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Carta à Berta

Carta à Berta é o local dos Desabafos de um Vagabundo, do Senhor da Bruma, essa bruma a que chamam de internet, de um Haragano, o Etéreo, qual cavalo selvagem que galopa entre cartas alegadamente, quiçá, sem fundamentos.

Carta à Berta é o local dos Desabafos de um Vagabundo, do Senhor da Bruma, essa bruma a que chamam de internet, de um Haragano, o Etéreo, qual cavalo selvagem que galopa entre cartas alegadamente, quiçá, sem fundamentos.

Carta à Berta: A Arte de Desconfinar com CUPIDO

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Olá Berta,

“Portugal é o país da União Europeia com menos novos casos diários de infeção por SARS-CoV-2 e continua entre os com menos mortes por milhão de habitantes nos últimos sete dias, segundo o site estatístico Our World in Data”, divulgado hoje pelo site nacional “Notícias ao Minuto”.

Ainda, segundo as mesmas fontes: “Desde a semana passada, Portugal desceu em número de novos casos por milhão de habitantes para 32,29, muito longe do país em pior situação, Chipre, com uma média de 499 novos casos diários.” Por fim, pode-se ler ali também que: “Em relação à média de mortes por milhão de habitantes atribuídas à Covid-19 nos últimos sete dias, Portugal aumentou ligeiramente na última semana de 0,17 para 0,21, igual à Finlândia e quatro centésimas acima da Dinamarca, que é o país com a média inferior.”

Tudo isto é muito bonito, principalmente se nos lembrarmos do passado mês de janeiro, em que vertiginosamente atingimos o topo no ranking dos piores países do mundo em termos de pandemia. A grande questão é saber como conseguimos este feito de passar do pior país do mundo, no que à Covid diz respeito, para o ranking dos melhores em apenas dois meses. Há quem fale na vacinação eficaz, nas medidas de confinamento implantadas, da sensatez dos portugueses ou da agilidade da nossa DGS. Tudo treta.

A recuperação de Portugal ficou a dever-se, isso sim, à implantação de um método transparente, e de fácil perceção pelos cidadãos, de gestão da pandemia. Este novo processo de confinar ou desconfinar, dividido por várias fases, cada uma delas com objetivos específicos, e acompanhado por gráficos da evolução dos parâmetros adotados, permitiu o entendimento total do problema pela generalidade da população.

A reforçar a ideia, a possibilidade de os concelhos avançarem ou regredirem no confinamento, consoante o seu comportamento face ao padrão adotado, implementou responsabilidade e união em torno de objetivos comuns, ou seja, o povo sabe comportar-se se as coisas lhe forem devidamente explicadas.

É claro que a vacinação competente, o aumento do rastreio, a maior dinâmica no acompanhamento dos surtos e o grande acréscimo da testagem, também contribuíram para o sucesso, mas nada teria sido conseguido sem a implementação deste espetacular método.

Na elaboração do esquema o Governo optou, e muito bem, por criar limites aos desconfinamentos que, há data da sua implementação, eram metade dos exigidos na União Europeia, ou seja, 120 casos por cem mil habitantes, por concelho, para períodos de 14 dias, face aos 240 adotados na maioria dos países europeus e recomendados pela EMA. Uma jogada inteligente que cedo deu frutos.

Aliás, se registássemos a patente deste método, sem sermos líderes no âmbito da inteligência artificial, nem mesmo sermos produtores de qualquer tipo de vacina para a Covid-19, veríamos facilmente a importância do valor acrescentado que Portugal deu no combate a este flagelo, que não para de fazer vítimas em todo o mundo.

Fora de brincadeiras e de patentes, aplicar na Índia o método luso, poderia ajudar mais os indianos a recuperar do que qualquer ajuda material que Portugal consiga dar a este povo com quem tem laços seculares. Aliás, o mesmo se poderá dizer relativamente ao Brasil e a muitos outros países do mundo, em que as populações não conseguem compreender porque é que os seus governantes mandam confinar e desconfinar sem uma explicação evidente.

Portugal foi inovador na criação de um sistema eficaz e fácil de compreender, composto por parâmetros ambiciosos e por consequências de desvios ao plano imposto. Foi tão inovador que lhe deveria, no meu entender, minha querida amiga Berta, dar-lhe um nome.  Talvez CUPIDO (Criação Única de Processos Interativos de Desconfinamentos Organizados). Tal como o deus do arco e flecha que leva amor aos corações dos amantes este CUPIDO transporta, com provas dadas, a saúde aos lares de todo o pais, sendo radicalmente eficaz no combate à pandemia. Viva CUPIDO! Por hoje é tudo, deixo um beijo e a promessa de escrever em breve, recebe ainda um grade abraço deste amigo de todos os dias,

Gil Saraiva

 

 

 

Carta à Berta: Não Se Aponta Que É Feio

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Olá Berta,

Tenho visto e ouvido imensa gente a criticar o Governo por andar a fazer poucos testes. Seja na Assembleia da República, por parte dos partidos da oposição, seja na imprensa escrita e, mais assertivamente nas redes sociais, que quase que espumam de raiva reivindicativa pela testagem em falta. Eu que aponto o dedo à atuação dos nossos líderes, sempre que me parecem que eles escorregam nos seus deveres, também gosto de ter a noção de que as críticas que faço são minimamente justas.

Nestas coisas sobre o que o SNS anda a fazer a mando da DGS eu acho importante que se tenha em atenção dois pontos fundamentais: o rácio de testagem realmente efetuada, desde que a pandemia começou, por milhão de habitantes e a comparação com os países que têm a mesma ou maior população que Portugal.

O primeiro critério é evidente porque não faz sentido fazer comparações sem ser pela percentagem de testes realizados desde o início por cada milhão de habitantes, o segundo ponto é ainda mais importante porque não acho justa a comparação nacional com países ou territórios de menor dimensão populacional, como por exemplo o Mónaco, o Luxemburgo ou Andorra, que, dada a sua pouca população, atingem grandes percentagens por milhão de habitantes com meia dúzia de testes, porque a comparação se torna ridícula.

Ora, analisemos, portanto, quais e quantos são os países e os territórios que, com igual ou superior dimensão populacional e desde que as testagens começaram, têm mais testes por milhão de habitantes que Portugal. Serão muitos? Estaremos assim tão na cauda da testagem como se afirma? Devo confessar que eu não sabia, mas resolvi consultar as testagens em todo o globo e compará-las connosco, fazendo uso dos critérios já referidos. Para tal usei os dados da OMS e do site do “Worldometer”, que é muito usado para avaliação dos dados da pandemia.

República Checa, Bélgica, França, Reino Unido e Estados Unidos da América, são os cinco, e únicos, países do mundo que, tendo uma população igual ou superior à nossa, já fizeram mais testes por milhão de habitantes que Portugal, desde que a pandemia começou. Ora, vistas as coisas por este prisma objetivo, não se pode dizer que estamos na cauda seja lá do que for no que à testagem diz respeito.

Pelo contrário, fica demonstrado que testamos mais do que Espanha, Itália, Holanda, Alemanha, China, Rússia, Índia, Brasil, México, Canadá, Austrália, só para enunciar alguns dos países que esperaríamos encontrar mais avançados do que nós. Para cúmulo desta análise, devido ao elevado aumento da testagem nacional, e a manter-se este ritmo, dentro de menos de 30 dias, estaremos no top 3, o que não me parece um lugar de envergonhar quem quer que seja, por mais voltas que se tentem dar aos números.

Vergonha, é a palavra certa a aplicar a todos estes críticos de barriga cheia e de língua solta e viperina, que nem se dignam a consultar as tabelas oficiais antes de botarem discurso. Vir criticar o Governo, porque num período de sete ou quinze dias se fizeram menos testes que o normal, tendo em conta o universo de quase 16 meses, é como criticar a Telma Monteiro, honra e glória do judo português, por ter faltado a um treino quando, mesmo assim, sempre atingiu o pódio de cada vez que participou em campeonatos internacionais da sua modalidade. Haja bom senso e moderação.

Se querem criticar os nossos governantes atirem-lhes à cara com o abandono discriminatório, e quase xenófobo, a que os circos e as atividades circenses foram votadas desde o início da pandemia, por exemplo, no que se refere ao apoio a um setor da cultura totalmente desprezado pelo Governo, que os proibiu de exercerem a sua atividade, desde que a pandemia teve início há 16 meses. Aqui sim, há razões para indignação e vergonha, mas há mais exemplos como este, muitos mais.

A crítica, a ser feita, deve ser objetiva, assertiva e construtiva. Falar por falar fica ridículo e põe em perigo quem realmente precisa de apoio. Por hoje é tudo minha querida amiga, recebe um beijo de despedida e sempre saudoso,

Gil Saraiva

 

 

 

Carta Aberta: A Pandemia e as Quatro Vagas

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Olá Berta,

Há coisas que me irritam nos meus colegas de imprensa. Quando, por exemplo, falam da pandemia, basta que Portugal se encontre desfasado do resto da Europa e neste caso até do mundo para se gerar a confusão. Ora bem, vou tentar esclarecer. A maior parte do mundo vai já muito avançado na quarta vaga e depois há alguns países, nos quais o nosso se inclui, que por um ou outro desfasamento em termos de infeções ainda estão apenas na terceira. Porém, a imprensa fala sem olhar para as tabelas mundiais como se todos ainda estivéssemos na terceira vaga de Covid-19. Isso não é verdade.

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Nós apenas tivemos três vagas. A que começou em março e se estendeu ate maio de 2020, a que se iniciou em outubro e terminou em dezembro de 2020 e a que rebentou em janeiro e terminou em março de 2021. O Reino Unido teve a primeira vaga como nós, mas mais forte, a segunda de setembro a novembro de 2020 e a terceira de dezembro de 2020 a fevereiro de 2021.

Berta 520 A.jpgA Itália teve a primeira vaga em março de 2020, a segunda começou em outubro, a terceira na antevéspera da passagem de ano e a quarta iniciou-se em fevereiro de 2021. Sendo que as três últimas vagas foram muito seguidas, como, aliás, também aconteceu na Alemanha, que teve a primeira vaga a começar em março de 2020 a segunda entre outubro e novembro de 2020, a terceira logo de seguida de dezembro a fevereiro de 2021 e a quarta vaga de fevereiro até hoje, sendo que ainda se encontra a subir.

Já a Espanha ao que tudo indica está a iniciar uma quinta vaga, neste momento, mas ainda é cedo para afirmar isso com segurança. Teve a primeira em março de 2020, a segunda entre agosto e setembro de 2020, a terceira de outubro a novembro de 2020, a quarta de dezembro de 2020 a fevereiro de 2021 e em março de 2021 iniciou a quinta. Já a República Checa teve uma primeira vaga em março de 2020 quase insipiente e de setembro de 2020 até abril de 2021 foi fustigada por 3 vagas seguidas bastante fortes.

Berta 520 B.jpgTudo isto para sublinhar que quando se analisam os casos e as vagas por países existem desfasamentos entre as diferentes vagas entre cada território. É preciso, inclusivamente, estudar de onde vem a vaga, se de ocidente se de oriente e, para além disso, se o país em causa ainda estava a subir numa certa vaga quando é apanhado pela seguinte. Nesse caso esse território não inicia uma nova vaga, mas prolonga a que já possuía por mais tempo. Em geral, principalmente no ocidente, com Europa e Américas à cabeça, são quatro as vagas existentes, porém, há algumas exceções, como são os casos de Portugal e do Reino Unido.

Espero que tenhas entendido a explicação deixada neste meu desabafo, minha querida Berta, por hoje é tudo, despeço-me com o beijinho de saudade habitual,

Gil Saraiva

 

 

 

Carta à Berta: Covid-19 – A Chegada da Contra Vaga

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Olá Berta,

Covid-19 – A Chegada da Contra Vaga, este seria o título que eu escolheria para relatar o que está atualmente a acontecer com a pandemia. Foi ontem à noite, no programa “Circulatura do Quadrado”, da TVI24, que o Primeiro-Ministro, António Costa, aventou, a medo, que um dos especialistas que servem de consultores ao Governo, lhe terá falado na possibilidade de estar a ocorrer não propriamente uma terceira vaga, mas uma vaga de sentido inverso a que eu chamei de contra vaga.

Intrigado por aquela afirmação, que passou totalmente despercebida quer no programa quer depois nas diferentes análises dos comentadores, em todos os canais televisivos, resolvi verificar eu, na parafernália de gráficos e dados que tenho em casa, se essa coisa da contra vaga, como lhe chamei, seria realmente possível e poderia estar mesmo já a acontecer, o que, a ser verdade, irá apanhar a Europa, África, Ásia e Oceânia totalmente de surpresa.

Segundo a teoria avançada quase como nota de rodapé, esta nova terceira vaga que temos em Portugal e no Reino Unido, não se está a movimentar como as outras duas anteriores de Oriente para Ocidente, mas precisamente no sentido inverso. Começou nas Américas e expandiu-se para a Europa atingindo primeiro os países mais periféricos, nomeadamente Portugal e Reino Unido. Pior, ganhou nova volumetria com a soma das estirpes inglesa, brasileira e da África do Sul.

Ora, a ser assim, coisa que me pareceu muito evidente nos meus gráficos, Portugal e Inglaterra não estariam a ser os piores casos da Europa, mas sim, os primeiros países europeus da contra vaga, que se irá em breve estender para o leste em direção à Ásia, África e Oceânia, no sentido inverso ao que até esta altura tem ocorrido.

O mais grave, querida Berta, é que se este for o caso, vão todos ser apanhados de surpresa por este movimento inverso. No caso europeu, será notório esta nova maré já a partir de meados de fevereiro, quando Portugal e o Reino Unido já estiverem a descer no número de óbitos, infetados e internados em UCI.

Se a nova teoria se confirmar vamos assistir a um novo agravamento em todo o espaço europeu já em meado do próximo mês. Por hoje fica-se por aqui este teu amigo do peito, que se despede com o usual beijinho,

Gil Saraiva

 

 

 

Carta à Berta: O Oraculo

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Olá Berta,

Conforme sabes eu tenho dedicado especial atenção à evolução da pandemia no país e no mundo. Faço-o desde a primeira hora, desde a altura em que ainda não existia nenhum caso registado em Portugal. Mês após mês tenho feito, como se fosse um entendido na matéria as minhas previsões e, para meu próprio espanto, não tenho andado muito longe do que tem acontecido.

A significar alguma coisa, seja lá o que for, tal não faz de mim um analista especializado, nem me transforma de um oráculo da pandemia, apenas quer dizer que tenho tido a sorte de fazer uma boa leitura da informação que vou colhendo. Isso não quer dizer que, mais cedo ou mais tarde eu não me engane redondamente numa previsão e até admito que o engano seja monumental.

No entanto, a minha próxima previsão arrepia-me ao ponto de esperar que seja desta vez que eu me engano redondamente. Normalmente tento antever os números de infeções e de óbitos com três tipos de prazos. Primeiro o curto prazo, para o qual projeto um espaço de 12 dias, depois o médio que é de 36 e o longo de 108.

Faço este exercício quer para o país quer para o globo em geral. Ora, hoje, enquanto esperava pela chegada da noite eleitoral, decidi fazer mais uma dessas previsões. O resultado do curto prazo para a nossa terra lusitana foi tal que já nem fiz mais nada. Segundo os meus cálculos algures até sexta-feira, cinco de fevereiro, nós atingiríamos os mais de 20.000 infetados diários e para cima de 500 óbitos em vinte e quatro horas. Um absurdo tão gigantesco e de tal forma dantesco que só me posso ter enganado.

É o que dá quando nos pomos a tentar adivinhar o futuro sem termos os elementos de cálculo dos especialistas. É claro que devo ter feito algo de errado, só me irrita não ter descoberto onde me enganei. Se te falo no assunto é para que saibas, que mesmo quando dou a minha alegada opinião sobre algo, não me considero com isso o senhor da razão e da verdade. Dou, quanto muito a minha opinião, o que já não é mau de todo.

Por hoje é tudo, minha querida Berta, despede-se, com um beijo de saudades, este teu amigo sempre ao dispor daqueles a quem quer bem,

Gil Saraiva

 

 

 

Carta à Berta: Um Dia Estranho...

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Olá Berta,

Hoje está a ser um dia estranho. No Parlamento, a Ministra da Justiça, Francisca Van Dunem, afirmou perentoriamente que: "O que posso e venho aqui assegurar aos senhores deputados é que não houve nem da minha parte, nem tenho elementos que me permitam sequer suspeitar que as pessoas que na Direção-Geral de Política de Justiça trabalharam nessa nota, tivessem tido a mínima intenção de alterar dolosamente qualquer facto".

Com a investigação do caso a decorrer Francisca Van Dunem nega assim qualquer conhecimento das alterações feitas por aquela Direção-Geral e garante desconhecer ainda o procedimento que levou aos lapsos abonatórios ao currículo de José Guerra, o procurador português nomeado para o cargo de procurador português em Bruxelas.

 A ministra, depois de explicar uma vez mais aos deputados todo o Processo de Seleção do procurador português para procurador europeu, em Bruxelas, só não conseguiu explicar como e quem cometeu os erros, lapsos ou enganos, cometidos na nota interna que seguiu da Direção-Geral para os serviços nacionais em Bruxelas. No entanto, defende-se alegando que essa é uma investigação ainda em curso, que brevemente terá a sua conclusão. Ora, sem querer parecer espertinho, amiga Berta, eu, que nada entendo destes meandros, acho que deve ser fácil descobrir o redator.

Também acho que não deve ser difícil saber quem foi que a conferiu, antes do respetivo envio para Bruxelas. Mas pronto, isto sou eu que não entendo nada da burocracia interna de uma Direção-Geral de Política de Justiça. Aliás, a minha ignorância é tanta que nem sabia da existência de tal Direção-Geral, nem sei sequer quantas pessoas a compõem e quais as funções que desempenham, no quadro do Ministério a que pertencem.

Quanto ao facto de hoje estar a ser um dia estranho realço ainda o facto de ter ficado a saber que no outro lado do Oceano Atlântico, nos Estados Unidos da América, a invasão do Capitólio ter tido o trágico resultado de quatro mortos. Tal número demonstra que a situação foi ainda bem mais grave do que aquilo que as imagens noticiosas apresentam. Salva-se o facto de as duas câmaras, Senado e Câmara dos Representantes, terem posteriormente ratificado a eleição do presidente eleito pelos democratas. Biden poderá assim tomar posse no próximo dia 20 de janeiro, agora que estão cumpridas todas as formalidades deste processo.

O dia estranho de que falei no início desta carta é ainda reforçado pelos estragos que a tempestade Filomena continua a provocar na pérola do Atlântico que, a esta hora, mais parece a ostra do que a pérola desse oceano. Por fim, os 19.954 casos de Covid-19 registados em Portugal entre ontem e hoje, tornam este dia não apenas estranho, mas, mais do que isso, deveras sinistro e sombrio.

Não sei o que se passa com os astros, mas parece-me que este início de janeiro de 2021 nos tenta tirar a esperança de um ano de 2021 mais risonho do que o ano que o antecedeu. Espero que a expressão popular de que “o que importa não é como as coisas começam, mas como acabam”, se venha efetivamente a concretizar, no que ao alento diz respeito. Afinal, eu sou um otimista por natureza e pretendo manter o meu otimismo bem vivo e aceso.

Resta-me, portanto, a convicção de que hoje foi apenas e só um dia estranho e que tudo irá mudar para melhor a breve trecho. Assim se despede hoje, querida Berta, este teu eterno amigo que nunca te esquece, com um beijo de até amanhã e sempre pronto para o que dele possas vir a precisar, atenciosamente,

Gil Saraiva

 

 

 

Carta à Berta: Como Anda a Solidariedade do Estado Português no Apoio a Moçambique no Combate ao Estado Islâmico?

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Olá Berta,

Segundo o que anuncia hoje o site “Notícias ao Minuto” «O Presidente moçambicano, Filipe Nyusi, defendeu hoje a unidade do país na luta contra os grupos armados que protagonizam ataques na província de Cabo Delgado, região norte, reiterando o compromisso com a consolidação da paz e da democracia.»

Faz-me imensa confusão, minha querida amiga, a forma quase leviana como sinto que Moçambique, um país que já foi Portugal e que atualmente é considerado um país irmão, é tratado em termos noticiosos, diplomáticos, políticos e de cooperação institucional, quer em termos de solidariedade, quer em cooperação logística e militar, pela Nação Lusitana. Não consigo entender.

Se Moçambique não nos pedisse ajuda no combate ao Estado Islâmico na província de Cabo Delgado, eu até entenderia. Porém, pelo que consegui apurar, esse não é exatamente o caso. Segundo tenho lido, nas poucas notícias que chegam a público, parece que já houve pedido de colaboração não apenas logística como também militar.

De que serve a CPLP se permitimos que sejam decapitados moçambicanos, às dezenas de cada vez, por essa corja de bárbaros que se auto intitulam de Estado Islâmico? Podem até afirmar que não é esse o âmbito da CPLP, até aceito. Só não consigo compreender a atitude do Estado Português.

Não me adianto mais no tema porque é realmente muito vaga e pouco fundada a informação de que disponho. Contudo, pelo menos pelo que vi e li até ao momento, Portugal não ofereceu apoio logístico e militar a Moçambique até ao presente momento, situação que deveria ser, acima de qualquer dúvida, um dever nacional alicerçado em quase 500 anos de história conjunta.

Recebe um beijo de despedida, deste teu amigo do coração, que vê com desgosto o abandono de um país irmão à sua sorte, sem que a solidariedade funcione de forma efetiva e eficaz,

Gil Saraiva

 

 

 

Carta à Berta: O Confinamento Parcial

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Olá Berta,

Entrou hoje em vigor em Portugal o chamado “Confinamento Parcial”, uma espécie de confinamento mais apertado, mas muito mais leve do que o da primeira vaga da Covid, destinado aos 121 concelhos do país com maior incidência de infeção por cada cem mil habitantes.

Hoje, no dia em que chegámos ao absurdo número de quase 7.500 infeções em 24 horas e em que pouco faltou para que atingíssemos os sessenta mortos. Se dúvidas havia de que era preciso fazer algo mais, elas hoje ficaram totalmente dissipadas. É quase inexplicável como é que de um dia para o outro foi possível dar um salto de praticamente 5.000 infetados, quase o triplo de ontem.

Já vai sendo tempo de começarem a ser divulgadas as infeções não por concelhos do país, mas por freguesias. Os governantes podem ficar cientes que isso não assusta mais o povo, pelo contrário, torna-o mais consciente da realidade do meio em que se insere.

Se estes números de infetados continuarem neste ritmo assustador tudo o que foi feito até hoje terá sido em vão. Aliás nem haverá bazuca europeia que chegue para a calamidade que invadirá a nação portuguesa.

É necessário agir e já. Ah! Já agora com alguém responsável e com credibilidade que transmita uma imagem de confiança e transparência a dar a cara pelo Governo nas comunicações ligadas à pandemia. Não precisamos de muita gente a comunicar muita coisa e com muitas ideias. Queremos é algo sério, claro e sintético a mostrar claramente o que foi feito, o que falta realizar e o que se espera da população porque, de outra maneira, não vamos lá.

Despeço-me com um beijo de esperança, amiga Berta. Recebe esta carta cheia de carinho do teu amigo de todos os dias,

Gil Saraiva

 

 

 

Carta à Berta: "António Costa - O Grande Golpe - Peça em Três Atos" - "Ato III - Um Corredor Aéreo Para Portugal"

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Olá Berta,

Termina hoje aqui, minha amiga, a minha peça em três atos sobre o que se pode ter passado realmente entre Portugal e o Reino Unido entre o fim de agosto e o princípio de setembro deste ano.

Esta foi a minha maneira de justificar a mudança de atitude do Governo Britânico, que estava determinado a fazer cumprir o fecho dos corredores aéreos para os países que, como Portugal, tivessem ultrapassado os 20 infetados por cada 100 mil habitantes e que, de repente, aparece com o critério (que apenas beneficia Portugal) do rácio entre o número de testes efetuados no país e o número real de infetados.

Uma surpreendente mudança, em cima da hora, a dias de anunciar como ficariam os corredores aéreos britânicos para os 15 dias seguintes.

“Terceiro Ato: Um Corredor Aéreo para Portugal

Na segunda e terça-feira seguintes, à conversa Costa versus Boris, os noticiários de todas as rádios e televisões anunciavam, com drama, o possível fecho do corredor aéreo entre Portugal e o Reino Unido. O país tinha ultrapassado o limite de 20 infetados por cada 100 mil habitantes o que implicava o automático anúncio, na quinta-feira seguinte, do fecho do corredor turístico entre Reino Unido e Portugal. Tudo parecia indicar este desfecho trágico para a economia portuguesa, já a braços com mais uma centena de outros problemas. A gota de água que podia fazer transbordar o copo do descalabro estava prestes a ocorrer. Muitos comentadores, principalmente os televisivos, davam o facto como inevitável e analisavam as consequências trágicas para o país.

Na quarta-feira o assunto Rui Pinto, e o julgamento do mesmo que começaria na sexta-feira, relegavam para segundo plano, um assunto que parecia condenado à tragédia e cujo desfecho se previa como óbvio. Apenas de passagem, sem relevo, se falava ainda do fecho do corredor aéreo com Inglaterra. Já existiam turistas a desmarcar férias, outros a antecipar para sexta-feira o regresso de férias, para não ficarem sujeitos ao confinamento no retorno ao Reino Unido.

Surpreendentemente na quinta-feira o Governo de Boris Johnson anuncia oficiosamente a mudança dos critérios de avaliação de risco para o turismo dos ingleses fora de Inglaterra. O novo critério só tem um único beneficiário: Portugal. Passa a ser recompensado quem mais testa, face ao número de infetados que estes testes revelam. O rácio volta a colocar Portugal nos países seguros e viáveis para o povo do Reino de Sua Majestade. Ninguém consegue entender ou encontrar uma justificação plausível para esta nova forma de avaliação inglesa.

Na sexta-feira a notícia torna-se oficial. Portugal vai continuar no verde no que toca aos corredores turísticos aéreos entre Inglaterra e Portugal. Os empresários algarvios, madeirenses e dos Açores respiram de alívio. Têm mais 15 dias de negócio pois, pelo menos, até 19 de setembro o corredor manter-se-á aberto.

Sentado em casa, a ouvir os noticiários, António Costa sorri. Ninguém suspeita do negócio. O país ganhou um novo fôlego e já só se fala do julgamento de Rui Pinto, passada que foi a enorme surpresa. O sentido de dever cumprido deixa-o feliz. Aquilo podia ter corrido mal, muito mal mesmo. Felizmente, por mais 15 dias tudo está bem na pacata Lusitânia.

Costa sabia que havia um preço a pagar, mas desde que ele cumprisse o prometido Boris Johnson nunca o poderia acusar de incumprimento do prometido. Isso era o mais importante, poder manter a face, sem ter cedido em nada de realmente importante para Portugal.”

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Fico-me por aqui, amiga Berta. Espero que te tenha agradado esta minha peça em três atos. Personagens reais, países reais, factos reais, causas alegadas no domínio do «podia ter sido assim». Com um beijo saudoso este teu amigo do coração despede-se até amanhã,

Gil Saraiva

 

 

 

Carta à Berta: "António Costa - O Grande Golpe - Peça em Três Atos" - "Ato II - Costa e BB - O Telefonema"

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Olá Berta,

Eu já sabia que a minha querida amiga ia dizer que eu punha os nossos governantes a falar de um modo muito vulgar nas reuniões. Não te esqueças que eu já fiz parte de uma direção distrital do Partido Socialista, ainda por cima enquanto elemento da Comissão Executiva de uma Federação Regional. Também sei que já passaram um pouco mais de 2 décadas, mas o vocabulário não mudou. Não foi o facto de eu ter saído dessas lides que alterou fosse o que fosse na linguagem utilizada pela maioria dos dirigentes entre portas.

Para facilitar as coisas vou apresentar a chamada para o Reino Unido no nosso português coloquial em vez do inglês brejeiro em que a mesma decorreu. A tradução facilita o entendimento de quem lê. Mas vamos ao que mais interessa, ou seja a nossa peça:

“Segundo Ato: Costa e BB – O Telefonema (leia-se Bi Bi de Boris Brexit)

Enquanto Augusto Santos Silva rabiscava num papel o novo número pessoal de Boris Johnson, acabadinho de ser arranjado por intermédio do embaixador britânico em Portugal, António, alinhava numa folha A4 as ideias base para a conversa. A meia hora seguinte serviu para todos darem sugestões sobre quais deveriam ser os assuntos discutidos e sobre a ordem em que os mesmos poderiam ir sendo apresentados. Era necessário pressionar seriamente o Primeiro-Ministro britânico, sem o chatear.

Por fim Costa passou a limpo os tópicos e sentiu-se preparado para avançar para a chamada.

       - Olá Boris, daqui é Costa… António Costa… Primeiro-Ministro de Portugal. Sim, sim, esse mesmo, o velho aliado a quem vocês fodem sempre que podem... — explicava Costa no decorrer da troca de piadas iniciais entre governantes.

       - Não é bem assim amigo Costa. Digamos que o Reino nem sempre pode fazer tudo aquilo a que se compromete. Às vezes, dá merda, fruto das circunstâncias. Mas a que devo esta chamada? O meu embaixador em Portugal já me tinha informado que transmitira o meu número ao teu homem dos negócios estrangeiros. Precisas de algum conselho sobre como podes sair da União Europeia? — ripostava Johnson com ar brincalhão.

       - Não pá. Preciso é que mantenhas a porra do corredor aéreo com Portugal e te deixes de moralismos hipócritas, caralho. Arriscas-te a afundar-me o PIB e isso pode gerar uma puta de uma bola de neve que nem com o dinheiro de Bruxelas me safo. Preciso mesmo que eleves a fasquia da velha aliança. — afirmou Costa tentando manter um ar sério e preocupado.

       - Puta que pariu. Isso está assim tão grave? Afinal serão apenas 15 dias. Não me digas que vais ao fundo por meia dúzia de ingleses não irem de férias? Não posso querer! — argumentou Boris.

       - Talvez se deixasses de oxigenar o cabelo e arranjasses um pente te fosse mais fácil entender que não estamos a falar de meia dúzia. Mas enfim, caralho, o que eu preciso é que não anuncies o fecho do corredor na quinta-feira. Posso contar contigo? — Costa parecia preocupado.

       - É pá, foda-se. Que culpa tenho eu que vocês tenham passado a média das 20 infeções por 100.000 habitantes? Tu sabes que esse é o nosso critério para manter os corredores aéreos... — justificava Boris com ar de quem nada poderia fazer.

       - Também sei que tinhas ficado de negociar a maioria dos termos do Brexit com a chanceler alemã e que ainda nem sequer tens nada que se veja. Estás em cima da linha de água para fazeres uma saída airosa no que ao acordo com a União diz respeito. E, até agora, nada de nada, caralho. — Costa preparava-se para lançar a escada. — Talvez não te lembres, mas eu recordo-te que a Presidência do Conselho Europeu é de Portugal durante o primeiro semestre de 2021.

       - Hum… isso quer dizer o quê meu velho e bom amigo? Estás a propor uma troca de favores, é? Acho que sabes que não consegues fazer nada se os outros estiverem do contra. Ainda não estou bem a ver onde queres chegar... — avançava Boris cautelosamente. Aquela poderia vir a ser uma aliança muito interessante para si. Se pudesse manipular um pouco a agenda negocial…

       - É pá, tu mudas o critério dos corredores aéreos para a percentagem de infetados por cada 100 mil testados. Nesse parâmetro estamos no topo dos melhores classificados da União. Já eu, pelo meu lado, articulo contigo a forma de trabalharmos a agenda do Brexit como te for mais conveniente, entre janeiro e junho. Podes até dar liberdade de escolha sobre o corte dos corredores ao País de Gales e à Escócia. Tens é de manter para eles o corredor aberto para Açores e Madeira e o Inglês para todo o território português. No continente o peso deles no turismo é residual. Não ultrapassa os 5%. Que te parece? — indagava António Costa esperançado no seu novo isco.

       - Hum… e o teu voto? Posso contar com o teu voto público quando a altura chegar? Desde que chateaste a Holanda publicamente que tens uma forte influência solidária nos países do Sul e do Leste. Votas comigo? Quer dizer, não precisas concordar com tudo, há coisas que vou exigir para depois as deixar cair durante as negociações. Posso avisar-te do que não faço questão de ter apoio. Então? — Boris parecia agora muito mais empenhado numa negociação. Até se esquecera de praguejar.

       - Podes contar comigo. Porém, os dossiers das pescas e do trabalho dos emigrantes ficam de fora. Sabes que em ambas as situações quem se podia foder era eu… — um silêncio fez-se ouvir do outro lado, Costa esperou.

       - Bem, bem… foda-se… nas pescas dava-me jeito o teu apoio, mas seria mau para ti, eu entendo. Ok, temos acordo. Vamos fazer assim, vou pôr vários elementos do Governo a dizerem que os corredores podem vir a ser fechados, mas que está tudo em análise. Na quinta-feira fazemos saber que os corredores não fecham e na sexta-feira sai o comunicado oficial do Governo Britânico. Parece-te bem? Já com essa ideia da mudança de critérios ou a junção desses com o atual, para parecer mais verosímil. Que tal? — questionou Boris.

       - Caralho! Estava a ver que não. Estamos combinados. Nós vamos manter as nossas infeções elevadas até sábado, dia 12. Depois vamos baixando para que possas manter a avaliação. Se não conseguirmos já será culpa nossa. Entendido? Estamos combinados? — Costa esperou pela confirmação de cortesia pelo lado de Boris.

       - Claro que sim. Mas baixa-me os infetados entre dia 13 e 18 de setembro. Deixa os 300 e os 400 para depois disso, senão pouco poderei fazer. Não há nada como um bom acordo para o Sol nos sorrir. Gostei da conversa António. Fica bem e está atento às notícias de quinta-feira. Puta que pariu. Já tinha visto que tu eras habilidoso, mas agora comprovei. Boa negociação. «Bye, bye». — Boris desligou a chamada francamente satisfeito com a conversa.

Os quatro ministros de Costa presentes na sala aplaudiam satisfeitos. Correra tudo de feição. Seria difícil arranjar uma outra situação em que tudo se tivesse passado exatamente conforme o que desejavam.”

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Por hoje é tudo, minha querida amiga Berta. Fica com uma despedida cheia de saudades deste teu velho amigo, recebe os mil beijinhos da praxe e espero voltar ao contacto contigo já amanhã

Gil Saraiva

 

 

 

 

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