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Carta à Berta / Desabafos de um Vagabundo / Miga, a Formiga / Estro

A partir de Julho de 2022 os blogs do Senhor da Bruma, assinados por Gil Saraiva, são reunidos em "alegadamente". Os blogs: Estro (poesia), gilcartoon (cartoons) e Desabafos de um Vagabundo (plectro) passam a integrar este blog. Obrigado.

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Carta à Berta: Isabel dos Santos - Uma Saga de Família que vem do Século XVII - Epílogo

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Olá Berta,

Esta é uma carta que transmite, alegadamente, apenas e só o que me foi possível descortinar neste espaço de tempo relativamente curto. Refiro o alegadamente porque a minha interpretação dos factos não é, nem pretende ser, uma descrição histórica e factual em volta do poder em Angola. É apenas e somente o que, repito, alegadamente, eu acho que realmente se passou.

Já sei que é chegado o momento de falar um pouco de Isabel dos Santos. Porém, gostaria de deixar aqui também uma nota sobre o que aconteceu, nestes últimos anos aos clãs dos Santos e Van-Dunem. É, aliás, por eles que vou começar esta carta. Para que fiques com uma ideia, vou-te apenas dar os nomes dos seus representantes no último Governo de Angola. De fora ficam todos os outros que se mantém na esfera do estado e em algumas das largas dezenas de grandes empresas e organismos públicos.

Contudo, no Governo de João Lourenço e depois de 3 remodelações ministeriais, continuam visíveis, nos lugares de topo os seguintes nomes: Joffre Van-Dúnen Júnior, Ministro do Comércio; Sérgio de Sousa Mendes dos Santos, Ministro da Economia e Planeamento; João Ernesto dos Santos “Liberdade”, Ministro dos Antigos Combatentes e Veteranos da Pátria; Frederico Manuel dos Santos e Silva Cardoso, Ministro de Estado e Chefe da Casa Civil do Presidente da República.

Porém, há a destacar a nomeação para a Secretaria de Estado das Finanças e Tesouro de Vera Esperança dos Santos Daves, bem como a presença de Cândido Pereira dos Santos Van-Dúnem como deputado da Assembleia Nacional, sendo membro integrante da 1.ª Comissão dos Assuntos Constitucionais e Jurídicos. Já Fernando da Piedade Dias dos Santos é o Presidente da Assembleia Nacional e Abrahão Pio dos Santos Gourgel foi, até há 4 dias atrás, o Presidente do Conselho de Administração do Banco de Desenvolvimento de Angola. Fiquei, amiga Berta, por saber, para que cargo foi transferido depois disso. Finalmente, importa referir que Fernando Pacheco Augusto dos Santos, é, nesta data, membro do Conselho da República. Por último na Administração do Banco Nacional de Angola, encontramos Beatriz Ferreira de Andrade dos Santos e na do Banco de Desenvolvimento de Angola está ainda Constantino Manuel dos Santos.

Em resumo, os dois clãs mantêm no poder 11 dos seus elementos nas estruturas mais próximas do Presidente João Lourenço e isto apenas analisando as mais altas esferas do Estado angolano. Chega a parecer mais do que acontecia no anterior governo de José Eduardo dos Santos e isto depois de inúmeras purgas efetuadas, principalmente, no seio da família direta do ex-presidente, mas não só.

Para mim, João Lourenço, que alegadamente já possui 3 familiares seus na roda do poder, não vai muito mais longe na sua missão purgatória. Não lhe desejo qualquer infortúnio, mas tudo aponta para um mandato curto. Pode ser que me engane, porém, eu, no lugar dele, reforçava muito bem a segurança. É que, ao se mexer com os aliados do ex-presidente, começando pelos familiares, sem limpar todos os cabecilhas do exército, correm-se grandes riscos.

Depois há que analisar as questões relacionadas com a matemática. Pensemos um pouco… se entre 2003 e 2008 tinham desaparecido, sem deixar rasto, cerca de 30 biliões de euros, só da Sonangol, não levando sequer em conta os valores dos sumiços em diamantes, metais preciosos e outros negócios, então quanto terá desaparecido entre 2008 e 2018, no conjunto de todos os negócios? Mais 90 biliões? No mínimo algo de parecido. Tais números representam 120 biliões de euros. O que na minha aritmética são 110 fortunas iguais à do homem mais rico do mundo Jeff Bezos, o patrão da Amazon. Dá que pensar…

Ora, é neste contexto que se levantam suspeitas sobre a filha primogénita de José Eduardo dos Santos. Até ao momento, é acusada de ter roubado 100 milhões a Angola. Parece-me grave, mas considero que estão ainda a tentar puxar por um dos fios da meada e pouco mais. As 2 perguntas que se põem logo são: porquê vai João Lourenço atrás da filha mais velha do seu mentor e ex-presidente? O que fez e quem é ao certo Isabel dos Santos?

Comecemos pela segunda questão. Vou-te falar, querida Berta, da filha do ex-presidente de Angola. Isabel foi acompanhada pela mãe (geóloga e ex-quadro superior da Sonangol, campeã de xadrez, natural de Baku enquanto este era território soviético), quando foi estudar para Inglaterra. Contudo, isto passou-se apenas em 1980, logo a seguir a Isabel celebrar os seus 7 aninhos.

Ora, os primeiros anos da sua vida, até o pai se tornar Presidente e Senhor de Angola, embora desafogados, não foram fáceis. Quando nasceu, o seu pai tinha ainda 30 anos de idade e a sua mãe cerca de 25, uma vez que era recém-formada em geologia e entrara, havia pouco tempo, ao serviço da Sonangol, na URSS.

A relação de José Eduardo dos Santos com Tatiana Kukanova, cujo nome sofreu algumas atualizações e renovações (entre as mais conhecidas tenho: Tatiana Cergueevna Kukanova, Tatyana Cergeevna Kukanova, Tatiana Cergueevna Regan e finalmente Tatyana Cergeevna Regan), parece ter-se iniciado em 1971, numa altura em que os pais tinham respetivamente 27 e 22 anos, Segundo as más línguas (porque não encontrei outras fontes mais fidedignas) o casamento deu-se devido à gravidez inesperada de Tatiana, quando o namorado era apenas um convidado dos soviéticos, em formação, na URSS.

Isabel dos Santos viveu com a mãe em Baku, mas apenas, segundo apurei, nos primeiros meses de vida, porém, tendo a sua mãe sido transferida para a Sonangol em Luanda, acabou por viver os primeiros anos de vida na capital do país. Pouco via o seu progenitor, pois que, nessa altura, querida amiga, o pai vivia com a sua segunda companheira. Aos 7 anos foi estudar para Inglaterra, levando a mãe como encarregada de educação, Estudou na St. Paul’s Girls School em Londres e formou-se em Engenharia Eletrotécnica no King’s College de Londres.

Ao contrário do que informa alguma imprensa e a própria “wikipedia”, Isabel dos Santos não acabou engenharia em 1990, com a idade de 17 anos, mas sim, algures entre 1995 e 1997, ou seja, entre os 22 e os 24 anos.

Ainda antes de completar a sua formação académica, já estava inscrita (possivelmente através do pai) como gestora de projeto na empresa Urbana 2000, pertencente ao grupo Jembas. Contudo, Isabel dos Santos conseguiu, segundo apurei, querida Berta, implementar algumas das suas ideias na estrutura da companhia, que levaram a uma melhoria da eficácia de trabalho, logo na primeira fase, de quase 300 porcento desta empresa de resíduos urbanos, pela introdução de uma rede de “walkie-talkies” para coordenar todos os motoristas da empresa. Isabel acabaria, mais tarde, por os substituir por telemóveis, numa altura em que já tratava da fundação da rede de celulares UNITEL.

Por essa via, com o patrocínio paterno, acaba por ficar ligada à UNITEL, da qual foi fundadora (de certeza que não pelo seu dinheiro, mas pelo que recebeu diretamente do pai), tendo sido esta a primeira grande empresa de telemóveis de Angola, área em que nenhuma multinacional queria pegar, devido à guerra e à instabilidade no país.

Até aquele que é chamado do seu primeiro negócio, o Miami Beach Club, um dos primeiros clubes noturnos de Luanda, embora apareça em seu nome, não pode de maneira alguma ter sido implementado e criado por uma miúda de 24 anos que tinha acabado de chegar de Inglaterra com o diploma de Engenheira Eletrotécnica. Trata-se, evidentemente, mais uma vez, de uma prenda do papá, para dar a conhecer à sociedade angolana, e a alguns ilustres visitantes, a sua filha recém-formada e recém-chegada da Grã-Bretanha.

Entre os 24 e os 29 anos até finais de 2002 Isabel dos Santos preocupou-se principalmente em desenvolver a empresa que realmente criou e fundou, a UNITEL, tentando arranjar parceiros internacionais que a ajudassem a tornar a companhia numa verdadeira empresa detentora de uma rede de abrangência nacional de telemóveis. Um esforço, Berta, que acabaria por dar excelentes resultados.

Em dezembro de 2002, Isabel dos Santos casou com o herdeiro de uma das maiores fortunas da República Democrática do Congo, Sindika Dokolo, cujo pai, congolês, falecido um ano antes, possuíra, entre outros grandes negócios o maior banco privado do Congo, o “Bank of Kinshasa”, que, entretanto, mudou de mãos, em 1986.

Já a mãe, de nacionalidade dinamarquesa, Hanne Taabbel Kruse, fez questão de educar o filho nas melhores instituições da Bélgica e depois França, onde este se acabou por formar em Economia, Comércio e Línguas Estrangeiras na Universidade Pierre e Marie Curie, de Paris.

Sindika, é o maior colecionador de arte em África, vocação que iniciou com o pai aos 15 anos de idade, tendo também uma Fundação internacional de arte, cuja sede europeia é no Porto, e, na altura do seu casamento com Isabel dos Santos, possuía, fruto da herança do pai e da gestão dos negócios da família, uma fortuna de mais de 3 mil milhões de euros, onde se incluía, entre outras, a maior empresa de cimentos de Angola de que é proprietário.

Até 2008, Isabel dos Santos, dedica-se a ajudar o marido, muito mais interessado em arte, a cimentar os seus negócios quer no Congo, quer em Angola, e aos 35 anos, apresenta uma fortuna bem mais consolidada, após 6 anos de dedicação intensa às empresas de ambos. Aliás, se compararmos os bens atualmente conhecidos do casal, e tendo em conta que nenhum dos negócios sofreu quaisquer quebras graves, não é difícil de justificar o atual património, só à luz dessas empresas.

Os grandes negócios internacionais e angolanos de Isabel dos Santos, dão-se entre 2009 e 2017, num espaço de 8 anos, até à altura em que o atual presidente de Angola, João Lourenço, a retira da liderança da Sonangol onde esta apenas esteve um ano e meio, tendo substituído no cargo Manuel Domingos Vicente, a quem tinha apontado o dedo pela falta de vários biliões de dólares na Sonangol.

Diga-se, em boa verdade, que o referido Manuel Domingos Vicente, acusado de corrupção em Portugal, continua a gozar de imunidade judicial em Angola, por ser deputado na Assembleia Nacional de Angola (o Parlamento angolano). Mais, dizem as más línguas que o atual presidente, controla, como já acontecia com o seu antecessor, a procuradoria Geral da República de Angola e que não permite que qualquer ação recaia sobre Manuel Domingos Vicente.

Quanto aos negócios internacionais de Isabel dos Santos, nestes 8 anos em que ela os realizou, um pouco por todo o mundo, mas principalmente em Portugal e Angola, mesmo que ela fosse condenada por roubo ou desvio de 50 porcento das verbas em causa, estaríamos a falar de um montante que nem 5 porcento do que desapareceu apenas da Sonangol no “reinado” de Manuel Domingos Vicente representa.

Se bem te lembras minha amiga, só da Sonangol, desapareceram, sem deixar rasto, até à entrada de Isabel dos Santos na direção da petrolífera, 120 biliões de euros. É muito dinheiro.

Relativamente a toda a acusação que recai sobre Isabel dos Santos, se comparada com as importâncias desaparecidas em Angola, estamos a falar, alegadamente, de 0,000 000 002 porcento dos montantes envolvidos. Algo que me leva a pensar que Isabel mais não é que um mero bode expiatório, de toda a trama.

Alguém me consegue dizer quanto dinheiro se encontra nas mãos dos generais e das altas patentes angolanas? Alguém sabe, ao certo, o que detém ou controla o ex-vice-presidente de Angola e atual deputado, Manuel Domingos Vicente? E João Lourenço, alguém sabe?

É mediático e vende muito mais acusar a idolatrada princesa de África. Mas não passa de um deitar de areia para os olhos de gente mesquinha, invejosa e rancorosa com o sucesso dos ricos de um modo geral, de gente que segue, qual carneirada, a fome de ascensão e queda dos media, de uma figura internacional.

O verdadeiro problema de toda esta trama chama-se, ainda e somente, José Eduardo dos Santos, e os 120 biliões de euros desaparecidos, só da Sonalgol, durante o seu reinado. Mas se João Lourenço era um dos seus delfins, o preferido, será que, de repente, foi o único que nada lucrou? Qual é na verdade a demanda de João Lourenço? O que esconde este presidente? Até 2023 José Eduardo dos Santos continua, face à constituição angolana, sem poder ser julgado seja pelo que for. Estará João Lourenço a contar que o ex-presidente morra, entretanto? Qual é o jogo que realmente existe por detrás de tudo isto? Poucos saberão. Por enquanto, entretém-se a comunicação social, a nível mundial, com a perseguição à primogénita de José Eduardo dos Santos. Assim, para João Lourenço, Manuel Vicente e outros, muitos outros, enquanto o pau vai e vem, folgam as costas.

Ora, eu, minha querida amiga, não dou para esse peditório. A coisa não basta parecer. Mesmo que Isabel dos Santos tenha roubado, o que não está provado, mesmo assim, comparado com o que despareceu de Angola, é como ir à praia e surripiar um grão de areia. Afinal os outros? Onde estão os outros? Com esta pergunta me despeço, sempre saudoso,

Gil Saraiva

 

 

Carta à Berta: Isabel dos Santos - Uma Saga de Família que vem do Século XVII - Parte III

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Olá Berta,

Hoje, ao entrar na terceira parte da nossa história, alegadamente credível, apercebi-me que, pelo material de que ainda disponho, não vou conseguir enfiar tudo nas 2 próximas cartas. Pelo que decidi fazer um epílogo após a quarta parte desta demanda. Deixo precisamente a primogénita de José Eduardo dos Santos, Isabel dos Santos para esse epílogo.

Quando me perguntam onde é que eu arranjei a Cédula Pessoal de José Eduardo, poderia pôr-me a inventar, mas isso não faz parte do meu feitio, como bem sabes minha amiga. Durante as últimas semanas de investigação sobre toda esta temática descobri-a num blogue moçambicano de 2017. Junto com um artigo confuso, obscuro e ressabiado de uma tal Melissa Santos. Julgo que um certo ramo da família dos Santos, sempre levou a peito o cruzamento com os Van-Dunem.

Contudo, não restam dúvidas que o avô paterno de José Eduardo tinha no seu nome, por parte da mãe, ganho o direito ao apelido dos Santos. Ou seja, a bisavó paterna de José era efetivamente uma dos Santos. O apelido desaparecera novamente com o seu pai, mas ele arranjara maneira de o fazer regressar ao seio do clã, obliterando deliberada e permanentemente o uso do Van-Dunem. Aliás, esta repulsa pelo apelido nem faz muito sentido, a não ser talvez para o próprio José Eduardo ou estarei errado?

Pelo que consegui apurar José Eduardo não queria ter um apelido holandês no seu nome por razões que considerava estratégicas na sua ascensão política, mas sabia que sem os Van-Dunem, muito mais próximos do poder, nunca chegaria a lugar algum. Resolvi, por isso, querida Berta, espreitar o protagonismo das famílias Santos e Van-Dunem em Angola, ao mesmo tempo que termino a história de José Eduardo.

Começo por Aristides Pereira dos Santos Van-Dunem, um antigo preso político, que acolhe em sua casa, em 1975, o José Eduardo. Ao proteger o primo, Aristides relembra a família que este é neto de Avelino Pereira dos Santos Van-Dunem, fazendo com que o homem acabe por ser reconhecido e devidamente integrado no clã.

Volto um pouco atrás no tempo, querida Berta, porque preciso contar-te o que falta do percurso de José Eduardo dos Santos até 1975. Íamos em 1963 quando este, apenas com 21 anos, foi o primeiro representante do MPLA, em Brazzaville, a Capital da República do Congo. Ora, como reconhecimento do bom papel representado José Eduardo ganha, em novembro do mesmo ano, uma bolsa de estudos soviética e vai estudar para o Instituto de Petróleo e Gás de Baku.

Quando termina, tem a Licenciatura em Engenharia de Petróleos e o Curso Militar de Telecomunicações soviético. Durante esse tempo casa com a campeã de Xadrez Tatiana Kukanova e é lá que acaba por nascer, a 20 de abril de 1973, na atual capital do Azerbaijão, a única filha do casal, Isabel dos Santos, em pleno solo da URSS à data.

Durante 4 anos entre 1970 e 1974, a vida de José Eduardo é repartida entre a guerrilha do MPLA, em Angola (onde, logo em 1970, passa a exercer funções nos Serviços de Telecomunicações da 2.ª Região Político-Militar do MPLA, em Cabinda) e a URSS. É durante este período, conforme já te contei atrás, Berta, que nasce, ainda em Baku, Isabel dos Santos. Em 1974, depois de um excelente desempenho de funções no MPLA é promovido a subcomandante. Foi representante do partido para a Jugoslávia, a República Democrática do Congo e República Popular da China, sendo eleito para o Comité Central e para o Politburo do MPLA em Moxico em setembro de 1974.

A 11 de Novembro de 1975 é proclamada a independência de Angola e José Eduardo dos Santos, que entre 1974 e 1975 voltara à sua antiga função de representante do MPLA em Brazzaville, é nomeado Ministro das Relações Exteriores do Governo de Agostinho Neto. Com uma habilidade ímpar consegue levar a bom porto a tarefa do reconhecimento diplomático do seu governo entre 1975 e 1977. É nesta altura que, enquanto ministro das Relações Exteriores, conhece Filomena Sousa, uma alta funcionária do seu ministério com quem se junta e de quem tem um filho, numa tentativa de esquecer a relação matrimonial, entretanto terminada com Tatiana Kukanova, com quem sempre manteve excelentes relações e a quem encarregou de acompanhar a educação e os estudos da filha de ambos, Isabel dos Santos.

Graças ao seu papel no Ministério das Relações Exteriores, sobe mais um degrau na escada do poder e é nomeado Vice-Primeiro-Ministro. Segue-se a sua reeleição, em finais de 1977, para o Comité Central e para o Politburo, onde reforça a sua posição, passando a ter um lugar de destaque em ambos.

Cerca de um ano depois, consegue um dos seus principais objetivos ao ser escolhido para Ministro do Planeamento e Desenvolvimento Económico. Contudo, querida Berta, a Guerra Civil de Angola não lhe permitia brilhar da melhor forma. De um lado tinha a Frente Nacional de Libertação de Angola (FNLA) e do outro a UNITA, a União Nacional para a Independência Total de Angola.

Nem um ano passara desde que se assumira como um dos principais ministros de Agostinho Neto, quando este falece, vítima de um cancro no fígado, na União Soviética, a 10 de setembro de 1979. Doze dias mais tarde substitui o presidente interino por inerência, por ser à data presidente do MPLA, Lúcio Lara, que governou o país por 11 dias, e é eleito a 20 de setembro, pelo partido, Presidente do MPLA e, no dia seguinte, assume os cargos de Presidente da República Popular de Angola e de Comandante-em-Chefe das FAPLA, as Forças Armadas Populares de Libertação de Angola.

Contudo, como se isso não bastasse, no ano seguinte, a 9 de novembro de 1980, José Eduardo dos Santos assume também o cargo, após eleições, de Presidente da Assembleia do Povo, que substituíra o antigo Conselho da Revolução e que, em 1991, com as reformas administrativas, se passaria a chamar de Assembleia Nacional, na mesma altura em que Angola deixaria cair a expressão “Popular” para se passar a designar República de Angola. Porém, para o seguimento da história, amiga Berta, apenas importa a tomada total do poder.

Com esta tomada me despeço até amanhã, ainda há muito que dizer, mas, para o que realmente me importa, a compreensão começa a ser evidente. Beijos deste teu amigo do peito,

Gil Saraiva

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