Carta à Berta é o local dos Desabafos de um Vagabundo, do Senhor da Bruma, essa bruma a que chamam de internet, de um Haragano, o Etéreo, qual cavalo selvagem que galopa entre o quotidiano e a web. Cartas alegadamente sem fundamentos.
Carta à Berta é o local dos Desabafos de um Vagabundo, do Senhor da Bruma, essa bruma a que chamam de internet, de um Haragano, o Etéreo, qual cavalo selvagem que galopa entre o quotidiano e a web. Cartas alegadamente sem fundamentos.
Espero que esta véspera natalícia em que te escrevo esteja a passar, por esses lados, de acordo com os teus desejos e votos. Eu por cá mantenho a tradição. Uma ceia à maneira, muita televisão esta noite e é provável que vá à Missa do Galo.
Como sabes não sou praticante de religião alguma, mas, contudo, fui criado no seio de uma família católica bem tradicional e, este ato religioso noturno, traz-me sempre à memória a minha mãe. O fervor com que ela, nessa missa, pedia proteção para os seus durante todo o ano que se adivinhava, é algo que jamais vou esquecer. Ora, não me perguntes porquê, mas quando repito a minha presença nessa cerimónia, sinto-a perto, muito perto, com aquela convicção inabalável de que Deus velaria pelos seus, conforme pedido expresso.
Acontece-me o mesmo quando assisto, pela RTP ao Natal dos Hospitais. A primeira transmissão do programa mais antigo da RTP começou em 1958, ainda eu não era sonhado pelos meus progenitores, porém, segundo o que a minha mãe me contava uma dezena de anos mais tarde (no ano em que entrei para a escola primária 2 meses antes), desde que nasci assisti a todos os programas do Natal dos Hospitais, tivesse eu consciência disso ou não. Ou seja, já vejo esta transmissão há 58 anos. Uma barbaridade de tempo.
Nunca falhei um, embora, nos últimos anos, tenha optado por ver através das gravações automáticas da box da Meo, porque isso me permite só assistir ao que me interessa e nada mais.
Mas assisto com o mesmo sentido místico com que vou à Missa do Galo: o sentimento de proximidade que tenho com os meus pais, que já partiram faz longos anos. Durante a transmissão é como se ambos estivessem ali, o meu pai deitado no sofá maior da casa, com um cálice de vinho do Porto por perto, e a minha mãe, logo ao seu lado, sentada, de lágrima no canto do olho, sempre que alguma ternura lhe chegava do televisor.
São os meus pequenos momentos de romântico e saudosista. Eu, que nem me entendia muito bem com ambos os meus progenitores, recordo-os, nestes dias, com um carinho e um amor que não me lembro de sentir enquanto viveram. Achas isto normal? Ou será coisa de poeta de cabeça enfiada no baú dos sentimentos e das essências? Enfim, nem me importa o que seja, apenas que valorizo, com um imenso prazer, o profundo significado que estas recordações têm para mim.
Lembrei-me do Natal dos Hospitais, que foi transmitido há dias atrás, precisamente por me fazer o mesmo efeito que a Missa do Galo. São os 2 grandes acontecimentos que me trazem uma estranha nostalgia da família reunida e feliz.
Em resumo, hoje, à meia-noite, lá vou eu mais uma vez à Missa. Estou a sorrir, minha querida amiga, porque afinal vou rever mais uma vez toda a família. Não sei o que o Natal faz com as outras pessoas, mas, para mim, tem estes 2 pequenos momentos de conforto, de bem-estar e de felicidade genuína. É isso que importa. Por momentos revejo pais, irmãos, primos, tios, gente que já não está presente nas margens do meu quotidiano e, por breves instantes, convivemos todos, harmoniosamente, em família, a alegria de uns sorrisos ou de uma troca de olhares.
Viva o Natal dos Hospitais. Viva a Missa do Galo. Desta vez, tu, que só por uma vez me acompanhaste numa destas missas, também lá estarás a rir-te da minha cara embevecida com as memórias de uma coisa a que não posso chamar outro nome que não amor.
Despeço-me saudoso com um beijo, este teu amigo de sempre, com votos de festas felizes,
Só tu para me convenceres, com esses pedidos simpáticos, a enviar-te o soneto que escrevi à 33 anos, um mês e 3 dias atrás. Mas é Natal e nesta época eu abro uma exceção. Mando-te este soneto de Natal dedicado a uma filha que tenho e com quem não falo. Quis o destino que ela retirasse aos seus filhos o nome do bisavô, que tanto a adorava, já nem falo do meu, mas cortar assim a linhagem Coimbrã é maléfico e não tem perdão. Aqui vai:
"O TEU NATAL"
Hoje é Natal, Natal na minha vida.
Tocam os sinos p’la minha alma fora...
E em cada canto do meu ser, agora,
Tudo vibra sem conta nem medida!...
É Natal! É Natal porque é nascida,
Do ventre desse Amor, a nova aurora,
Filha de nós os dois, pequena amora,
Fruto de louca noite, sem dormida...
Hoje é Natal! O teu Natal Diana!
E em lágrimas de riso choro amor...
Hoje é Natal, é vida feita flor...
Tem a minha alma nova soberana.
Temos os dois o bem mais desejado:
A Taça da Vitória, um El Dourado...
Espero que tenha sido do teu agrado, não é fácil ir buscar sentimentos ao baú. Desejo-te umas festas felizes e um excelente Natal, minha querida. Despeço-me com um beijo, deste teu saudoso amigo de sempre,
Li a tua última carta e peço desculpa se nunca te trouxe a conhecer o bairro onde vivo, para além de uma ou outra refeição que nos reuniu num dos restaurantes da zona. Dizes que, apesar de um passeio ou outro comigo pelo Jardim da Parada e por outras pequenas vindas ao Bairro, sabes muito pouco sobre ele. Acho que te posso dar uma pequena ajuda quanto a este meu bairro, para mim, o melhor de Lisboa.
O Bairro de Campo de Ourique, minha amiga, coincide com uma nova freguesia portuguesa, homónima, do concelho de Lisboa, resultante de uma fusão em 2012, que junta as freguesias de Santo Condestável e Santa Isabel, que já anteriormente davam nome ao Bairro.
Campo de Ourique pertencente à Zona do Centro Histórico da capital, com 1,65 km² de área e 22 mil habitantes. Talvez seja por só ter metropolitano na sua periferia, no Largo do Rato, que o Bairro funcione como uma pequena aldeia, onde as pessoas se conhecem e convivem como tendo uma identidade própria, característica dos pequenos povoados. Pelo formato da sua área ficou com uma configuração que, no mapa, nos faz lembrar um animal. No meu entender a figura parece um javali, uma fêmea, pronta para ir às compras pelo Bairro, que, pela profusão de comércio num tão pequeno espaço, é designado como sendo o Maior Centro Comercial de Ar Livre de Portugal. São mais de 1.500 espaços comerciais e de serviços e, pelo menos, 250 estabelecimentos ligados à restauração. Por aqui, Berta, podes provar um pouco de quase tudo. Neste mundo da restauração encontras imóveis com as mais diversas variantes, sejam eles edifícios de hospedagem, restaurantes, pastelarias, tascas ou cafés. Se fossem todos implantados a nível térreo isso daria uma atividade de comércio ou serviços, com uma implantação de um estabelecimento por cada m² e um restaurante ou similar a cada 6,2 m². Um verdadeiro absurdo.
Contudo, se quiseres investigar os pontos de interesse, tudo depende da abordagem que fizeres: na área do Desporto e da Dança é aqui que encontramos a sede dos Alunos de Apolo, especialistas nacionais nas danças de salão, ou o CACO, Clube Atlético de Campo de Ourique e até o Ginásio Clube Português. Na área da governação não existe apenas a Junta de Freguesia, pois é, também aqui, que está situada a Presidência do Conselho de Ministros do país e até a Embaixada Britânica.
A nível histórico, cultural e educacional, para além de várias galerias de arte, encontramos a Estátua da Maria da Fonte, enquadrada pelo acolhedor Jardim da Parada, que na toponímia se designa por Jardim Teófilo de Braga, que já conheces; a Casa Museu Amália Rodrigues, a maior diva nacional do fado de todos os tempos; a Casa Fernando Pessoa, um dos mais prestigiados nomes da literatura nacional, um espaço de cultura ímpar, que te recomendo como visita imprescindível, e ainda, o Museu João de Deus e a Fundação Maria Ultrich.
Na área artística e cultural há a referir também o Páteo dos Artistas, na Rua Coelho da Rocha, ou o das Barracas, na Rua de Infantaria 16; a moderna Biblioteca Europa; o Grupo Dramático e Escolar Os Combatentes; as escolas Secundárias Josefa de Óbitos e a Manuel da Maia; a Redbridge School; o Colégio religioso dos Salesianos; a Escola de Hotelaria e Turismo de Lisboa e uma Delegação da UAL, Universidade Autónoma de Lisboa, onde funciona o Instituto de Artes e Ofícios e o Curso de Arquitetura. Como podes ver, minha amiga, a cultura, a arte e a história conjugam-se harmoniosamente com o quotidiano do meu Bairro.
Ora, se fores mais terra-a-terra, podes ir ver um dos mais antigos Geomonumentos de Lisboa, com pelo menos 21 milhões de anos, na Rua Sampaio Bruno. Depois aconselho a visita às Igrejas de Santa Isabel e do Santo Condestável e ao Quartel de Campo de Ourique, de onde partiu a Revolução dos Cravos e a implantação da liberdade no país. No Bairro estão presentes, o Grupo de Teatro Inglês, The Lisbon Players; a AMA, Academia Mundo das Artes; a Companhia da Chaminé e, já na centenária Padaria do Povo, está sedeada a Associação Cultural Fermento.
A componente turística apresenta diferentes tipos de instalações hoteleiras e vários pontos de interesse, se preferires instalar-te numa delas, quando por cá passares, em vez de aceitares a minha hospitalidade, é claro. Podes pernoitar quer nos variados espaços de alojamento local do Bairro ou optar pelo Hotel da Estrela; o Lisbon Luxury Palace; o ACM Lisbon; o Hotel Sua; o Hotel Lissabon; o Starhostel, o Royalty Hostel; o Ourique Hostel; o Apartamento Lisboa; o Tilty Lisbon ou a Pensão Madeira. Como outros atrativos Berta, ainda tenho que te referir a Praça de S. João Bosco de onde partem os elétricos 25 e 28; o Amoreiras Shopping Center e o Amoreiras Plaza ou o Mercado de Campo de Ourique.
No que diz respeito à alimentação, tens, nos mais de 250 estabelecimentos de restauração, um pouco de tudo: da cozinha tradicional portuguesa à da Serra da Estrela, passando pela alentejana, minhota, madeirense, portuense e a da bairrada; há ainda os vegan e os vegetarianos e na vertente internacional pode experimentar a comida chinesa, macaense, japonesa, coreana, nepalesa, tailandesa, árabe, marroquina, do médio oriente, indiana, goesa, africana, italiana, francesa, belga, americana, israelita, alemã, grega, espanhola, mexicana, peruana e brasileira. Por fim, podes terminar a visita com as escolhas noturnas, desde os diferentes bares do bairro até a uma passagem pelas salas de cinema do Amoreiras.
Campo de Ourique é o único Bairro que conheço que tem turistas da própria cidade de Lisboa, que aqui se deslocam para fazer compras neste imenso Centro Comercial de Ar Livre ou para frequentar a sua restauração. Imperdível por quem passa por Lisboa, imperdível para ti.
Espero ter-te esclarecido um pouco mais sobre este que considero o meu cantinho do Paraíso, despeço-me com o carinho do costume, com um beijo, o mesmo de sempre,
Ainda te lembras do tempo em que se falava da chegada de uma tal de recessão? A conversa era, com os devidos acertos (com equivalências comparativas à da chegada da Elsa ou do ano de 2020 ir ser aquele com a maior carga fiscal, a atingir mesmo os 35 porcento de impostos), que tudo acabaria, em breve, no melhor dos modos.
Nesse tempo, corria o ano de 2008 (ainda te lembras?). Sobre ele passaram, quase, quase, 12 anos e, contudo, apenas as tempestades, as depressões e os furações ficaram limitados e confinados num prazo mais ou menos certo. Já as dificuldades dos povos tendem a instalar-se de pedra e cal, como se fossem construções para prevalecer e resistir. Foi assim com a recessão, continuou depois com a crise e está, neste momento, em vias de entrar aquela que é anunciada como a Maior Carga fiscal de sempre. São 3 maneiras diferentes de dizer que o cocó é o mesmo, o cheiro é que muda, talvez consoante a consistência ou o pacote em que vem embrulhado.
Voltemos atrás. Disseram-nos que ela chegara: a recessão. No entanto, se todos e cada um de nós, tivesse voto na matéria (sendo que eu votava sempre contra a chegada da anunciada) ela nunca teria vindo. Porém, segundo o Primeiro-Ministro da época, um tal de José Sócrates, garantia-se, nessa altura, que seriam tomadas todas as medidas para efetivamente acabar com a dita cuja ou, pelo menos, que a recessão, mesmo que viesse, não criaria raízes. Promessas leva-as o vento minha amiga, venham elas com a Elsa, o Fabien, ou outro qualquer.
O Governo, qualquer governo, fará como fez esse aos 4 mil imigrantes a quem vedou a entrada em Portugal e que repatriou nesses idos anos tristes. Apesar de todos os sinais o tal Primeiro-Ministro prometia à boca cheia que não tínhamos com que nos preocupar. Sócrates dizia que estava pronto para tudo.
O Povo também estaria, se ganhasse um décimo do que recebia o nosso Primeiro, quer em ordenado quer em ajudas de custo, carro, deslocações e subsídio de risco contra tomates podres, livros escolares, seringas “hipo-qualquer-coisa”, sapatos ou mesmo Ovos da Páscoa do ano de 2007.
Vejamos, estávamos à beira da deflação, os portugueses morriam menos 17 porcento em 2008 nas estradas portuguesas e a tendência era para continuar a cair (é giro ver esses sonhos agora, minha amiga), os combustíveis baixavam de preço, os juros desciam com a gorda da Eulibor a perder peso, a olhos vistos, para recordes nunca antes sonhados nos últimos dez anos, as prestações das casas decaíam junto da banca. Tudo fazia parecer ser impossível que algo de errado pudesse acontecer. Alugar ou comprar casa ou loja era mesmo bem mais barato nesse ano.
Por outro lado, o ordenado mínimo subiria o máximo, de uma só vez, em 2009 (não ouviste isso ainda este fim de ano?), o julgamento da Casa Pia chegava ao fim, a MediaMarket tinha saldos incríveis para os que não eram parvos, o Continente fazia 50 porcento de desconto em cartão da marca, a Banca recebia injeções do Estado contra a Gripe das Aves Raras, contra a Peste Suína do Capital, contra a doença das vacas loucas com os saldos e as promoções… Tudo isto, minha querida Berta, a fazer lembrar uma semana de “Back Friday” bem recente e atual.
Mas havia mais, o Magalhães, por exemplo, vendia mais do que o dinheiro chegado dos subsídios europeus da agricultura que o nosso governo devolvia a Bruxelas pois já estávamos hiperdesenvolvidos.
A euforia estava em alta, vinham aí as obras das Câmaras Municipais em ano de Eleições, mais as grandes e pequenas obras do Estado. Mais os empregos criados em 2009 só para alimentar a máquina eleitoral de três votações. A crise da Educação corria veloz para um final que não sabíamos vir a ser tão triste, mas que corria, corria…
As belíssimas vozes e interpretações das músicas dos ABBA, no filme “Mamma Mia”, davam esperança a qualquer português de poder iniciar uma carreira vocal a todo o momento e instante. As novelas portuguesas continuariam a narrar mundos impossíveis. A Manuela Moura Guedes já não ia deixar de ser pivot da TVI.
Mais que tudo, não iriamos passar vergonhas em europeus ou mundiais de futebol porque não os havia neste ano, o Ministro das Finanças até lançou um orçamento suplementar, o AKI tinha os preços em queda, de tal forma que um dia a casa poderia vir mesmo a baixo. A Moviflor dizia que vendia tudo e mais um par de botas, em doze meses sem juros, mesmo que os móveis durassem menos tempo do que isso. Eu próprio coloquei uma velinha à Nossa Senhora dos Aflitos para ver se o Rui Santos deixava de ser comentador de futebol de uma vez por todas, na Sic.
Porém, apesar de tanta e maravilhosa coisa a acontecer, a recessão não passou. Depois… não muito tempo depois, veio, passo atrás de passo, um Passos que nos fez passar misérias, acabando drasticamente com os anos das contas incertas. Chamando de malandros, calaceiros, quase bandidos a precisar de castigo, aos portugueses. Cortou-nos os subsídios de férias e de Natal, as horas extraordinárias, os feriados.
Mandou-nos emigrar, veio com ar de pastor anunciar que a austeridade (outra palavra bonita para a recessão), chegara para ficar. Inventou impostos, criou taxas sobre taxas e mais sobretaxas, os Orçamentos do Estado, passaram a ter de passar pelo crivo do Tribunal Constitucional, a crise instalou-se de vez com a ameaça fantasma de uma banca rota cujos buracos, afinal, acabaríamos por descobrir que se deviam muito mais aos banqueiros, que não ao povo.
Agora, neste exato momento em que tudo isto já é História de Portugal, não estaremos nós à beira de mais uma “merdaleja” qualquer. Espero bem que não. Prefiro, minha querida amiga, os 35 porcento de impostos às Troikas sanguessugas e aos políticos moralistas do alto do seu conforto. Aos arautos da chegada do Diabo e de outras demonizações em tudo quer dizer o mesmo. Podem chamar-lhe recessão, crise, austeridade, banca rota, Diabo, Troika ou Maior Carga Fiscal de sempre.
Eu prefiro a última, pelo menos de momento consigo respirar, ainda não tenho direito a spa, sauna ou banhos turcos, mas giro os meus gastos sem me sacarem o dinheiro à cabeça. É evidente que preferia viver melhor ainda, não existe sobre isso a menor dúvida, mas entre o panorama atual e o que passei entre 2011 e 2015, não há que ter dúvidas ou hesitações.
Não penses, amiga, que estou a defender o PS, a Geringonça ou a Morte da Bezerra, em detrimento dos outros partidos democráticos. Nada seria mais errado e menos preciso. Estou a defender é a forma como agora nos continuam a esmifrar. Pelo menos, deste modo, eu tenho opção. Se não usar o carro, pago menos imposto, se não fumar também, se evitar as bebidas com açúcar igualmente, e podia continuar com os exemplos, contudo, o que importa é eu ter a ilusão de que posso realmente escolher se vou pagar ou não mais imposto. Este aparente alívio deixa-me feliz.
Viva a maior taxa fiscal de sempre. Sabes, infelizmente a História não dá entrevistas políticas no fim dos telejornais dos diferentes canais, senão todos nos lembraríamos de certas coincidências. Deixo-te um beijo de despedida, deste teu amigo que te adora, querida Berta,
Nestes tempos de mau tempo e de vendas em ventania rumo ao dia de Natal, espero que os nossos concidadãos se comportem com a inteligência habitual e não se deixem levar pela euforia das compras. Para a minha carta de hoje resolvi retomar um documento que escrevi há 9 meses atrás e que acabei por nunca te dar a ler.
Sendo eu, por nascimento, português, faço parte, tal como tu, de um povo de brandos costumes e de uma tolerância à prova quase de choque. Mas sou, também, um daqueles que gosta de refilar por tudo e por nada, porque nós temos essa tendência meio masoquista de criticarmos o que é nosso (nacional) mas que, por acaso, até pertence ao próximo, seja ele vizinho, conhecido, pessoa mais ou menos famosa ou até um dos VIP cá do burgo, enfim, não importa muito o quem para o assunto em causa.
Somos assim, podemos nem estar a sofrer com a crise, mas, como convém que ninguém saiba que até estamos bem, não se vão lembrar de nos chatear, lá alinhamos nós na desgraça nacional da crise que nunca mais passa. Temos a tendência incompreensível de nos acharmos vítimas de tudo e de todos. Muito mais nesta altura em que se discute o Orçamento do Estado.
Foi num ambiente parecido com este, de consciência negativa, que nasceu, tem uns anos, uma nova organização.
Ela era, na realidade, fruto de fusões, transformações, maiorias absolutas e sede de poder, enfim, uma autoridade nacional de repressão, feita de encomenda para os nossos masoquistas sentimentos de que as coisas não estão bem no que ao quintal do vizinho diz respeito. Estou obviamente, a falar da ASAE, leia-se a Autoridade de Segurança Alimentar e Económica, um órgão de Polícia Criminal.
Quando foi criada, nos idos de 2005, minha querida amiga, a ASAE deveria ser a resposta nacional à EFSA, em português a Autoridade Europeia de Segurança dos Alimentos, mas o governo não podia, nem queria, criar um organismo de apenas defesa alimentar dos seus cidadãos, dependente de um menos significativo Ministério da Agricultura. Não! Era necessário pôr o povo na ordem. Tal e qual, Berta, como nos fazem com as imagens e as frases nos maços de cigarros ou agora com o recente IVA moralizador de 23 porcento sobre as touradas nacionais.
O plano desenvolveu-se em 2 fases. A primeira fase, em 2005, foi a dos pezinhos de lã, com o objetivo de relançar a política de defesa dos consumidores, criando uma entidade para avaliar os riscos na cadeia alimentar e fiscalizar as atividades económicas a partir da produção e em estabelecimentos industriais ou comerciais.
Essas funções, que antes estavam dispersas por vários serviços e organismos, faziam da ASAE um organismo principalmente fiscalizador, tendo como pano de fundo o espírito da Autoridade Europeia de Segurança dos Alimentos, pese embora já com a sementinha da economia plantada no seio do organismo.
A segunda fase, em 2007, foi a da tomada do poder, sendo uma das alterações com maior impacto a da transformação da ASAE num órgão com poderes de autoridade, ou seja, um órgão de polícia criminal.
Como tal, querida Berta, pode fazer buscas, apreensões e escutas telefónicas, desde que autorizadas por uma autoridade judiciária. O mesmo acontece com as restantes polícias. Assim sendo, na prática, a ASAE é uma polícia, ainda por cima criminal, que não foi ratificada pelo Parlamento como constitucionalmente o deveria ter sido. Mais grave é que um organismo criado, em princípio, para defesa dos consumidores se torna numa polícia criminal de métodos e objetivos bem mais repressivos.
Ora, a História tem a propriedade espetacular de a podermos estudar e, se o fizermos com o devido cuidado, vamos descobrir que foi exatamente assim que a Polícia Internacional e de Defesa do Estado / Direção Geral de Segurança, vulgo PIDE/DGS, nasceu: com funções administrativas e funções de repressão e prevenção criminal, também com contornos de defesa dos cidadãos e da sua suposta segurança (conforme consta no Art.º 2º. do edito que a constituiu) só que a irmã mais nova, a ASAE, que por desígnio tem muitas funções, não deixa de ter, no meio das suas inúmeras alíneas, o desenvolvimento de ações de natureza preventiva e repressiva, conforme poderás constatar, minha amiga, no Decreto-Lei número 274 de 2007, sendo, por isso mesmo, bem mais esperta do que a irmã e clamando uma legitimidade que afinal nem tem.
Será que a ASAE, corre o perigo de se tornar a Nova PIDE/DGS? De momento parece-me um exagero considerar tal coisa. Afinal, Berta, temos tido no poder, partidos mais ou menos democratas, amarrados pelas imposições da Europa e da Comissão Europeia, mas, mesmo assim, dentro dos limites da democracia. O problema é se um Chega, ou algo semelhante, consegue, um dia, chegar ao poder. Pelo articulado da lei a ASAE pode fazer bem mais que uma PSP ou uma GNR, pode até agir sozinha ou solicitar a ajuda de qualquer outra força de segurança. Dá que pensar, não dá? E ainda agora a procissão vai no adro…
Deixo-te uma beijoca carinhosa, deste teu saudoso amigo, em jeito de despedida,
Um excelente dia para ti. Tem cuidado amanhã com o mau tempo que, ao que parece, vai chegar ao Algarve mais uma vez. Deve chover e ventar bastante. Não sais de casa como se estivesses no Algarve, imagina-te em Coimbra ou algo assim.
Não sei se sabes, mas vamos ter, outra vez, 19 mil elementos da GNR e da PSP nas patrulhas de fiscalização às estradas entre o Natal e o Ano Novo. A justificação apresentada passa, evidentemente, pela tentativa de evitar a sinistralidade rodoviária nesta época festiva.
Contudo, eu desconfio da existência de alguma pressão do Ministério da Administração Interna e do Ministério das Finanças, tal como aconteceu em 2018.
Pela segunda vez consecutiva, o número de elementos policiais, no processo de fiscalização nesta época, é o dobro do que acontecia nos anos anteriores.
Afinal, têm aumentado, significativamente, as receitas provenientes das multas aplicadas nos últimos 15 dias do ano. Em 2018 foram registadas quase 7 mil infrações, o que, traduzido em verbas, é deveras assinalável e justifica o reforço dos contingentes de fiscalização
Por outro lado, ao analisarmos a sinistralidade, podemos ver que o número geral de sinistros aumentou em 2018 face a 2017, onde a força de fiscalização era metade das realizadas nestes últimos anos. De 17 para 18 o número de vítimas mortais também dobrou, como a quantidade de sinistros foi igualmente superior.
Em conclusão, a única componente prática de se dobrar os operacionais, nos últimos 15 dias do ano, tem, como consequência única, um substancial aumento das receitas derivadas das contraordenações e das infrações detetadas nas estradas portuguesas.
Seria por isso obrigatória a exigência da redução drástica do número de sinistros registados. Isso sim, justificaria a manutenção do dobro de efetivos nesta época ou até do triplo. Importa realmente ter resultados práticos nos objetivos propostos e não apenas em verbas angariadas pelas forças da ordem. Enfim, é mais uma medida feita à portuguesa, sem se pensar em tudo, sem foco real no objetivo principal.
Minha querida Berta, recebe um beijo de despedida deste teu amigo,
Espero que o vento previsto aí para o Algarve não seja demasiado forte nem incomodativo. A região está habituada a brisas suaves e a ventos pouco intensos. Principalmente nessa zona do Sotavento onde te encontras.
Um dos alegadamente maiores idiotas da história do Brasil, ocupa, neste momento, a presidência do país, de seu nome, Jair Bolsonaro. Depois da COP25 e do papel mesquinho, ridículo e assustador a que o Brasil se prestou, por força das diretrizes presidenciais, é a vez de o próprio país, vir a público, revelar mais algumas facetas do alegado fanático de direita religiosa.
Segundo declarações, da Presidente da Federação Nacional dos Jornalistas do Brasil, <<Bolsonaro mostra-se hostil à liberdade de expressão e de imprensa e tem demonstrado essa hostilidade com diversos meios, não só pelos ataques verbais que faz aos jornalistas, mas também pelas tentativas de desacreditação dos “media”(…) Há no Brasil o princípio constitucional da liberdade de imprensa, mas o Governo tenta impor-se contra este princípio usando o seu poder>>.
Por outro lado, Rogério Christofoletti, professor da Universidade Federal de Santa Catarina e membro do Observatório da Ética Jornalística, afirma que está em movimento no Brasil a implantação de uma agenda anti jornalística.
O douto responsável mostra-se convicto quando diz: <<Estou convencido que esta estratégia faz parte das relações que o Presidente do Brasil tem com a sociedade, numa busca de inimigos claros e evidentes. Ele escolheu a imprensa como um desses inimigos e, para jogar com o seu público, faz críticas e acusações, promovendo uma campanha anti jornalística>>.
Para a Presidente da Federação Nacional dos Jornalistas do Brasil, Maria José Braga, e para o já referido membro do Observatório da Ética Jornalística, Rogério Christofoletti, é evidente que Jair Bolsonaro, enquanto Presidente do Brasil, promove uma política concertada de ataques à liberdade de expressão.
Aliás, a Presidente da FENAJ adiantou que Bolsonaro deixou claro, ainda como candidato, nos seus discursos de apologia à ditadura militar e à violência, que, os mesmos, uma vez implantados como métodos de Governo, gerariam a sua oposição ao papel dos meios de comunicação social de fiscalizar os poderes da democracia.
Maria José Braga afirma ainda: <<Ele é uma pessoa, um político, e agora um Presidente, que de facto não tem nenhum apreço pela democracia e, por isso, não respeita as regras democráticas (…) não só em palavras, mas por atos, o Presidente tem atacado e retaliado os “medias” brasileiros>>.
A Presidente da FENAJ é perentória ao afirmar que, após um estudo, realizado pela Federação a que preside, ao quase primeiro ano completo de Governo as conclusões são alarmantes.
Segundo a mesma fonte, Bolsonaro desenvolveu ataques sistemáticos à liberdade de expressão e de imprensa ao promover um determinado número de medidas, que passam por avançar com:
Críticas diretas a repórteres e órgãos de comunicação social; extinção da obrigatoriedade de registo para exercer a profissão de jornalista; restrições visando órgãos de comunicação social específicos, apresentando o caso particular das medidas contra o jornal “Folha de S. Paulo”, uma publicação impressa, líder em todo o país, que foi proibido de participar em concursos e licitações públicas.
Aliás o estudo, já referido, divulgado este mês de dezembro pela Federação, indicou que o Chefe de Estado terá realizado, pelo menos, 111 ataques públicos contra profissionais da comunicação social quer em entrevistas, quer em publicações nas redes sociais, isto só no ano de 2019, o que indica um ataque programado e bem direcionado a cada 3 dias.
Ainda segundo a mesma fonte, estes ataques seriam uma forma de o <<Presidente incitar os seus seguidores a não confiarem no trabalho jornalístico da maioria dos órgãos e dos profissionais, principalmente quando divulgam notícias críticas>>.
Por sua vez Rogério Christofoletti apresenta como resultado das suas avaliações ao longo deste ano a conclusão de que o Presidente do Brasil decidiu adotar ações semelhantes às do Presidente dos Estados Unidos da América, Donald Trump, quer na retórica quer no comportamento, que, reiteradamente, afirma que os meios de comunicação social críticos ao seu Governo propagam notícias falsas.
Segundo Christofoletti, o Presidente tenta assim, com esta atitude, estabelecer uma narrativa que quer ser preponderante aos factos e que, em última análise, sequestra a verdade dos mesmos. Acrescenta ainda que Bolsonaro faz transmissões ao vivo na internet, na rede social Facebook, todas as quintas-feiras e que usa como seu canal de comunicação, em direto com o público, o Twitter e que, deste modo, prescinde dos mediadores convencionais, ou seja, da comunicação social tradicional. Mas o membro do Observatório da Ética Jornalística vai mais longe, afirmando que o Presidente do Brasil sataniza e demoniza a imprensa brasileira e não só.
Os exemplos são muitos, mas, voltando apenas ao já referido, o Presidente, não só excluiu a Folha de S. Paulo das licitações e concursos públicos como, por retaliação, cancelou a assinatura do jornal da lista de periódicos recebidos pelo Governo brasileiro.
Esta medida causou uma reação de Lucas Furtado, o subprocurador-geral junto do Tribunal de Contas da União, o TCU, tendo, na sequência dos factos, apresentado um pedido formal para que a Folha de S. Paulo não fosse excluída das licitações. Até ao momento em que te escrevo, minha querida amiga Berta, este pedido ainda não foi sequer analisado, segundo é referido pelas mesmas fontes.
Quando no fim de outubro, Bolsonaro, declarou que nenhum órgão do Governo voltaria a receber a Folha de S. Paulo, adiantou, à laia de explicação, que o jornal era um órgão propagador de notícias falsas.
Visando criar a sua própria imprensa, devidamente moldada à sua imagem e semelhança e devido à falta de jornalistas devidamente creditados para a comporem, o poder executivo enviou em outubro para o Congresso, um projeto chamado “Verde e Amarelo” que prevê a extinção de registo profissional para quem exerça a profissão de jornalista.
Já em agosto último, Bolsonaro havia declarado publicamente que um outro jornal, o “Valor Económico” poderia ter de fechar as portas, uma vez que o Governo iria acabar com a norma que obrigava as empresas de capital aberto a publicarem os seus balanços financeiros em jornais nacionais, e, com isto, retirar os fundos necessários à sobrevivência da publicação, uma vez que esta ousara, por diversas vezes, criticar a sua gestão, nomeadamente, na vertente económica e financeira.
Contudo, a determinação do Presidente do Brasil, precisou, e ainda bem, de aprovação do Congresso, que inteligentemente a chumbou, sem propor sequer qualquer alternativa possível.
Este é um pequeno exemplo do que tem sido a governação de Bolsonaro. Muito pior do que isto tem acontecido numa imensidão de áreas, desde as questões ambientais, à tentativa de alteração de costumes, ao ataque sistemático às tribos indignas e à criação de uma legião de fanáticos. Em apenas um ano, ainda por terminar, o programa de implementação de uma alegada nova ditadura no Brasil vai adiantado.
A minha esperança, minha querida amiga, é que este povo que eu adoro como se fosse o meu, consiga arranjar forma de inverter esta vertiginosa sucessão de acontecimentos e que este alegado lunático consiga ser travado a tempo. Seja por eleições, seja por impugnação, seja por abuso de poder, seja pelo que for. Impõe-se o fim, a curto prazo, desta desastrosa governação de gente que acha que os peixes são inteligentes e as pessoas burras que nem calhaus.
Despeço-me, como sempre, enviando-te um beijo saudoso, deste que não te esquece,
Desejo-te uma boa quinta-feira. O clima por Lisboa está menos frio e a chuva, prevista para breve, ainda não começou a cair. Escusas de te rir por estares bem mais protegida das grandes diferenças de temperatura aí pelo Algarve. A falta de água nesse bocadinho de Portugal ameaça tornar essa terra num deserto a curto prazo. Fica atenta minha amiga, fica atenta.
Hoje, como ontem, a televisão voltou a noticiar mais uns escândalos ligados ao tráfico de mulheres. Parece que a humanidade não aprende nada com a sua história. As mulheres não são mercadoria de ninguém. Num mundo cada vez mais sofisticado custa-me a aceitar como é que coisas destas ainda podem acontecer. Lembrei-me de um poema que fiz, em 1998, já lá vão mais de 21 anos, sobre uma amiga minha, a Joana, que, por força das circunstâncias, se fez escrava, por vontade própria, do sexo. Foi a única maneira que encontrou para sobreviver dizia-me ela.
Nunca achei que não pudessem ter havido outras alternativas. Mas isso sou eu a pensar. Ela, que por um acidente na vida acabara de perder de uma vez pais e avós decidiu que esse era o único caminho. Neste caso, a escravatura voluntária pode ser menos penosa do que a forçada, mas não deixa de deixar profundas marcas a quem dela sofre. Fica aqui, para que me entendas, amiga Berta, a homenagem que lhe prestei há mais de 20 anos:
"CAÇADORA DE SONHOS"
Caçadora de sonhos
E tão sem saudade...
Armada de vida,
Carente de presas…
Eu, pela cidade
Procuro a saída
Encontro defesas
Na alma do mundo:
Ninguém se quer dar;
Ninguém sabe amar;
Ninguém quer, no fundo,
Saber encontrar
A paz, no profundo
Calor de um segundo...
Caçadora de sonhos
E tão sem saudade...
Eu vejo no dia,
Na noite bravia,
No caminho, na rua,
Entre gente,
Mais gente,
Vestindo essa moda
(Qual festa tardia
Ao néon da Lua),
A gente que mente
E em bares se acomoda...
E ali, nessa esquina,
Eu vejo no dia,
Na noite bravia,
Se vendendo toda,
Uma pobre menina
Que diz a quem passa:
"- Mil paus... tô na moda..."
No meio da praça,
Se vendendo toda
Joana sem caça,
Carente de presas,
Faz contas à vida:
<<- Nem dá “prás” despesas...
Que porra de vida!...>>
E gente infeliz,
Com hora marcada,
Passa e lhe diz:
<<- Dou cem e mais nada...>>
Caçadora de sonhos...
E tão sem saudade...
Eu já vejo agora
O riso da erva
Nos pés dessa serva,
Que vende por hora
O corpo... estragado...
De tão ser usado.
Caçadora de sonhos
E tão sem saudade...
Buscando, perdida,
A velha igualdade
Do mundo, da vida...
Buscando ilusões,
Conceitos, ideias,
Credos e orações,
Entre cefaleias...
Caçadora de sonhos
E tão sem saudade...
É assim: no leve sorriso
Dessa erva daninha;
No cato que cresce
Formando uma espinha;
Na espinha que pica
Aquela andorinha
(Coitada, infeliz,
Que sangue já chora),
Caçadora de sonhos
E tão sem saudade...
E choro, de mágoa,
O gozo sinistro
De certa gentinha,
Com cara de quisto
Pejado de tinha;
E a cara alegre
De um velho ministro
Que julga esconder
O que já foi visto...
Choro... choro e volto a chorar...
Mas riem as luzes p’la cidade fora...
Riem de mim na noite vizinha;
Riem... riem como quem ri
De uma adivinha prá qual a solução
Não se avizinha...
Riem... riem enquanto meu ser
De novo chora, chora como ontem,
Como hoje e agora:
Chora as meninas
No meio da praça
Se vendendo todas
Ao primeiro que passa...
Caçadora de sonhos
E tão sem saudade...
Como posso caçar
Sonhos no mundo?
Como posso amar
Mais que um segundo?
Não tenho saudades
Da terra maldita,
Onde o direito
Não passa de fita...
Minha alma:
Caçadora de sonhos
É tão sem saudade...
Despeço-me com um beijo, saudoso como sempre, este que nunca te esquece,
Espero que te encontres bem e que não estejas zangada comigo por causa da história da Miss Universo. Tu conheces bem o que eu penso sobre esse assunto e decerto não levaste a mal eu continuar a teimar que não gosto desse tipo de concursos.
Também não gosto da apresentadora da Sic, a Cristina Ferreira, e tu gostas. Não há nada a fazer. Eu não gosto pelo tom, timbre, ausência de cultura geral e alguma falta de polimento da pessoa, enquanto que tu a admiras pelas conquistas, pelo protagonismo e pelo destaque num mundo de homens. É assim mesmo, não somos iguais, mas damo-nos muito bem, mesmo com as nossas diferenças.
Hoje, o assunto desta carta prende-se com as sansões impostas à Rússia pela Agência Mundial de Antidopagem, a AMA, que, com uma votação por unanimidade, determinou a exclusão da Rússia dos Jogos Olímpicos de Verão Tóquio 2020, de Inverno Pequim 2022 e de todos os campeonatos do Mundo nos próximos 4 anos. A organização prevê, contudo, a possibilidade de os atletas russos competirem sob bandeira neutra, o que, porém, só nos desportos individuais é que a coisa faz sentido. Em causa estava o esquema de dopagem concertada, planeada, desenvolvida e apoiada pelo Estado Russo aos seus atletas, de forma a que os mesmos conseguissem despistar as análises do controlo antidoping.
Foi precisamente a descoberta do esquema, e o seu desmantelamento, o que levou ao castigo agora proferido pela AMA. Será algo para dizer que a organização AMA trata todos por igual e que, alegadamente, não tem filhos nem enteados. O controlo antidoping desde que nasce é para todos.
Dizem, contudo, as más línguas, que certos Estados e não apenas o Russo, estão a desenvolver novos tipos de drogas, que, num futuro próximo, consigam fintar as análises com novas indetetáveis drogas pelos sistemas de análises em uso e normalizados pela AMA. A ser verdade, o desporto mundial não terá paz tão cedo e é bem provável que a organização de controlo se tenha que vir a adaptar muito rapidamente se quiser manter a sua eficácia nos níveis atuais.
Em causa está o facto dos velhos tubarões do desporto não quererem perder protagonismo face a países emergentes onde, finalmente, o desporto tem vindo a ser levado mais a sério. Tudo parece valer para suplantar os rivais em medalhas, sejam elas individuais ou coletivas. Já nem se importam apenas com o serem melhores, a preocupação mudou de paradigma, o que é realmente importante é parecerem melhores.
Não se sabe ainda se a Rússia vai recorrer ao TAS, o Tribunal Arbitral do Desporto, sobre as sansões impostas pela AMA, no que ao cumprimento dos regulamentos antidoping diz respeito, porém, tudo leva a crer que tal possa não vir a acontecer.
Afinal, a coisa não correu assim tão mal à Rússia que vai acolher, apesar da suspensão imposta, o Euro 2020 e a final de 2021 da Liga dos Campeões. Isto acontece porque, sendo estas são competições sectárias, que envolvem apenas um território mais restrito, a Europa, neste caso, e que não sendo mundiais, escapam à alçada das sanções e penalizações agora impostas.
O que é triste, minha amiga Berta, é a falta de vergonha, de pudor, de humildade e de desportivismo com que estas coisas são planeadas e levadas a cabo. A corrupção está de tal forma banalizada que tudo parece normal e corriqueiro. Durante quanto tempo mais conseguirão as “AMAs” deste mundo levar a bom porto a sua missão de controlo?
Podemos estar na era da informação, dos média, das bases de dados, das redes sociais, mas também estamos na era dos contactos, das cunhas, da troca de favores, das subidas na horizontal ou de bandeira hasteada, dos lóbis, das boleias e da falta de promoção do mérito, como primeiro fator realmente diferenciador.
Raramente, alguém atinge o topo, por mérito próprio. Nessas alturas é quase cómico observar as reações que um tal facto provoca. Com uma velocidade estonteante aparecem histórias e páginas de jornal ou nas redes, relatando cada podre com linhas vermelhas onde o ódio predomina. Antigamente, se nada havia a apontar a esse vitorioso, essas vozes iam-se calando até a pessoa ser esquecida, agora tudo mudou. Nada mais fácil do que pôr a correr umas “fake news”, várias, se possível, por forma a deitar a baixo o “self made” campeão ou campeã. Sim, porque para esta gente é quase um crime alguém triunfar apenas pelo seu mérito próprio.
É com tudo isto que temos de viver. Vamos protestando, um pouco no vazio, e tentando, a custo, fazer a diferença. Importante é nunca desistirmos. Nem tu, Berta, nem eu, nem quem acredita que a justiça e o mérito podem um dia vir a prevalecer.
Deixo-te um beijo de saudades, recebe-o com carinho deste teu eterno amigo,
Como estás minha querida amiga? Espero que tudo continue pelo melhor por essas terras algarvias. Por aqui, as coisas vão saudosas da tua companhia, mas calmas. Recebi mais um selo de participação do “tripavisor”, pelas minhas opiniões sobre restauração e hotelaria, principalmente no que diz respeito ao Bairro de Campo de Ourique. Fiquei surpreso por saber que me encontro no escalão dos 20 porcento, entre aqueles cujas críticas são mais consultadas no site, no que se refere à capital.
Julgo que terás assistido este domingo à eleição de Miss Universo 2019. Embora eu não entenda muito bem o que tu vês de interessante nesse concurso, porque, em definitivo, não é a minha praia, acabei por assistir por me lembrar que tu adoras a prova.
Deves estar feliz, ganhou o antirracismo, coisa que já não acontecia tão manifestamente desde 2011. Porém, quedo-me a pensar se a notória tendência do júri, para esta glorificação do antirracismo, não acaba, ela mesma, por se tornar racista. Afinal, às mulheres brancas deste ano, nem que fossem as mais perfeitas “Cinderelas” ou “Brancas de Neve” de nada lhes teria valido, melhor teriam feito se nem tivessem entrado no concurso. Já sei que vais reclamar comigo. Perguntar-me pelos outros anos onde só ganharam as meninas de raça branca. Tens alguma razão.
É a questão do copo meio cheio ou meio vazio. Embora este ano eu ache que foi demasiado exagerada a tendência de premiar a cor da pele e as origens das concorrentes. Afinal a vencedora é da África do Sul, a concorrente negra Zozibini Tunzi; a primeira dama de honor, Madison Anderson, veio de Porto Rico, e, embora seja loira, traz o carimbo bem conhecido pelos americanos de ser porto-riquenha, povo que eles rotulam com slogans bem racistas. Ora, ainda por cima, a segunda dama de honor é mexicana, Sofia Aragón, cuja fisionomia e o olhar deixam bem patentes a sua origem latina.
Tu sabes que eu não gosto deste concurso que premeia as mulheres enquanto objetos de cobiça masculina e escusas de me dizer que, atualmente, já existem parâmetros que levam em linha de conta outros fatores. O facto é que nunca uma bruxa ganhará o concurso, portanto, o critério de bibelot será sempre o mais valorizado. Os outros só existem para amenizar as vozes críticas.
Mas não penses que sou apenas contra este concurso, o de Mister Universo, dos machos estereotipados, é-me igualmente adverso. Não precisas de me lembrar que, para mim, homem sem pelos é como cowboy sem chapéu e sem pistolas. Não é isso que está em causa, mas sim, e sempre, as ideias por detrás destes pódios. Podem mudar-lhes as regras de mil maneiras e feitios que de nada valerá. No meu entender bonecas e machos são estereótipos de um passado.
Devo-te confessar que só assisti a partes do concurso, embora goste de ver mulheres bonitas na televisão, a ideia de montra e o meu antagonismo anti machista, mesmo sem eu querer, acaba por prevalecer. Não fiques zangada comigo. Tens todo o direito de pensar de maneira diferente e eu respeito isso.
Quanto a mim, todo o concurso é uma imensa hipocrisia. Deixo-te aqui as palavras que a vencedora proferiu depois da vitória, segundo o site do MSN Notícias, quando lhe perguntaram o que faltava, ainda, nos nossos dias, às mulheres: "Liderança. É algo que falta a mulheres e mulheres jovens há muito tempo, não porque elas não a desejavam, mas por causa de como a sociedade rotulou como as mulheres deveriam ser." (o português da tradução é da responsabilidade do site).
Tu achas que é ganhando este tipo de títulos que as mulheres vão alcançar a liderança, minha querida? Enfim, como sei que temos opiniões opostas, não vou mais bater na ceguinha. Já te fiz despertar, quanto baste, o sentido critico. Despeço-me com um beijo. Este teu eterno amigo que jamais te esquece,