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Carta à Berta

Carta à Berta é o local dos Desabafos de um Vagabundo, do Senhor da Bruma, essa bruma a que chamam de internet, de um Haragano, o Etéreo, qual cavalo selvagem que galopa entre cartas alegadamente, quiçá, sem fundamentos.

Carta à Berta é o local dos Desabafos de um Vagabundo, do Senhor da Bruma, essa bruma a que chamam de internet, de um Haragano, o Etéreo, qual cavalo selvagem que galopa entre cartas alegadamente, quiçá, sem fundamentos.

Carta à Berta: Memórias de Haragano - Confissões em Português - Parte XIX

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Olá Berta,

É hoje que concluo o assunto começado há 2 dias. Ainda deves estar intrigada sobre o propósito de trazer a cultura, a literatura, Aquilino Ribeiro e o livro <<Andam Faunos Pelos Bosques>> à temática destas cartas. Contudo, a coisa vem de trás, foi um assunto que ficou latente na Parte V das Confissões em Português, no passado dia 18 de maio há precisamente 14 dias atrás.

Confesso, porém, que a abordagem apenas me serve de imagem, alegoria ou hipérbole, de algo muito corriqueiro e usual no mundo animal e humano. Em última análise trata-se de tornar polido e educado algo que carece dessa vertente harmoniosa, por motivos que na narrativa que se segue te pareçam óbvios e perfeitamente claros e justificáveis. Pelo menos, foi com essa intensão que a figura de estilo foi usada por mim. Assim:

Memórias de Haragano: Confissões em Português – Parte XIX

“Pronto! Caro leitor, antes de mais uma explicação. Começo, muitas vezes, a divagar baseado num determinado tema e, às páginas tantas, como se costuma dizer no Norte, dou por mim completamente fora do enquadramento e do assunto que me fez começar a escrever em primeiro lugar.

Há muito experiência adquirida no tempo passado a virar frangos, como também há muita maneira de fazer bacalhau. Tudo para dizer que a situação do que fiquei por relatar não ficou esquecida, apenas suspensa, à espera de uma nova oportunidade para regressar e ser concluída. Porém, deixar passar tantas páginas foi, desta vez, um verdadeiro exagero.

Vou regressar ao ponto em que me referi às nunca solicitadas incursões dos intestinos no nosso quotidiano… caro leitor, quando eu abordei o assunto sobre a adivinha da poia, enquanto explicava de seguida a sua utilidade para desbloquear uma conversa, não me referi a uma outra situação derivada do mesmo tipo de temática. Ficou, portanto, algo relevante por esclarecer, porquê? Bem, nessa altura o que tinha começado a deslindar acabou por se perder, com a introdução das quadras da adivinha, ficando omisso um esclarecimento. O parágrafo iniciara-se da seguinte forma, aproximadamente:

O que faço eu quando, coabitando com uma companheira, sou obrigado a abordar a temática constrangedora do peido, da bufa, do pum, do traque, do flato ou flatulência, do vento ou da ventosidade, do petardo, ou até da bomba atómica que, mais tarde ou mais cedo, um de nós acaba por dar ou largar na presença do outro? Antes de responder essa questão, deveras pertinente, importa chamar ao texto a imagem, a alegoria e a hipérbole previamente anunciadas.

Se bem te lembras, amigo leitor, quando falei de Aquilino Ribeiro, e do seu romance <<Andam Faunos Pelos Bosques>> referi que iria fazer uso dele mais tarde. É precisamente este o momento. O título refere a possibilidade de existência de Faunos, enquanto entidade oculta, de que não se conhece verdadeiramente nem a sua essência, nem mesmo se nos estamos a referir a uma quantidade singular ou plural, ou seja, tudo à volta dos Faunos no romance de Aquilino é um mistério, um tabu não desvendado, um assunto incómodo, uma inconveniência até social.

O mesmo se passa com a temática do peido na presença de segunda ou terceiras pessoas. Pode ser detetado ou não o responsável pela sua proveniência, quando existem pelo menos 3 indivíduos presentes, é um ato incómodo, que aparece como que vindo do nada, oculto, resvalando clandestinamente por uma ou outra borda de roupa, um mistério, um tabu temático e realmente uma inconveniência social, que chega a ser tomada como falta de educação, mesmo na intimidade de um lar ou na presença única de uma companheira ou companheiro.

Ora, aquilo que eu faço, sempre que uma inconveniência destas ocorre, e na presença de alguém a quem já falei da minha analogia, mesmo não quando não sou eu o flatulento, é dizer, com um ar inocente: <<andam faunos pelos bosques>> e, logo de seguida, acrescento: <<é melhor darmos de frosques>>.  Quem conhece, sorri.

No caso de existir a presença de alguém que ainda não tenha escutado a minha explicação, fica lançado o tema para uma conversa brejeira, sem maldade e que também ajuda a esquecer o descuido da incauta pessoa que libertou a fragrância.

Se a palavra <<faunos>> se refere diretamente aos peidos, já o <<andam>> revela o seu aparecimento, enquanto o <<pelos bosques>> aponta para a origem misteriosa e possivelmente desconhecida da sua proveniência, ora desculpando o culpado, ora significando que se desconhece a origem. O acrescentar da expressão <<é melhor darmos de frosques>> não só rima com a frase anterior, como serve de aviso, não vá o aroma ser demasiado desagradável, para que se consiga manter o bom ambiente ou o agradável convívio até então existente.

Portanto, caro leitor, se alguma vez na sua conveniência social escutar a frase <<andam faunos pelos bosques>> já sabe que está na presença de alguém que também leu esta minha história e eu, se fosse a si, aproveitava para me pôr na alheta, antes que alguém profira: <<é melhor darmos de frosques>>.“

Termino, querida Berta, mais uma carta, esperando que, tenhas a sorte de nunca me ouvires dizer que “andam faunos pelos bosques”. Despeço-me rindo, com um beijo do amigo de todos os dias,

Gil Saraiva

 

 

Carta à Berta: Memórias de Haragano - Confissões em Português - Parte XVIII

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Olá Berta,

Dando seguimento à última carta, que agradeço que tenhas referido ter-te deixado curiosa, sigo de imediato para a narrativa. Assim:

Memórias de Haragano: Confissões em Português – Parte XVIII

“Se devidamente analisado, à luz do seu tempo, Aquilino Ribeiro mostra-se muito à frente da sua época e das ideias de então. Neste romance ele promove aquilo a que se poderia muito bem chamar uma verdadeira revolução sexual. De notar que a ação decorre 40 anos antes dos famosos anos 60, esses muito conturbados tempos da paz e do amor e da reivindicada liberdade sexual.

Aliás, embora nunca tenha lido nada que possa sequer comprovar o que vou escrever, eu acho provável que os loucos anos 20, na América, possam ter influenciado o papel verdadeiramente diferente do habitual, naquela altura, atribuído à mulher, por parte de Aquilino, na sua obra. Por ventura, as notícias do novo mundo podem ter ajudado na quase sátira de Aquilino Ribeiro ao <<status quo>> instituído e tomado como certo.

Podia ter também falado aqui da personalidade única do escritor. Ele que foi beirão, emigrante, preso, procurado pela polícia, fugitivo, seminarista, fundador de revistas literárias, membro da Biblioteca Nacional de Portugal e do grupo com a mesma denominação, sócio da Academia das Ciências de Lisboa, desertor, arguido em tribunal militar, condenado, caçador e até estudante universitário da Sorbonne, em Paris.

Contudo, também foi cavaleiro, republicano, contacto regular do movimento regicida, presidente e fundador da Sociedade Portuguesa de Escritores, presidiário, evadido da prisão, clandestino, cronista na imprensa escrita, professor, sem licenciatura, filho, pai e avô.

Somando aos demais parágrafos Aquilino foi ainda escritor, proposto para o Prémio Nobel da Literatura em 1960, acusado de anarquista, maçon, militante acérrimo da candidatura à Presidência de Humberto Delgado, Comendador da Ordem da Liberdade.

No topo do bolo, qual cereja, Aquilino Ribeiro é um dos ilustres portugueses a ter o direito de ter os seus restos mortais a descansar no Panteão Nacional.

Tendo em conta os últimos 4 parágrafos, tudo o que foi escrito relata o escritor, entre outras coisas, e não necessariamente por esta ordem, escolhida propositadamente, por mim, para parecer conturbada e polémica como aliás foi toda a sua vida.

Aquilino Ribeiro era, por si só, um caso único e invulgarmente admirado na cena literária portuguesa e internacional, de que são exemplos as honras recebidas no Brasil e em Paris. Eu, aqui, podia vir falar dos mais de 40 livros que deixou, enquanto obra publicada. Porém, não era sobre Aquilino Ribeiro, propriamente dito, de que me interessava falar. Prefiro referia-me sim, apenas e só, à sua obra: <<Andam Faunos Pelos Bosques>>.”

Despeço-me com uma piscadela de olho e um sorriso franco, deste que sempre será teu amigo, com votos de que estejas a ter um excelente dia, com amizade,

Gil Saraiva

Carta à Berta: Memórias de Haragano - Confissões em Português - Parte XVII

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Olá Berta,

Hoje entro, sem demoras, num novo tema. Algo mais erudito porque, para meu próprio orgulho, também se torna necessário, dar um pouco de luz às cartas que te escrevo. A cultura não aleija e, por estranho que te possa parecer (ou talvez não), ajuda a formar mentalidades e identidades. Ao contrário do provérbio que afirma que << o saber não ocupa lugar>> eu considero que ele não só ocupa, como devia ser sempre encontrado no cume das nossas prioridades. Assim:

Memórias de Haragano: Confissões em Português – Parte XVII

“Caro leitor, desculpa-me se te pergunto, mas já leste tu, por acaso, a excelente obra-prima de Aquilino Ribeiro intitulada <<Andam Faunos pelos Bosques>>? O autor certamente que te diz alguma coisa, mas e a obra? Conheces a sua obra literária?

Como não estás presente para responder, vou depreender que não, pois será a resposta mais comum de quem me lê. Porquê? Porque sendo tu uma pessoa desta época, onde se vive a era da imagem, só por mero acaso ou gosto particular é que terias ido ler uma obra escrita em 1926, por muito clássica que esta possa ser. Vejo-te a ler mais facilmente os romances do José Rodrigues dos Santos do que a desempoeirares o Aquilino. Contudo, posso estar absolutamente errado na minha avaliação e, se for esse o caso, peço desculpa, apenas o disse porque a leitura não está na moda e muito menos ainda o Aquilino.

Porém, hoje, por motivos que explicarei um pouco mais à frente, interessa-me falar neste assunto. Nomeadamente sobre o romance do mestre: <<Andam Faunos pelos Bosques>>.

Resumindo a ideia da história, mas sem intenções de a contar, posso dizer que ela anda à volta de um muito estranho acontecimento, passado nas serranias das Beiras e em Viseu, em que as mais belas damas da região são vítimas (ou não) de um predador sexual. A polémica instala-se, principalmente entre os investigadores do caso: os padres. Uns ingénuos e cândidos, outros com uma visão ainda perfeitamente arcaica e rural. Ainda há alguns esclarecidos e modernos, influenciados por uma educação na capital e mais aqueles realistas, conhecedores das influências que, à época, ventavam Paris, com um bafo a meandros bem obscuros e muito pouco dados à fé.

As teorias sobre que criatura ou criaturas andariam a colocar as suas sementes nas beldades regionais divergiam entre si. As conjeturas  variavam entre os que defendiam tratar-se do próprio Belzebu; os que colocavam um anjo como protagonista; os que pensavam que deveria ser tudo obra, isso sim, de um Casanova regional ou até de vários e, por fim, os que atribuem as culpas a um ou mais faunos míticos e sedutores, os quais enfeitiçariam as donzelas, com a mágica e erótica música das suas flautas de Pã, arrastando-as para os bosques, onde consumariam os seus enfeitiçadores intentos.

É do alegado arrastamento das mulheres para os bosques, com intuídos de uso de uma flauta, que não a de Pã, que surge o título da obra <<Andam Faunos pelos Bosques>>. Ninguém sabe lá muito bem quem são, quantos são, onde estão e como fazem as coisas. Contudo, desafiando a lógica, serão eles os possíveis e derradeiros culpados. Pensaram mesmo que os faunos através do uso profano e encantador das sonoridades da sua Pã, enfeitiçam, usam e abusam das castas raparigas e das respeitáveis senhoras beirãs?”

Deves estar a estranhar o porquê da presente temática, querida amiga, todavia, dentro de um ou 2 dias será bem mais fácil entenderes as minhas motivações. Tem um pouco de paciência comigo. Por hoje fico-me por aqui. Este teu amigo despede-se com uma beijoca sorridente,

Gil Saraiva

 

 

Carta à Berta: Memórias de Haragano - Confissões em Português - Parte XVI

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Olá Berta,

Tendo deixado em aberto a minha ideia sobre forças da ordem e fardas, acho que devo concluir essa linha de pensamento antes que avance para outras áreas, minha amiga, assim:

Memórias de Haragano: Confissões em Português – Parte XVI

“Regressemos, pois, às forças da ordem, mal pagos, rancorosos e prepotentes porque, até para darem um tiro, precisam de preencher seis ou sete impressos posteriormente. Depois existem, infelizmente, muitos deles com pouquíssima vocação para a profissão. A polícia devia cumprir a sua profissão com orgulho pela farda, pelo brio e pelo seu precioso auxílio na manutenção da ordem, na segurança e no combate aos malfeitores, que depois a justiça deveria tratar com sabedoria e eficiência.

Para além disso, não é necessário criar 20 diferentes forças policiais para fazer um mesmo serviço. Basta uma que esteja dividida por departamentos, áreas de atuação, campos de ação, zonas geográficas, ou seja lá o que for, mas uma chega.

As diferentes polícias, sejam elas a Polícia de Segurança Pública, a Guarda Nacional Republicana, a Polícia Judiciária, a Polícia Marítima, o Serviço de Estrangeiros e Fronteiras, o Serviço de Informações de Segurança, a Guarda Prisional, a Autoridade Tributária e a Autoridade de Segurança Alimentar e Económica já que têm todas, ao que parece, de existir em simultâneo, pelo menos, deveriam ter as acomodações e instalações, os efetivos, os meios e as condições mínimas asseguradas para com eficácia e segurança dignificarem os serviços onde estão inseridos. Ora, isso implica, inclusivamente, usufruírem de um pagamento compatível com os cargos e funções desempenhadas.

É precisamente a falta de algumas destas condições básicas de funcionamento que acaba por gerar, os defeitos e deficiências, a corrupção, o erro, as falhas na eficácia e pior ainda, a ausência de brio profissional. Afinal, como podemos pedir competência a uma PSP ou uma GNR se, ambas as polícias, têm metade da sua frota automóvel parada por carência de verbas para a oficina ou de capital para o combustível? Impossível. Só que as lacunas se estendem a todas estas forças e, pior ainda, cumulam com más remunerações, instalações degradadas, armamento e equipamento a precisar de reforma, e mais algumas dezenas de outras brechas em todo o sistema que deveria ser estanque e que urge calafetar.

Posso não gostar de fardas, conforme referi, mas exijo, pois é um direito meu enquanto cidadão, que as que existem tenham os meios e as condições para efetuarem e cumprirem eficaz e exemplarmente o seu papel na sociedade.”

Sendo eu, por nascimento, português, faço parte de um povo de brandos costumes e de uma tolerância à prova quase de choque. Mas sou, também, um daqueles que gosta de refilar por tudo e por nada, porque nós temos essa tendência meio masoquista de criticarmos o que é nacional, mas que, por acaso, até nem é nosso, pertence ao próximo seja ele o vizinho, conhecido, pessoa mais ou menos famosa ou até um VIP cá do burgo. O mexerico, os males de inveja e a saga do fado do coitadinho, são coisas que já não deveriam ter lugar numa sociedade que se diz evoluída.

Somos assim, podemos nem estar a sofrer com a crise, mas, como convém que ninguém saiba que até estamos bem, não se vão lembrar de nos chatear, lá alinhamos nós na desgraça nacional da crise que nunca mais passa. Temos a tendência incompreensível de nos acharmos vítimas de tudo e de todos. Com efeito, na atualidade, somos vítimas do Covid e do imenso problema de saúde que ele nos criou, gerando em simultâneo uma crise social e económica ímpar no país. Será necessária a coragem lusitana para enfrentar, lutar e vencer todas estas adversidades, mas temos de nos unir em torno desse objetivo que importa implementar.

Minha querida amiga Berta, deixo-te um amorangado beijo saudoso nesta despedida por hoje. Tens este teu amigo sempre ao teu dispor, usa e abusa,

Gil Saraiva

Carta à Berta: Memórias de Haragano - Confissões em Português - Parte XV

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Olá Berta,

Ontem, ao falar da justiça e de possíveis forças ocultas, acabei por não dar exemplos, nem expor muito, o que penso sobre o assunto. Por isso, aqui vai a continuação:

Memórias de Haragano: Confissões em Português – Parte XV

“Não fiquei convencido no caso Carlos Cruz, como já te contei, caro leitor, nem tantos outros casos que se mediatizam para nos atirar areia para os olhos.

Esses e outros, que nem vale a pena referir, são os gladiadores escravizados, e antes senhores, do Coliseu de uma Justiça que não tem apenas os olhos vendados, mas que aparenta servir sociedades secretamente organizadas e portadoras de agendas especificas.

Podia falar aqui dos interesses escondidos da Opus Dei, da Maçonaria e de mais uma dúzia de organizações mais ou menos secretas, que vão desde os Rosa-Cruz, os Lions Club até aos beneméritos do Rotary Club, todos agindo na sombra em prol dos seus interesses. Talvez esteja a ser injusto, afinal isso é única e exclusivamente a minha forma de pensar.

Porém, vejamos: quem julga o bom ou mau trabalho dos juízes e determina se estão ou não ao serviço de algo menos visível? Outros juízes? Não me façam rir. Isso sim, era importante, digo mesmo, fundamental, podermos saber de forma bem clara e transparente quem lhes avalia os procedimentos e atuações, para que assim a nossa fé na justiça fosse reposta.

Se o Governo tem uma Assembleia da República que o fiscaliza, se o Presidente da República está sujeito ao julgamento popular através do voto, quem supervisiona o poder judicial? Eles, em Portugal, são uma carreira pública, não vão a votos, mas são controlados por quem? Haverá alguém que saiba?

De vez em quando lá nos atiram com um juiz, para a arena dos média, para nos distrair. Mas quem são esses juízes? Os que já estão tão queimados, que já nem os estagiários se oferecem para ir tomar um cafezinho com eles, ou os que precisam de um apertão por estarem a tentar fugir aos poderes ocultos?

Quando um procurador nos ofende em tribunal, antes que o que quer que seja fique provado, porque é que o referido senhor não é devidamente repreendido pelo atentado ao meu bom nome que, até ao veredito final, deveria continuar a ser considerado como bom? A justiça deveria ter júri na grande maioria dos casos, principalmente nos mais graves, e prazos. Sempre prazos e responsabilidades por incumprimento desses prazos. Enfim, os desabafos, como diz uma amiga minha, não me levam a lugar algum e, ainda, segundo ela, não interessam a ninguém (para quem pudessem ou possam serem relevantes e a quem, verdadeiramente, se interessasse ou interesse por eles).”

Eu sei que tu entendes as minhas dúvidas existenciais, querida Berta. Aliás, tu e pouca gente mais. A maioria conforma-se com o que existe e escolhe nem pensar nestes assuntos. Por hoje despeço-me amigavelmente com um beijo, saudoso,

Gil Saraiva

 

 

Carta à Berta: Memórias de Haragano - Confissões em Português - Parte XIV

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Olá Berta,

Fiquei muito contente em saber que apoias a minha forma de ver a educação dos mais novos. Tristemente para mim, quando escrevi estas confissões, nem todos os leitores concordaram com o que eu afirmei. Para muitos a lamparina aplicada a uma criança, já é, por si só, um ato de covarde violência. Não conseguem distinguir, nem encontrar a noção de meio termo, que te expliquei na carta anterior. São opiniões que temos de respeitar numa sociedade civilizada, embora discordemos tanto delas, como essas pessoas discordam das nossas. Adiante…

Conforme é natural as nossas confissões, se as formos fazer todas, não cabem, mesmo que queiramos, num mero capítulo de um livro qualquer. Todavia, existem factos que nos chamam mais a atenção do que outros. Depois existem as relutâncias que nutrimos quanto a esta ou aquela situação ou organização. É assim contigo, comigo e com todas as pessoas. Nisto somos todos iguais. O que parece variar são os objetos da nossa atenção.

Eu, por exemplo, tenho um problema com fardas. Não sei se foi por causa do meu coma de 6 meses em 1982, causado por culpa do serviço militar, então obrigatório, se não me falha a memória, se por uma outra razão qualquer, que possa estar escondida ou mesmo profundamente enterrada no meu subconsciente. Mas passemos às Confissões. Assim:

Memórias de Haragano: Confissões em Português – Parte XIV

“Uma outra confissão é a minha séria aversão à autoridade. Seja ela criada para manter a ordem pública, seja a mais elementar segurança privada de uma qualquer instituição ou empresa. Consigo juntar até os militares ao mesmo role. A tendência natural da humanidade para abusar dos pequenos poderes é de tal forma gritante que, em vez de me sentir seguro e protegido, perante a presença de uma qualquer autoridade, me sinto, na maioria das vezes, intimidado, receoso, ameaçado, inseguro e de uma forma geral incomodado na sua presença.

Reconheço, contudo, que o defeito possa ser meu. Compreendo inclusivamente a necessidade da existência das forças de manutenção da ordem pública. Mas, a impunidade dos verdadeiros bandidos, deixa-me sempre naquele circuito fechado de não saber se essas autoridades existem para intimidar os pacíficos ou para agir sobre os violentos. Parece sempre que não é apenas a paz, a segurança e a manutenção da ordem pública que os faz agir. Provavelmente este raciocínio não passa de uma paranoia minha.

Já nem falo da justiça dos tribunais que, no caso nacional, parece atuar, de forma gritante, ao serviço de poderes e forças ocultas, de interesses que ninguém conhece muito bem e que quem conhece é somente porque faz parte da mesma teia. Dessa invisível malha que aperta uns para poder garantir que não se fala dos outros, daqueles a quem eu chamo de: os protegidos.”

Minha querida Berta, como me espalhei nos considerandos iniciais fui obrigado a ser mais curto nas confissões. Contudo, não te preocupes, pois amanhã continuo o raciocínio de hoje com toda a certeza. Despeço-me com um beijo amigo,

Gil Saraiva

 

 

Carta à Berta: Memórias de Haragano - Confissões em Português - Parte XIII

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Olá Berta,

A propósito da minha última carta, em que te falei da descendência, convém fazer um certo aparte sobre o que eu acho ser a educação de crianças e adolescentes. O tema, nesta época em que a violência doméstica está na ordem do dia, tem de ser abordado numa perspetiva sã, em que é imperativo distinguir o que é violência no lar, daquilo que é educação de menores.

Até os filhos fazerem 18 anos de idade os progenitores são responsáveis pelos atos praticados por estes, na quase totalidade dos casos. A lei abre algumas exceções que nem importa, minha amiga, estar aqui a referir. A atenção dos pais é essencial para que os normais parâmetros de civilidade não sejam ultrapassados.

Contudo, dar uma sapatada, com força medida e não desmedida, numa criança que faz, muitas vezes propositadamente, uma asneira repetida ou que se comporta inconvenientemente em público, não é violência doméstica é criação de limites e barreiras. Aliás, na maioria das vezes, basta que se suba e agrave o tom de voz para que a criança arrepie caminho. Agir assim é saudável, forma caráter nos infantes e dá-lhes as diretrizes base para melhor se conseguirem inserir num futuro, que nunca é muito longínquo, sem grandes custos na sociedade e comunidade adulta. Educar, não é perversão, é amor. Assim:

Memórias de Haragano: Confissões em Português – Parte XIII

“Dizia eu que fico feliz por ter tido filhos educados, que viveram as infâncias respetivas sem muitas das costumeiras birras infantis, e que acabaram por vingar e se tornar jovens adultos que, acima de tudo, sabem o que querem. Tais factos não podiam ser mais verdadeiros, nem mais importantes, por muito que se conjeture.

Não gosto nada de crianças malcriadas. Custa-me muito a aceitá-las, a baterem o pé e serem tratadas por você pela mamã, que os repreende com o mesmo ar com que ralha com o gato persa, que não lhe apeteceu usar a caixa de areia. Uma lamparina, distribuída na devida altura, ilumina mentes e educa. Ah! Contudo, não precisa deixar marca para surtir efeito. O melhor de tudo é que se trata de um ato de amor e não de violência doméstica gratuita e abusiva.

Inversamente, já é violência civil eu ter que assistir ao desaforo de cada vez ser mais fácil de se encontrarem crianças grosseironas, sem o mínimo polimento e com completa falta de regras ou normas de conduta. Fazem uso de birras, bate-pé e artimanhas pouco convincentes, para escaparem impunes e vitoriosas dos seus próprios disparates. Porém, nesta nossa sociedade, do oito e do oitenta, parece que um castigo bem dado e merecido numa criança passou, indevidamente, a ser um horroroso crime de violência doméstica.

Ora bem, eu sei que crimes dessa natureza existem, não tenho a menor dúvida, e os que o são deviam e devem ter pesadas consequências, mas, por favor, sem qualquer confusão com os atos de mera educação.”

Recebe um beijo amigo, querida Berta, deste fiel vagabundo feliz, que se despede com um sorriso de até amanhã, se não for antes, seja ao telefone ou numa qualquer rede social,

Gil Saraiva

 

 

Carta à Berta: Memórias de Haragano - Confissões em Português - Parte XII

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Olá Berta,

Cá estou eu para dar continuidade às minhas confissões, sem preocupações que não sejam as de tentar não me esquecer de detalhes que possam ser importantes. Assim:

Memórias de Haragano: Confissões em Português – Parte XII

“Porquê? Perguntarás tu, meu caro leitor, sem teres como vislumbrar uma razão lógica. Porque não contar friamente os factos ocorridos que levaram ao divórcio? Porque fazê-lo apenas serviria para minha satisfação egoísta e pessoal e não para um melhor crescimento e amadurecimento na adolescência de ambos os meus filhos. Era com a mãe que os 2 iriam viver, teria de ser com ela com quem melhor se teriam de relacionar, já lhes chegava a amargura da rotura e do afastamento face ao pai, que sempre fora presente. Já era trauma suficiente.

Falar da situação, gerar incómodos e possíveis atritos, para meu único benefício, nunca me pareceu de bom tom. Aliás, até corria o risco, depois de tantas vezes escutarem as queixas e a versão da mãe, de nem sequer acreditarem em mim. Não era algo que me tirasse o sono, mas, na realidade, era um cenário que poderia muito bem ter ocorrido. Bastava que lhes passasse pela cabeça que eu estava a tentar arranjar desculpas, para o que eles pensavam ter acontecido e cuja versão tomavam como verdadeira. Eu vivo com um compromisso fixo comigo mesmo na cabeça, que é, nunca ir contra a minha própria consciência, mesmo saindo-me mal disso.

Contudo, fico contente porque acompanhei intensamente a infância de ambos. Acabaram os 2 por vingar na vida e seguirem os seus caminhos de adultos preparados e com opções definidas e bem vincadas. Não se pode pedir mais, principalmente vivendo a muitos quilómetros de distância daquele que foi o meu lar.

Além de ter estado sempre presente, quando solicitado, fosse porque me queriam contar algo, fosse porque precisavam deste ou daquele bem, sempre puderam contar comigo. Nem mesmo quando vivi durante um ano e meio na rua, como um verdadeiro vagabundo, lhes dei a conhecer esse facto e a minha então precária situação, pelo contrário, mantinha o meu apoio, nem que para isso ficasse reduzido a uma sopa de feijão por dia. Feitios. Fazer o quê? Era feliz assim e eu prezo muito a minha felicidade, meu caro leitor.

Foi essa a razão que, nos termos do divórcio, renunciei à vivenda de 3 pisos, ao carro, à muito valiosa coleção de arte (na altura segurada em um milhão de contos), ao recheio da casa, etc., fazendo apenas exceção de parte dos meus livros e alguns dos meus discos de vinil, para além da minha roupa. O porquê também é simples e cristalino. Os meus filhos iam viver ali, já bastava perderem a presença do pai.”

Com isto me despeço até à minha próxima carta de confissões. Não te preocupes, querida Berta, que não considero que esteja a expor demasiadamente a minha vida privada. Não tenho o que esconder.  Não te posso é deixar de referir que o que te conto não passa, infelizmente, da minha visão dos factos. Certamente haverá versões bem mais tenebrosas do que a minha. Recebe um beijo de até mais, este sempre teu amigo,

Gil Saraiva

 

 

 

Carta à Berta: Memórias de Haragano - Confissões em Português - Parte XI

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Olá Berta,

Depois de me abrir nestas pequenas narrativas, sobre a minha ascendência, não vejo problema em passar à descendência. Tudo isto faz parte das Confissões de um Português em Português. Problemático seria referir-me à vida e intimidade de terceiros, sem o seu devido conhecimento e consentimento.

Contudo, tal como fiz até aqui, se reparares bem, apenas falo de mim relativamente a sentimentos e pensamentos e, o que digo sobre os outros intervenientes, é meramente explicado na minha perspetiva, alegadamente correta, do que racionalmente constato como verdadeiro.

Não me considero nem vítima, nem herói deste filme que constitui a minha vida. Julgo, isso sim, enquanto não me pesar a consciência, que serei uma pessoa feliz e de bem com a vida. Tenho, como ser humano, defeitos e qualidades. Não me acho pior, nem melhor que terceiros, mas estou convicto de que sou único e diferente enquanto individuo.

Herdei alguns dos defeitos menos bonitos do meu pai. Por exemplo, quanto corto uma relação com alguém, seja a que nível for, do mero conhecimento informal, à amizade ou à família, é para sempre e não há maneira, forma ou jeito de poder voltar atrás. Com efeito, nem mesmo se esse corte me dilacere a alma e embargue o coração. Se foi um ato consciente está resolvido e arquivado. Passemos ao capítulo:

Memórias de Haragano: Confissões em Português – Parte XI

“Infelizmente por força do meu próprio divórcio, o primeiro, ao fim de 17 anos de casamento, passei a acompanhar a educação dos meus filhos (a partir dos nove anos de idade de um e dos catorze anos da outra), à distância. Sei também, com uma grande certeza que isso influenciou negativamente a vida deles… não há soluções fáceis, nem mesmo coelhos a saltarem sorridentes de chapéus, na vida de cada um de nós, antes houvesse...

Afinal, quando se diz, num caso deste tipo, que a solução foi fácil é porque, logo à partida, o problema nem sequer existia e, portanto, esse casamento não passava de uma folha de papel registada.

Infelizmente, para mim, foi precisamente o inverso, ou seja, tratou-se de uma situação imensamente complicada, embora tenha sempre evitado demonstrá-la quer à pessoa de quem me separei, quer principalmente aos meus filhos. A estes, já lhes bastava a crua realidade de perderem a presença do pai.

Também nunca lhes expliquei porque é que a mãe se quis separar de mim, nem as palavras absolutamente cruéis e injustas que me disse, quando me pediu o divórcio. Efetivamente, para ser franco, nem quando a mãe de ambos, que ficou com a custódia deles, distorceu toda a história da separação eu lhes quis mostrar o meu lado da razão.”

Ficamos por aqui e seguiremos o nosso curso na próxima carta, minha amiga. Recebe um beijo de até amanhã, com os mimos e rococós do costume, deste teu amigo sempre presente, embora distante,

Gil Saraiva

 

 

Carta à Berta: Memórias de Haragano - Confissões em Português - Parte X

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Olá Berta,

Não foi ontem que terminei as minhas Confissões em Português, aliás, ainda vou a meio. Se é para me conheceres devidamente, acho justo dar-te todas as explicações possíveis. Pelo menos aquelas de que me lembro. Assim, continuando:

Memórias de Haragano: Confissões em Português – Parte X

“Entretanto casei, tive um casal de crianças para perpetuarem os genes dos progenitores, e só depois de divorciado é que consegui compreender os meus próprios pais. Efetivamente poderia ter entendido muito mais cedo. Mas, dos meus dezoito anos em diante, estive sempre distante deles. O contacto era feito por telefone, em aniversários, festividades e coisas desse género, sem grande proximidade ou relevância no que se refere a relações de mais intimidade geracional e familiar.

Não fosse essa minha opção de pré-adulto e em vez de ter sido aos quarenta poderia ter vislumbrado a realidade aos dezoito ou dezanove. Fiquei com algum remorso, mas já era tarde para esse tipo de sentimentos. Contudo, não penses com isso que eu gostava pouco dos meus pais. Nada disso. Adorava-os, tive foi a noção errada que o sentimento deles por mim não era tão forte como o meu por eles. Tolices de puto.

Mas não fiques com pena, não tive uma infância infeliz, nem nunca me senti um coitadinho. Aliás, abomino coitadinhos. Porém, cada um tem o direito a ter as suas opções de vida. No meu caso acho que a minha infância foi normal, a passagem pela adolescência maravilhosa e o casamento cinco estrelas até os feitios de ambos mudarem tanto que deixaram de ser compatíveis. O que foi pena. Ainda hoje me lembro com saudade de uma cara de mimo deliciosa que ela fazia quando me queria pedir algo que sabia que eu discordaria normalmente. Acabava sempre por ganhar. Quando nos separamos, resolvi lembrar apenas as coisas boas e arquivar em palavras e poemas as más e também as maravilhosas. Assim evitava sentir rancores e, do lado inverso, saudades. Fiz exatamente o mesmo com as outras relações de amor e de união que fui tendo ao longo da vida. Em última análise acho que foi a melhor opção.

Desde o episódio com os meus pais que passei a tentar, e ainda tento, mesmo que às vezes não seja assim tão fácil, não fazer julgamentos precipitadamente seja do que for. É uma questão de bom senso. Temos obrigação de aprender com os nossos próprios erros e de evitar repeti-los a não ser que a repetição seja, por qualquer outro motivo, intencional.”

Esta é uma boa altura para me despedir desta carta e de ti, minha querida amiga. Fica bem e recebe um beijo de até amanhã deste teu grande amigo,

Gil Saraiva

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