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Carta à Berta

Carta à Berta é o local dos Desabafos de um Vagabundo, do Senhor da Bruma, essa bruma a que chamam de internet, de um Haragano, o Etéreo, qual cavalo selvagem que galopa entre cartas alegadamente, quiçá, sem fundamentos.

Carta à Berta é o local dos Desabafos de um Vagabundo, do Senhor da Bruma, essa bruma a que chamam de internet, de um Haragano, o Etéreo, qual cavalo selvagem que galopa entre cartas alegadamente, quiçá, sem fundamentos.

Carta à Berta: Memórias de Haragano - Confissões em Português - Parte XVII

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Olá Berta,

Hoje entro, sem demoras, num novo tema. Algo mais erudito porque, para meu próprio orgulho, também se torna necessário, dar um pouco de luz às cartas que te escrevo. A cultura não aleija e, por estranho que te possa parecer (ou talvez não), ajuda a formar mentalidades e identidades. Ao contrário do provérbio que afirma que << o saber não ocupa lugar>> eu considero que ele não só ocupa, como devia ser sempre encontrado no cume das nossas prioridades. Assim:

Memórias de Haragano: Confissões em Português – Parte XVII

“Caro leitor, desculpa-me se te pergunto, mas já leste tu, por acaso, a excelente obra-prima de Aquilino Ribeiro intitulada <<Andam Faunos pelos Bosques>>? O autor certamente que te diz alguma coisa, mas e a obra? Conheces a sua obra literária?

Como não estás presente para responder, vou depreender que não, pois será a resposta mais comum de quem me lê. Porquê? Porque sendo tu uma pessoa desta época, onde se vive a era da imagem, só por mero acaso ou gosto particular é que terias ido ler uma obra escrita em 1926, por muito clássica que esta possa ser. Vejo-te a ler mais facilmente os romances do José Rodrigues dos Santos do que a desempoeirares o Aquilino. Contudo, posso estar absolutamente errado na minha avaliação e, se for esse o caso, peço desculpa, apenas o disse porque a leitura não está na moda e muito menos ainda o Aquilino.

Porém, hoje, por motivos que explicarei um pouco mais à frente, interessa-me falar neste assunto. Nomeadamente sobre o romance do mestre: <<Andam Faunos pelos Bosques>>.

Resumindo a ideia da história, mas sem intenções de a contar, posso dizer que ela anda à volta de um muito estranho acontecimento, passado nas serranias das Beiras e em Viseu, em que as mais belas damas da região são vítimas (ou não) de um predador sexual. A polémica instala-se, principalmente entre os investigadores do caso: os padres. Uns ingénuos e cândidos, outros com uma visão ainda perfeitamente arcaica e rural. Ainda há alguns esclarecidos e modernos, influenciados por uma educação na capital e mais aqueles realistas, conhecedores das influências que, à época, ventavam Paris, com um bafo a meandros bem obscuros e muito pouco dados à fé.

As teorias sobre que criatura ou criaturas andariam a colocar as suas sementes nas beldades regionais divergiam entre si. As conjeturas  variavam entre os que defendiam tratar-se do próprio Belzebu; os que colocavam um anjo como protagonista; os que pensavam que deveria ser tudo obra, isso sim, de um Casanova regional ou até de vários e, por fim, os que atribuem as culpas a um ou mais faunos míticos e sedutores, os quais enfeitiçariam as donzelas, com a mágica e erótica música das suas flautas de Pã, arrastando-as para os bosques, onde consumariam os seus enfeitiçadores intentos.

É do alegado arrastamento das mulheres para os bosques, com intuídos de uso de uma flauta, que não a de Pã, que surge o título da obra <<Andam Faunos pelos Bosques>>. Ninguém sabe lá muito bem quem são, quantos são, onde estão e como fazem as coisas. Contudo, desafiando a lógica, serão eles os possíveis e derradeiros culpados. Pensaram mesmo que os faunos através do uso profano e encantador das sonoridades da sua Pã, enfeitiçam, usam e abusam das castas raparigas e das respeitáveis senhoras beirãs?”

Deves estar a estranhar o porquê da presente temática, querida amiga, todavia, dentro de um ou 2 dias será bem mais fácil entenderes as minhas motivações. Tem um pouco de paciência comigo. Por hoje fico-me por aqui. Este teu amigo despede-se com uma beijoca sorridente,

Gil Saraiva

 

 

Carta à Berta: Isabel dos Santos - Uma Saga de Família que vem do Século XVII - Parte I

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Olá Berta,

Hoje, e nos próximos dias, faço um intervalo no que concerne à revista dos eventos do meu bairro em 2019. Mandar-te-ei o segundo trimestre daqui a mais algum tempo, para que a coisa não se torne uma maçada, em vez de uma curiosidade interessante. Possivelmente voltarei ao próximo trimestre algures no mês seguinte.

Este domingo andei a ler e a rever outras coisas sobre o que se anda a passar por este mundo fora. Podia pegar em vários temas, mas vou dedicar esta carta e talvez as próximas apenas a um deles. Nem sequer vou falar das investigações que fiz no passado sobre ele, e que ainda foram algumas, nem na existência ou não das possíveis evidências. Nada disso, vou apenas referir o que me parece por demais evidente. Contudo, e como sempre, nas minhas crónicas mantenho-me no domínio estrito do alegadamente. Estou-me a referir a Isabel dos Santos e às origens que têm sido contadas de um modo que me parece, no mínimo, lírico e bem pouco próximo daquela que, para mim, é a realidade. Esta primeira carta é o início de um tema que divido em 4 atos, ou cartas.

Porém, e para agora, vamos esquecer a princesa de Angola e voltar atrás no tempo. Não são 10 nem 20 anos… imagina-te, querida Berta, num retrocesso longínquo, distante e nublado. Pensa numa época onde prevalecia a lei do mais forte, do mais apto e do hábil em impor a sua vontade, forma de estar e de agir. É nesse tempo que começo.

Em meados de mil e seiscentos a coroa portuguesa contratou um tal de Baltazar Van Dum. Um homem, de origem holandesa, especializado no comércio de escravos. Para muitos um pirata, nome dado aos mercenários e a alguns esclavagistas arrojados da época, que procediam a capturas, transporte e negócios de escravos intercontinentais. O nome de família de Baltazar evoluiu ao longo dos tempos até se tornar Van-Dunem. Mas a origem é toda deste homem que percorreu todos os territórios ultramarinos portugueses da época a que me refiro.

Baltazar Van Dum esteve em Cabo Verde, São Tomé e Príncipe, Moçambique, Angola, Guiné, no Brasil e em mais algumas regiões que, para a história em causa não são relevantes. O seu acordo com a coroa nacional incluía toda a África Portuguesa e o Brasil. É de assinalar que ele fez o possível e impossível por deixar bem marcada essa responsabilidade.

Diz uma espécie de lenda angolana que Baltazar teve mais filhos do que anos de idade. Filhos da própria mulher, uma negra que se dizia ser o símbolo da beleza africana, de concubinas, de prostitutas e de escravas. Contudo, ao contrário do macho latino, que tenta passar despercebido e tudo fazer à socapa, na sombra, sem assumir grandes responsabilidades, o muito ilustre pirata Baltazar funcionava precisamente ao contrário. Fazia questão de dar o seu nome a todos os seus descendentes, fossem eles filhos de que tipo de mulher  fossem.

É por isso mesmo que o apelido, atualmente “Van-Dunem”, aparece difundido abundantemente por toda a África, América do Sul e Estados Unidos da América, onde o primeiro Van Dunem escravo aportou no século XVII, numa primeira remessa de 20 escravos enviados por Baltazar, tão importante que, ainda hoje, é assinalada nas relações bilaterais entre Angola e os Estados Unidos.

A poligamia estava para Baltazar como o vinho para Baco. Era, mais do que uma imagem de marca, uma questão de princípio. Rogam as histórias de então que não havia mulher negra que passasse na sua presença que não fosse devidamente testada e carimbada com o fálico selo de Van Dum. Certamente um exagero, contudo, bem demonstrativo da “fama cobridora” deste verdadeiro touro ou garanhão dos novos mundos que, então, ganhavam protagonismo para a economia mundial e para o desenvolvimento e enriquecimento da Civilização Ocidental.

Pode-te parecer, querida amiga, que estou a ser exagerado, mas, este meu primeiro herói, foi alvo de um livro de Artur Carlos Maurício Pestana dos Santos, sob o famoso pseudónimo de Pepetela, um dos nomes maiores do romance angolano, que sobre ele romanceou,  descrevendo aquilo que eram os filhos legítimos da mulher, que ele chama de Dona Inocência, e os filhos das escravas da casa e não só, os chamados filhos do quintal. O livro tem um nome muito sugestivo que resume muito do que aqui disse e direi, de uma forma romanceada, mais restrita, mas com o mesmo significado; chama-se: “A Gloriosa Família”, e está deliciosamente escrito por um dos grandes escritores angolanos que, em Portugal, foi editado pelas Publicações Dom Quixote.

Mais te poderia descrever sobre este profícuo homem do passado, este Baltazar sem controle de natalidade, porém, para o cerne da questão, o que importa mesmo é saber que não existe na atualidade, em toda a América ou em África um Van-Dunem cuja origem não seja essa, única e comum, aliás, aquela que aqui descrevi.

Espero que estejas a gostar da narrativa, despeço-me com um gigante beijo de carinho, este que será sempre teu amigo enquanto o coração lhe bater,

Gil Saraiva

 

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