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Carta à Berta

Carta à Berta é o local dos Desabafos de um Vagabundo, do Senhor da Bruma, essa bruma a que chamam de internet, de um Haragano, o Etéreo, qual cavalo selvagem que galopa entre cartas alegadamente, quiçá, sem fundamentos.

Carta à Berta é o local dos Desabafos de um Vagabundo, do Senhor da Bruma, essa bruma a que chamam de internet, de um Haragano, o Etéreo, qual cavalo selvagem que galopa entre cartas alegadamente, quiçá, sem fundamentos.

Carta à Berta: Memórias de Haragano - Confissões em Português - Parte XIX

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Olá Berta,

É hoje que concluo o assunto começado há 2 dias. Ainda deves estar intrigada sobre o propósito de trazer a cultura, a literatura, Aquilino Ribeiro e o livro <<Andam Faunos Pelos Bosques>> à temática destas cartas. Contudo, a coisa vem de trás, foi um assunto que ficou latente na Parte V das Confissões em Português, no passado dia 18 de maio há precisamente 14 dias atrás.

Confesso, porém, que a abordagem apenas me serve de imagem, alegoria ou hipérbole, de algo muito corriqueiro e usual no mundo animal e humano. Em última análise trata-se de tornar polido e educado algo que carece dessa vertente harmoniosa, por motivos que na narrativa que se segue te pareçam óbvios e perfeitamente claros e justificáveis. Pelo menos, foi com essa intensão que a figura de estilo foi usada por mim. Assim:

Memórias de Haragano: Confissões em Português – Parte XIX

“Pronto! Caro leitor, antes de mais uma explicação. Começo, muitas vezes, a divagar baseado num determinado tema e, às páginas tantas, como se costuma dizer no Norte, dou por mim completamente fora do enquadramento e do assunto que me fez começar a escrever em primeiro lugar.

Há muito experiência adquirida no tempo passado a virar frangos, como também há muita maneira de fazer bacalhau. Tudo para dizer que a situação do que fiquei por relatar não ficou esquecida, apenas suspensa, à espera de uma nova oportunidade para regressar e ser concluída. Porém, deixar passar tantas páginas foi, desta vez, um verdadeiro exagero.

Vou regressar ao ponto em que me referi às nunca solicitadas incursões dos intestinos no nosso quotidiano… caro leitor, quando eu abordei o assunto sobre a adivinha da poia, enquanto explicava de seguida a sua utilidade para desbloquear uma conversa, não me referi a uma outra situação derivada do mesmo tipo de temática. Ficou, portanto, algo relevante por esclarecer, porquê? Bem, nessa altura o que tinha começado a deslindar acabou por se perder, com a introdução das quadras da adivinha, ficando omisso um esclarecimento. O parágrafo iniciara-se da seguinte forma, aproximadamente:

O que faço eu quando, coabitando com uma companheira, sou obrigado a abordar a temática constrangedora do peido, da bufa, do pum, do traque, do flato ou flatulência, do vento ou da ventosidade, do petardo, ou até da bomba atómica que, mais tarde ou mais cedo, um de nós acaba por dar ou largar na presença do outro? Antes de responder essa questão, deveras pertinente, importa chamar ao texto a imagem, a alegoria e a hipérbole previamente anunciadas.

Se bem te lembras, amigo leitor, quando falei de Aquilino Ribeiro, e do seu romance <<Andam Faunos Pelos Bosques>> referi que iria fazer uso dele mais tarde. É precisamente este o momento. O título refere a possibilidade de existência de Faunos, enquanto entidade oculta, de que não se conhece verdadeiramente nem a sua essência, nem mesmo se nos estamos a referir a uma quantidade singular ou plural, ou seja, tudo à volta dos Faunos no romance de Aquilino é um mistério, um tabu não desvendado, um assunto incómodo, uma inconveniência até social.

O mesmo se passa com a temática do peido na presença de segunda ou terceiras pessoas. Pode ser detetado ou não o responsável pela sua proveniência, quando existem pelo menos 3 indivíduos presentes, é um ato incómodo, que aparece como que vindo do nada, oculto, resvalando clandestinamente por uma ou outra borda de roupa, um mistério, um tabu temático e realmente uma inconveniência social, que chega a ser tomada como falta de educação, mesmo na intimidade de um lar ou na presença única de uma companheira ou companheiro.

Ora, aquilo que eu faço, sempre que uma inconveniência destas ocorre, e na presença de alguém a quem já falei da minha analogia, mesmo não quando não sou eu o flatulento, é dizer, com um ar inocente: <<andam faunos pelos bosques>> e, logo de seguida, acrescento: <<é melhor darmos de frosques>>.  Quem conhece, sorri.

No caso de existir a presença de alguém que ainda não tenha escutado a minha explicação, fica lançado o tema para uma conversa brejeira, sem maldade e que também ajuda a esquecer o descuido da incauta pessoa que libertou a fragrância.

Se a palavra <<faunos>> se refere diretamente aos peidos, já o <<andam>> revela o seu aparecimento, enquanto o <<pelos bosques>> aponta para a origem misteriosa e possivelmente desconhecida da sua proveniência, ora desculpando o culpado, ora significando que se desconhece a origem. O acrescentar da expressão <<é melhor darmos de frosques>> não só rima com a frase anterior, como serve de aviso, não vá o aroma ser demasiado desagradável, para que se consiga manter o bom ambiente ou o agradável convívio até então existente.

Portanto, caro leitor, se alguma vez na sua conveniência social escutar a frase <<andam faunos pelos bosques>> já sabe que está na presença de alguém que também leu esta minha história e eu, se fosse a si, aproveitava para me pôr na alheta, antes que alguém profira: <<é melhor darmos de frosques>>.“

Termino, querida Berta, mais uma carta, esperando que, tenhas a sorte de nunca me ouvires dizer que “andam faunos pelos bosques”. Despeço-me rindo, com um beijo do amigo de todos os dias,

Gil Saraiva

 

 

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