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Carta à Berta

Carta à Berta é o local dos Desabafos de um Vagabundo, do Senhor da Bruma, essa bruma a que chamam de internet, de um Haragano, o Etéreo, qual cavalo selvagem que galopa entre cartas alegadamente, quiçá, sem fundamentos.

Carta à Berta é o local dos Desabafos de um Vagabundo, do Senhor da Bruma, essa bruma a que chamam de internet, de um Haragano, o Etéreo, qual cavalo selvagem que galopa entre cartas alegadamente, quiçá, sem fundamentos.

Carta à Berta: Livro - O diário Secreto do Senhor da Bruma - Origens - 3.1

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Olá Berta,

Depois da introdução está na altura de te explicar as origens do Senhor da Bruma. Para não ser demasiado longo vou fazê-lo em duas partes. Espero que a leitura continue do teu agrado e que esta carta te vá encontrar de boa saúde e mais desconfinada do que antes.

Ficas a saber que és a primeira pessoa a ter acesso a este documento que, por meio destas cartas, sai pela primeira vez da gaveta e entra na esfera pública. Espero, sinceramente, estar à altura das tuas expetativas.

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Diário Secreto do Senhor da Bruma – Origens - 3.1

O Senhor da Bruma nasceu em 1992 com o primeiro acesso que tive à internet no Instituto Superior Técnico, em Lisboa. Isso foi pouco tempo antes de eu fazer o meu trigésimo segundo aniversário. A convite, de um amigo e professor da instituição, entrei numa rede internacional de Internet Relay Chat (IRC), de origem americana, que ligava através de servidores, colocados nas universidades de todo o mundo, os utilizadores entre si independentemente do ponto do globo onde se encontrassem. Existiam já várias redes dessas a funcionar, mas eu usei aquela a que o meu amigo me conectou: a “efnet”, porque, segundo ele, era a melhor.

Para usar a rede de conversas escritas cada utilizador tinha que escolher um pseudónimo (a que os americanos chamavam de “nick” ou “nick name”, que é o mesmo que dizer alcunha). Tentei vários, até que ao experimentar “Sir” consegui um nome ainda sem uso, livre para adotar como o meu eu na referida rede. Com o correr dos anos o pseudónimo foi tendo novos nomes, conforme os apetites da época. Fui “Sir”, “Vagabundo dos Limbos”, “Lord os the Ages”, “El Condor Pasa”, “Haragano”, “Etéreo” e, por fim, “Senhor da Bruma”.

Logo no primeiro dia falei, numa sala de conversação que pouco mais era que uma folha em branco com uma série de “nicks” alinhados à direita do monitor onde, de cada vez que alguém escrevia uma frase, aparecia o “nick” também à esquerda acompanhado pelo respetivo texto. Cada sala de conversação chamava-se um canal, e nalguns deles era preciso uma palavra passe para lhes aceder. Se um utilizador com capacidades de autorizar entradas (os “Masters”) nos permitia, nós acedíamos, se não, ficávamos de fora desse canal e tínhamos de procurar outro de acesso livre, onde pudéssemos entrar. Era assim que a coisa funcionava.

Também tínhamos a possibilidade de falar só com um outro utilizador, a janela de texto abria para os 2 apenas e era chamada de um “Privado”. Foi esse primeiro dia que me “agarrou” à internet. Entrei num canal, por convite de um utilizador, chamado de #Turma (todos os canais ou salas eram precedidos de um sinal de cardinal). Era uma sala onde só se falava em português. No espaço de 2 horas eu já tinha trocado diálogo com gente em Macau, Estados Unidos, Canadá, França, Angola, África do Sul, Goa, Timor, Reino Unido, Suécia, Brasil, México, Roménia, Itália, Japão e Austrália.

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Por hoje é tudo, amanhã regresso com a segunda parte das origens. Despede-se, este teu grande amigo, sempre ao dispor para o que for preciso,

 Gil Saraiva

P.S.: Um beijo

 

 

Carta à Berta: Por falar em Carnaval...

Berta 120.jpgOlá Berta,

Espero que este Carnaval estival te vá encontrar bem e com vontade de ires assistir às folias em Loulé. Acredita que vale a pena. Trata-se, na minha opinião, do maior evento do concelho e tu certamente vais gostar de o ver em primeira mão. Não estou a puxar a brasa para a minha sardinha, só porque vivi uns 27 anos no Algarve. Nada disso. Aliás, se o visitares vais poder julgar por ti mesma.

Acontece que estás perto de um dos melhores do país. Apenas considero que deves aproveitar. O facto de o ter vivido, durante os meus tempos de criança, não influencia em nada a alegria e o entusiasmo, que esse Carnaval transmite a quem o visita pela primeira vez.

Podia, igualmente, recomendar-te o Carnaval de Ovar, mas terias de fazer uma deslocação grande daí até lá. Porém, Ovar tem outro dos melhores carnavais do país. Houve um ano em que consegui juntar-me a um dos grupos que iria participar no desfile, podes não achar normal, mas estive 6 dias sem me deitar.

A folia decorreu 24 horas por dia, durante uma semana inteira. Sei que deixara pouco tempo antes a adolescência, mas nunca mais esquecerei o tempo e as aventuras daquele Carnaval. Foram tamanhas as façanhas e proezas que, para ser verdadeiramente honesto, ainda hoje não sei se não terei deixado descendência na terra do pão-de-ló.

Importa referir que há quem defenda que o Carnaval substituiu, depois da chegada do Cristianismo a Roma, as festas dedicadas ao deus do vinho, Baco. O que é certo, porém, é que a Igreja o registou e oficializou no entrudo, no calendário litúrgico em 590 d.C.

Contudo, tratavam-se de pequenos divertimentos sem grande organização, dispersos e sem existirem propriamente festejos organizados a nível das cidades ou das regiões. No século XI apareceram em Veneza os primeiros sinais de um Carnaval organizado por uma cidade. A ideia era permitir à nobreza que se misturasse, durante uns dias, com a restante população usando máscaras, num convívio que nos pode parecer democrático, mas que tinha mais de boémio do que outra coisa qualquer.

Só em 1296 é que o evento foi oficializado em Veneza, tornando-o por isso mesmo, este Carnaval, enquanto celebração oficial e devidamente denominada, organizada e reconhecida por uma cidade, no mais antigo do mundo. As festividades, e o uso das máscaras, foram balizadas em 10 dias (embora tivessem existido anos em que o seu uso chegou aos 6 meses).

Portugal, minha querida amiga, que bebia culturalmente das fontes francesas e italianas, principalmente a partir do século XV e XVI, iniciou estas festividades por esta altura, principalmente na Madeira onde o evento ganhou rapidamente foros de festa maior.

Durante o século XVI, enquanto maior entreposto comercial do Atlântico de escravos para o Brasil e conhecida como a rainha ocidental da rota do açúcar, a Madeira acabaria por exportar também para o Brasil uma das suas festas maiores, fazendo com que o Carnaval cedo se instalasse em Pernambuco, por volta do século XVII, naquela que era chamada de Festa dos Reis, quando os trabalhadores das Companhias de Carregadores de Açúcar e de Mercadorias, formavam cortejos carregando caixões de madeira e recriando músicas em ritmo de marcha popular, com um travo reconhecidamente madeirense.

Ora, bastaram 100 anos para que esta folia se espalhasse por todo o território brasileiro, ganhando novas formas de festejo, novos adornos e muita cor. Com a instalação da Corte e da família real no Rio de Janeiro em 1808, e com as primeiras tentativas de ordenar as festividades, estava lançado de vez o Carnaval do Brasileiro que, embora com o passar dos anos se tivesse civilizado no que aos festejos oficiais diz respeito, nunca perdeu o seu lado genuinamente popular, livre e quase selvagem, cheio de dança, de festa e de muita cor.

Há quem defenda, com unhas e dentes, que depois de Veneza, o segundo Carnaval organizado e estruturado como festa e folia por altura do entrudo, antes da Páscoa, é o da Madeira. Ora, realmente os registos encontrados sobre a festividade em cidades como Paris, que muito difundiu o conceito moderno de Carnaval pelo mundo ocidental, são realmente posteriores ao da Madeira, o que faz jus da reivindicação do arquipélago. Contudo, o mais importante e curioso é sabermos que, sem querer, demos origem a uma das festas mais populares do mundo, num país que fez do Carnaval a sua maior festa, o Brasil.

Contudo, embora o Carnaval do Rio de Janeiro, tenha maternidade madeirense e paternidade portuguesa, por força da sua exportação para o Brasil pela Madeira e da instalação da corte e da família real portuguesa na cidade, o que é realmente relevante é ele ser atualmente o maior Carnaval do mundo.

Apesar do tema da minha carta de hoje ser o Carnaval, em termos gerais, aquele de que eu queria falar, na realidade, era sobre o Carnaval de Veneza. Não por ser o primeiro e, por isso mesmo, o mais antigo, mas porque, pela segunda vez na sua história está suspenso, cancelado, enfim, não se realiza.

A primeira vez que isto aconteceu o Carnaval de Veneza esteve sem se festejar por quase 200 anos. O motivo foi a proibição da festividade na cidade por parte de Napoleão Bonaparte, em 1797, jugando no ostracismo uma tradição de séculos, que, para quem não sabe, só regressaria oficialmente em 1979, sendo que, a partir de então, se assistiu a um renascimento esplendoroso e magnífico da tradicional festa veneziana.

Agora, este ano, pela segunda vez, o Carnaval de Veneza é cancelado. Desta feita, o novo ditador não vem de França, mas da China e chama-se Coronavírus, mais propriamente Covid-19. Esperemos que, desta feita, a interrupção seja de apenas um ano e que a maldição deixe de pairar sobre esta festa da alegria e do povo.

Com estes votos me despeço, minha querida Berta, solicitando que não leves a mal este desabafo de ver uma tão linda festa cancelada por um motivo tão nefasto, recebe um beijo de saudade deste teu amigo de sempre,

Gil Saraiva

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