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Carta à Berta

Carta à Berta é o local dos Desabafos de um Vagabundo, do Senhor da Bruma, essa bruma a que chamam de internet, de um Haragano, o Etéreo, qual cavalo selvagem que galopa entre cartas alegadamente, quiçá, sem fundamentos.

Carta à Berta é o local dos Desabafos de um Vagabundo, do Senhor da Bruma, essa bruma a que chamam de internet, de um Haragano, o Etéreo, qual cavalo selvagem que galopa entre cartas alegadamente, quiçá, sem fundamentos.

Carta à Berta: Os Candidatos às Eleições Presidenciais de 24 de Janeiro - André Ventura

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Olá Berta,

André Ventura é o sétimo e último candidato às Eleições para Presidente da República de que te vou falar. Como tenho feito até aqui, nestas cartas que te escrevo, aquilo a que refiro nada mais é do que o que eu penso sobre cada candidato.

Eu vou tendo em conta o que deles li e ouvi na comunicação social, seja pelas entrevistas a cada candidato, seja pelo que deles foi dito pelos diferentes comentadores ou, ainda, o que retiro das notícias sobre eles publicadas, escritas na imprensa, faladas na rádio ou transmitidas pela televisão, seja qual for o canal.

Digo isto porque, pessoalmente, abomino André Ventura e tudo aquilo que ele representa. Gosto, quando assim é, de deixar claro o que me vai na alma, antes de me pôr a falar da pessoa em causa. O facto de apresentar a minha opinião não faz dela uma realidade de facto, embora seja baseada em factos do domínio público.

Por isso é que tudo o que te escrevo nestas cartas pertence ao campo restrito do alegadamente, pela forma como as coisas são narradas pelo meu próprio processo interpretativo. Se apresento este preambulo é porque com este menino… nunca fiando, e mais vale prevenir do que remediar.

André Ventura vem dos subúrbios de Lisboa, nomeadamente da Freguesia de Algueirão/Mem Martins, do Concelho de Sintra, onde nasceu há 38 anos atrás. Vem de um perímetro   repleto de migrantes que, por não se poderem instalar diretamente na capital foram, a pouco e pouco, povoando e sobrelotando a periferia e arrabaldes de Lisboa.

O negócio do pai, uma loja de bicicletas, e o trabalho de empregada de escritório da mãe, foram suficientes para conseguir pagar-lhe os estudos até ao secundário e, mais tarde, a universidade.

Para fugir à influência do berço, já com 14 anos de idade cumpridos, tornou-se católico, batizou-se, fez o crisma e ingressou no “Seminário de Penafirme” no Concelho de Torres Vedras para seguir uma suposta vocação religiosa que seria rapidamente interrompida porque, segundo alega, se apaixonou no entretanto.

Fez o curso de direito na Faculdade de Direito da Universidade Nova de Lisboa, onde se formou com 19 valores (prova de que de burro nada tem o mestre André). E, mais tarde defendeu, já em 2013, a tese de doutoramento em Direito Público pela Faculdade de Direito da Universidade de Cork, na Irlanda, financiada pela Fundação para a Ciência e Tecnologia, na qual criticou o "populismo penal" e "estigmatização de minorias", revelando preocupação com a "expansão dos poderes policiais”.

Poderás pensar, amiga Berta, que estou a inventar, mas não. O André Ventura de há oito anos atrás tinha sérias preocupações com as minorias marginalizadas e com o aumento notório do poder policial. Todavia, tal como o amor o fez desistir de ser padre, também a ambição lhe toldou as ideias e os ideais.

Na sua passagem pelo ensino superior acabaria por lecionar na Universidade Autónoma de Lisboa, de 2013 até 2019, e na Universidade Nova de Lisboa, de 2016 até 2018. Foi comentador desportivo na CMTV entre 2013 e 2019, até ser dispensado da função pela administração da Cofina. Durante 2018 e 2019 foi ainda consultor de uma sociedade de advogados e depois da empresa Finpartner, entre 2019 e 2020.

No campo partidário militou uns anos pelo PSD e foi candidato, pelo partido, à Presidência da Câmara de Loures contra o então Presidente, o comunista Bernardino Soares, em 2017.

Foi a partir daqui que André Ventura descobriu a sua vocação de troca-tintas ao manifestar algumas das suas ideias sobre aquilo a que apelidou de “povos ciganos”. No entanto, já no ano anterior, também gerara alguma polémica no seio do PSD ao defender publicamente "a redução drástica da presença islâmica na União Europeia”.

Em abril de 2019 fundou o CHEGA e com ele, pelo círculo de Lisboa, conseguiu ser eleito Deputado da Assembleia da República. Na época dizia que o seu partido defendia ideias "liberais economicamente, nacionalistas culturalmente e conservadoras em questões de costumes”. Aliás, não teve qualquer problema em ir adaptando a filosofia programática do seu partido de forma a congregar descontentes.

Descontentes e, acrescente-se, gente da direita radical, muita dela órfã de uma ditadura finda há quase meio século, e que lhe poderiam permitir criar um nicho político com elevado potencial de crescimento, bem à medida das suas ambições.

Muitas foram as polémicas a envolver André Ventura. Os setores foram variando entre a islamofobia, o preconceito étnico, a homofobia escondida em valores conservadores, o machismo, a xenofobia e o racismo, conforme ia dando jeito à angariação de simpatizantes e militantes do seu partido heterógeno, neofascista e disfuncional.

No meu entender, André Ventura, não acredita em nada do que defende ou diz defender. Ele ruma ao sabor da maré na busca fácil do populismo e do protagonismo político. O narcisismo e o egoísmo são as suas verdadeiras convicções.

 A tarimba de comentador desenvolveu-lhe um diálogo fácil de quem, sem responder ao que lhe é perguntado contra-ataca com afirmações ou questões que têm por objetivo único irritar e tirar discernimento aos adversários.

Esperto, inteligente, ambicioso e sem princípios morais que não lhe advenham do umbigo. É assim que eu vejo este Ventura que, um dia, fruto destas mesmas “qualidades” poderá, por fim, cair em desventura, desde que os adversários nunca o menosprezem.

Por hoje é tudo, amiga Berta, vou beber uns sais de fruto, pois que escrever sobre este individuo me dá uma tremenda azia. Despede-se este teu amigo com um beijo de até amanhã,

Gil Saraiva

 

 

 

Carta à Berta: Um olhar sobre o CHEGA e André Ventura - Parte III/III

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Olá Berta,

Termino hoje esta minha análise sobre o CHEGA. Antes de mais agradeço que tenhas deixado os teus comentários para o final desta carta. Com efeito, um partido como este, que reúne em seu torno uma quantidade de apoiantes tão diferentes e até divergentes entre si é, por si só, um verdadeiro fenómeno.

Mas não é um partido unido e consistente se lhe retirarmos o líder. Um bom exemplo disso foi o próprio congresso do CHEGA que, sob a ameaça de saída do seu comandante supremo, correu a aprovar as listas por este propostas que tinham sido anteriormente rejeitadas consecutivamente. Estamos, portanto, perante um saco de gatos, com um cão de guarda na porta de saída.

A queda de André Ventura, só por si, acabará por gerar o estilhaçar deste partido numa parafernália de pequenos movimentos, em que cada um puxa o saco para o seu lado. Sem o chefe, os bandos dividem-se nas suas partes e esquecem o benefício do todo que os constituía.

Até este momento o partido Chega é André Ventura e André Ventura é o partido Chega. Isto, mesmo assim, poderia ser e constituir algo de perigoso se a inteligência, o conhecimento, o discernimento e a cultura geral e política do líder fossem algo fora dos padrões aceites como comuns e extravasassem para as margens da genialidade.

Contudo, e para meu alívio, Ventura é apenas um oportunista sem ideias, que navega à vista e que não apresenta qualquer evidência de vir a ter o tão desejado rasgo de génio. Porém, dirão muitos, já reúne 10% das intenções de voto numas eleições legislativas. Com efeito essa é a realidade. Mas achas, amiga Berta, que sabermos que temos 10% de gente desta neste país é verdadeiramente preocupante?

O Partido Comunista Português nem quando tinha 15% dos eleitores portugueses, nas suas hostes, conseguiu implantar uma ditadura do proletariado e isto nos idos tempos do PREC (Processo Revolucionário em Curso), com uma inteligência invulgar como a de Álvaro Cunhal à cabeça e com o apoio da antiga URSS. Ora, nem Ventura é Cunhal, nem os apoios de ventura se comparam à URSS. Por isso, minha querida, deixemos o partido CHEGA implodir, naturalmente, por si mesmo, um destes dias ou quando perder o líder. Tal como aconteceu com o PRD, partido de Ramalho Eanes, quando se viu sem o seu líder.

Por agora basta de um CHEGA que não chega a lugar algum, onde coabitam aqueles que nos interessa saber quantos são e onde estão. Despede-se este teu amigo que muito se lembra de ti, minha querida Berta, com um beijinho, saudosamente,

Gil Saraiva

 

 

 

Carta à Berta: Um olhar sobre o CHEGA e André Ventura - Parte II/III

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(discurso de Passos Coelho sobre o candidato do PSD à Câmara de Loures, nomeadamente o Sr. Dr. André Ventura)

Olá Berta,

Continuando a minha narrativa sobre o suposto perigo do crescimento do partido de André Ventura, que devo encerrar amanhã, espero deixar clara a ideia que tenho sobre ele. Com efeito, não consigo ver onde está o perigo. Dizem uns que em seu redor se reúnem os racistas, muitos fascistas, os xenófobos e os homofóbicos, entre outras categorias de gente de valores e princípios intoleráveis neste fim do primeiro quartel do século XXI.

Não duvido minimamente da possível veracidade destas afirmações, contudo, e isso é importante, elas não fazem parte do perfil ideológico que consta no programa partidário em causa. Essa ideia advém, principalmente, das posições concretas que vamos vendo Ventura a tomar sobre situações específicas da atualidade política.

Com efeito, basta analisar a evolução, nestes curtos dois anos de existência, do programa do partido, para termos a certeza que este se desenvolve e expande mais pelas oportunidades e oportunismos, do que por ideias próprias bem alicerçadas e cimentadas.

O CHEGA congrega e arrebanha descontentes, em todas as áreas. Venham eles de que partido ou tendência vierem são todos bem-vindos ao polvo aglutinador. Sejam eles os militaristas, os defensores da segurança como um valor que se sobrepõe à liberdade e dos gangues organizados de gente sem caráter, mas também dos tais saudosos do fascismo, dos preconceituosos relativamente a algo, onde encaixam os racistas, os xenófobos e os homofóbicos, entre outros, como os que acreditam que o lugar da mulher é entre a cozinha e a cama e que a igualdade de género é uma história mais fantasiosa do que a da própria Carochinha.

Com efeito, antes de me despedir até amanhã, espero sinceramente, minha querida amiga Berta, que estejas a acompanhar o meu raciocínio e que não julgues o que digo antes de eu terminar a próxima carta. Despede-se saudoso, este amigo sincero, com um abração muito virtual,

Gil Saraiva

 

 

 

Carta à Berta: Um olhar sobre o CHEGA e André Ventura - Parte I/III

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Olá Berta,

Ao contrário de muitos daqueles que comandam a nossa vida política, daqueles que aspiram ao poder, dos comentadores e analistas políticos e de muitos cronistas, eu, que gosto muito de pensar por mim, não considero que um partido como o CHEGA seja perigoso. Nem sequer acho que constitua uma ameaça à nossa forma de estar, de ser e de viver ou ainda que o mesmo possa estar ferido de qualquer inconstitucionalidade.

Com efeito, no meu modesto entender, o CHEGA é um partido de direita (uma direita muito à direita) que defende, bem no âmago dos seus militantes e apoiantes, um regresso a uma espécie de Salazarismo requentado, sem o brilhantismo político e estratégico de Salazar.

Se o antigo ditador estivesse na génese deste partido seria coerente dizer que o elefante pariu, tardiamente, um hámster, já dentro da rodinha e a exercitar as patitas enquanto a mesma gira e volta a girar. É mesmo assim que vejo este grupo de gente que se aglomerou à volta de André Ventura.

Também não me admiro muito de ver o PSD, de Rui Rio, a ver com bons olhos possíveis alianças à sua direita, afinal muitos dos antigos Barões dos Sociais Democratas e alguns dos Monárquicos do PS, que tentaram, e ainda tentam a todo o custo, que os filhos lhes sucedam nos lugares antes ocupados pelos seus monárquicos assentos, só não mudam para lá por terem vergonha de assumir a sua verdadeira matriz familiar e dinástica.

Fosse André Ventura um líder com os tomates de Pedro Passos Coelho e tivesse ele o nível cultural e intelectual de Diogo Freitas do Amaral e a história seria contada de forma bem diferente daquela que leremos daqui a uns anos sobre o CHEGA.

Amanhã continuarei esta minha análise, todavia, por hoje, este teu amigo despede-se com um beijinho carinhoso, sempre ao teu dispor, caso necessites de ajuda ou de um ombro amigo,

Gil Saraiva

 

 

 

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