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Carta à Berta

Carta à Berta é o local dos Desabafos de um Vagabundo, do Senhor da Bruma, essa bruma a que chamam de internet, de um Haragano, o Etéreo, qual cavalo selvagem que galopa entre cartas alegadamente, quiçá, sem fundamentos.

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Carta à Berta: As Aventuras de um Vagabundo no Hospital Egas Moniz em Tempos de Covid - Parte III / VII - Os 3 Mosqueteiros - Jacinto

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Olá Berta,

Continuando a minha saga sobre As Aventuras de um Vagabundo no Hospital Egas Moniz, fica bem, nesta terceira parte, abordar os meus colegas de infortúnio, a quem chamei carinhosamente de: os três mosqueteiros. Dois deles chegados, poucas horas, antes de mim, o Quim e o Jacinto e o último, apenas 2 dias depois, o Libânio. Foi com estas pessoas que partilhei este internamento em tempos Pandemia, a famigerada Covid-19. Como esta saga está a ser escrita, depois dos acontecimentos, embora sendo colocada nas respetivas datas do evento, no meu blog, isso permite-me fundir dias para fazer uma narrativa mais a meu gosto. Espero, minha querida amiga Berta, que não vejas nisso qualquer inconveniente.

Contudo, para descrever os pacientes 524, 525 e 526, da cirurgia geral do Hospital Egas Moniz, resolvi fazê-lo separadamente, um a um, tentando revelar o maravilhoso trio que me calhou por companhia. Assim:

1) Jacinto:

A) A rondar os fins dos 30, inícios dos 40 anos, deixava perceber que se tratava de um homem ainda jovem, ativo, esperto, desenrascado, que sabe o que quer. Cabelo muito curto, óculos a revelar alguma miopia e um ar vigilante, se bem que preocupado com a sua atual situação e atento a todos os detalhes do que se ia passando consigo.

B) Tendo sido operado aos intestinos, dos quais os médicos removeram uma parte, teve, depois de uma alta talvez precipitada pela pandemia, de regressar ao internamento, 3 dias depois, pois a comida deixara de passar do estômago para o intestino delgado. Conheci-o ainda no Hospital São Francisco Xavier, nas urgências, na zona da enfermagem. Eu estava à espera, sentado num cadeirão reclinável, que me tirassem sangue e me colocassem a soro e ele encontrava-se a ser intervencionado, deitado numa maca, para lhe colocarem aquilo que me parecia uma mangueira, que entrava pelo nariz e ia direta ao estômago. Na ponta exterior a mangueira terminava num enorme saco destinado a recolher a matéria orgânica que não conseguisse passar para o intestino.

C) Sempre bem-disposto, porém, muito atento à sua condição clínica, o Jacinto lá me foi contando o que fizera, enquanto trabalhador ativo, antes da primeira intervenção o atirar para a baixa. Fora condutor anos a fio dos camiões de resíduos urbanos de Lisboa. Quando aparecera a oportunidade de concorrer para condutor dos parques e jardins da Câmara, conseguira, com sucesso, a transferência e graças ao seu feitio cordato e sensato, estava muito bem visto pelas respetivas chefias.

D) Era um homem magro, agora portador de um bandulho acentuado, devido às intervenções, e ostentava, entre o diafragma e a zona um pouco a cima da bexiga, uma cicatriz ornamentada, de alto a baixo, por uma considerável quantidade de pontos e agrafos, em meu entender terrivelmente medonha. Contudo, para minha admiração e respeito, o homem via aquilo como uma cicatriz de guerra, na sua batalha contra a doença, pelo direito à saúde, e mostrava-a com o devido orgulho.

E) Ligado ao soro, cosido, agrafado e entubado, fora-lhe recomendado que fizesse exercício e o bom do Jacinto galgou quilómetros de corredor diariamente, como quem cumpre um treino religiosamente programado. Aos poucos passou a beber água, depois a comer umas papas, seguidamente perdeu o soro, mais tarde retiraram-lhe o tubo do nariz, seguiu a perda dos pontos e dos agrafos e, por fim, já comia de tudo. Os intestinos começaram a funcionar e, dia-a-dia, foi um prazer vê-lo renascer firme e serenamente.

F) Foi o primeiro dos 4 a ter alta. Teria de continuar com alguns tratamentos em casa e aguardar também pelos resultados das análises feitas ao pedaço do intestino removido na primeira operação. Ficámos amigos, ele tinha um humor subtil que era muito do meu agrado, foi já depois da alta dos 4 que, num dos telefonemas diários que fomos trocando, ele me informou que a análise revelara cancro nos intestinos. Dei-lhe toda a força que consegui inventar no momento, expliquei-lhe os sintomas por que poderia passar quando iniciasse a quimioterapia que lhe fora recomendada. No final ele desligou mais animado e eu, bem, eu apenas chorei. Que injustiça...

Minha querida amiga, ficamos por aqui. Amanhã será o dia para te falar do Quim, mas apenas amanhã, recebe um beijo franco deste teu amigo,

Gil Saraiva

 

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