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Carta à Berta

Carta à Berta é o local dos Desabafos de um Vagabundo, do Senhor da Bruma, essa bruma a que chamam de internet, de um Haragano, o Etéreo, qual cavalo selvagem que galopa entre cartas alegadamente, quiçá, sem fundamentos.

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Carta à Berta: Série "Os Segredos de Baco" - XVIII - Os Atributos do Vinho - A Doçura

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Olá Berta,

Hoje é a vez de “Os Segredos de Baco” entrarem naquilo a que eu chamo de: “Os Atributos do Vinho”. São 7 as grandes categorias, a saber: a Doçura, a Acidez, o Amargor, o Álcool, o Corpo, o Tanino e a Maciez. Todas elas têm 5 graus de intensidade básica, exceção feita ao amargor que só tem 3. É interessante constatar que são eles e o modo como os sentimos em cada vinho, que nos influenciam as preferências, as predileções e as decisões na hora de optarmos por um determinado vinho para consumir, isto se, evidentemente, soubermos à partida aquilo que vamos beber ou se o rótulo trouxer indicação suficiente sobre o assunto em causa. Comecemos pelo mapa abaixo:

Os Principais Atributos do Vinho

Berta 152 B.jpgPodia perfeitamente ocupar uma carta exclusivamente para cada um destes atributos, mas, afinal, o que mais importa aqui é ficares, minha amiga, com uma ideia simples sobre cada um deles.

I) Doçura:

A) A sensação da doçura vem, basicamente, do açúcar residual do vinho, isto é, da frutose proveniente da uva, que não desapareceu durante a fermentação alcoólica, a qual transfere parte deste açúcar transformando-o em álcool.

B) O palato também pode ser manipulado pela acidez, tanino e anidrido carbônico, que amenizam a doçura e ainda pelo álcool etílico, glicerol e pectina, que acentuam a sensação táctil de maciez. Convém lembrar-te que a maciez pode ser confundida, muitas vezes, com o estímulo gustativo da doçura.

C) Por um lado, vinhos totalmente sem açúcar residual podem parecer agradáveis devido à baixa acidez e elevado nível alcoólico, por exemplo. Contudo, por outro lado, líquidos com alto teor de açúcar residual podem não chegar a ser enjoativos, caso tenham boa acidez e baixo teor de álcool, como é o caso de muitos vinhos espumantes. Em resumo, saber descobrir o nível de doçura e distinguir a quantidade de açúcar, facilmente, exige algum treino.

D) É importante deixar clara a distinção entre os secos, suaves, os adocicados, os doces, também chamados de sobremesa e os licorosos que, por si só, constituem toda uma nova categoria.

1) Os secos:

Todos nós nos apercebemos imediatamente quais são. Sentimos no vinho como que a falta de açúcar. Algumas pessoas apelidam-nos de desérticos, embora essa designação seja mais poesia do que qualquer entendimento correto do que um vinho seco traduz.

2) Os Suaves:

Também apelidados por alguns especialistas como meio-doces, usufruem de alguma doçura, proveniente de um açúcar residual entre 10 e 30 gramas por litro, aproximadamente. Neste nível são raros os exemplares de grande qualidade, além de serem pouco versáteis à mesa.

3) Os Adocicados:

Tal como os secos são de fácil deteção, suportam entre 31 a 39 gramas de açúcar residual por litro e o índice de qualidade sobe ao ponto de nos deixar uma agradável sensação no seu consumo.

4)Os Doces:

Estes vinhos ganham facilmente apelidos de néctar e são do nível de onde saem muitos dos vinhos de qualidade superior, contendo mais 40 gramas de açúcar residual por litro, aliás, eles constituem, principalmente na região francesa de Sauternes, em Bordeaux, alguns dos rótulos mais premiados do mundo.

5) Os Licorosos:

Conforme já referi, este nível sai da ordem pura dos vinhos brancos, rosés ou tintos, para entrar numa categoria completamente autónoma por si mesma. Por isso mesmo, não se enquadra naquilo que constitui a minha análise presente nestas cartas. Aliás, para falar deles terei de dedicar-lhes uma ou mais cartas.

Ficam os outros atributos para próximas cartas. Continuo à espera que me digas também algo sobre as regiões. Despeço-me, minha querida amiga, com um beijo franco e alegre,

Gil Saraiva

Carta à Berta: Série "Os Segredos de Baco" - XVII - As Regiões Vitivinícolas de Portugal

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Olá Berta,

Achei graça estares ansiosa por me ver entrar, enquanto decorrerem “Os Segredos de Baco”, rapidamente, nas regiões vitivinícolas portuguesas. Não era para ser já, contudo, já que pedes, envio-te um mapa e a divisão respetiva das regiões sem, contudo, me alargar já sobre cada uma delas. Desculpa lá, minha amiga, mas isso é algo que demora mais a explicar. Por hoje seguem apenas o mapa e a divisão por regiões que solicitaste. Repara que, depois da última carta sobre o tema, agora consegues entender melhor o que significa o DOP, o DOC e o IGP (antigo Vinho Regional). Sendo assim, aqui vai:

Regiões

Regiões Vitivinícolas Portuguesas:

 

 I) Vinho Verde

A) DOP/DOC: Vinho Verde

B) IGP: Minho

 

II) Trás-os-Montes

A) DOP/DOC: Trás-os-Montes

B) IGP: Transmontano

 

III) Douro

A) DOP/DOC: Douro

B) DOP: Porto

C) IGP: Duriense

 

 

IV) Távora-Varosa

A) DOP/DOC: Távora-Varosa

B) IGP: Terras de Cister

 

V) Dão

A) DOP/DOC: Dão

B) DOP/DOC: Lafões

C) IGP: Terras do Dão

 

VI) Bairrada

A) DOP/DOC: Bairrada

B) IGP: Beira Atlântico

 

VII) Beira Interior

A) DOP/DOC: Beira Interior

B) IGP: Terras da Beira

 

VIII) Lisboa

A) DOP/DOC: Encostas d’Aire

B) DOP/DOC: Óbidos

C) DOP/DOC: Alenquer

D) DOP/DOC: Arruda

E) DOP/DOC: Torres Vedras

F) DOP/DOC: Lourinhã

G) DOP/DOC: Bucelas

H) DOP/DOC: Carcavelos

I) DOP/DOC: Colares

J) IGP: Lisboa

 

IX) Tejo

A) DOP/DOC: Do Tejo

B) IGP: Tejo

 

X) Península de Setúbal

A) DOP/DOC: Setúbal

B) DOP/DOC: Palmela

C) IGP: Península de Setúbal

 

XI) Alentejo

A) DOP/DOC: Alentejo

B) IGP: Alentejano

 

XII) Algarve

A) DOP/DOC: Lagos

B) DOP/DOC: Portimão

C) DOP/DOC: Lagoa

D) DOP/DOC: Tavira

E) IGP: Algarve

 

XIII) Madeira

A) DOP/DOC: Madeira

B) DOP/DOC: Madeirense

C) IGP: Terras Madeirenses

 

XIV) Açores

A) DOP/DOC: Graciosa

B) DOP/DOC: Biscoitos

C) DOP/DOC: Pico

D) IGP: Açores

Não sei se também te interessa saber um pouco mais sobre cada região... se assim for avisa. Sabes que não incomodas e que terei muito gosto em te esclarecer. Deixo um beijo meiguinho de amizade, o teu amigo de sempre,

Gil Saraiva

Carta à Berta: Série "Os Segredos de Baco" - XVI - Nomenclatura

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Olá Berta,

A carta de hoje é, mais uma vez, uma missiva dedicada às abreviaturas e siglas do universo vitivinícola em que “Os Segredos de Baco” nos vão envolvendo. Com a adesão de Portugal à Comunidade Europeia alguma nomenclatura comunitária teve de ser introduzida no que à classificação dos vinhos importa referir. Foram adaptadas e alteradas as leis nacionais para se ir ao encontro das normativas gerais da nova união, assim sendo, passo a revelar-te alguns dos conceitos introduzidos ou remodelados:

I) Os Vinhos VQPRDs:

A) Designação genérica a que acresce sempre o nome da região abrangida. Podendo ser acrescentada como segunda letra, nos vinhos específicos, nomeadamente o L, o F ou o E, consoante se trate de um vinho Licoroso, Frisante ou Espumante

B) Significado de VQPRD:

1) Vinho de Qualidade Produzido em Região Determinada:

Esta designação reúne todos os vinhos classificados como DOC, Denominação de Origem Controlada e IPR, Indicação de Proveniência Regulamentada.

2) Nomenclatura dos vinhos licorosos e espumantes:

a) VLQPRD - Vinho Licoroso de Qualidade Produzido em Região Determinada;

b) VEQPRD - Vinho Espumante de Qualidade Produzido em Região Determinada;

c) VFQPRD - Vinho Frisante de Qualidade Produzido em Região Determinada.

II) IPR, Indicação de Proveniência Regulamentada:

Designa o vinho que embora gozando de características particulares, terá ainda de cumprir (num período mínimo de 5 anos) todas as regras estabelecidas para poder passar à classificação de DOC.

III) Vinho, designação que substitui o tradicional nome de Vinho de Mesa:

 Os vinhos que não se enquadram nas designações atrás referidas, seja pela combinação de castas, vinificação ou outras características, são considerados vinhos de mesa, mas passam apenas a ser designados genericamente por vinho.

IV) IG ou Indicação Geográfica:

É um selo que reconhece uma área de vinha determinada dentro de um país pela sua qualidade diferenciada. Esse selo garante que os produtos daquela região apresentam características específicas devido a sua origem. Denominação de Origem (DO) é uma subdivisão mais restritiva dentro da IG.

V) IGP ou Indicação Geográfica Protegida, que veio substituir o chamado Vinho Regional:

Classificação dada a vinhos de mesa com indicação da região de origem. São vinhos produzidos na região específica cujo nome adotam, elaborados com um mínimo de 85% de uvas provenientes da mesma região, de castas autorizadas (Decreto-Lei nº. 309/91, de 17 de agosto). Contudo, muitos produtores passaram a usar a designação Vinho Regional como uma designação comercial, que atualmente já não significa nada a nível oficial.

VI) DO ou Denominação de Origem:

A) Esta designação é aplicável a produtos cuja originalidade e individualidade estão ligados de forma indissociável a uma determinada região, local, ou denominação tradicional que serve para identificar o produto vitivinícola.

B) São consideradas a origem e produção nessa região ou local determinado e a qualidade ou características específicas, devidas ao meio geográfico, fatores naturais e humanos. Para beneficiar de uma Denominação de Origem, todo o processo de produção é sujeito a um controlo rigoroso em todas as suas fases.

C) As castas utilizadas, os métodos de vinificação, as características organoléticas são apenas alguns dos elementos verificados para a atribuição desse direito cabendo às Entidades Certificadoras efetuar o controlo, de forma a garantir a genuinidade e qualidade dos vinhos. (alínea a) do art.2º do Decreto-Lei nº.212/04, de 23 de agosto).

VII) DOC ou Denominação de Origem Controlada:

Menção tradicional especifica que pode ser utilizada em Portugal na rotulagem dos produtos com denominação de origem. Contudo, amiga Berta, já te dei uma explicação bem detalhada sobre esta que é uma das mais significativas denominações do nosso vinho. A referência a esta menção dispensa a utilização de Denominação de Origem Protegida (DOP). (Alínea a) do art.8º do Decreto-Lei nº.212/04, de 23 de agosto).

VIII) DOP ou Denominação de Origem Protegida:

Designação comunitária adotada para identificar os vinhos com Denominação de Origem, aos quais é conferida proteção nos termos estabelecidos na regulamentação e que integram um registo comunitário único. (Regulamento (CE) nº 479/2008 do Conselho, de 29 de abril).

Espero não me ter alargado, nem ter sido aborrecido com a nomenclatura que hoje te expliquei. Muita dela, para o consumidor pouco mais é que uma curiosidade interessante, porém, o saber não ocupa lugar. Recebe um beijo amigo, deste que sempre será o mesmo para ti,

Gil Saraiva

Carta à Berta: Série "Os Segredos de Baco" - XV - Um Pouco de História

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Olá Berta,

Continuando a nossa aventura com “Os Segredos de Baco”, hoje é dia de te colocar uma questão: Qual foi a primeira Denominação de Origem do mundo? Posto de outra forma, onde surgiu a primeira designação DOC para classificar e significar um vinho de qualidade, de uma determinada região bem delimitada, produzido com castas específicas e segundo regras bem definidas? Se não sabes eu passo a explicar com a seguinte resposta:

A primeira Denominação de Origem do mundo foi a DOC Douro, em Portugal. Esta DOC foi criada em 1756 por um sujeito com uma visão muito futurista do mundo, carregado de largos horizontes no que se deveria pensar para a longo prazo. Estou a falar de Dom Sebastião José de Carvalho e Melo, conhecido nobre português, normalmente, pelo nome de Marquês de Pombal. O país estava inundado em problemas, crise financeira e sentindo ainda os efeitos do terrível terremoto que devastou Lisboa. Dessa forma, o então secretário de Estado do Reino resolveu usar o Vinho do Porto para reerguer Portugal. Tão bem o pensou que melhor o pôs em prática.

No dia 10 de setembro de 1756, o Marques de Pombal criou a Companhia Geral da Agricultura das Vinhas do Alto Douro. A organização surgiu com a difícil tarefa de proteger o mercado do Vinho do Porto. Contudo, o que aconteceu foi um monopólio por parte da empresa. Mas em tempos de poder absoluto, não é para nos admirarmos desse pequeno desvio ao que estava inicialmente previsto.

A Companhia referida criou normas que controlavam o plantio, produção, qualidade e comercialização do seu vinho. Também estabeleceu áreas de produção dos vinhos, que dever-se-iam concentrar a 100 km da cidade do Porto, na região do rio Douro. O planeamento global de toda esta ideia é, ainda hoje, reconhecido como fruto da genialidade e visão do Marquês, que não deixou créditos por mãos alheias, levando todo o conceito à prática num tempo a que hoje chamaríamos de recorde.

A empresa dificultou a exportação de vinhos de outras regiões e ainda se tornou a única a exportar Vinho do Porto para Inglaterra, Brasil e Rússia. Por muitos anos o Vinho do Porto foi a maior fonte de rendendimento do País. No entanto, em 1777, com a morte do rei D. José, a rainha D. Maria I destituiu o Marques do cargo, e revogou suas leis, permitindo que as outras regiões voltassem a comercializar seus vinhos.

É de assinalar que após 264 anos, a organização continue, ainda hoje, em operação. Porém, no entretanto mudou de nome e passou a projetar-se como Real Companhia Velha, a qual continua a ser a mais antiga empresa de Portugal em atividade ininterrupta.

A Real Companhia Velha conta, no conjunto das suas propriedades, com cinco quintas, Carvalhas, Aciprestes, Cidrô, Casal da Granja e Síbio. As quintas produzem vinhos doces, tranquilos e também azeites. Um verdadeiro feito que conseguiu atravessar 3 séculos sem se deixar abater fosse porque fenómeno fosse.

Hoje, minha amiga, foi dia de lição de História, numa altura em que os estudantes se ficam por casa, por impossibilidade de irem à escola, devido ao famigerado coronavírus. Espero que esta pequena recordação tenha sido do teu agrado, despeço-me saudoso, com um beijo. O teu amigo de sempre,

Gil Saraiva

Carta à Berta: Série "Os Segredos de Baco" - XIV - Siglas Importantes - IVV e DOC

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Olá Berta,

Continuando nos “Segredos de Baco” e falando apenas no caso português, convém referir algumas abreviaturas usadas por nós, para definirmos certos parâmetros no que toca ao vinho ou a assuntos a ele ligados. Existem várias siglas que usamos oficialmente, no tema do vinho nacional, que traduzem especificidades importantes que importa conhecer. Não me vou pôr agora a fazer um glossário sobre esta matéria, por hoje, fico-me apenas por explicar o significado de 2 delas, o IVV e o DOC, sendo que se a primeira se aplica a uma instituição, a segunda é usada em certos vinhos.

Siglas e abreviaturas:

I) IVV: Instituto da Vinha e do Vinho

A) O que é IVV:

O Instituto da Vinha e do Vinho faz parte da administração indireta do Estado, sendo um Instituto Público detentor de autonomia quer financeira, quer administrativa e possuidor de património que lhe é próprio e que tem a seu cargo a aplicação das normas europeias do setor, bem como das nacionais e, ainda a fiscalização de produtores, distribuidores e outros intervenientes no setor. Para além do seu órgão central, com o mesmo nome, rege ainda as Comissões Vitivinícolas Regionais, as quais acompanham e fiscalizam, em cada zona, as várias regiões vitivinícolas de Portugal.

B) Origem:

Em 1986, a Junta Nacional do Vinho, que se dedicava ao controlo do setor vinícola no país e que iniciara a adaptação das organizações corporativas, ainda em laboração, aos princípios e regras próprias da Organização do Mercado Comum, deu origem, após a sua extinção, ao Instituto da Vinha e do Vinho, I. P. o qual foi restruturando não apenas a sua orgânica interna, como também procedendo às alterações necessárias às novas exigências do mercado. Afinal, era preciso adaptar o seu papel à reforma do sector vitivinícola e às profundas mudanças estruturais e económicas do setor. A legislação mais determinante é a que consta no Decreto-Lei n.º 66/2012 de 16 de março.

C) Principais Funções:

1) Desenvolver no decurso do seu funcionamento a participação e acompanhamento de processos relativos a todas as áreas vitivinícolas.

2) Criar e Fortalecer todas as ações tendentes à melhoria da qualidade dos produtos vitivinícolas.

3) Ajudar a Reforçar não só a competitividade como a internacionalização do negócio vitivinícola.

4) Promover o desenvolvimento sustentável, ajudando à criação dos equilíbrios necessários para a sustentabilidade que se pretende conseguir no universo vitivinícola.

5) Coordenar e Gerir o Sistema Nacional Integrado de Informação da Vinha e do Vinho.

6) Atuar, Aplicar e Cobrar as taxas definidas para o setor, bem como fiscalizar e gerir os autos, e as coimas, relacionados como os incumprimentos que possam existir ou aparecer mediante a fiscalização instalada.

7) Definir e Coordenar a aplicação de medidas de gestão do património vitícola nacional e da sua valorização.

8) Organizar a difusão dos produtos, produtores e distribuidores na sua promoção não apenas nacional, mas, principalmente, além-fronteiras, ajudando a abrir novos mercados ou a fortalecer os existentes.

II) DOC: Denominação de Origem Controlada

A) O que Representa:

Assinala os vinhos cujos atributos e personalidade são inseparáveis de uma região bem demarcada. São, portanto, DOC os vinhos originários dessa região, cujas características se devem fundamental ou unicamente ao meio, incluindo todos os agentes naturais, como os climáticos, geográficos ou geológicos, bem como aos fatores humanos entretanto introduzidos na equação. Para ser DOC um vinho tem de se candidatar à sua atribuição.

B) Ao que Obriga:

Para beneficiar de uma Denominação de Origem Controlada, o procedimento de produção do vinho é rigorosamente controlado, desde o vinhedo até ao cliente final, cumprindo a adoção das castas outorgadas, os processos de vinificação e as características organoléticas pré-determinadas.

C) Quem a Controla e o Que Garante:

A responsabilidade pertence às Comissões Vitivinícolas Regionais, de acordo com a Lei n.º 8/85 de 4 de junho e de outra legislação específica, entretanto publicada. Estas comissões estão por seu turno integradas no organismo estatal designado por IVV, ou seja, o Instituto da Vinha e do Vinho, que já foi abordado na primeira parte desta carta. É este Instituto que define todas as regras do jogo, determinando e delimitando regiões, caraterísticas como teor alcoólico, tempo de estágio e todas as outras que se considerem necessárias, mas, também, tipos de solo, castas e processos de tratamento das uvas, vinhas e do vinho. Às Comissões Vitivinícolas Regionais cumpre fazer a fiscalização, garantindo a genuinidade dos produtos finais dentro das suas regiões demarcadas.

Como podes ver, querida amiga, estas 2 pequenas siglas que hoje te dei a conhecer têm, no plano vitivinícola nacional, uma enorme importância. Despede-se, com um beijo de saudades, este teu velho amigo,

Gil Saraiva

Carta à Berta: Série "Os Segredos de Baco" - XIII - Vinho e Mosto

" Os Segredos de Baco"

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Olá Berta,

Continuando nos “Segredos de Baco” penso que é chegada a altura de avançar com uma definição clara sobre o que é, afinal, o vinho. Pretendo, minha amiga, evitar algumas confusões populares que confundem vinho com sidra e com outras bebidas alcoólicas existentes no mercado. Para o explicar também terei de te falar em mosto. Vamos, pois, ao que interessa: O que é o Vinho e o que significa Mosto?

I) Definição de Vinho:

A) Bebida Fermentada proveniente de uva ou mosto com pelo menos 7% de álcool.

B) Processo: Esta bebida é criada através de um sistema que advém, única e exclusivamente, da fermentação alcoólica da uva fresca ou do mosto, detentora de um conteúdo mínimo de 7% de álcool.

C) Órgão Decisor: A ISO, International Organization for Standardization, em português, Organização Internacional de Normalização, presente em praticamente todo o tipo de atividade humana: É a instituição responsável pela uniformização e regulamentação mundial (criadora das famosas normas ISO). É esta organização que regulamenta e gera a definição padrão, a qual, posteriormente, tem de ser obrigatoriamente transposta para todos os países, através das legislações vitivinícolas de cada um deles.

II) Definição de Mosto:

A) Sumo de uvas frescas resultante da prensagem, seja ela artesanal, mecânica ou outra, desta fruta.

B) Origens: O termo vem do latim e significa novo ou jovem e na produção de vinho refere-se ao sumo de uvas frescas resultante da prensagem específica desta fruta, aliás, o vinho é originariamente o verdadeiro e único néctar dos deuses, relegando para segundo plano todas as outras bebidas alcoólicas desde as criadas pela fermentação de outros frutos ou cereais ou as produzidas por processos de destilação.

C) Aproveitamento: Na produção do mosto, consoante o método utilizado, com 100 quilogramas de uvas espremidas ou prensadas consegue-se obter entre 65 e 75 litros de líquido.

D) Método Seletivo: As uvas têm de ser colhidas, manual ou mecanicamente, e depois selecionadas. O material recolhido precisa de ser, posteriormente, liberto dos pedúnculos e dos ramos dos cachos, sendo que o processo manual de o fazer se tornou obsoleto e, esse trabalho, é agora entregue a uma desengaçadeira ou a outra máquina com semelhantes funções ou finalidade.

E) Finalidade da Seleção: Importa referir que este trabalho é fundamental para limitar a amplificação do tanino e a sua adstringência, ou seja, aquela impressão de secura que essa matéria provoca na boca.

F) Prensagem: Seguidamente as uvas, finalmente libertas dos cachos, passam pelo processo de prensagem. Existem diversos métodos de compressão e esmagamento da uva, eles abarcam sistemas tão dispares como o mais artesanal às prensas industriais informaticamente controladas. O que importa reter, porém, é a necessidade do processo em si.

G) Mosto: Depois da prensagem a matéria prima resultante é recolhida em recipientes de largo porte, que podem variar na dimensão e no material de que são constituídos. Aí é, finalmente, depositada uma pasta de sumo, cascas e sementes, que se traduz num líquido denso e turvo a que se dá o nome de mosto.

H) Composição do Mosto: O produto dominante do mosto é sempre a água. As percentagens são variáveis, contudo, devem sempre estar balizadas entre os 70% e os 85% do total da mistura. Nos restantes produtos, porém, é que se encontram os ingredientes elementares que irão ser decisivos no processo de fermentação. Aliás, são estes elementos que ajudarão a definir o futuro sabor, acidez e aromas do vinho.

I) Ingredientes Elementares: Estes elementos são a frutose e a glicose, normalmente designadas pelo termo genérico de açúcares, e ainda as leveduras naturais, os taninos, os minerais, as enzimas, as vitaminas e os ácidos orgânicos, dos quais os mais destacáveis são o tartárico, o málico e o cítrico, embora existam outros.

J) Rendimento: O aproveitamento das uvas em relação ao mosto traduz o rendimento e obedece a alguns fatores e variantes. Os predominantes são:

a) A espécie de uva: O país tem mais de 240 tipos de uvas.

b) O grau de maturação: A escolha do ponto de equilíbrio entre os açúcares e os ácidos para se efetuar a vindima.

c) Os Fatores Sazonais: As condições climatéricas e os seus efeitos nas uvas colhidas.

1) A Época de Colheita: A altura em que a vindima se faz.

2) A Safra: É importante saber a quantidade e a qualidade.

L) A Percentagem de Açúcares Versus a Percentagem de Ácidos: Do percentual encontrado entre açúcares e ácidos contidos no mosto extrai-se uma equação pela qual se consegue calcular o teor alcoólico que o vinho terá depois do processo de fermentação. Esta antecipação de cálculo é particularmente pertinente quando se pretende criar um determinado tipo de vinho.

J) A Acidez: Por fim, a acidez é decisiva para um bom desenvolvimento da fermentação. Em última análise, ela é também responsável pela estabilização da cor, do equilíbrio e do potencial de envelhecimento do vinho, determinando, à partida, que vinhos podem ou devem envelhecer em garrafa, antes de serem consumidos, ou quais são aconselhados a ser colocados no mercado imediato de consumo corrente.

Com esta abordagem, minha querida Berta, espero ter-te saciado a curiosidade, sabendo eu que tu és uma fervorosa apreciadora de um bom vinho. Por hoje despeço-me, com a amizade de sempre, recebe um beijo deste teu amigo,

Gil Saraiva

Carta à Berta: Série "Os Segredos de Baco" - XII - O Caso Especial de Portugal

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Olá Berta,

Continuando nos “Segredos de Baco”, e antes de mais, há certos destaques sobre este tema de que não me quero esquecer de te mencionar. Não são fundamentais no que que ao vinho diz respeito, mas ajudam a posicionar o país e a sua relevância no panorama internacional. Espero que me desculpes igualmente o facto de eu não resistir a fazer também um pequenino relato histórico de enquadramento luso na temática do vinho.

Vou começar pelo Douro. Conforme sabes as vinhas tradicionais da região são feitas em socalcos e esta aparente escadaria ao longo do rio e dos seus afluentes, é de tal forma única, em termos de paisagem, que foi reconhecida pela UNESCO como Património da Humanidade. Contudo, não é apenas a Região Vinhateira do Alto Douro, onde se produz o vinho generoso designado por Vinho do Porto, que é património mundial, reconhecido pela UNESCO, também a Paisagem da Cultura da Vinha da Ilha do Pico, nos Açores, tem essa mesma distinção.

Portugal tem o mais antigo sistema vinícola do mundo, a região demarcada do Douro. Quando te falo em sistema estou-me a referir a uma região delimitada, onde existem regras específicas ligadas a todo o processo produtivo. Tal ordenamento leva a que só uns determinados tipos de castas de vinhas possam ser aí implementados.

Esta região, entre outras, como a dos Vinhos Verdes, produzem alguns dos vinhos mais requintados, exclusivos e valorizados no mercado global. Importa salientar, amiga Berta, que os vinhos portugueses não apareceram por geração espontânea. Eles são o resultado de um suceder de tradições introduzidas no país, ao longo dos séculos, por uma panóplia de civilizações que pelo território foram transitando. Estou a falar dos fenícios, dos cartagineses, dos gregos e principalmente dos romanos, apenas para citar os mais importantes.

Se, por um lado, as primeiras exportações do vinho no nosso território foram para Roma, durante os tempos do Império Romano, o arranque das exportações modernas, por outro, desenvolveram-se com o comércio com o Reino Unido, em 1703, através do Tratado dos Panos e dos Vinhos, assinado entre Portugal e a Grã-Bretanha, conhecido por Tratado de Methuen.

Graças à influência inglesa, aliás, ficámos muito mais cientes das nossas próprias riquezas neste setor. A nossa diversidade climática e territorial é tal que o guia “The Oxford Companion to Wine” descreve Portugal como um verdadeiro e incrível “tesouro de castas locais”, ou seja, de castas de origem nacional. Com efeito, verifica-se a existência de cerca de 285 castas nativas. Isto permite produzir obviamente uma imensa diversidade de vinhos com personalidades muito distintas entre si.

Todos sabemos que temos uma dimensão geográfica e territorial reduzida. Porém, a qualidade e carácter único dos seus vinhos portugueses tornam-nos uma referência de destaque entre os principais países produtores, com um lugar de relevo e em crescimento, entre os 10 principais produtores mundiais, sendo que nos idos de 2003 já eramos responsáveis por 4% de todo o mercado mundial. Isso ainda se torna mais relevante se pensares, minha amiga, que somos considerados um produtor tradicional do velho mundo, onde a cultura da vinha ocupa mais de 8% do continente.

Mais espantoso é o facto de este pequeno país representar 9% do total das vinhas da União Europeia. Aliás, temos a quarta maior superfície vinícola, depois de Itália com 19%, França com 25% e da Espanha com 30%. Passando isto para hectares e superfícies abrangidas, e tendo em conta os dados de 2015, Portugal tinha 199 mil, Itália 610 mil, França 803 mil e Espanha 941 mil. Contudo, importa referir que em 2018 a área vitivinícola no país tinha descido para os 177 mil hectares, havendo ainda cerca de 2 mil hectares de vinha usados para a produção de uva para consumo.

Na minha próxima carta tentarei dar-te, querida Berta, algumas noções sobre siglas ligadas ao vinho e explicar algumas noções o produto, embora não prometa conseguir concentrar tudo isso numa só carta. Importa, por exemplo saber o que é o Vinho ou de onde é proveniente.

Hoje não te distraio mais com os meus devaneios, minha querida amiga, despeço-me com um beijo, deste teu amigo para o que der e vier,

Gil Saraiva

 

Carta à Berta: Série "Os Segredos de Baco" - XI - Os Apelos do Vinho - Parte II - Os Triunfos

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Olá Berta,

Voltamos ao nosso tema corrente, “Os Segredos de Baco”. Dividi em 2 cartas os 10 grandes apelos usados para atrair os apreciadores do néctar. Embora eu dê muitos exemplos, não precisas de os estar a ler exaustivamente, fica-te por aqueles que achares suficientes, para entenderes a explicação que dou antes de cada conjunto de exemplos. A leitura torna-se mais suave e menos maçuda.

B) Os 10 mandamentos do vocabulário, nomenclaturas e terminologia nas garrafas de vinho. Os grandes Apelos do Vinho.

Parte II: Os Triunfos: Apelos de Memória, Míticos, de Linhagem, Monárquicos e de Aptidão.

1) Apelos de Memória: da Tradição à Antiguidade:

Uso do Ano e da Casta, Detalhes que nos fazem recordar, que criam laços de familiaridade, que eliminam desconfianças e receios. Assim encontramos palavras que geram nostalgias e lembranças, que nos recordam usos e costumes e hábitos que nos moldaram ao longo da História que nos constitui.

Exemplos: Castro(s), Caves Velhas, Garrafeira, Mó, Nora, Origem, Velho, Telha, Tempo(s), Velhos Tempos, Pontual, Tinto Velho, Velharia,  Vinhas Velhas, Vinho de Mesa, Vinho Regional, Madeira Velha, Romanos, Reserva, Grande Reserva, Seleção, Seleção Especial, Escolha, Grande Escolha, Garrafeira, Talha, Tambuladeira, Canto Décimo, Tecedeiras, Chrestus, Côro, Arte, Coleção, Vintage, Comendador, Arca, Prestige, Fundanos, Servas, Torres, Atrium, Ameias, Paredes, Couteiro-Mor, Volte Face, Mouros, Aliança, Serra Brava, Primavera, Pintor, Barqueiros, Avós, Parra de Prata, Portal, Lagar Velho, Falua, Convenção, Tanoeiro, Falcoaria, Palma, Bica, Magnum, Selecto, Grão Vasco, Castrus, Dona, Séquito, Hereditas, Homenagem, Soberanas, Barca Velha, Aniversário, Conventual, Monte Velho, Fundação e Praça Velha.

2) Apelos Místicos: do Mistério à Religião:

Nesta busca pelas interações com o consumidor os ambientes de mistério e de religião casam a preceito com as intenções de quem produz com intuito de ver o seu produto bem colocado no mercado, opta-se por um lado, com facilidade, por palavras enigmáticas e secretas ou, por outro lado termos que nos conduzam à crença ou à fé.

Exemplos: Aether (a significar Vinho Efervescente - verde, Espuma ou Essência do Éter), Aphros Daphne (traduzindo um Vinho Efervescente - verde, Espuma ou Essência do Loureiro Mitológico), Cave(s), Cova, Portal, Prova Cega, Reserva, Capela, Convento, Freiras, S., Santa(s), Santo(s), São, Carpe Noctem, Voyeur, Spirits, Corpus, Pia(s), Aphros Restrito, Milagre, São Domingos, Judeu, Incógnito, Arrepiado, Romeira, Murça, Fagote, Sedna, S. Sebastião, Monte dos Pelados, Odisseia, Canto X (Décimo), Chrestus, Furtiva Lágrima, Fundanos Prestige, Dolum, Unique, Veritas, Casa de Santa Vitória, Pecado Capital, Dom Martinho, Frei João, S. João Batista, Globus, Mundus, Pegus, O Convenção, Terras do Demo, Olho no Pé, Terras de Cister, Confradeiro, Má Partilha, Além, Cardeais, Papa, Pope, São Gens, Freiras, Clandestina, Fonte Santa, Conventual, Caminhos Cruzados e Inevitável.

3) Apelos de Linhagem: da Propriedade à Família:

A propriedade é um dos valores mais tradicionais do ser humano, cria laços. gera confiança, emite fortes noções de segurança e de conforto, faz parte da estabilidade da família na busca quer da subsistência quer do equilíbrio de todos os seus elementos, fazendo surgir palavras ligadas à posse, ao reconhecimento e ao valor ou até termos geracionais, de descendência e de direito por locais, lugares ou edifícios que afirmamos como nossos.

Exemplos: Herdeiros, Companhia, Real, Adega, Arca, Baixo, Casa, Casal, Couteiro, Leira, Muro(s), Porta, Produtor, Quinta, Tonel, 1º Prémio,  Alta(s), Alto(s), Pipas, Pipas Novas, Capote, Consensual, Serra Mãe, Bica, Tapada, Vinha, Outeiros, Pombal, Ameias, Filhos, Portal, Terraços, Grandes Quintas, Fronteira, Arca Nova, Torres, Serrado, Pomares, Barqueiros, Casta Rica, Casaleiro, Fonte, Fontanário, Galera, Tanoeiro, Porta, Ribas, Solar, Torres, Terras do Pó, Estanho, Comendador, Cortes, Titular, Coutada, Herdade, Propriedade, e Reserva do Chefe.

4) Apelos Monárquicos: da Realeza à Nobreza:

Todos nos lembramos das histórias de príncipes e princesas, reis e rainhas, espadas e escudeiros, que tantas vezes escutámos enquanto crianças. É simples a atração pelo fausto e pelas etiquetas da corte porque são coisas vindas do nosso imaginário enquanto infantes, daí surgirem palavras ligadas a esse maravilhoso mundo fantástico onde a glória tinha significado e pelas mãos e atos de alguns se tornava épico.

Exemplos: Barão, Cavaleiros, Comendador, Conde, Condado, Coroa, Cortes, D., Don, Foral, Franca, Grão, Magnum, Marquês, Marquesa, Mor, Morgado, Paço(s), Palácio, Praça, Real, Régia, Solar, Torres, Visconde, Foral D. Henrique, Magna Casta, Ameias, Ira, Senhora, Infantado, Nave, Casa de Paços, Superior, Casal do Conde, Marquesa de Cadaval, Dom Hermano, Palácio dos Távoras, Conde de Foz de Arouce, Barão Rodrigues, Solar dos Lobos, Visconde de Borba, Marquês de Marialva, Paço do Conde, Caves Dom Teodósio, Vinícola Castelar,  Vice-Rei, Coutada, Marquês de Villamagna, Palácio da Brejoeira, Solar das Francesas, Conde de Monte Real,  Porta dos Cavaleiros, Vila Régia, Torres Coronas, Cavaleiros de São João, Reserva do Comendador, Conde de Monsul, S de Soberanas, Condado de Alenquer e Palácio da Bacalhôa,

5) Apelos de Aptidão: do Conforto ao Poder:

Por último não se torna difícil concluir que o ambiente à volta dos prazeres do vinho conduza ao poder e ao conforto por ele proporcionado, é, por assim dizer, o objetivo último de todos os apelos anteriormente descritos, nesta senda surgem termos nos rótulos das garrafas palavras que demonstrem comodidade, regalo, conquista e merecimento ou então, liderança, comando, potência e, inevitavelmente, muita capacidade.

Exemplos: Comendador, Rei, Chefe, Patrão, Serra Mãe, Palácio, Magnum, Solar, Fundanus Prestige, Conde, Bica, Casal, Fontanário, Cima, Coro, Escolha, Fornos, Folgorosa, Gordo, Foral, Grande(s), Maior, Medalha, Oiro, Monte D'Oiro, Ouro, Personalizado, Premium, Herdade Paço do Conde, Collection, Prova, Rating, Seleção, Selecionada, Chefe, Patrão, Seguro, Sublime, Superior, Uva de Ouro, Condado, Vila Régia, Vinho Biológico, Vinho Comemorativo, Vinho Particular, Dona, Nova(s), Pausa, Odisseia, Ideias, Monte do Pintor, Garrafeira, Coutada, Caves Primavera, Parra de Prata, Lagar Velho, Terra Franca, Torres, Magna Casta, Casa do Vale, Tapada e Vitória.

Amanhã, se tudo correr conforme o previsto, cá estarei com uma nova carta, por hoje despeço-me com a ternura de um beijo etéreo, este teu amigo,

Gil Saraiva

Carta à Berta: Série "Os Segredos de Baco" - X - Os Apelos do Vinho - Parte I - Os Apelos Sensoriais

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Olá Berta,

Estava na altura de te continuar a enviar os eventos de 2019, mês a mês. Estou a falar daqueles que foram acontecendo no meu bairro. Contudo, acho que os 3 primeiros meses que recebeste ter-te-ão dado uma boa noção de como as coisas iam acontecendo por aqui. Assim, e porque se tornava algo repetitivo, cancelo definitivamente essa revisão do ano passado no bairro. Vou continuar, porém, a minha epopeia pelo mundo do vinho. Essa sim, é bem mais interessante. Conforme reparaste troquei a ordem das duas últimas cartas. Esta era para ter seguido ontem e a outra só deveria ter ido hoje. Mas não importa muito, o conteúdo não muda, que é o que interessa.

Cheguei finalmente nesta divagação sobre os “Segredos de Baco” aos apelos, ou seja, aquilo que quase subliminarmente é usado pela indústria do vinho para nos transportar para o seu mundo, sem que para isso nos convoque diretamente para a sua causa. Os exemplos que apresento não são para ser lidos todos e servem apenas para ficares com uma ideia.

B) Os 10 mandamentos do vocabulário, nomenclaturas e terminologia nas garrafas de vinho. Os Grandes Apelos do Vinho.

Parte I: A Humanização Civilizacional: Apelos de Natureza, de Terra, de Local, de Nome e, finalmente, na busca das sensações primeiras, os Apelos Sensoriais.

1) Apelo à Natureza:

Detalhe Hídrico, Detalhe Geográfico, Mineral. Na senda da segurança na familiaridade de zonas de regresso à nossa primitividade e pré-história, realçando a importância dos solos, dos terrenos e da flora, apelando para as coisas naturais em que relaxamos, por isso o uso de determinadas palavras.

Exemplos: Campo, Costa, Coutada, Encosta(s), Monte(s), Monte Branco, Monte Maior,  Vereda(s), Termo(s), Planalto, Serra(s),  Estanho, Ferrugento, Cal, Curva, Curvos, Vale, Valle, Hermo(s), Penedo(s), Prata, Bronze, Ouro,  Tapada, Terraços, Fundação, Lagoa, Lagos, Rio, Foz, Ribeirinho, Ribeiro, Fonte, Fontanário, Fontão, Poças, Esporão, Além Tanha, Tejo, Mondego, Douro, Guadiana, Terras do Sado, Arouce, Tua, Flor do Tua, Pinhal, Penha, Ermo(s), Leira, Mouchão, Carvalhais, Serrado, Pomares, Planura, Madrigal, Chã, Chão, Cumeada, Serra Brava, Primavera, Granja, Herdade, Quinta, Terra(s), Terras de Xisto, Sem Terra, Folhas, Urze, Península, Passarinhas, Lagar Velho, Meda, Espinhosa, Montanha, Brolhas e Mato(s).

2) Apelo à Terra e à união em torno dela:

Detalhe Geográfico para o lazer ou para o trabalho, normalmente sujeito a intervenção humana e ainda atividades e coisas ligadas à terra. Procura-se dar chão, criando terrenos familiares e bucólicos, onde o conforto se instale, nestas escolhas de palavras ligadas à aquisição e ao que é nosso e por nós foi moldado e vergado à intervenção árdua a que nos propusemos.

Exemplos: Calços, Cerrado, Chã, Charneca, Colheita,  Terra(s), Terras do Demo, Terras do Pó, Terras do Minho, Terra Franca, Terras do Sado, Terras do Suão, Tapada, Terraço(s), Cortes, Adega, Adega Cooperativa, Vila, Vinha(s), Vinhedos, Vallado, Granja, Cebolal, Outeiro(s), Espargueira, Leira, Panca, Bica(s), Ponte, Pegões, Esporão, Barca, Nora, Passadouro, Fontão, Fonte, Fontanário, Cachão, Corga, Herdade, Granja, Pomares, Coutada, Casaleiro, Casal, Quinta, Ramada, Barrocão, Monte Real, Tanoeiro, Nave, Praça, Mó, Primavera, Caves, Palma, Espinhosa, Planura, Machados, Campo, Marachas, Cascas, Termos e Pombal.

3) Apelo a um Local:

Região, Especificação do Local, seja ele o nome da região, da terra ou mesmo da quinta ou da herdade. A ideia é gerar proximidade, noção de conhecimento, de empatia, eliminando fatores de incerteza ou falta de conhecimento. Assim, facilmente, encontramos nomes de certos lugares que se tornam ou pretendem tornar icónicos, incontornáveis e imortalizados pela fama.

Exemplos: Pancas, Lagoalva de Cima, Arrancosa, Borba, Piornos, Alqueve, Cadaval, Vila Nova de Foz Côa, Sobral, Coelheiros, Monte da Cal, Rabaçal, Palmela, Trogão, Alandroal, Cebolal, Folgorosa, Calços do Tanha, Pias, Arrochais, Melgaço, Beira, Carvoeira, Covilhã, Cadaval, Infantado, Vilarinho dos Freires, Freixo de Espada à Cinta, Santar, Barca d'Alva, Fundão, Foz de Arouce, Tramagal, Salgueiral, Sanguinhal, Lixa, Cantanhede, Crasto, Lourosa, Castro de Pena Alba, Cova da Barca, Lagoa, Mealhada, Souselas, Vilarinho do Bairro, Redondo, Granja, Reguengos de Monsaraz, Alcoentre, Torres Vedras, Lagos, Barcelos, Tomar, Cambres, Lamego, Favaios, Mesão-Frio, Minho, Ponte da Barca, Santa Marta de Penaguião, Monte Real, Labrugeira, Távora, Valpaços, Bombarral, Marvão, Alijó, Sangalhos, Fornos, Meda, Vila Real, Almeirim, Lisboa, Portalegre, Arruda dos Vinhos, Mangualde e Pegões.

4) Apelo ao Nome:

Nomes usados na própria designação do vinho ou no rótulo, sejam eles profissionais e especializados, seja a passagem para as garrafas do nome próprio e do apelido dos seus proprietários ou criadores. Trata-se sempre da busca pela glorificação de algo seja a Especificação do Enólogo ou a Individualização do Produtor entre outros. Tudo na procura de uma proximidade quase que familiar que conforte o consumidor ou que lhe ofereça confiança e cumplicidade. Assim podemos encontrar na rotulagem das garrafas nomes que anseiam pela imortalidade impressa na rotulagem, todavia, poucos o conseguem.

Exemplos: Eugénio de Almeida, Vaz de Carvalho, Dom Teodósio, Lima Mayer, José Gomes da Silva, De Filipa, Gilda, Paulo Laureano, Vítor Horta, Miguéis, Acácio, Nunes Barata, S. Sebastião, Howard'S Folly, Athayde, Horta Chaves, António Caetano de Sousa, Faria Girão, Sancho Uva, António Bernardino P. da Silva, Mário Nuno, Jaime Cardoso, José Bento dos Santos, João Abrantes, Eduardo Loureiro, João Barbosa, Gabriel Dias, Ferreirinha, Olazabal, Montez Campalimaud, José Carlos Pinto, Eduardo Seixas, José Joaquim da Silva Perdigão, Comendador Delfim Ferreira, Julian Reynolds, Manuel dos Santos Campolargo, Barão Rodrigues, Miguel Torres, Manuel Joaquim Caldeira, António Bonifácio, Marcolino Sebo, Maria Irene Costa, José Carvalho, Rebelo Lopes, Zé da Leonor, Mendes Pereira, Jorge Rosas, José Maria da Fonseca, Garcia Pulido, Xavier Santana, Maria Hermínia Paes, João Portugal Ramos, Abel Pereira da Fonseca, António Pires da Silva, Santos Lima, Filipe de Brito, Maria Teresa Rodrigues, António Rocha, A. Henriques, Brites Aguiar, Alexandre relvas, Macário de Castro Valdigem, João Pombo, Sampaio e Melo Cabral, Maria del Carmen Martinez Touro, Santos Jorge, Maria Adelaide Melo e Trigo, José Soares Albergaria, Isabel Juliana, Ermelinda de Freitas, Emili Antónia Reynolds, Sofia Vasconcelos, Antónia Adelaide Ferreira,  Manuel Poças Júnior,  e Carvalho Ribeiro e Ferreira, etc..

5) Apelos Sensoriais:

Detalhe que nos provoca uma sensação, um sentimento, uma recordação experimental, que nos aproxima do vinho pela proximidade dos termos, comuns no nosso quotidiano como, por exemplo, uma Flor, uma Árvore, um Animal, um Odor, uma Essência ou uma Imagem. Uma Casta também pode trazer esse apelo (Dois exemplos de Castas: Syrah, Touriga Nacional - consultar as principais castas por região). Em resumo, buscam-se palavras que nos ajudem os sentidos na procura de emoções.

Exemplos: Aniversário, Primavera, Maio, Feijoada, Barricas de Carvalho, Carvalho, Romeira, Oliveira, Cedro, Couquinho, Hortências, Bágeiras, Aciprestes, Pera, Buganvílias, Cerejeiras, Pinheira, Espinho, Zimbro, Pinhal, Pombal, Raposinha, Lobo(s), Grilos, Chitas, Merino, Perdigão, Falcão, Abibes, Raposa, Gaivota, Charneco, Porca, Pato, Passarinhas, Periquita, Pego(s), Ferreira, Ferrugento, Galera, Colares, Ira, Amigos, Grande Encontro, Fulgor, Pecado Capital e Volúpia.

Por hoje é tudo, despeço-me com carinho e, também, com um beijo e um abraço forte, recebe-os sorrindo, se forem do teu agrado, este teu grande amigo,

Gil Saraiva

Carta à Berta: Série "Os Segredos de Baco" - IX - Contornos Específicos e Especiais

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Olá Berta,

Poucos temas existirão que tenham o condão e a capacidade de nos ajudar a distrair dessa coisa terrível chamada coronavírus. Porém, não é saudável ficarmos absorvidos apenas por essa temática, como em qualquer outra doença, precisamos de pontos de fuga que nos possam auxiliar a desanuviar um pouco.

É essa a razão para eu voltar, hoje, ao tema de “Os Segredos de Baco”. Esta abordagem visa esclarecer e explicar coisas que nunca vi colocadas por escrito e devidamente sistematizadas, mesmo assim, isso não quer dizer que não existam, mas, apenas, que eu não as encontrei.

Um importante segredo de Baco é a criação de laços de confiança e empatia entre o vinho e o seu consumidor. Trata-se de um jogo subtil, com contornos suaves, sem imposição, gerado quase que instintivamente, na senda de nos fazer acreditar que estamos perante um produto ímpar, merecedor do nosso foco e atenção.

III) O Vocabulário da Terminologia usada nos Vinhos Nacionais e alguns Porquês…

A) Os Contornos do Prazer associado ao Conforto e ao Bem-Estar.

Secção II) Contornos Específicos e Especiais: Portugal, Raízes, Eixos, Avaliadores e Terminologia.

1) O Caso de Portugal:

Julgo que em enquanto nação fomos dos povos mais influenciados por certos valores da antiguidade. Não só falamos uma língua latina, embora com imensa influência grega, principalmente no vocabulário, como, sendo nós periféricos, marítimos, descobridores e aventureiros, usufruindo das benesses do clima mediterrânico, somos um país com quase um milénio de existência, muito mais próximos do que outros povos das influências clássicas. Porém não somos exclusivos, mas fazemos parte de um grupo muito restrito.

2) As Raízes:

Não é de espantar que muitas destas tradições e práticas da antiguidade se tenham infiltrado na forma como lidamos com o vinho, com o tipo de marketing que para ele escolhemos e que exista uma real influência de terminologia e vocabulário que ficaram. Afinal, graças às caraterísticas do nosso território, e aos diferentes climas e microclimas, tivemos a possibilidade de gerar uma variedade imensa de vinhos específicos e adaptados a cada local, com peculiares detalhes próprios de cada região. Os produtores, levados pelo método da experiência e erro, foram inovando, testando e moldando as verdadeiras raízes que, mais tarde, serviriam para caraterizar cada zona vitivinícola e, por fim, cada região demarcada. Portugal, no seu pequeno território, é um exemplo único, no que diz respeito, à diversidade.

3) Os Eixos:

a) Entre o Mar e a Serra, o Sul e o Norte na busca daquilo que nos relaxa: Não poderia ser de outra forma. Por um lado, o consumo do vinho apela por si só ao relaxe, à paz e à descontração. Sem estes eixos seria impossível podermos produzir de forma tão diferenciada, os diferentes tipos de vinho. O segredo encontra-se na adaptação das vinhas e da produção a cada região. Foi isso mesmo que nos tornou singulares no universo de Baco. Por outro lado, os nomes das garrafas procuraram, na sua grande maioria, ajudar a manter essa ideia ou, se possível, fazê-la atingir patamares mais elevados na procura de ligar um bom nome de um vinho a um momento muito bem passado, a uma região demarcada, a uma história e a uma tradição.

b) A harmonia das ideias e da alma convergem, se forem ajudadas por lembretes felizes, na rotulagem das garrafas de vinho. Se num carro gostamos de sentir potência e emoção, adrenalina e perigo, num vinho procuramos o gosto pelas coisas simples da vida, de uma forma quase pura. Importa saber realçar a relação entre o prazer de existir e o deleite de beber, como elementos complementares de uma convergência que tem de nos parecer natural. A criação da necessidade deverá parecer emergir da nossa vontade. É por isso que aqueles que combatem os problemas causados pelo vinho apenas têm um sucesso relativo. O vício não vem do vinho, mas das pessoas, o que é uma mensagem sublime.

4) O Papel dos Avaliadores:

a) Sejam eles provenientes dos Enólogos, dos Escanções, Enófilos e Críticos de Vinhos, Jornalistas e de todos Os Especialistas no Universo da Vitivinicultura:

Todos já lemos as descrições que os peritos deste imenso mundo fazem ao apreciarem um vinho. É pura poesia, numa literatura de palavras em que estas constituem maravilhosas descrições influenciadas pelo vastíssimo horizonte do palato e do olfato, sem nunca esquecer a cor, o brilho do néctar e a própria apresentação da garrafa comentada.

b) O uso de um vocabulário requintado:

Procura-se transmitir ao consumidor a mesma serenidade e prazer que os produtores e as gentes do marketing põem nas garrafas. Eles poetizam sobre como o vinho ganha volume com o tempo na garrafa, se é refrescante ou acolhedor consoante a época do ano. Comentam sobre a existência no néctar de um alinhamento no diapasão da fruta madura. Divagam sobre a comida que os pode acompanhar nessa senda pelo estar muito bem dentro do bem-estar. A recomendação atual de que se deve beber com moderação visa, em última análise, desresponsabilizar o produto de quaisquer culpas sobre os seus malefícios. O malefício é o uso desmedido ou exagerado que certos indivíduos dele fazem, ou seja, a culpa não é nem do produto, nem do produtor. Quem bebe é que deve saber beber.

  1. c) O conjunto das apreciações tem um objetivo bem determinado:

Divulgam fragrâncias, sabores ocultos, vivacidade e brilho. Insistem que tem um terminar longo e profundo, injetando mistério e volúpia. Enfim poetizam para nos cativar. Para nos encaminhar na aventura de todos nós tentarmos decifrar e descobrir quais são, na realidade, “Os Segredos de Baco”.

5) As Escolhas na Terminologia:

Ao prazer e ao conforto juntam-se outras valências intrinsecamente relacionadas.

a) A tradição vinda da antiguidade, o valor da religião, da família, da propriedade e dos locais, a afirmação do nome, a importância da realeza e da nobreza:

Tudo na busca do poder, num ambiente sensorial original, que cheira a terra e a mistério, que nos coloca de novo em contacto com a natureza, com a fauna e com a flora, nessa luta firme pela pesquisa perfeita pelo maior dos regalos. A importância da subtileza dessas abordagens encontra-se no detalhe das descrições, naquilo que, à primeira vista, nos parece somente uma mera descrição de um vinho, uma adega ou uma vinha.

b) Tudo somado gera uma galáxia de palavras e opções na terminologia:

Afinal, importa deixar claro o destaque e o valor deste hidromel da nossa atualidade. Palavras há que se encaixam nos diferentes apelos e, por isso mesmo, o seu uso ainda se torna mais aliciante. Em síntese, a mensagem subtil do vinho aparece retratada de forma indelével, nos diferentes apelos criados para que, subconscientemente, a consigamos assimilar com naturalidade, quase sem disso termos a noção, ou seja, converter sem convencer. Algo brilhante que apenas no vinho tem esse nível perfeito de sofisticação e habilidade absoluta e perfeita.

Espero ter conseguido passar-te a mensagem deste intricado método de induzir a necessidade aos apreciadores sem que dela se fale. Despeço-me, certo de que, amiga Berta, por certo, irás querer saber mais sobre os apelos, que constituem esta última faceta sobre a terminologia do vinho. Contudo, terás de aguardar pelas próximas cartas, para os conheceres de forma clara, em vez daquela que, até ao momento, é meramente intuitiva. Recebe um beijo saudoso deste teu amigo de todos os dias,

Gil Saraiva

 

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