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Carta à Berta

Carta à Berta é o local dos Desabafos de um Vagabundo, do Senhor da Bruma, essa bruma a que chamam de internet, de um Haragano, o Etéreo, qual cavalo selvagem que galopa entre cartas alegadamente, quiçá, sem fundamentos.

Carta à Berta é o local dos Desabafos de um Vagabundo, do Senhor da Bruma, essa bruma a que chamam de internet, de um Haragano, o Etéreo, qual cavalo selvagem que galopa entre cartas alegadamente, quiçá, sem fundamentos.

Carta à Berta: Pedofilia - Uma Prática Subsidiada na Alemanha Até 2003

Berta 540.jpgOlá Berta,

Ontem (e no dia anterior também), durante todo o dia, fiquei à espera de ver aparecer nos noticiários, nos diferentes canais televisivos, alguma notícia referente ao excelente trabalho de investigação da revista “The New Yorker”, com a assinatura de Rachel Aviv.  Trata-se de um magazine que tento acompanhar sempre que posso, pois tem excelentes jornalistas de investigação. Daqueles que nos fazem lembrar que ainda há quem se importe, investigue e preocupe suficientemente para, depois de averiguados os factos e as fontes, dar o alerta.

O artigo desta semana, publicado dia dezanove de julho de dois mil e vinte e um, envolve a exposição de uma prática hedionda praticada na Alemanha desde os anos sessenta até dois mil e três, ou seja, uma prática que foi seguida por mais de quarenta anos, ininterruptamente, sem que ninguém, aparentemente averiguasse os factos e acompanhasse o assunto de perto o suficiente para acabar com ele.

A divulgação de Rachel Aviv é extensa, dura de ler e vai-nos indignando cada vez mais, ao longo dos quase cem parágrafos que constituem a história agora divulgada. Custa mesmo a acreditar que não se trate de ficção e que Aviv se cinja apenas e só ao relato dos factos descobertos e agora tornados públicos. O desenrolar da trama envolve a região de Berlim, um dos dezasseis estados alemães.

Não vou aqui traduzir ou reescrever a investigação de Rachel. Quem o quiser fazer poderá consultar a revista “The New Yorker” desta semana, que também se encontra online, sendo, por isso, de acesso fácil. Vou tentar, isso sim, resumir, o melhor que sei, o conteúdo desta imensa pesquisa e fazer o meu comentário. Porém, como não sou o autor do trabalho em causa, e embora reconheça a idoneidade da publicação que refiro, deixo tudo bem coberto pelo manto do que alegadamente aconteceu.

Ora, vou-me então referir ao Projeto Kentler, um programa experimental, desenvolvido por um eminente psicólogo alemão, que acreditava (a julgar pelos seus escritos) que poderia proporcionar um acolhimento de integração social às crianças órfãs, traumatizadas pela perda dos pais, ao coloca-las à guarda, com adoção incluída, de pedófilos registrados e cadastrados, que quisessem uma oportunidade de se poderem vir a tornar pais devotos.

Este programa experimental de dupla integração e interação durou quarenta e tal anos, com a bênção e o subsídio (incluindo uma vertente económica e financeira atribuída aos pedófilos que integrassem a experiência) do Estado de Berlim, quer na velha como na nova Alemanha unificada, por muito que isto nos custe a aceitar.

Aliás, um ano antes da queda do muro de Berlim, o Senado do Estado de Berlim, em mil novecentos e oitenta e oito, um relatório apresentado no Senado, pelo Professor Helmut Kentler, então considerado e reconhecido como um dos sexólogos e psicólogos mais influentes da Alemanha, descreveu o projeto como um sucesso total.

O anunciado sucesso do programa, sempre e continuadamente, desde a sua criação, fez com que cedo fosse alargado o espectro da tipologia de crianças colocadas à guarda destes pedófilos, mesmo daqueles que, por força da sua perversão, já possuíam registo criminal, passando a estar incluídas no programa não apenas as crianças órfãs com também as que fossem retiradas pela justiça a pais violentos, em que houvesse comprovados indícios de maus tratos por parte dos seus progenitores..

Kentler, o iluminado psicólogo, viria a ocupar um lugar importante na investigação educativa de Berlim, chegando ao ponto de ser considerado a autoridade máxima do país em matérias de educação sexual. Não era difícil vê-lo a afirmar em entrevistas televisivas que o contacto sexual entre adultos e adolescentes era inofensivo, no âmbito do seu programa, porque a prática da pedofilia era eficazmente substituída pelo sentimento de paternidade.

Kentler morreu em dois mil e oito sem nunca, até essa data, as suas teorias terem sido contestadas. O seu projeto tinha sido descontinuado cinco anos antes apenas porque o Senado do Estado de Berlim entendeu que havia que atender a outras prioridades sociais e que já não era necessário continuar a subsidiar os pedófilos que se tornavam pais.

Para a sua tese de doutoramento, a professora Teresa Nentwig, em 2016, projetou apresentar, na sua candidatura a lente da universidade, um estudo sobre Kentler, mas esbarrou com imensas dificuldades, ora faltavam importantes arquivos onde deveriam estar, ora se sentia perseguida pelos apoiantes e amigos do falecido Kentler.

Era, por fim, aconselhada a não mexer no passado da eminente figura até porque Kentler, enquanto perito judicial de renome, era também responsável por ter conduzido a justiça à declaração de inocência de mais de trinta pedófilos acusados de atos hediondos.

A reportagem da revista “The New Yorker” revela também como o governo alemão ajudou, com pleno conhecimento, a colocar crianças abandonadas em casas geridas por pedófilos. As primeiras revelações sobre o Projeto Kentler foram publicadas em 2016 pela Universidade de Göttingen. Desde essa altura, várias vítimas desse programa vieram a público descrever os horrores a que foram submetidas, algumas durante muitos anos.

A jornalista de investigação do magazine, Rachel Aviv afirma convictamente que, durante o tempo de duração do programa denominado Projeto Kentler, as vítimas ascendem às muitas centenas, senão milhares, de crianças não apenas no Estado de Berlim, mas em toda a Alemanha. Até à presente data o Senado do Estado de Berlim nunca pediu desculpas públicas às vítimas.

Não sou, querida Berta, um homem dado a muita violência, mas às vítimas e aos seus familiares, era correto dar a oportunidade de fazerem alguma justiça pelas próprias mãos. Esta gente imunda não pode continuar imune. Agoniado, despeço-me com um beijo solidário, como teu amigo de sempre,

Gil Saraiva

 

 

 

Carta à Berta: Bruno de Carvalho - O Julgamento

Bruno de Carvalho.jpg

Olá Berta,

Começo por te dizer que a minha carta de hoje é sobre injustiças. Não leves a mal, contudo, escolhi um tema do qual não gosto de falar. Perguntar-me-ás porque é que, então, eu o escolhi? Porque estou farto de ouvir os outros a falar do assunto. Talvez, depois de ser eu a dizer algo, deixe, finalmente, de reparar que o assunto existe. Não tenho a certeza que isso aconteça, mas estou certo que tenho de tentar.

Começou o julgamento do ataque à Academia Sportinguista de Alcochete, anunciando, como cabeça de cartaz, Bruno de Carvalho. Neste mundo, o da nossa correspondência, em que tudo o que é dito se escreve apenas dentro dos domínios do alegadamente, o que achas tu do caso?

No meu entender, o arguido Bruno de Carvalho devia ter sido sujeito a um exame psicológico e psiquiátrico, realizado por peritos e especialistas do foro mental e das suas respetivas doenças, sob pena do julgamento já ter começado inquinado.

Só depois de ser conhecido o resultado de tais exames é que o julgamento se deveria iniciar e nunca antes. É como meter o carro à frente dos bois, julgar alguém que, logo à partida, pode ser inimputável, não faz o menor sentido. Contudo, como estes procedimentos não tiveram lugar, não foi assim que este caso arrancou para a barra do tribunal.

Quando Vale e Azevedo foi julgado e condenado, não houve grandes dúvidas quanto à sua culpabilidade. Aliás, achei muito bem que fosse condenado por tudo o que fez, não apenas à imagem do Benfica, nem só pelos atos de pôr a foice em seara alheia, nem mesmo pelos roubos descarados perpetrados, mas, acima de tudo, porque usou o Benfica em evidente benefício próprio, manchando claramente o bom nome do clube.

Já na situação atual de Bruno de Carvalho, não sendo eu um sportinguista, tenho quase a certeza absoluta que o homem é mesmo inimputável. Pelo que o julgamento no final se revelará irrelevante, no que ao ex-dirigente desportivo diz respeito. Se assim não for, e o sujeito for declarado culpado, não teremos tido, mais uma vez, uma justiça a funcionar de forma isenta, transparente e imparcial.

Contudo, no que respeita aos restantes arguidos, considero que o caso deva continuar apurando os crimes de cada um, quer no campo individual, quer enquanto bando que agiu coletivamente, de forma bem planeada. Só há que prová-lo.

Já no que se refere a Bruno de Carvalho, penso que este é, não apenas um paranoico esquizofrénico, como um maníaco-depressivo, ou, como hoje é moda dizer-se, um bipolar. Os níveis e gravidade da existência destas demências psicológicas e psiquiátricas, do foro estritamente mental, tem de ser metodicamente avaliado.

Digo isto porque, em muitos casos, o demente não se reconhece enquanto tal e por isso mesmo não usará a demência para se defender das acusações de que é alvo. Tal facto poderá, em última análise, levar a um veredito injusto que possivelmente colocará na prisão apenas mais um caso de saúde mental e não um criminoso.

Se o sujeito for demente deve ser tratado, internado à força, se preciso for, mas não faz sentido prendê-lo. Basta ouvi-lo para nos apercebermos que ele não se considera somente um leão de coração, mas um rei absolutista na verdadeira acessão dos termos. Ele é, no seu mundo cerebral, o verdadeiro Senhor da Razão, o portador da Real Juba Imperial, o Rei da Selva. Em termos concretos este é o mais puro Tarzan das Lianas Verdes, egocêntrico, narcisista e vaidoso em soberba, que não aceita sequer que o estejam a julgar, e nem mesmo entende o porquê. Julga-se vítima de um ataque ao seu poder e magnificência e não um vulgar criminoso sem discernimento.

Se a demência tivesse sido detetada e tratada enquanto criança, ou mesmo até na adolescência, se calhar hoje apenas estaríamos unicamente na presença de um sujeito algo perturbado e confuso, mas absolutamente inofensivo.

Berta, minha amiga, fico-me por aqui, beijo de saudades, deste que não te esquece,

Gil Saraiva

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