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Carta à Berta

Carta à Berta é o local dos Desabafos de um Vagabundo, do Senhor da Bruma, essa bruma a que chamam de internet, de um Haragano, o Etéreo, qual cavalo selvagem que galopa entre cartas alegadamente, quiçá, sem fundamentos.

Carta à Berta é o local dos Desabafos de um Vagabundo, do Senhor da Bruma, essa bruma a que chamam de internet, de um Haragano, o Etéreo, qual cavalo selvagem que galopa entre cartas alegadamente, quiçá, sem fundamentos.

Carta à Berta: Portugal, o Censos 2021 e as Alterações Climáticas

Berta 544.jpgOlá Berta,

Numa altura em que foram publicados no site do INE os resultados preliminares do Censos 2021 e em que Portugal se prepara para seguir a via do desconfinamento e embora o Certificado Digital Covid-19 ainda dê problemas para chegar a todos os que já estão em condições de o ter, há coisas que realmente correm bem no reino luso, como, por exemplo, o auto agendamento, que cada vez tem menos travadinhas informáticas quando se tenta aceder a ele, embora ainda não esteja cem por cento funcional.

Positiva é, igualmente, a grande luz que se faz sentir sobre o adiamento dos tratamentos, consultas e operações, não relacionadas com a pandemia, minha querida amiga Berta. Porém, na realidade, existe falta de clareza na informação das responsabilidades criminais do pessoal ligado à saúde ou aos lares e à assistência social, onde possam vir a ocorrer óbitos provocados por contacto com estes trabalhadores que, devendo estar vacinados, optaram por não o fazer.

Parece certo que poderemos vir a assistir à abertura de processos judiciais, onde estes funcionários (e as instituições onde trabalham) correm o risco de ser diretamente acusados e condenados de homicídio por negligência, segundo a opinião de muitos advogados e constitucionalistas, pese embora o facto de, nesta altura, a situação ainda se manter na fase de avaliação e discussão temática.

Mas hoje, num mundo cheio de informação onde as novidades rapidamente se tornam obsoletas, prefiro falar um pouco do Censos 2021. De acordo com os primeiros resultados, Portugal, que tinha ainda tido um crescimento modesto da população de 5% entre 1991 e 2001, o que se traduzia num abrandamento significativo e constante, face às outras duas décadas anteriores, e um desacelerar de crescimento, menos significativo, de apenas 2%, entre 2001 e 2011, gerou, na última década, entre 2011 e 2021, minha simpática amiga Berta, uma verdadeira viragem ao entrar numa espiral real de declínio populacional, que nos retirou mais de um quarto de milhão de habitantes do país.

Em resumo, encolhemos de forma significativa nos últimos dez anos. Menos do que as previsões internacionais diziam (na casa dos 400.000 a 500.000 habitantes), mas, mesmo assim, é inegável que se trata de um encolher populacional grave e preocupante. A chegada de populações vindas da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, ou de outros pontos do globo, o regresso de muitos dos nossos emigrantes e a natalidade nacional não conseguiram, portanto, travar o envelhecimento e perda de população em termos globais. Mais grave se torna a situação se pensarmos que deveríamos crescer entre 250.000 a 500.000 habitantes e que em vez disso perdemos um quarto de milhão.

Numa outra perspetiva, é fácil de concluir que entre o abrandamento do crescimento e a realidade da atual diminuição da população, o país sangrou, perdeu ou fez evaporar, por força das circunstâncias, no século XXI, cerca de um milhão de habitantes, ou seja, 10% da sua atual população. Se nada for feito, amiga Berta, para inverter esta tendência, o final do século XXI pode apresentar Portugal com uma população total de apenas 6 milhões de habitantes, a mesma que tínhamos em 1920, há cem anos atrás. Uma verdadeira calamidade.

Podem os mais distraídos julgar que eu estou a ser exagerado, que algo assim é totalmente impossível, mas é para aí que caminhamos a passos mais largos do que aqueles que eu descrevi, efetivamente a Comissão Europeia prevê que a área em desertificação, em Portugal, passe dos atuais 68%, já observados em 2021, para os 93% previstos para 2050. Se pensarmos que em 1961, ano em que eu nasci, a área em risco de desertificação do país era de 23%, minha querida amiga, ora isso dá para ver bem a rapidez e evolução do flagelo. Em apenas 90 anos a desertificação pode subir, no mínimo, 70%, nunca menos. Contudo, estamos apenas a 29 anos dessa linha aflitiva e absolutamente grave.

Temos de agir enquanto país, e quanto antes, se não queremos ficar com um aspeto territorial semelhante ao do deserto do Sahara daqui a menos de três décadas. Mais grave ainda é que se somarmos estes dados, todos eles descritos e avançados nos inúmeros relatórios a que tive acesso, associados à diminuição gradual e progressiva que já se regista na população nacional, tal fusão de eventos pode fazer com que acabemos o século XXI com apenas um quarto da nossa população atual, ou seja, 2,5 milhões de habitantes.

Aliás, minha querida Berta, o Tribunal de Contas tem publicados diferentes alertas, aos sucessivos governos, no que respeita a estas áreas de combate à desertificação, ao auxílio na reposição da neutralidade dos solos, evitando a sua degradação, e posteriormente à reposição de solos produtivos e sustentáveis. Contudo, o Tribunal avisa que não consegue detetar para onde foram os milhões destinados ao combate à desertificação entre 1996 e 2021. A verdade é que estamos a perder todos os anos um por cento do território para a desertificação. Temos recebido verbas de vários programas, desde a Organização Nações Unidas até à União Europeia, sem que exista uma evidente aplicação destas verbas neste combate fundamental.

O assustador aumento dos incêndios parece tornar-se uma inevitabilidade e a nossa passagem de clima temperado a clima tropical já é quase um facto consumado. Temos de inverter esta situação ontem porque, afinal, amanhã, já será tarde demais. Acabei por me sentir árido com tudo isto, fico-me hoje por estes pensamentos, minha querida, recebe um beijo de despedida deste teu companheiro de desventura e de algumas alegrias,

Gil Saraiva

 

 

 

 

Carta à Berta: António Costa e a Aventura da CPLP

Berta 538.jpgOlá Berta,

António Costa fez anos ontem, celebrando os seus sessenta anos de idade. Ora, embora eu tivesse já a ideia da idade do nosso Primeiro Ministro, nunca tinha associado que ele, tal como eu, nascera em mil novecentos e sessenta e um, ambos em Lisboa. Portanto, o rapaz é moço da minha safra e, mais uma vez, como eu, viveu a adolescência nos conturbados anos pós vinte e cinco de abril de setenta e quatro.

Pelo que reza a história, ambos militámos no Partido Socialista, sendo que eu deixei a política ativa há mais de vinte anos, depois de ter chegado à Comissão Executiva Distrital do partido no Algarve e ele, ao contrário de mim, continuou. Ainda me lembro de António Costa e de algumas conversas, dos tempos em que eu também era delegado aos Congressos dos Socialistas. Porém, isso é narrativa do milénio passado e as semelhanças entre os dois terminam aqui.

Hoje, Costa está em Angola na cimeira da CPLP, ou seja, na reunião da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, constituída por aqueles que fazem do Português a quarta língua mais falada do mundo. Porém, o critério da língua, que deveria ser condição inequívoca para se pertencer à CPLP, passou para segundo plano com a entrada no grupo de uma Guiné, a onde o português é chinês.

Mal comparando esta aberração é idêntica a incluir no reino das aves um hipopótamo, só pelo facto de ele abanar a cauda muito depressa. Bem pode o bicho abanar o que quiser, até as orelhas, que isso nunca vai fazer dele um falcão ou um pardal.

Ainda por cima, estamos a falar de um país, a que chamamos de Guiné Equatorial, que vive num regime de ditadura e onde a pena de morte se encontra em vigor. É certo que esta Guiné existiu como território colonial português durante quatro séculos, entre o século quinze e o dezoito, mas até isso nos devia envergonhar pois serviu de entreposto de escravos e de pouco mais, durante o nosso domínio da região, onde apenas nos interessou manter o poder sobre o Arquipélago de São Tomé e Príncipe.

Voltando a Costa, o malabarista acrobático da diplomacia, não me parece tarefa fácil este equilibrar os egos dentro da CPLP. Senão vejamos o atual cenário: já aqui falámos do hipopótamo com penas da Guiné Equatorial, depois temos o Brasil, governado por um presidente, no mínimo, pouco democrático, com nariz de urubu e conversa de papa-formigas, responsável pelo genocídio de mais de meio milhão de brasileiros. Segue-se Angola, esse regime democrático, que agora assume a presidência da CPLP, com um líder que depois de prometer tanta transparência já virou crocodilo invisível. Já a Guiné-Bissau é governada por um conjunto de hienas de nariz branco, no verdadeiro reino do narcotráfico.

Em Moçambique, o presidente Nyusi lembra o camaleão, conseguindo esconder, com rabo de fora, a corrupção do Estado com as aflições humanitárias e trágicas que pululam entre a fome popular e o terrorismo islâmico. Falta falar de Timor-Leste, São Tomé e Príncipe e Cabo-Verde.

Ora bem, Timor-Leste é, atualmente, um Estado a onde os antigos guerrilheiros contra o colonialismo português chegaram em pleno ao poder, estou a falar da Fretilin. O atual presidente, Francisco Guterres, manteve-se como guerrilheiro no ativo até mil novecentos e noventa e nove e só terminou há dez anos a sua formação universitária, em direito. O presidente do país, como em Portugal, nomeia o Primeiro-Ministro oriundo do partido ou coligação eleitoral mais votada nas eleições parlamentares.

O aparecimento de petróleo e gás natural no mar de Timor, entre outras coisas, que não interessa agora aprofundar, justificam a razão porque o dólar americano é a moeda do país e porque o inglês é oficialmente considerado na constituição como língua comercial. Muitos timorenses referem-se aos seus atuais líderes como filhos da Aca, a serpente piton comedora de homens. No entanto, Timor-Leste é uma democracia reconhecida pela ONU. Embora apenas vinte e nove por cento das crianças tenham registo de nascimento e cinquenta e um por cento sofra de nanismo por falta de nutrição, palavras lindas que significam fome.

Há ainda a realçar que cerca de quarenta por cento das mulheres são vítimas de violência, num país onde a maioria da população vive abaixo do limiar da pobreza. Não sei se numa avaliação isenta chamaria ao regime timorense uma democracia pobre ou uma pobre democracia.

Quanto a São Tomé e Príncipe, estamos perante uma democracia e um regime em que o presidente, no momento Evaristo Carvalho, nomeia o primeiro-ministro, perante o resultado das eleições parlamentares. O país tem apresentado alguma estabilidade e crescimento e desde 2009 que não sofre tentativas de golpe de estado.

Devido ao aparecimento de petróleo e gás natural nas suas águas a ONU prevê que em dois mil e vinte e quatro a classificação de país subdesenvolvido seja substituída por país em vias de desenvolvimento. Espero, contudo, que o ouro negro, não venha a gerar no arquipélago influências nefastas e ditatoriais como as conhecidas na vizinha Guiné Equatorial. Ponto de turismo internacional o arquipélago é constituído por duas ilhas, São Tomé e Príncipe, e vários ilhéus, como as Rochas Tinhosas ou Ilhas Tinhosas (a grande e a pequena), o ilhéu Caroço, o  das Cabras, o de Santana, o Bombom e o ilhéu das Rolas, onde se encontra o Padrão do Equador, por este se situar sobre esta linha imaginária. A galinhola é a ave endémica em maior risco de extinção (menos de duzentas e cinquenta). Espera-se que o país da galinhola a consiga preservar junto com a democracia.

Finalmente, Cabo Verde, o último país desta CPLP, é atualmente um país democrático, onde o seu principal problema é a falta de água potável. Não se enquadra nos países subdesenvolvidos e o seu povo é calmo ou morno como a sua música. Aliás, o país tem o segundo melhor sistema educacional na África, logo depois da África do Sul. A tartaruga é um animal protegido e simboliza bem quer o convite ao turismo internacional, como à afabilidade e capacidade morna de acolhimento do povo cabo-verdiano. José Carlos Fonseca, o Presidente da República não é apenas um qualquer jurista formado pela Faculdade de Direito de Lisboa com classificação de muito bom, mas é também um reconhecido e considerado poeta do arquipélago.

Não convém esquecer que estava, minha querida amiga Berta, a falar de António Costa e da sua participação nesta cimeira da CPLP que decorre em Luanda, Angola.  Ora, se atribuir a cada país e seus representantes um animal, como seu símbolo representativo, gostaria de saber como é que os papagaios Costa e Marcelo vão conseguir lidar com um hipopótamo-de-pena-de-morte, um crocodilo-invisível, um urubu-papa-formigas, mais as hienas-de-nariz-branco, um camaleão-de-rabo-de-fora, uma serpente piton-aca, uma galinhola-quase-extinta e uma tartaruga-morna. Ninguém sabe ao certo até onde vai a retórica e a capacidade argumentativa destes papagaios, mas, com estes dois a bordo desta arca da Língua Portuguesa, juro que estou convencido que a cimeira terá um sucesso imenso.

E mais não digo, pois, o meu entusiasmo com as qualidades fonéticas dos papagaios levar-me-ia a ter de usar mais odes do que as que Camões usou nos Lusíadas, também não quero que julgues, querida Berta, que eu penso mal dos povos aqui descritos ou que possa existir em mim algum pensamento racista ou de um género segregacionista qualquer, nada disso, tenho maior respeito pelos povos em si, já quanto aos seus dirigentes essa admiração está sujeita a cada momento e à atualidade em causa. Por isso me despeço com um beijo saudoso. Até sempre, este teu amigo do coração,

Gil Saraiva

 

 

 

Carta à Berta: A Nova Europa, Portugal e Mundo

Berta 537.jpgOlá Berta,

O outro dia, julgo que foi na passada segunda-feira, escutei à mesa do café Az de Comer, na esplanada, uma conversa de uma criança de doze anos com o pai. Achei imensa graça ao diálogo e chegado a casa fui tentar tirar as minhas próprias dúvidas. A jovem menina queria saber quantos países e territórios tinha a Europa. O assunto tinha vindo à baila na escola e a professora fugira à questão.

O pai, com a experiência que os anos lhe deram, contornara a questão dizendo que existiam vários países entre a Europa e a Ásia, que estavam sempre, conforme os critérios, a ser considerados ou uma ou outra coisa. Deu o exemplo recente do euro2020 em que existiram jogos realizados em Baku, capital do Azerbaijão.

Ainda lembrou o festival da canção da Eurovisão, onde já há alguns anos passaram a entrar países euroasiáticos como o Azerbaijão, a Geórgia e a Arménia. Para além disso, a coisa ainda era mais complicada se fossemos contar com o Kosovo, reconhecido como país por mais de noventa dos seus pares, mas ao mesmo tempo não aceite como tal pela Sérvia, que o considera seu território.

Certo, certo, afirmava o pai lá do alto da sua sabedoria, eram os países que constituíam a União Europeia. Esses eram vinte e sete e para fazerem parte da mesma tinham que ser efetivamente europeus.

Foi no nono segundo depois desta afirmação que eu soltei uma gargalhada bem audível, que depois tentei disfarçar, amiga Berta. É que a catraia indagou, quase imediatamente o pai, querendo saber se ele tinha a certeza porque, segundo ela, Chipre, membro da União, parecia localizar-se na Ásia, pelo menos fora isso que ela aprendera na escola. O homem pareceu mastigar a informação enquanto ingeria um mini rissol de camarão.

Ora bem, cara amiga, pela geografia dos meus tempos a Turquia (excetuando Istambul até se atravessar a ponte) e a Ilha de Chipre já se encontram em território asiático. Porém, num continente euroasiático, a dinâmica diplomática, política e estratégica tende a estabelecer fronteiras que não são exatamente as que se aprenderam na escola. A definição moderna de Europa separa-a da Ásia no mar Egeu, Dardanelos-mar de Mármara-Bósforo, mar Negro, tergos do Grande Cáucaso, parte noroeste do mar Cáspio e montes Urais, como exemplificam muitos atlas, entre os quais o publicado pela National Geographic Society.

Há, por isso mesmo, uma espécie de nova Europa em expansão, nos tempos que correm, influenciada pela própria definição de Europa, que culturalmente estabeleceu raízes a partir da Idade Média, no ocidente europeu. Esta Europa expansionista procura estabelecer os seus limites pelo Mar Mediterrâneo e pelos países árabes a Sul e pela Rússia (que é parte Europa, parte Ásia) e pelo mar Cáspio a Leste.

Já a Norte a fronteira é evidentemente traçada pelos vários mares do Norte que se ligam ao Oceano Ártico, enquanto o Oceano Atlântico gera os limites a Oeste, incluindo Açores, Gronelândia e Ilhas Canárias.

Porém, um conjunto muito unido e organizado de cientistas e geógrafos a nível mundial tem, cada vez com maior sucesso, tentado acabar com a ideia de dois continentes (Europa e Ásia), com fundamentos meramente políticos e estratégicos, para passar a falar do continente Euroasiático, enquanto unidade continental única e indivisível.

Assim, somente pela definição moderna e política, a atual Europa inclui cinquenta e quatro países e territórios. A Arménia, a Geórgia, o Azerbaijão e Chipre são, portanto, países europeus, assim como o Kosovo, que é maioritariamente reconhecido enquanto país pela grande maioria dos seus pares europeus, de fora ficando a Sérvia, o Chipre, a Eslováquia, a Grécia e a Roménia, para além da Turquia e da Rússia. Fora da Europa nem a China nem o Brasil apoiam o reconhecimento independente do Kosovo. Em números redondos, aliás, o Kosovo só é reconhecido por cerca de um terço da população global, sendo que mais de cento e vinte países e territórios do mundo não o consideram um Estado independente e soberano.

Já à Turquia, por ter a cidade de Istambul situada na Europa, é deixada igualmente a possibilidade de ser considerada um país quer europeu, quer asiático, ficando por isso também incluída no grupo dos cinquenta e quatro países e territórios com reconhecimento europeu.

A ambição europeia atual parece querer ainda ir mais longe e já reconhece ao Cazaquistão, que tem uma leve fatia do seu território dentro das fronteiras geográficas da moderna definição de Europa, o direito a solicitar a sua integração na União Europeia. Pensamento peregrino certamente, uma vez que a Rússia nunca permitiria uma tal adesão.

Por curiosidade resolvi investigar mais uma ou outra situação. Dos cinquenta e quatro países e territórios da dita Europa que lugar ocuparia Portugal em termos de população? Seria um país considerado pequeno, médio ou o quê? E na listagem dos territórios europeus mais infetados pela Covid-19, em que lugar estaríamos nós?

As respostas a estas questões foi, mesmo para mim que me considero minimamente informado, surpreendente. Descobri que somos o décimo quinto país da Europa (incluindo Rússia e Turquia) com mais população. O que quer dizer que estamos bem dentro do primeiro terço dos países europeus mais populosos, com trinta e nove países e territórios atrás de nós. Também em termos de total de infetados por Covid-19 ocupamos a décima quinta posição, bem coincidente com o nosso lugar em termos de quantidade de habitantes. Fiquei deveras surpreendido e por isso alarguei a minha pesquisa a outras dúvidas no âmbito da Covid-19 e tento em conta o nosso número de habitantes.

Desta vez usei outro critério. Verificar em que lugar estaríamos nós, em termos de testagem à Covid-19, dentro dos países europeus e mundiais com igual ou superior número de habitantes de Portugal. Mais uma vez fui surpreendido pelos números, à nossa frente em testagem na Europa apenas encontrei o Reino Unido, a França e a República Checa com mais testes por milhão de habitantes que Portugal.

Já em termos mundiais os números, vistos de acordo com estas premissas, são ainda mais elogiosos, minha querida Berta, porque, parece mentira, apenas somos ultrapassados pelos três já referidos atrás e pelos Estados Unidos da América, ficando em quinto lugar mundial neste ranking dos países que mais testam a Covid-19 no globo, dentro daqueles que têm mais de dez milhões e cem mil habitantes.

Hoje vou para a cama mais sereno e menos preocupado com a forma como o Governo de Portugal tem combatido a pandemia. Estamos perfeitamente na média de infeções face á população que temos e somos dos países do mundo que mais se esforça em testar a sua população. Atrás de nós ficam oitenta e cinco países na testagem mundial, dentro destes parâmetros. Por hoje é tudo, despeço-me com amizade. Recebe um beijo, minha querida Berta, deste teu amigo de sempre,

Gil Saraiva

 

 

 

Carta à Berta: A Arte de Desconfinar com CUPIDO

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Olá Berta,

“Portugal é o país da União Europeia com menos novos casos diários de infeção por SARS-CoV-2 e continua entre os com menos mortes por milhão de habitantes nos últimos sete dias, segundo o site estatístico Our World in Data”, divulgado hoje pelo site nacional “Notícias ao Minuto”.

Ainda, segundo as mesmas fontes: “Desde a semana passada, Portugal desceu em número de novos casos por milhão de habitantes para 32,29, muito longe do país em pior situação, Chipre, com uma média de 499 novos casos diários.” Por fim, pode-se ler ali também que: “Em relação à média de mortes por milhão de habitantes atribuídas à Covid-19 nos últimos sete dias, Portugal aumentou ligeiramente na última semana de 0,17 para 0,21, igual à Finlândia e quatro centésimas acima da Dinamarca, que é o país com a média inferior.”

Tudo isto é muito bonito, principalmente se nos lembrarmos do passado mês de janeiro, em que vertiginosamente atingimos o topo no ranking dos piores países do mundo em termos de pandemia. A grande questão é saber como conseguimos este feito de passar do pior país do mundo, no que à Covid diz respeito, para o ranking dos melhores em apenas dois meses. Há quem fale na vacinação eficaz, nas medidas de confinamento implantadas, da sensatez dos portugueses ou da agilidade da nossa DGS. Tudo treta.

A recuperação de Portugal ficou a dever-se, isso sim, à implantação de um método transparente, e de fácil perceção pelos cidadãos, de gestão da pandemia. Este novo processo de confinar ou desconfinar, dividido por várias fases, cada uma delas com objetivos específicos, e acompanhado por gráficos da evolução dos parâmetros adotados, permitiu o entendimento total do problema pela generalidade da população.

A reforçar a ideia, a possibilidade de os concelhos avançarem ou regredirem no confinamento, consoante o seu comportamento face ao padrão adotado, implementou responsabilidade e união em torno de objetivos comuns, ou seja, o povo sabe comportar-se se as coisas lhe forem devidamente explicadas.

É claro que a vacinação competente, o aumento do rastreio, a maior dinâmica no acompanhamento dos surtos e o grande acréscimo da testagem, também contribuíram para o sucesso, mas nada teria sido conseguido sem a implementação deste espetacular método.

Na elaboração do esquema o Governo optou, e muito bem, por criar limites aos desconfinamentos que, há data da sua implementação, eram metade dos exigidos na União Europeia, ou seja, 120 casos por cem mil habitantes, por concelho, para períodos de 14 dias, face aos 240 adotados na maioria dos países europeus e recomendados pela EMA. Uma jogada inteligente que cedo deu frutos.

Aliás, se registássemos a patente deste método, sem sermos líderes no âmbito da inteligência artificial, nem mesmo sermos produtores de qualquer tipo de vacina para a Covid-19, veríamos facilmente a importância do valor acrescentado que Portugal deu no combate a este flagelo, que não para de fazer vítimas em todo o mundo.

Fora de brincadeiras e de patentes, aplicar na Índia o método luso, poderia ajudar mais os indianos a recuperar do que qualquer ajuda material que Portugal consiga dar a este povo com quem tem laços seculares. Aliás, o mesmo se poderá dizer relativamente ao Brasil e a muitos outros países do mundo, em que as populações não conseguem compreender porque é que os seus governantes mandam confinar e desconfinar sem uma explicação evidente.

Portugal foi inovador na criação de um sistema eficaz e fácil de compreender, composto por parâmetros ambiciosos e por consequências de desvios ao plano imposto. Foi tão inovador que lhe deveria, no meu entender, minha querida amiga Berta, dar-lhe um nome.  Talvez CUPIDO (Criação Única de Processos Interativos de Desconfinamentos Organizados). Tal como o deus do arco e flecha que leva amor aos corações dos amantes este CUPIDO transporta, com provas dadas, a saúde aos lares de todo o pais, sendo radicalmente eficaz no combate à pandemia. Viva CUPIDO! Por hoje é tudo, deixo um beijo e a promessa de escrever em breve, recebe ainda um grade abraço deste amigo de todos os dias,

Gil Saraiva

 

 

 

Carta à Berta: Não Se Aponta Que É Feio

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Olá Berta,

Tenho visto e ouvido imensa gente a criticar o Governo por andar a fazer poucos testes. Seja na Assembleia da República, por parte dos partidos da oposição, seja na imprensa escrita e, mais assertivamente nas redes sociais, que quase que espumam de raiva reivindicativa pela testagem em falta. Eu que aponto o dedo à atuação dos nossos líderes, sempre que me parecem que eles escorregam nos seus deveres, também gosto de ter a noção de que as críticas que faço são minimamente justas.

Nestas coisas sobre o que o SNS anda a fazer a mando da DGS eu acho importante que se tenha em atenção dois pontos fundamentais: o rácio de testagem realmente efetuada, desde que a pandemia começou, por milhão de habitantes e a comparação com os países que têm a mesma ou maior população que Portugal.

O primeiro critério é evidente porque não faz sentido fazer comparações sem ser pela percentagem de testes realizados desde o início por cada milhão de habitantes, o segundo ponto é ainda mais importante porque não acho justa a comparação nacional com países ou territórios de menor dimensão populacional, como por exemplo o Mónaco, o Luxemburgo ou Andorra, que, dada a sua pouca população, atingem grandes percentagens por milhão de habitantes com meia dúzia de testes, porque a comparação se torna ridícula.

Ora, analisemos, portanto, quais e quantos são os países e os territórios que, com igual ou superior dimensão populacional e desde que as testagens começaram, têm mais testes por milhão de habitantes que Portugal. Serão muitos? Estaremos assim tão na cauda da testagem como se afirma? Devo confessar que eu não sabia, mas resolvi consultar as testagens em todo o globo e compará-las connosco, fazendo uso dos critérios já referidos. Para tal usei os dados da OMS e do site do “Worldometer”, que é muito usado para avaliação dos dados da pandemia.

República Checa, Bélgica, França, Reino Unido e Estados Unidos da América, são os cinco, e únicos, países do mundo que, tendo uma população igual ou superior à nossa, já fizeram mais testes por milhão de habitantes que Portugal, desde que a pandemia começou. Ora, vistas as coisas por este prisma objetivo, não se pode dizer que estamos na cauda seja lá do que for no que à testagem diz respeito.

Pelo contrário, fica demonstrado que testamos mais do que Espanha, Itália, Holanda, Alemanha, China, Rússia, Índia, Brasil, México, Canadá, Austrália, só para enunciar alguns dos países que esperaríamos encontrar mais avançados do que nós. Para cúmulo desta análise, devido ao elevado aumento da testagem nacional, e a manter-se este ritmo, dentro de menos de 30 dias, estaremos no top 3, o que não me parece um lugar de envergonhar quem quer que seja, por mais voltas que se tentem dar aos números.

Vergonha, é a palavra certa a aplicar a todos estes críticos de barriga cheia e de língua solta e viperina, que nem se dignam a consultar as tabelas oficiais antes de botarem discurso. Vir criticar o Governo, porque num período de sete ou quinze dias se fizeram menos testes que o normal, tendo em conta o universo de quase 16 meses, é como criticar a Telma Monteiro, honra e glória do judo português, por ter faltado a um treino quando, mesmo assim, sempre atingiu o pódio de cada vez que participou em campeonatos internacionais da sua modalidade. Haja bom senso e moderação.

Se querem criticar os nossos governantes atirem-lhes à cara com o abandono discriminatório, e quase xenófobo, a que os circos e as atividades circenses foram votadas desde o início da pandemia, por exemplo, no que se refere ao apoio a um setor da cultura totalmente desprezado pelo Governo, que os proibiu de exercerem a sua atividade, desde que a pandemia teve início há 16 meses. Aqui sim, há razões para indignação e vergonha, mas há mais exemplos como este, muitos mais.

A crítica, a ser feita, deve ser objetiva, assertiva e construtiva. Falar por falar fica ridículo e põe em perigo quem realmente precisa de apoio. Por hoje é tudo minha querida amiga, recebe um beijo de despedida e sempre saudoso,

Gil Saraiva

 

 

 

Carta Aberta: A Pandemia e as Quatro Vagas

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Olá Berta,

Há coisas que me irritam nos meus colegas de imprensa. Quando, por exemplo, falam da pandemia, basta que Portugal se encontre desfasado do resto da Europa e neste caso até do mundo para se gerar a confusão. Ora bem, vou tentar esclarecer. A maior parte do mundo vai já muito avançado na quarta vaga e depois há alguns países, nos quais o nosso se inclui, que por um ou outro desfasamento em termos de infeções ainda estão apenas na terceira. Porém, a imprensa fala sem olhar para as tabelas mundiais como se todos ainda estivéssemos na terceira vaga de Covid-19. Isso não é verdade.

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Nós apenas tivemos três vagas. A que começou em março e se estendeu ate maio de 2020, a que se iniciou em outubro e terminou em dezembro de 2020 e a que rebentou em janeiro e terminou em março de 2021. O Reino Unido teve a primeira vaga como nós, mas mais forte, a segunda de setembro a novembro de 2020 e a terceira de dezembro de 2020 a fevereiro de 2021.

Berta 520 A.jpgA Itália teve a primeira vaga em março de 2020, a segunda começou em outubro, a terceira na antevéspera da passagem de ano e a quarta iniciou-se em fevereiro de 2021. Sendo que as três últimas vagas foram muito seguidas, como, aliás, também aconteceu na Alemanha, que teve a primeira vaga a começar em março de 2020 a segunda entre outubro e novembro de 2020, a terceira logo de seguida de dezembro a fevereiro de 2021 e a quarta vaga de fevereiro até hoje, sendo que ainda se encontra a subir.

Já a Espanha ao que tudo indica está a iniciar uma quinta vaga, neste momento, mas ainda é cedo para afirmar isso com segurança. Teve a primeira em março de 2020, a segunda entre agosto e setembro de 2020, a terceira de outubro a novembro de 2020, a quarta de dezembro de 2020 a fevereiro de 2021 e em março de 2021 iniciou a quinta. Já a República Checa teve uma primeira vaga em março de 2020 quase insipiente e de setembro de 2020 até abril de 2021 foi fustigada por 3 vagas seguidas bastante fortes.

Berta 520 B.jpgTudo isto para sublinhar que quando se analisam os casos e as vagas por países existem desfasamentos entre as diferentes vagas entre cada território. É preciso, inclusivamente, estudar de onde vem a vaga, se de ocidente se de oriente e, para além disso, se o país em causa ainda estava a subir numa certa vaga quando é apanhado pela seguinte. Nesse caso esse território não inicia uma nova vaga, mas prolonga a que já possuía por mais tempo. Em geral, principalmente no ocidente, com Europa e Américas à cabeça, são quatro as vagas existentes, porém, há algumas exceções, como são os casos de Portugal e do Reino Unido.

Espero que tenhas entendido a explicação deixada neste meu desabafo, minha querida Berta, por hoje é tudo, despeço-me com o beijinho de saudade habitual,

Gil Saraiva

 

 

 

Carta à Berta: Covid-19 – A Chegada da Contra Vaga

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Olá Berta,

Covid-19 – A Chegada da Contra Vaga, este seria o título que eu escolheria para relatar o que está atualmente a acontecer com a pandemia. Foi ontem à noite, no programa “Circulatura do Quadrado”, da TVI24, que o Primeiro-Ministro, António Costa, aventou, a medo, que um dos especialistas que servem de consultores ao Governo, lhe terá falado na possibilidade de estar a ocorrer não propriamente uma terceira vaga, mas uma vaga de sentido inverso a que eu chamei de contra vaga.

Intrigado por aquela afirmação, que passou totalmente despercebida quer no programa quer depois nas diferentes análises dos comentadores, em todos os canais televisivos, resolvi verificar eu, na parafernália de gráficos e dados que tenho em casa, se essa coisa da contra vaga, como lhe chamei, seria realmente possível e poderia estar mesmo já a acontecer, o que, a ser verdade, irá apanhar a Europa, África, Ásia e Oceânia totalmente de surpresa.

Segundo a teoria avançada quase como nota de rodapé, esta nova terceira vaga que temos em Portugal e no Reino Unido, não se está a movimentar como as outras duas anteriores de Oriente para Ocidente, mas precisamente no sentido inverso. Começou nas Américas e expandiu-se para a Europa atingindo primeiro os países mais periféricos, nomeadamente Portugal e Reino Unido. Pior, ganhou nova volumetria com a soma das estirpes inglesa, brasileira e da África do Sul.

Ora, a ser assim, coisa que me pareceu muito evidente nos meus gráficos, Portugal e Inglaterra não estariam a ser os piores casos da Europa, mas sim, os primeiros países europeus da contra vaga, que se irá em breve estender para o leste em direção à Ásia, África e Oceânia, no sentido inverso ao que até esta altura tem ocorrido.

O mais grave, querida Berta, é que se este for o caso, vão todos ser apanhados de surpresa por este movimento inverso. No caso europeu, será notório esta nova maré já a partir de meados de fevereiro, quando Portugal e o Reino Unido já estiverem a descer no número de óbitos, infetados e internados em UCI.

Se a nova teoria se confirmar vamos assistir a um novo agravamento em todo o espaço europeu já em meado do próximo mês. Por hoje fica-se por aqui este teu amigo do peito, que se despede com o usual beijinho,

Gil Saraiva

 

 

 

Carta à Berta: O Oraculo

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Olá Berta,

Conforme sabes eu tenho dedicado especial atenção à evolução da pandemia no país e no mundo. Faço-o desde a primeira hora, desde a altura em que ainda não existia nenhum caso registado em Portugal. Mês após mês tenho feito, como se fosse um entendido na matéria as minhas previsões e, para meu próprio espanto, não tenho andado muito longe do que tem acontecido.

A significar alguma coisa, seja lá o que for, tal não faz de mim um analista especializado, nem me transforma de um oráculo da pandemia, apenas quer dizer que tenho tido a sorte de fazer uma boa leitura da informação que vou colhendo. Isso não quer dizer que, mais cedo ou mais tarde eu não me engane redondamente numa previsão e até admito que o engano seja monumental.

No entanto, a minha próxima previsão arrepia-me ao ponto de esperar que seja desta vez que eu me engano redondamente. Normalmente tento antever os números de infeções e de óbitos com três tipos de prazos. Primeiro o curto prazo, para o qual projeto um espaço de 12 dias, depois o médio que é de 36 e o longo de 108.

Faço este exercício quer para o país quer para o globo em geral. Ora, hoje, enquanto esperava pela chegada da noite eleitoral, decidi fazer mais uma dessas previsões. O resultado do curto prazo para a nossa terra lusitana foi tal que já nem fiz mais nada. Segundo os meus cálculos algures até sexta-feira, cinco de fevereiro, nós atingiríamos os mais de 20.000 infetados diários e para cima de 500 óbitos em vinte e quatro horas. Um absurdo tão gigantesco e de tal forma dantesco que só me posso ter enganado.

É o que dá quando nos pomos a tentar adivinhar o futuro sem termos os elementos de cálculo dos especialistas. É claro que devo ter feito algo de errado, só me irrita não ter descoberto onde me enganei. Se te falo no assunto é para que saibas, que mesmo quando dou a minha alegada opinião sobre algo, não me considero com isso o senhor da razão e da verdade. Dou, quanto muito a minha opinião, o que já não é mau de todo.

Por hoje é tudo, minha querida Berta, despede-se, com um beijo de saudades, este teu amigo sempre ao dispor daqueles a quem quer bem,

Gil Saraiva

 

 

 

Carta à Berta: Um Dia Estranho...

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Olá Berta,

Hoje está a ser um dia estranho. No Parlamento, a Ministra da Justiça, Francisca Van Dunem, afirmou perentoriamente que: "O que posso e venho aqui assegurar aos senhores deputados é que não houve nem da minha parte, nem tenho elementos que me permitam sequer suspeitar que as pessoas que na Direção-Geral de Política de Justiça trabalharam nessa nota, tivessem tido a mínima intenção de alterar dolosamente qualquer facto".

Com a investigação do caso a decorrer Francisca Van Dunem nega assim qualquer conhecimento das alterações feitas por aquela Direção-Geral e garante desconhecer ainda o procedimento que levou aos lapsos abonatórios ao currículo de José Guerra, o procurador português nomeado para o cargo de procurador português em Bruxelas.

 A ministra, depois de explicar uma vez mais aos deputados todo o Processo de Seleção do procurador português para procurador europeu, em Bruxelas, só não conseguiu explicar como e quem cometeu os erros, lapsos ou enganos, cometidos na nota interna que seguiu da Direção-Geral para os serviços nacionais em Bruxelas. No entanto, defende-se alegando que essa é uma investigação ainda em curso, que brevemente terá a sua conclusão. Ora, sem querer parecer espertinho, amiga Berta, eu, que nada entendo destes meandros, acho que deve ser fácil descobrir o redator.

Também acho que não deve ser difícil saber quem foi que a conferiu, antes do respetivo envio para Bruxelas. Mas pronto, isto sou eu que não entendo nada da burocracia interna de uma Direção-Geral de Política de Justiça. Aliás, a minha ignorância é tanta que nem sabia da existência de tal Direção-Geral, nem sei sequer quantas pessoas a compõem e quais as funções que desempenham, no quadro do Ministério a que pertencem.

Quanto ao facto de hoje estar a ser um dia estranho realço ainda o facto de ter ficado a saber que no outro lado do Oceano Atlântico, nos Estados Unidos da América, a invasão do Capitólio ter tido o trágico resultado de quatro mortos. Tal número demonstra que a situação foi ainda bem mais grave do que aquilo que as imagens noticiosas apresentam. Salva-se o facto de as duas câmaras, Senado e Câmara dos Representantes, terem posteriormente ratificado a eleição do presidente eleito pelos democratas. Biden poderá assim tomar posse no próximo dia 20 de janeiro, agora que estão cumpridas todas as formalidades deste processo.

O dia estranho de que falei no início desta carta é ainda reforçado pelos estragos que a tempestade Filomena continua a provocar na pérola do Atlântico que, a esta hora, mais parece a ostra do que a pérola desse oceano. Por fim, os 19.954 casos de Covid-19 registados em Portugal entre ontem e hoje, tornam este dia não apenas estranho, mas, mais do que isso, deveras sinistro e sombrio.

Não sei o que se passa com os astros, mas parece-me que este início de janeiro de 2021 nos tenta tirar a esperança de um ano de 2021 mais risonho do que o ano que o antecedeu. Espero que a expressão popular de que “o que importa não é como as coisas começam, mas como acabam”, se venha efetivamente a concretizar, no que ao alento diz respeito. Afinal, eu sou um otimista por natureza e pretendo manter o meu otimismo bem vivo e aceso.

Resta-me, portanto, a convicção de que hoje foi apenas e só um dia estranho e que tudo irá mudar para melhor a breve trecho. Assim se despede hoje, querida Berta, este teu eterno amigo que nunca te esquece, com um beijo de até amanhã e sempre pronto para o que dele possas vir a precisar, atenciosamente,

Gil Saraiva

 

 

 

Carta à Berta: Como Anda a Solidariedade do Estado Português no Apoio a Moçambique no Combate ao Estado Islâmico?

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Olá Berta,

Segundo o que anuncia hoje o site “Notícias ao Minuto” «O Presidente moçambicano, Filipe Nyusi, defendeu hoje a unidade do país na luta contra os grupos armados que protagonizam ataques na província de Cabo Delgado, região norte, reiterando o compromisso com a consolidação da paz e da democracia.»

Faz-me imensa confusão, minha querida amiga, a forma quase leviana como sinto que Moçambique, um país que já foi Portugal e que atualmente é considerado um país irmão, é tratado em termos noticiosos, diplomáticos, políticos e de cooperação institucional, quer em termos de solidariedade, quer em cooperação logística e militar, pela Nação Lusitana. Não consigo entender.

Se Moçambique não nos pedisse ajuda no combate ao Estado Islâmico na província de Cabo Delgado, eu até entenderia. Porém, pelo que consegui apurar, esse não é exatamente o caso. Segundo tenho lido, nas poucas notícias que chegam a público, parece que já houve pedido de colaboração não apenas logística como também militar.

De que serve a CPLP se permitimos que sejam decapitados moçambicanos, às dezenas de cada vez, por essa corja de bárbaros que se auto intitulam de Estado Islâmico? Podem até afirmar que não é esse o âmbito da CPLP, até aceito. Só não consigo compreender a atitude do Estado Português.

Não me adianto mais no tema porque é realmente muito vaga e pouco fundada a informação de que disponho. Contudo, pelo menos pelo que vi e li até ao momento, Portugal não ofereceu apoio logístico e militar a Moçambique até ao presente momento, situação que deveria ser, acima de qualquer dúvida, um dever nacional alicerçado em quase 500 anos de história conjunta.

Recebe um beijo de despedida, deste teu amigo do coração, que vê com desgosto o abandono de um país irmão à sua sorte, sem que a solidariedade funcione de forma efetiva e eficaz,

Gil Saraiva

 

 

 

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