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Carta à Berta

Carta à Berta é o local dos Desabafos de um Vagabundo, do Senhor da Bruma, essa bruma a que chamam de internet, de um Haragano, o Etéreo, qual cavalo selvagem que galopa entre cartas alegadamente, quiçá, sem fundamentos.

Carta à Berta é o local dos Desabafos de um Vagabundo, do Senhor da Bruma, essa bruma a que chamam de internet, de um Haragano, o Etéreo, qual cavalo selvagem que galopa entre cartas alegadamente, quiçá, sem fundamentos.

Carta à Berta: Por falar em Carnaval...

Berta 120.jpgOlá Berta,

Espero que este Carnaval estival te vá encontrar bem e com vontade de ires assistir às folias em Loulé. Acredita que vale a pena. Trata-se, na minha opinião, do maior evento do concelho e tu certamente vais gostar de o ver em primeira mão. Não estou a puxar a brasa para a minha sardinha, só porque vivi uns 27 anos no Algarve. Nada disso. Aliás, se o visitares vais poder julgar por ti mesma.

Acontece que estás perto de um dos melhores do país. Apenas considero que deves aproveitar. O facto de o ter vivido, durante os meus tempos de criança, não influencia em nada a alegria e o entusiasmo, que esse Carnaval transmite a quem o visita pela primeira vez.

Podia, igualmente, recomendar-te o Carnaval de Ovar, mas terias de fazer uma deslocação grande daí até lá. Porém, Ovar tem outro dos melhores carnavais do país. Houve um ano em que consegui juntar-me a um dos grupos que iria participar no desfile, podes não achar normal, mas estive 6 dias sem me deitar.

A folia decorreu 24 horas por dia, durante uma semana inteira. Sei que deixara pouco tempo antes a adolescência, mas nunca mais esquecerei o tempo e as aventuras daquele Carnaval. Foram tamanhas as façanhas e proezas que, para ser verdadeiramente honesto, ainda hoje não sei se não terei deixado descendência na terra do pão-de-ló.

Importa referir que há quem defenda que o Carnaval substituiu, depois da chegada do Cristianismo a Roma, as festas dedicadas ao deus do vinho, Baco. O que é certo, porém, é que a Igreja o registou e oficializou no entrudo, no calendário litúrgico em 590 d.C.

Contudo, tratavam-se de pequenos divertimentos sem grande organização, dispersos e sem existirem propriamente festejos organizados a nível das cidades ou das regiões. No século XI apareceram em Veneza os primeiros sinais de um Carnaval organizado por uma cidade. A ideia era permitir à nobreza que se misturasse, durante uns dias, com a restante população usando máscaras, num convívio que nos pode parecer democrático, mas que tinha mais de boémio do que outra coisa qualquer.

Só em 1296 é que o evento foi oficializado em Veneza, tornando-o por isso mesmo, este Carnaval, enquanto celebração oficial e devidamente denominada, organizada e reconhecida por uma cidade, no mais antigo do mundo. As festividades, e o uso das máscaras, foram balizadas em 10 dias (embora tivessem existido anos em que o seu uso chegou aos 6 meses).

Portugal, minha querida amiga, que bebia culturalmente das fontes francesas e italianas, principalmente a partir do século XV e XVI, iniciou estas festividades por esta altura, principalmente na Madeira onde o evento ganhou rapidamente foros de festa maior.

Durante o século XVI, enquanto maior entreposto comercial do Atlântico de escravos para o Brasil e conhecida como a rainha ocidental da rota do açúcar, a Madeira acabaria por exportar também para o Brasil uma das suas festas maiores, fazendo com que o Carnaval cedo se instalasse em Pernambuco, por volta do século XVII, naquela que era chamada de Festa dos Reis, quando os trabalhadores das Companhias de Carregadores de Açúcar e de Mercadorias, formavam cortejos carregando caixões de madeira e recriando músicas em ritmo de marcha popular, com um travo reconhecidamente madeirense.

Ora, bastaram 100 anos para que esta folia se espalhasse por todo o território brasileiro, ganhando novas formas de festejo, novos adornos e muita cor. Com a instalação da Corte e da família real no Rio de Janeiro em 1808, e com as primeiras tentativas de ordenar as festividades, estava lançado de vez o Carnaval do Brasileiro que, embora com o passar dos anos se tivesse civilizado no que aos festejos oficiais diz respeito, nunca perdeu o seu lado genuinamente popular, livre e quase selvagem, cheio de dança, de festa e de muita cor.

Há quem defenda, com unhas e dentes, que depois de Veneza, o segundo Carnaval organizado e estruturado como festa e folia por altura do entrudo, antes da Páscoa, é o da Madeira. Ora, realmente os registos encontrados sobre a festividade em cidades como Paris, que muito difundiu o conceito moderno de Carnaval pelo mundo ocidental, são realmente posteriores ao da Madeira, o que faz jus da reivindicação do arquipélago. Contudo, o mais importante e curioso é sabermos que, sem querer, demos origem a uma das festas mais populares do mundo, num país que fez do Carnaval a sua maior festa, o Brasil.

Contudo, embora o Carnaval do Rio de Janeiro, tenha maternidade madeirense e paternidade portuguesa, por força da sua exportação para o Brasil pela Madeira e da instalação da corte e da família real portuguesa na cidade, o que é realmente relevante é ele ser atualmente o maior Carnaval do mundo.

Apesar do tema da minha carta de hoje ser o Carnaval, em termos gerais, aquele de que eu queria falar, na realidade, era sobre o Carnaval de Veneza. Não por ser o primeiro e, por isso mesmo, o mais antigo, mas porque, pela segunda vez na sua história está suspenso, cancelado, enfim, não se realiza.

A primeira vez que isto aconteceu o Carnaval de Veneza esteve sem se festejar por quase 200 anos. O motivo foi a proibição da festividade na cidade por parte de Napoleão Bonaparte, em 1797, jugando no ostracismo uma tradição de séculos, que, para quem não sabe, só regressaria oficialmente em 1979, sendo que, a partir de então, se assistiu a um renascimento esplendoroso e magnífico da tradicional festa veneziana.

Agora, este ano, pela segunda vez, o Carnaval de Veneza é cancelado. Desta feita, o novo ditador não vem de França, mas da China e chama-se Coronavírus, mais propriamente Covid-19. Esperemos que, desta feita, a interrupção seja de apenas um ano e que a maldição deixe de pairar sobre esta festa da alegria e do povo.

Com estes votos me despeço, minha querida Berta, solicitando que não leves a mal este desabafo de ver uma tão linda festa cancelada por um motivo tão nefasto, recebe um beijo de saudade deste teu amigo de sempre,

Gil Saraiva

Carta à Berta: "A Flor Agreste"

Flor Agreste.jpg

Olá Berta,

Espero que tudo se mantenha de acordo com as tuas expetativas para estas festas. Eu ando um pouco atrapalhado com a promessa que te fiz de, entre o Natal e o Ano Novo, não te escrever a fazer críticas, ou a deitar abaixo, algumas das coisas que menos me agradam no nosso mundo.

É engraçado verificar que é mais fácil ser critico que que positivo e portador de boas novas no que à escrita diz respeito. Estava aqui a pensar sobre o que haveria de colocar nesta carta, para ti, quando o meu olhar caiu sobre um busto que tenho no cimo da estante, a cerca de um metro do monitor do computador.

É uma reprodução, em gesso, da Flor Agreste, uma obra de António Soares dos Reis, um dos mais consagrados e apreciados escultores mundiais dos finais do século XIX, um homem nascido em Vila Nova de Gaia, que estagiou e completou a sua formação em Paris e depois em Roma, onde era considerado um génio no mundo da escultura entre os críticos da especialidade e os seus pares.

As saudades do seu Portugal fizeram-no regressar a Lisboa depois de ter esculpido em mármore de carrara a magistral estátua de “O Desterrado”, como a sua obra final de primeiro pensionista (o programa Erasmus da época) da Escola de Belas Artes do Porto em Paris e Roma.

Aliás, “O Desterrado” é a primeira escultura no mundo a aludir especificamente à condição triste de um emigrante, desenraizado do seu povo e da sua terra, algures no estrangeiro, longe da sua pátria onde foi feliz. É peça representativa de um jovem nu, em tamanho natural, sentado num rochedo, olhando um mar metafórico que nos leva a entender a solidão, a melancolia e a saudade de quem se sente inadaptado no estrangeiro, embora aí tenha que viver, para se poder formar na profissão que abraçou, por força do seu talento ímpar.

O regresso a Portugal não foi, muito longe disso, minha querida amiga, o paraíso esperado. Na zona do grande Porto, onde residia, quase que apenas lhe chegavam encomendas de estatuária póstuma para cemitérios e trabalhos para ricaços empertigados, muitos dos quais se negou a efetuar, mas foi a sua recusa para mudar o rosto da Virgem, que tinha esculpido para a Igreja de Nossa Senhora da Vitória, no Porto, e a derrota no concurso para o Monumento dos Restauradores, em Lisboa, que mais o marcaram.

Fez em 16 de fevereiro de 2019 precisamente 130 anos que o Mestre Escultor Soares dos Reis se suicidou. Era um homem ainda novo. Deixou, contudo, uma explicação, muito clara, embora enigmática, por escrito: “Sou cristão, porém, nestas condições, a vida para mim é insuportável. Peço perdão a quem ofendi injustamente, mas não perdoo a quem me fez mal.”

O maior nome da Escultura Nacional, segundo muitos dos especialistas, da fase de transição entre o Romantismo e o Realismo, ceifou a sua própria vida, com 2 tiros de pistola, na cabeça, aos 41 anos de idade. Portugal perdeu, nessa altura, um dos seus maiores génios de sempre no que às Belas Artes diz respeito. Considerado um dos grandes, melhores e mais geniais escultores do mundo no seu tempo, morreu com apenas 22 anos de carreira, a sentir-se novamente e em absoluto, “O Desterrado” na sua própria pátria.

Soares dos Reis é também o autor da estátua em bronze de Dom Afonso Henriques, o nosso fundador, entre as inúmeras obras que produziu em pouco mais de 2 décadas de carreira atribulada. Foi o primeiro escultor a esculpir a Saudade em estátua. Criou o busto feminino, que te referi no início da carta, da Flor Agreste, um rosto belo, jovem, mas vindo do povo, não composto segundo as modas da época, ou o modelo não tivesse sido uma carvoeira vizinha do escultor. Sempre irreverente, mas sempre genial.

Deixo-lhe a minha modesta homenagem:

 

“ARTE”

 

Arte...

Harmonia do Tempo,

Em cada tempo...

Reflexo cultural

Semigenérico

Que só alguns dotados

Conseguem realmente apresentar...

 

Arte...

Porque qualquer de nós tem

Por dever:

Compreender, amar, saber sentir...

 

A estética é bela,

“Fenixiana” pura

E a Arte

É o sentir representado

Da harmonia estética do mundo,

De fénixes mil por cada tema:

Reflexos de nós

E nada mais!...

 

Séculos há

Em que a Fénix se propaga...

A espécie ganha força,

Gera frutos,

Num movimento imenso:

Universal!!!

 

No vigésimo primeiro século da História

Uma outra ave nasce...

É de rapina e tem uma palavra nova

Para a explicar:

“Artítese”!

 

Um monstro deformado,

Devorador de Fénixes,

O Anticristo

Da Ordem dos Dotados Criadores!...

Rareia,

Agora, a Fénix na Terra

E todos temem,

Tremem, mas não falam!...

 

A “Artítese”

Proclama-se de Fénix

E diz renascer da anterior...

Tem falta de harmonia,

Foge à estética

E só ao medíocre dá aval!...

 

Artistas, criadores,

Deste planeta,

Património de toda a Humanidade,

Ajudem-me a matar o predador!

É necessário

Tentar salvar a Fénix!!

 

Despeço-me com este poema, recebe um beijo, deste teu amigo de sempre,

Gil Saraiva

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