu Amália Rodrigues, a maior diva nacional do fado de todos os tempos; a Casa Fernando Pessoa, um dos mais prestigiados nomes da literatura nacional, um espaço de cultura ímpar, que te recomendo como visita imprescindível, e ainda, o Museu João de Deus e a Fundação Maria Ultrich.

Na área artística e cultural há a referir também o Páteo dos Artistas, na Rua Coelho da Rocha, ou o das Barracas, na Rua de Infantaria 16; a moderna Biblioteca Europa; o Grupo Dramático e Escolar Os Combatentes; as escolas Secundárias Josefa de Óbitos e a Manuel da Maia; a Redbridge School; o Colégio religioso dos Salesianos; a Escola de Hotelaria e Turismo de Lisboa e uma Delegação da UAL, Universidade Autónoma de Lisboa, onde funciona o Instituto de Artes e Ofícios e o Curso de Arquitetura. Como podes ver, minha amiga, a cultura, a arte e a história conjugam-se harmoniosamente com o quotidiano do meu Bairro.

Ora, se fores mais terra-a-terra, podes ir ver um dos mais antigos Geomonumentos de Lisboa, com pelo menos 21 milhões de anos, na Rua Sampaio Bruno. Depois aconselho a visita às Igrejas de Santa Isabel e do Santo Condestável e ao Quartel de Campo de Ourique, de onde partiu a Revolução dos Cravos e a implantação da liberdade no país. No Bairro estão presentes, o Grupo de Teatro Inglês, The Lisbon Players; a AMA, Academia Mundo das Artes; a Companhia da Chaminé e, já na centenária Padaria do Povo, está sedeada a Associação Cultural Fermento.

A componente turística apresenta diferentes tipos de instalações hoteleiras e vários pontos de interesse, se preferires instalar-te numa delas, quando por cá passares, em vez de aceitares a minha hospitalidade, é claro. Podes pernoitar quer nos variados espaços de alojamento local do Bairro ou optar pelo Hotel da Estrela; o Lisbon Luxury Palace; o ACM Lisbon; o Hotel Sua; o Hotel Lissabon; o Starhostel, o Royalty Hostel; o Ourique Hostel; o Apartamento Lisboa; o Tilty Lisbon ou a Pensão Madeira. Como outros atrativos Berta, ainda tenho que te referir a Praça de S. João Bosco de onde partem os elétricos 25 e 28; o Amoreiras Shopping Center e o Amoreiras Plaza ou o Mercado de Campo de Ourique.

No que diz respeito à alimentação, tens, nos mais de 250 estabelecimentos de restauração, um pouco de tudo: da cozinha tradicional portuguesa à da Serra da Estrela, passando pela alentejana, minhota, madeirense, portuense e a da bairrada; há ainda os vegan e os vegetarianos e na vertente internacional pode experimentar a comida chinesa, macaense, japonesa, coreana, nepalesa, tailandesa, árabe, marroquina, do médio oriente, indiana, goesa, africana, italiana, francesa, belga, americana, israelita, alemã, grega, espanhola, mexicana, peruana e brasileira. Por fim, podes terminar a visita com as escolhas noturnas, desde os diferentes bares do bairro até a uma passagem pelas salas de cinema do Amoreiras.

Campo de Ourique é o único Bairro que conheço que tem turistas da própria cidade de Lisboa, que aqui se deslocam para fazer compras neste imenso Centro Comercial de Ar Livre ou para frequentar a sua restauração. Imperdível por quem passa por Lisboa, imperdível para ti.

Espero ter-te esclarecido um pouco mais sobre este que considero o meu cantinho do Paraíso, despeço-me com o carinho do costume, com um beijo, o mesmo de sempre,

Gil Saraiva

 

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