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Carta à Berta

Carta à Berta é o local dos Desabafos de um Vagabundo, do Senhor da Bruma, essa bruma a que chamam de internet, de um Haragano, o Etéreo, qual cavalo selvagem que galopa entre cartas alegadamente, quiçá, sem fundamentos.

Carta à Berta é o local dos Desabafos de um Vagabundo, do Senhor da Bruma, essa bruma a que chamam de internet, de um Haragano, o Etéreo, qual cavalo selvagem que galopa entre cartas alegadamente, quiçá, sem fundamentos.

Carta à Berta: A Recandidatura de António Guterres

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Olá Berta,

António Guterres, Secretário-Geral da Organização das Nações Unidas, apresentou publicamente a sua recandidatura a novo mandato à frente da ONU, se for eleito manteremos um português até 2027 à frente da mais prestigiada organização mundial e logo no topo da pirâmide, no mais alto cargo internacional.

Pessoalmente, amiga Berta, agrada-me a ideia de termos durante uma década um português à frente da ONU, que, no entretanto, já colocou outros portugueses em outras lideranças de si dependentes, caso de Durão Barroso na vacinação mundial e António Vitorino como Alto Comissário para as Migrações, entre outros. Todos, a acreditar no que diz a imprensa internacional a desempenharem um excelente papel para os cargos para os quais foram designados.

Esta é uma boa fase para a diplomacia portuguesa e para o prestígio do país a nível global. Agrada-me também o facto de serem todos os representantes oriundos do centro político português, ou seja, terem como partidos de origem quer o PS quer o PSD. Pessoalmente, mas isto sou eu, nunca colocaria Durão Barroso à frente de coisa alguma, porém, é um português que acolhe várias simpatias internacionais que podem revelar-se importantes no desempenho do seu cargo, na difícil gestão mundial da vacinação.

Embora eu não seja um defensor de sociedades secretas como as da “Ordem Rosacruz”, da Maçonaria, e de tantas outras, nem o facto de António Guterres ocupar um elevado cargo na hierarquia da Opus Dei me incomoda. Enquanto a prestação do Secretário-Geral da ONU se mantiver ao nível que vem sido demonstrado, bem pode ele subir o que puder e bem entender na dita sociedade secreta que isso pouco me incomoda.

Em Portugal já foram tornados públicos os apoios à recandidatura de Guterres por parte do Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, e do Primeiro-Ministro, António Costa. Ter-me-ia parecido bem se Rui Rio tivesse feito o mesmo, mas, pelo menos que eu tenha dado conta, tal ainda não aconteceu. Julgo, todavia, que esse apoio não tardará, até porque não faria qualquer sentido que assim não fosse. Já no caso dos outros partidos com assento parlamentar não são de esperar quaisquer manifestações nesse sentido, não porque tenham algo contra ou a favor, mas, penso eu, porque estão demasiado ocupados com as suas agendas de reforço político interno.

Para terminar esta carta de hoje, resta-me desejar a melhor das sortes a Guterres, numa altura em que o regresso dos Estados Unidos da América às organizações internacionais pode significar um grande avanço diplomático, em vários dos programas em curso. Com isso me despeço, deixo um beijo de até amanhã,

Gil Saraiva

 

 

 

Carta à Berta: Suu Kyi, Prémio Nobel da Paz e o Golpe em Myanmar

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Olá Berta

Um novo golpe militar em Myanmar recolocou, mais uma vez, os militares no poder neste país antigamente designado por Birmânia. Este país é vizinho do antigo território de Bengala, que em 1971 deu origem ao Estado Indiano de Bengala e ao Bangladesh. A antiga Birmânia e a velha Bengala tiveram, no tempo dos descobrimentos portugueses e da descoberta do caminho marítimo para a Índia uma forte implantação lusa, tão forte que a Birmânia chegou a ter três reis portugueses.

O primeiro rei luso naquelas paragens foi Salvador Ribeiro de Sousa, embora interinamente e apenas até ao regresso de Filipe de Brito e Nicote (sendo o Nicot originário do pai que era francês), que se encontrava ausente em Goa e que seria proclamado pela população local como o segundo rei português do Pegu (uma vasta região da velha Birmânia, na viragem de século, dos anos 1500 para os 1600 - século XVI para o século XVII - estava Portugal subjugado ainda ao domínio espanhol de Filipe II), sucedendo a Salvador Ribeiro de Sousa que ocupara interinamente essa posição.

Por curiosidade, querida Berta, se consultares a história do Bangladesh verás que, a história local, reconhece ambas as situações, com a diferença que designa Salvador Ribeiro de Sousa pelo nome de Massinga, enquanto que descreve Filipe de Brito e Picote por Nga Zingar.

O terceiro português que se tornou rei, na região da antiga Birmânia, foi Sebastião Gonçalves Tibau, natural de Santo António do Tojal e filho de pais humildes. Sebastião Gonçalves Tibau fundou, na ilha de Sandwip, uma república de piratas, fundada com a ajuda de cerca de três mil homens, da qual ainda hoje existem descendentes lusos, que são bem fáceis de reconhecer pelos apelidos.

Mas voltemos, minha amiga Berta, ao momento atual e ao facto de Suu Kyi estar novamente detida em Myanmar, sendo que o seu apoio internacional não é o mesmo, nem nada parecido com o que foi anteriormente. Aliás, muitos dos seus antigos apoiantes, no seio da comunidade mundial, não parecem querer perdoar a sua cortesia reverente para com os militares, nem o modo como chegou a defender e a disputar as alegações das atrocidades cometidas por estes contra o povo Rohingya, que são um grupo étnico, existente na antiga Birmânia, que pratica o islamismo e fala a língua rohingya, um idioma indo-ariano parente do bengáli.

Atualmente, após novo golpe de estado levado a cabo pelos militares em Myanmar, Aung San Suu Kyi, a líder civil do país e agraciada com um Prémio Nobel da Paz, encontra-se, pela segunda vez na sua vida, em prisão domiciliária, tal como já acontecera há quase uma década.

É verdade que diversos países e a Organização das Nações Unidas se insurgiram contra mais este golpe de estado, porém também é uma realidade que Aung San Suu Kyi já não usufrui do mesmo suporte internacional que teve, por parte da comunidade internacional, durante os quase 15 anos em que esteve detida na sua residência, antes da sua chegada à presidência do país.

Enquanto esteve no poder Suu Kyi foi severamente criticada pela cedência e apoio que deu aos generais que deveria ter combatido e até pela forma como defendeu as atrocidades cometidas pelos militares, sob comando destes, contra os muçulmanos da etnia Rohingya, uma situação considerada como genocídio quer pelos Estados Unidos da América, quer pela Amnistia Internacional quer por muitas das nações ocidentais, mas não só.

Bill Richardson, um dos elementos da diplomacia norte-americana, declarou à Associated Press que: “Acredito que a Aung San Suu Kyi tem sido cúmplice dos militares. Espero que ela perceba que o facto de ter compactuado com o diabo se voltou contra ela, e que agora tome a posição correta em nome da democracia”, tendo ainda salientado que espera agora que esta se torne finalmente uma verdadeira defensora dos direitos humanos. Porém, acrescentou o diplomata: “Mas se ela não se afastar, acho que o National League for Democracy (NLD, o partido de Suu Kyi) precisa de encontrar novos líderes”.

Internacionalmente ninguém se esquece da maneira como Aung San Suu Kyi reagiu no Tribunal Internacional de Justiça, em Haia, no início de 2020, no que concerne aos crimes e atrocidades alegadamente cometidos pelos militares contra a etnia Rohingya. A líder de Myanmar discordou das alegações de que os seus generais e o corpo militar teriam assassinado expressamente civis Rohingya, quer pegando fogo às suas casas quer ao descalabro que foram as mortes causadas e a violação massiva das mulheres daquela etnia.

Tudo isto, agravado pelo facto de Suu Kyi se recusar a aceitar como válidos os testemunhos, os relatórios e as alegações incríveis das vítimas dos mesmos sobre o que sofreram ao longo dos últimos anos.

Para a também Nobel da Paz, Jody Williams, galardoada pelo seu trabalho no desarmamento de minas terrestres, essa mudança de perspetiva por parte de Suu Kyi só pode ser vista como um virar de casaca, uma verdadeira traição à causa que a levou a receber anteriormente o Nobel. Jody chega ao ponto de interrogar: “Para lá da retórica durante as campanhas para eleições, em que é que ela realmente acredita? O que é que a democracia significa para ela.”

Suu Kyi continuou de uma forma absurda a dar “tiros em ambos os pés” ao discordar de todas as críticas de que tem sido alvo, achando-se inclusivamente injustiçada pelas mesmas e argumentando que nunca se considerou uma defensora dos direitos humanos e que esse reconhecimento lhe foi atribuído por terceiros, até porque, alega, ela sempre foi uma apenas e somente uma política.

Robert Taylor, um historiador e perito na história de Myanmar, ainda defende, amiga Berta, que, pese embora o desapontamento da comunidade internacional em Suu Kyi, esta se mantém extremamente popular no seu país, pelo que qualquer transição democrática terá de passar novamente por Suu Kyi. É perentória a forma como realça que: “Ela vai ter 76, 77 anos quando forem organizadas as próximas eleições. Estará enfraquecida, mas, enquanto estiver viva, vai continuar a ser a número um”.

Falta compreender agora como vai evoluir toda a situação em Myanmar. Se os generais voltaram a confiar em Suu Kyi ou se arranjaram maneira de a fazer “desaparecer” do panorama político da região, uma vez que foram eles que lhe retiraram o tapete e o poder, apesar da defesa que ela fez em Haia em nome deles, negando que qualquer genocídio no seu país alguma vez tivesse tido lugar.

No meu entender, querida Berta, Suu Kyi, ainda poderá ser a melhor forma de normalizar Myanmar nas eleições que os militares, responsáveis pelo golpe, prometem realizar daqui por um ano. Nem que se sirvam dela como um fantoche para atirar areia para os olhos dos observadores internacionais. Contudo, e é isso que falta entender, algo se passou para a terem deposto em primeira instância.

Muita água vai ainda correr debaixo desta ponte. Despede-se este teu grande amigo, certo de que esta história toda ainda está longe de chegar ao final, com um beijo,

Gil Saraiva

 

 

 

Carta à Berta: Memórias de Haragano - Confissões em Português - Parte III

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Olá Berta,

Continuo hoje a nossa nova saga. As confissões entram na sua terceira parte e espero que sejam do teu agrado. Sem mais demoras, cá vai disto:

Memórias de Haragano: Confissões em Português – Parte III

"Quem sempre luta pelo pódio na disputa do segundo ou terceiro lugar é o Castelhano. Correndo o risco de me repetir, tudo depende dos estudos e das fontes usadas, a língua alterna com o Inglês um dos 2 últimos dos 3 lugares do pódio. Esta é uma guerra antiga entre os estudiosos germânicos e os latinos, ambos a reivindicarem o fabuloso segundo lugar.

Uma guerra sem importância relevante para o Português que, desde 2019, se viu, finalmente, consagrado pela ONU, através da UNESCO, com o lançamento simbólico do Dia Mundial da Língua Portuguesa, existente desde o ano 2000 no seio da CPLP, mas agora reconhecidamente universalizado. Não é demais voltar a dizê-lo, porque sempre existiram muitos interesses instalados, mas é diferente saber que a UNESCO nos reconhece como a quarta maior língua do globo, com mais de 300 milhões de falantes do Português, como primeira língua, do que sermos nós a dizê-lo. É como comparar água com vinho, no que à relevância diz respeito.

Com efeito, a data de 5 de maio, escolhida pela Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) no ano 2000, em Cabo Verde, para celebrar a difusão e importância das culturas e do idioma no mundo, acabou por ser reconhecida pela UNESCO que a transformou em Dia Mundial a 25 de Novembro de 2019, reconhecendo (e finalmente atualizando os dados) que existem entre 300 e 310 milhões de pessoas no mundo que usam o Português como primeira língua. Este reconhecimento terminou abruptamente com todas as disputas e lóbis nos corredores da linguística. Já há muito que uma metodologia séria tardava em vingar, tendo, por consequência, posto um ponto final às questões sobre qual é a quarta língua mais falada no globo.

Contudo, nos campos da pureza, beleza e complexidade do Português, os estudiosos destas matérias parecem todos concordar, que não temos outra que se lhe compare, em termos evolutivos e de sofisticação de elaboração sintática, gramatical e semântica, no universo latino. Para além disso, não é só o facto de sermos escutados nos 5 cantos do mundo é, também, a riqueza do idioma e a sua capacidade de expansão que nos torna relevantes. Todavia, nunca é demais dizê-lo, do quarto lugar mundial saltamos para a liderança  e para o topo da tabela quando nos referimos apenas às línguas faladas no Hemisfério Sul. Aqui reinamos destacados e nem o Castelhano, o Inglês ou o Mandarim, nos chegam aos calcanhares.

Não posso deixar de referir algo que me irrita profundamente. Parece que o nosso país dá uma especial importância e relevância às coisas e às críticas que vêm de lá de fora, do estrangeiro. Mas, contudo, deveria ser o inverso. Importaria sim escutar, com redobrada atenção, quem connosco partilha o país e a existência, bem como a nossa difusão linguística, ou até, generalizando, os países que, no seu todo, geraram o orgulho generalizado que todos possuímos pelo nosso idioma. Não temos que nos mostrar ofendidos porque na América há muita gente a pensar que Portugal é uma província de Espanha. Não é, já foi. Mas a ignorância e a tacanhez é deles e não nossa e só a eles mesmos assenta mal.

Voltando agora ao título do presente capítulo, Confissões em Português”, a parte que se refere às Confissões é que deveria chamar a atenção em primeiro lugar. Já o facto de ter usado o nome da língua apenas pretende dar aquele ar muito intelectual ao texto.

Dou um exemplo claro: é como o artista plástico que cria uma obra que lhe corre mal, mas que, depois do imenso trabalho que teve na sua elaboração, tem alguma pena de a destruir, assim, devido a essa mesma trabalheira e ao tempo que a dita lhe consumiu em todo o processo criativo, resolve incluir a falhada criação numa mostra internacional relevante, sabendo, conscientemente, que a sua obra vai estar patente ao público, sujeita a críticas, possíveis achincalhamentos, podendo conduzir mesmo ao escarnecer da sua qualidade indiscutível enquanto artista plástico.

Não querendo reconhecer o seu fracasso criativo, depois de muito matutar no assunto, lança a obra, com lugar de destaque na exposição, apelidando-a com o maravilhoso nome de:

Instalação II - O Fracasso do Canguru Perneta.

Para sua surpresa, vence o primeiro prémio daquela Bienal de Arte, pelo modo magnífico como conseguiu, de forma genialmente única, representar tão crua e friamente o significado de fracasso.”

Como podes verificar, querida Berta, muitas vezes as coisas não valem apenas pelo que são em si mesmas. O contexto em que são inseridas é um dos mais determinantes fatores para a sua relevância ou valorização. Com esta observação te digo adeus por hoje, embora amanha me vá dar ao trabalho de deixar mais claro este título fabuloso para a obra em causa. Recebe o beijo habitual deste teu amigo,

Gil Saraiva

 

 

Carta à Berta: Tragédia na COP25

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Olá Berta,

Espero que esta carta te encontre bem, como aconteceu com as últimas. Nada como viver com saúde, algum dinheiro e em harmonia e paz.

Hoje venho relembrar que a COP25, a conferência de líderes promovida pela ONU sobre a emergência climática, está a chegar ao fim. Esta assembleia, que acabou este final de semana, deveria lançar a esperada declaração de princípios, aquela que poderia ser suficientemente forte para conduzir o planeta ao início de uma caminhada a favor do combate às alterações climáticas.

Contudo, o texto apresentado ontem não convenceu a maioria dos países envolvidos. Tratava-se de uma declaração frouxa, sem grande ambição e sem as desejadas e ansiadas metas, muito, mas muito, aquém de todas as expetativas, para grande tristeza dos ambientalistas.

É certo que um texto assim está sobre a pressão e é resultado das influências de países como a Rússia, a China, a Índia, o Brasil, os Estados Unidos e a Austrália que não parecem convencidos, nem convertidos às questões da emergência. Eles que, conjuntamente, representam quase 70 porcento do problema. Já para não falar dos países asiáticos, responsáveis por 80 porcento da poluição de plásticos existente nos oceanos.

Resta-nos esperar pelo fim do dia. Pode ser que, com alguma diplomacia, alguns destes países ceda o suficiente para que a resposta seja mais firme, mais determinada e mais coerente com as reais necessidades do globo. Afinal, terá de ser apresentada uma nova declaração de princípios, já com algumas propostas concretas. Será que a montanha vai parir um rato ou teremos realmente um caminho novo? Só terminarei esta carta quando a cimeira encerrar. Veremos o que acontece...

 Pronto! Terminou a COP25. Agora, acabada que está a cimeira de Madrid, cá vai a minha opinião. A esperança de muito pequena, mas existente, minha querida amiga, passou a desilusão, ansiosa e preocupada, uma vez que a inteligência não prevaleceu.

Aproveito o facto de ainda não ter posto esta carta no correio para te dizer que, finalmente, graças principalmente à Austrália, ao Brasil e aos Estados Unidos da América nem sequer um rato saiu desta cimeira do clima cujos resultados já são conhecidos.

Pior que tudo, os 2 presidentes que tanto insultaram, demonstrando um imenso menosprezo e muita arrogância, pelas posições de Greta Thunberg, tendo o líder brasileiro apelidado a ativista de “pirralha”, fizeram mesmo questão de demonstrar ao que iam.

Assim sendo, não há qualquer fumo branco, luz verde, ou bandeira axadrezada a anunciar uma vontade de realmente travar uma batalha sem tréguas às alterações climáticas. A emergência, ficou-se por uma pulseira verde, e acabou por ser mandada para casa sem que um diagnóstico sério ou um tratamento adequado tivesse sido prescrito.

É a derrota em toda a linha das posições dos ambientalistas do mundo inteiro. Esta COP25 acabou por se tornar numa tragédia mundial e, se ao que parece, o ponto sem retorno estava mesmo à vista, então, se assim for, ele acabou de ser hoje ultrapassado. Para Greta Thunberg é uma derrota ainda maior. A COP25 andou para trás, nem mesmo se ficou pelo que já tinha sido alcançado. A tragédia de Madrid, sob a batuta de um Chile, que se vergou ao poderio dos grandes estados, na responsabilidade que tinha da condução da cimeira, ficará conhecida como o dia em que a Terra foi condenada pelo capital.

Se no futuro esta cimeira vier a ser julgada pelos seus atos e respetivas consequências, não poderão os responsáveis de tal boicote serem acusados e julgados por crimes contra a humanidade? Sendo assim, a direita política vai ficar com um ónus muito grande para explicar ao mundo inteiro. Scott Morrison, o primeiro-ministro australiano, que lidera o governo saído da coligação de centro-direita, Donald Trump, o presidente democrata americano e Jair Bolsonaro, o líder do governo de direita brasileiro, são neste momento os principais réus e responsáveis deste desastre negocial, cujas consequências são ainda imprevisíveis.

Pois é minha amiga, estou sem palavras. Já esperava um resultado fraco e sem grandes avanços, contudo, o que aconteceu foi bem mais do que isso, foi um virar de costas absoluto, com um encolher de ombros brutal, de, como diria Ricardo Araújo Pereira, é “Gente Que Não Sabe Estar”.

Recebe um beijo deste teu grande amigo, que nunca te esquece,

Gil Saraiva

Carta à Berta: Greta Thunberg e a Síndroma de Asperger

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Olá Berta,

A minha carta de hoje tem a ver com a miúda de 16 anos que anda a tentar pôr os políticos do mundo na ordem. Vou-te falar um pouco de Greta Thunberg, principalmente, pelo facto de ela ser o tipo de criança ou adolescente que mexe com o meu sistema nervoso.

A jovem, começou na sua terra natal, na Suécia, a fazer greve às aulas em prol da necessidade de se agir de imediato às urgências climáticas, provocadas pela ação humana, através da queima dos combustíveis fósseis, do consumismo exacerbado da sociedade capitalista e de mais uma outra dúzia de fatores.

Deste modo, conseguiu chamar a atenção da comunicação social do seu país, pela acusação direta aos adultos, e em primeiro lugar aos políticos eleitos, de estarem a hipotecar o mundo e a sua própria vida, enquanto adolescente e futura mulher adulta, por falta de medidas e ações que realmente possam fazer a diferença, defendendo que estas terão de ser imediatas e não apenas urgentes.

O seu protesto acabou por gerar a adesão de dezenas de outros jovens suecos, depois de centenas e a coisa foi sempre acontecendo em crescendo até, finalmente, neste mundo, extravasar as fronteiras suecas e se espalhar pelo globo, com o apoio explicito do próprio Governo Sueco e de muitas associações ligadas à defesa do ambiente e dos animais, causas que juntou numa luta única. Muitos milhares de estudantes acabaram por aderir à sua greve, primeiro no país e finalmente no planeta, com destaque evidente nos países do ocidente.

Aproveitando o apoio oferecido pelo Governo sueco, outros países juntaram-se à iniciativa, vendo aqui uma clara oportunidade de colocar nas agendas nacionais e internacionais o problema, de ficarem bem na fotografia, e de distraírem os seus eleitores de uma outra série de questões, não resolvidas, pelos seus próprios governos.

A jovem foi convidada a intervir com discursos, em vários países, com destaque para os efetuados em Londres e em Estocolmo, um em outubro de 2018 e o outro em novembro do mesmo ano. Em dezembro apresentou-se na Cimeira do Clima, na ONU, com uma redação bastante incisiva, perante os 196 países reconhecidos pela organização.

Finalmente, partiu numa jornada, que a levará a percorrer o globo, carregando na bagagem a sua gritante e urgente mensagem. Foi indicada para o Prémio Nobel da Paz que não ganhou, mas recebeu muitos outros, de menor calibre, mas com peso e importância internacional, que têm ajudado a financiar o périplo mundial agora empreendido.

Toda esta atividade iniciou-se publicamente a 20 de agosto de 2018, quando a rapariga decidiu fazer a sua primeira greve até à realização das eleições gerais na Suécia, que se ocorriam dai a 3 semanas. Porém, a sua precoce consciência ecológica e defesa dos direitos dos animais começou 4 anos antes, apenas com 12 aninhos, quando decidiu tornar-se vegan. A sua crescente indignação com a estagnação política do seu Governo, face ao incumprimento do Acordo de Paris, foi crescendo e culminou com a sua primeira greve às aulas 4 anos mais tarde. Desde então não mais parou e a última greve estudantil, realizada às sextas-feiras, teve a adesão de mais de um milhão de jovens a nível internacional.

Podia, minha querida Berta, gastar mais umas 2 ou 3 páginas a descrever os prémios, os discursos e todas as ações empreendidas por Greta e pelos que agora coordenam os seus movimentos e iniciativas. Todavia, pelo que atrás está descrito, e graças ao que tens ouvido na comunicação social, sei que não preciso de me alargar mais neste sentido, uma vez que a ideia global está apresentada. Contudo, alguma imprensa, ainda dá mais importância à jovem, pelo facto de esta sofrer de uma patologia séria, estando a adolescente diagnosticada como padecendo da Síndrome de Asperger, uma condição que afeta as suas capacidades de interação social e de comunicação.

Ora, é precisamente aqui que, para mim, a porca torce o rabo. Exatamente neste pequeno ponto, apresentado em notas de rodapé pela comunicação social, como mais um fator admirável a favor de Greta Thunberg que, apesar deste “handicap”, consegue fazer-se ouvir. A maneira como tal síndroma é apresentado leva-nos imediatamente a sermos ainda mais solidários com a jovem.

Afinal, achamos logo, que o problema realça e valoriza toda a sua luta interior e exterior, colocando-a num patamar de excelência e superação ainda mais formidável e merecedor de maior e muito mais evidente admiração. Já não estamos a falar de uma mera jovem, mas sim de uma jovem ativista que, apesar do seu problema psicossomático, está a lutar, por todos nós, em prol de um mundo mais equilibrado, mais sustentável e melhor.

Porém, poucos serão os que se dão ao trabalho de ir ver o que é a patologia diagnosticada com detalhe. E é no detalhe que a coisa, no meu modesto entender, se torna grave, amiga Berta, requerendo um cuidado e uma atenção especial para algo que, não tendo cura, deve ser gerido com as devidas cautelas.

A síndrome de Asperger é uma perturbação neuropsiquiátrica que se encontra inserida no espetro do autismo. Muitos dos indivíduos que a apresentam detêm capacidades mentais normais ou acima da média. As capacidades cognitivas dos doentes não costumam ser afetadas, mas existem algumas dificuldades na comunicação não-verbal e nos relacionamentos interpessoais. O problema só é normalmente diagnosticado a partir dos 4 ou 5 anos de idade. Entre outros sintomas, destacam-se de forma relevante: a descoordenação dos movimentos; deficiências na comunicação não-verbal, com principal incidência na utilização deficiente de expressões faciais e corporais e na fuga permanente ao contacto visual; conversas em forma de monólogos e repetição continua de expressões; interesse confinado a temas muito específicos; falhas na compreensão dos outros; dificuldade em mostrar empatia, bem como em entender o humor ou a ironia; resistência à alteração de comportamentos e de rotinas que fujam ao foco do paciente; comportamentos obsessivo-compulsivos; perturbação depressiva e ansiedade, entre outros.

Seria de esperar que a família de Greta, ciente destes problemas, ajudasse a rapariga a não alimentar o seu comportamento obsessivo-compulsivo e a sua fixação específica nos temas da problemática ambiental e animal. Mas acontece que estamos perante uma ascendência de artistas, atores, cantores e gente do espetáculo, que já vem de há 3 gerações atrás, habituados à ribalta e que valorizam o protagonismo e a fama como um natural modo de vida.

Os cuidados a ter com Greta, enquanto portadora desta síndroma, com o seu atual mediatismo e com a sua reforçada agenda programática, são basicamente postos de lado pela família, descurando coisas  como a socialização controlada, a monotorização dos relacionamentos, o desenvolvimento de competências sociais básicas, o estímulo ao contacto visual e físico ou, ainda, a forma de como a ajudar a entender o conceito de empatia e os sentimentos de compreensão pelos outros, coisa que desconhece quase em absoluto.

Apenas a valorização do talento e dos sucessos alcançados pela jovem estão a ser levados em linha de conta, pelo que estes ajudam na sua autoestima, sem se pensar no que, uma luta sem consequências reais de mudanças a nível mundial (é neste ponto que se encontra a fasquia da adolescente), pode levar a profundas crises de ansiedade, com consequências depressivas de elevado risco, cujo final corre sério perigo de poder ser fatal.

Um bom exemplo de uma gestão cuidada deste problema de saúde é a forma como foi gerida a ascensão e a carreira da cantora Susan Boyle. Aqui houve o cuidado de a valorizar sim, mas tendo em conta os estímulos a reforçar, as competências a desenvolver, o entendimento e a empatia a criar em relação a terceiros e à gestão do seu próprio e genuíno sucesso.

Temo, minha amiga, que o aproveitamento de Greta pelos movimentos ambientalistas e dos animais, acrescido ainda com o evidente deslumbramento familiar, possam levar esta jovem a um beco sem saída do qual depois não haverá retorno. Não seria a primeira vez que um comportamento obsessivo-compulsivo levaria a um suicídio como forma última de fazer vingar uma obsessão.

Despeço-me saudoso com um beijo, no seio desta genuína preocupação, este teu amigo que muito sente a tua falta,

Gil Saraiva

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