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Carta à Berta

Carta à Berta é o local dos Desabafos de um Vagabundo, do Senhor da Bruma, essa bruma a que chamam de internet, de um Haragano, o Etéreo, qual cavalo selvagem que galopa entre cartas alegadamente, quiçá, sem fundamentos.

Carta à Berta é o local dos Desabafos de um Vagabundo, do Senhor da Bruma, essa bruma a que chamam de internet, de um Haragano, o Etéreo, qual cavalo selvagem que galopa entre cartas alegadamente, quiçá, sem fundamentos.

Carta à Berta: Notas do Diário Secreto do Senhor da Bruma - Excerto 1

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Olá Berta,

Começo hoje a revelar-te um pouco do meu diário secreto. Não é um diário normal, daqueles onde se escreve todos os dias as rotinas entediantes do quotidiano, as reuniões onde se teve que ir, os problemas do trânsito, as tarefas agendadas para o dia e todas essas pequenas coisas que somadas acabam por consumir o dia. Nada disso. Os parágrafos que for passando para aqui são apenas os meus pensamentos do dia ou uma daquelas coisas que, sem saber muito bem porquê me passaram pela cabeça ou me apeteceram fazer. Dito de outra maneira, trata-se de excertos do meu existir e pensar, salteados, apanhados fresquinhos e sem tema ou filtro. Espero que esta minha escrita diferente, nem sei se isso, te possa agradar e quiçá, de vez em quando, fazer sorrir.

Notas do Diário Secreto do Senhor da Bruma - Excerto 1

Esta noite estou sem sono e, para meu azar, estou sem meo, ou seja, sem televisão, sem internet, e de nada me serve ter telemóvel porque continuo a usar um modelo Nokia de 1999. De repente dou comigo a pensar: “Será que o facto de eu ser app-deficiente me dá direito a benefícios fiscais? Amanhã tenho que ligar para as finanças.”

Faz hoje 4 dias que vendi o meu carro. Depois de tanto confinamento teve que ser. Para além do seguro anual, do imposto para as finanças, da inspeção, do ACP, da Via Verde, do selo de residente da emel, dos talões de estacionamento, do preço das lavagens, da gasolina e das revisões, já estava a gastar mais 25 euros de cada vez que queria sair com ele. Nem podia ser por acaso, por me apetecer, afinal, de cada vez que precisava de me deslocar, tinha de pedir ao meu mecânico para me vir carregar a bateria. Pimba, 25 heróis só para poder tirar o carro do lugar, em horas marcadas pela disponibilidade da minha oficina. Em vez de confinado estava a ficar contuso, ou seja, sem dinheiro para tanta chatice, teso e não no bom sentido.

Observações genéricas sobre práticas e filosofias budistas:

1)Filosofia nepalesa:

No Nepal, na terra dos monges, da paz e do budismo, as mulheres menstruadas (e durante todo o tempo do período), são expulsas de sua casa pela família e obrigadas a ausentarem-se da terra onde vivem, pelo menos até ao limite da aldeia, vila ou cidade, não podendo contactar outros seres humanos.

2)Raciocínio nepalês:

Todas as mulheres menstruadas estão impuras, sujas, conspurcadas e impróprias enquanto a coisa dura, isto num tempo em que coisa dura também só existe através de um árduo trabalho manual.

3)Questão nepalesa:

Será que se elas morrerem nesta altura precisa têm lugar no paraíso budista? Não sei, contudo, dá que pensar…

4)Resultado prático da filosofia nepalesa na minha vida:

Já começo a entender porque é a senhora da loja da fruta, onde vou aqui no bairro, desaparece da caixa sempre por 4 ou 5 dias seguidos. Fico também a saber que o esposo é um mentiroso, a mulher não está a tratar da tia doente, em casa, tem é um marido idiota, no mínimo, para não ser muito ofensivo.

5)Pensamento budista:

Apenas os homens podem aspirar a ser monges, eles nunca ficam impuros. Mas se aparecesse um monge menstruado todos saberiam que andava a enganar o mosteiro ou a ser papado pelo Mestre. Não sei se tem lógica, mas parece-me a única explicação.

6)As Energias Budistas no Japão:

Um dia mostrei à minha prima esta faceta da cultura budista. Os documentos, os testemunhos, as fotos, enfim, as provas deste absurdo. Ela que era uma Mestre de Reiki, que sentia energias interiores como ninguém, virou uma tartaruga ninja e agora pede para a tratarem por Raphael. Ah, do nada desenvolveu um gosto absurdo por pizza. Para além disso, sempre que hoje em dia ouve falar em energia fica possessa e desata a partir tudo o que tiver à mão. No mês passado foi a urna do avô paterno que acabou a sua existência em cacos ao embater no louceiro da tia Filipa.

Mudando de assunto, sempre que penso em suicídio acabo por desistir por falta de descobrir o método perfeito. Hoje, passo para aqui um dos melhores métodos que já me ocorreram.

A Teoria do Suicídio – Métodos e Processos:

221) Durante vários domingos grave na box da sua televisão os comentários da Sic de Luís Marques Mendes (os LMM), quanto tiver pelo menos 5 LMM gravados, sirva-se de uma boa aguardente velha, sente-se confortavelmente no sofá e veja os 5 programas de seguida. Se no final ainda lhe apetecer ir jantar fora você não é, nem nunca será, um suicida nato. Estes costumam atirarem-se da varanda de casa entre o segundo e o terceiro programa e morrem satisfeitos estilhaçados no passeio. Nota: assegure-se que não vive num rés-do-chão.

Por hoje é tudo minha querida amiga Berta. Despede-se uma vez mais este teu amigo, com uma beijoca sorridente,

Gil Saraiva

 

 

Carta à Berta: Série: Quadras Populares Sujeitas a Tema - 5) Violência Doméstica

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Olá Berta,

Hoje estou bem mais calmo. Já me passou a neura benfiquista. Por outro lado, este país continua, admiravelmente, a escapar, por entre os pingos da chuva, como se não fosse nada com ele, às maleitas do nosso mundo. Só mesmo por milagre é que se justifica ainda não termos infetados com o coronavírus, em Portugal. Basta pensar que só a região de Lisboa tem, por dia, em média, mais de 1200 novos turistas chineses. Ora, este número tão expressivo deveria constituir uma verdadeira ameaça no que concerne à propagação do vírus, mas não. Cá continuamos nós, alérgicos ao coronavírus, sem que a maleita nos invada a todo o gás.

Só de pensar no caos que é o aeroporto de Lisboa, me dão arrepios espinha abaixo se, valha-nos Nossa Senhora de Fátima (dirão os católicos), a pandemia chegar até ao nosso amado burgo. Por muito alerta que exista por parte das autoridades de saúde, uma chegada do vírus, via aeroporto, dificilmente seria travada e contida em tempo útil. Porquê? Porque simplesmente não existem condições. Em termos de ranking ocidental estamos em primeiro lugar e em terceiro, na lista dos piores aeroportos.

Acho que o que nos tem valido são as despistagens feitas nas partidas dos passageiros, principalmente os chineses, que para cá se deslocam.

Considero, muito sinceramente, que estamos perante uma bomba relógio. Ainda não aconteceu cá chegar um caso daqueles em que o vírus, na fase de incubação, não é detetado na origem, à saída. Quanto tempo durará essa sorte? Terá a Nossa Senhora mudado de poiso para os nossos aeroportos? Não vejo outra explicação e nem sequer sou crente.

Bem, pondo isso de lado e falando do teu desafio. O próximo assunto que escolheste para as quadras sujeitas a tema está mesmo na ordem do dia. Eu, não só consegui fazer a quadra, como tenho a certeza que se, as penas aplicadas aos prevaricadores pelos juízes, seguissem o meu conselho, quase que deixaríamos de ter violência doméstica em Portugal.

Série: Quadras Populares Sujeitas a Tema - 5) Violência Doméstica.

 

Violência Doméstica

 

Não devia ter casado.

Quem, na mulher, bate, em casa,

Talvez se fosse castrado,

Perdesse força na asa…

 

Gil Saraiva

 

Com mais este desafio superado me despeço, deixo-te um beijo saudoso e amigo, como sempre é meu hábito quando te digo até à próxima, o mesmo de sempre,

Gil Saraiva

Carta à Berta: Série: Quadras Populares Sujeitas a Tema - 3) Guerra dos Sexos

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Olá Berta,

Conforme pediste, mandei-te a carta por correio eletrónico. Não estás para estar muito tempo á espera, minha amiga. Sinal dos tempos. O mais engraçado é que tu respondeste logo a pedir o terceiro tema. Vamos com mais calma, se fazes favor, está bem?

Já te informei que a síntese não é o meu forte. Ainda para mais com um terceiro tema tão intrincado. Como raio te lembraste tu de escolher: Guerra dos Sexos? É só para me complicares a vida.

Contudo, como já te disse, eu vou até ao fim, mas nem que a vaca tussa. Faço questão de responder a todos os temas o melhor que puder. Um ou 2 temas, até já tenho quadras que se adaptam perfeitamente. Será só transcrever.

Série: Quadras Populares Sujeitas a Tema - 3) Guerra dos Sexos.

 

Guerra dos Sexos

 

Nos sexos há uma luta

Que não tem compreensão:

Porque há de a mulher ser puta

E o homem garanhão?

 

Gil Saraiva

 

Por hoje é tudo. Não me venhas pedir mais agora, pois só amanhã é que volto a pegar nisto. Preciso de inspiração e de sentir os temas. Desculpa o palavrão, mas sexo é sexo. Tem mais sentido o uso vernáculo, incluindo as verdadeiras palavras setoriais, que são bem mais ajustadas ao tema. Não achas?

Despeço-me, extremamente divertido, com um beijinho saudoso e pleno de ternura, este teu amigo,

Gil Saraiva

Carta à Berta: Isabel dos Santos - Uma Saga de Família que vem do Século XVII - Parte I

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Olá Berta,

Hoje, e nos próximos dias, faço um intervalo no que concerne à revista dos eventos do meu bairro em 2019. Mandar-te-ei o segundo trimestre daqui a mais algum tempo, para que a coisa não se torne uma maçada, em vez de uma curiosidade interessante. Possivelmente voltarei ao próximo trimestre algures no mês seguinte.

Este domingo andei a ler e a rever outras coisas sobre o que se anda a passar por este mundo fora. Podia pegar em vários temas, mas vou dedicar esta carta e talvez as próximas apenas a um deles. Nem sequer vou falar das investigações que fiz no passado sobre ele, e que ainda foram algumas, nem na existência ou não das possíveis evidências. Nada disso, vou apenas referir o que me parece por demais evidente. Contudo, e como sempre, nas minhas crónicas mantenho-me no domínio estrito do alegadamente. Estou-me a referir a Isabel dos Santos e às origens que têm sido contadas de um modo que me parece, no mínimo, lírico e bem pouco próximo daquela que, para mim, é a realidade. Esta primeira carta é o início de um tema que divido em 4 atos, ou cartas.

Porém, e para agora, vamos esquecer a princesa de Angola e voltar atrás no tempo. Não são 10 nem 20 anos… imagina-te, querida Berta, num retrocesso longínquo, distante e nublado. Pensa numa época onde prevalecia a lei do mais forte, do mais apto e do hábil em impor a sua vontade, forma de estar e de agir. É nesse tempo que começo.

Em meados de mil e seiscentos a coroa portuguesa contratou um tal de Baltazar Van Dum. Um homem, de origem holandesa, especializado no comércio de escravos. Para muitos um pirata, nome dado aos mercenários e a alguns esclavagistas arrojados da época, que procediam a capturas, transporte e negócios de escravos intercontinentais. O nome de família de Baltazar evoluiu ao longo dos tempos até se tornar Van-Dunem. Mas a origem é toda deste homem que percorreu todos os territórios ultramarinos portugueses da época a que me refiro.

Baltazar Van Dum esteve em Cabo Verde, São Tomé e Príncipe, Moçambique, Angola, Guiné, no Brasil e em mais algumas regiões que, para a história em causa não são relevantes. O seu acordo com a coroa nacional incluía toda a África Portuguesa e o Brasil. É de assinalar que ele fez o possível e impossível por deixar bem marcada essa responsabilidade.

Diz uma espécie de lenda angolana que Baltazar teve mais filhos do que anos de idade. Filhos da própria mulher, uma negra que se dizia ser o símbolo da beleza africana, de concubinas, de prostitutas e de escravas. Contudo, ao contrário do macho latino, que tenta passar despercebido e tudo fazer à socapa, na sombra, sem assumir grandes responsabilidades, o muito ilustre pirata Baltazar funcionava precisamente ao contrário. Fazia questão de dar o seu nome a todos os seus descendentes, fossem eles filhos de que tipo de mulher  fossem.

É por isso mesmo que o apelido, atualmente “Van-Dunem”, aparece difundido abundantemente por toda a África, América do Sul e Estados Unidos da América, onde o primeiro Van Dunem escravo aportou no século XVII, numa primeira remessa de 20 escravos enviados por Baltazar, tão importante que, ainda hoje, é assinalada nas relações bilaterais entre Angola e os Estados Unidos.

A poligamia estava para Baltazar como o vinho para Baco. Era, mais do que uma imagem de marca, uma questão de princípio. Rogam as histórias de então que não havia mulher negra que passasse na sua presença que não fosse devidamente testada e carimbada com o fálico selo de Van Dum. Certamente um exagero, contudo, bem demonstrativo da “fama cobridora” deste verdadeiro touro ou garanhão dos novos mundos que, então, ganhavam protagonismo para a economia mundial e para o desenvolvimento e enriquecimento da Civilização Ocidental.

Pode-te parecer, querida amiga, que estou a ser exagerado, mas, este meu primeiro herói, foi alvo de um livro de Artur Carlos Maurício Pestana dos Santos, sob o famoso pseudónimo de Pepetela, um dos nomes maiores do romance angolano, que sobre ele romanceou,  descrevendo aquilo que eram os filhos legítimos da mulher, que ele chama de Dona Inocência, e os filhos das escravas da casa e não só, os chamados filhos do quintal. O livro tem um nome muito sugestivo que resume muito do que aqui disse e direi, de uma forma romanceada, mais restrita, mas com o mesmo significado; chama-se: “A Gloriosa Família”, e está deliciosamente escrito por um dos grandes escritores angolanos que, em Portugal, foi editado pelas Publicações Dom Quixote.

Mais te poderia descrever sobre este profícuo homem do passado, este Baltazar sem controle de natalidade, porém, para o cerne da questão, o que importa mesmo é saber que não existe na atualidade, em toda a América ou em África um Van-Dunem cuja origem não seja essa, única e comum, aliás, aquela que aqui descrevi.

Espero que estejas a gostar da narrativa, despeço-me com um gigante beijo de carinho, este que será sempre teu amigo enquanto o coração lhe bater,

Gil Saraiva

 

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