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Carta à Berta / Desabafos de um Vagabundo / Miga, a Formiga / Estro

Julho de 2022: blogs do Senhor da Bruma, assinados por Gil Saraiva, são reunidos em "alegadamente": Estro (poesia), gilcartoon (cartoons) e Desabafos de um Vagabundo (plectro). Tudo deve ser entendido no âmbito do alegadamente.

Julho de 2022: blogs do Senhor da Bruma, assinados por Gil Saraiva, são reunidos em "alegadamente": Estro (poesia), gilcartoon (cartoons) e Desabafos de um Vagabundo (plectro). Tudo deve ser entendido no âmbito do alegadamente.

Carta à Berta: O Novo Confinamento na Rua Francisco Metrass em Campo de Ourique

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Olá Berta,

Começaram ontem os novos confinamentos para os fins-de-semana de 27 de novembro a 2 de dezembro e de 4 a 9 de dezembro de 2020. Uma modalidade mista entre confinar com recolher obrigatório e proibição de deslocação entre concelhos para as autarquias de risco muito elevado e extremamente elevado.

Vivo há cerca de 12 anos, na Rua Francisco Metrass, em Campo de Ourique, Lisboa. Um bairro que tomei como meu, como nunca tinha feito com outro local em toda a minha vida. Amo a história do Bairro, adoro a arquitetura e o urbanismo típico, o sorriso e a simpatia das gentes, o burburinho do comércio, das ruas, dos cafés, pastelarias e restaurantes, enfim, esta freguesia faz-me sentir em casa de tal forma que, por vezes, me esqueço que não nasci aqui, mas sim em Campo Grande.

Este início de tarde, por volta do meio-dia fui até à janela da sala-de-estar do meu terceiro andar, virada para a rua e com vista para 7 esplanadas e 3 supermercados, um take-away e uma farmácia e fiquei boquiaberto. Acreditem se quiserem, mas entre o Restaurante Europa e o Restaurante Cantinho de Campo de Ourique, passando pela Farmácia Porfírio, Pastelaria Aloma, Pastelaria Az de Comer, Cafetaria Metrass, take-away Dez para a Uma, Supermercado e Cafetaria Go Natural, Supermercado Minipreço, o Snack-Bar Bowl e o Supermercado Pingo Doce, contei 198 pessoas.

Para além disso ainda registei uma fila de viaturas em transito que passava as 35. O movimento era tal que parecia que a rua tinha sido invadida por uma “black Friday” promocional de dimensões épicas, que nunca antes tinha presenciado. A correr fui buscar a câmara para registar o momento. Infelizmente quando regressei à janela já o panorama era diferente.

O aproximar da hora de recolher fizera desaparecer um grande número de indivíduos e viaturas da zona. Mesmo assim ainda contei cerca de 97 pessoas na rua. Só na zona do Pingo Doce eram mais de 30. Já tinha visto filas maiores para este supermercado, mas nunca um tão gigantesco número de pessoas a entrar e sair dos estabelecimentos que te referi, amiga Berta, em simultâneo, por toda a via pública. Na esquina do Az de Comer, por exemplo, contei 28 pessoas, 11 na do Aloma, 17 entre o Restaurante Europa e a Farmácia Porfírio, etc. e, ainda, todas filas que se cruzavam entre o Go Natural e o Pingo Doce, enfim, uma verdadeira multidão.

Dei comigo a pensar se o Governo não se teria equivocado nestas novas normas de confinamento. De que serve confinar à noite e à tarde se, de manhã, uma catrefada de gente invade as ruas? A fotografia que te envio para ilustrar esta carta não conseguiu captar o que eu vi 15 minutos antes, mas eram mais do dobro as pessoas que ali estavam, só na zona abrangida pela imagem. Torna-se fácil calcular o restante povoamento destes 50 a 60 metros de rua.

Contudo, nem tudo o que vi foi mau. Talvez uns 90 a 95% das pessoas tivessem máscara. Isso significa que no meio da loucura ainda houve muita gente a tentar cumprir algumas normas. Sinceramente, no meio do caos que observei neste início de tarde, tenho mesmo que atribuir a culpa à forma como foi desenhado este confinamento e não às pessoas que ficaram limitadas às manhãs para se abastecerem. A limitação temporal de circulação entre 27 de novembro e 9 de dezembro vai gerar certamente mais momentos como aquele a que hoje assisti.

Se esta zona tivesse pelo menos durante esta manhã uma fiscalização policial talvez a circulação das pessoas pudesse ter sido mais ordenada ou talvez não. Estes funis temporais que foram criados nestas novas normas para circulação na via pública são propícios a ajuntamentos deste calibre. Não culpem disso os habitantes deste bairro, nem de outros onde o fenómeno se repita. A culpa não é de quem tenta sobreviver ao que lhe é imposto, mas de quem elabora planos sem pensar seriamente nas consequências daquilo que cria meio em cima do joelho.

E mais não digo minha querida amiga, despeço-me com um beijo saudoso de amigo,

Gil Saraiva

 

 

 

Carta à Berta: O Requerimento à Câmara Municipal - Ruído em Campo de Ourique

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Olá Berta,

Escrevi ontem um requerimento para a Câmara Municipal de Lisboa. Não fiques intrigada, isto sou apenas eu farto dos abusos praticados nas cargas e descargas dos 3 supermercados da Rua Francisco Metrass em Campo de Ourique. Já se tornou banal os camiões chegarem antes das 6 da manhã, como se fossem realmente os Reis da Rua. Nem sequer distingo o Minipreço, do Pingo Doce ou do Go Natural (da Sonae). São os 3 em conjunto que geram o problema. Em resumo, o direito ao descanso da vizinhança e ao respetivo silêncio, não tem lugar na ordem de prioridades destas superfícies do retalho.

Mando-te, embora tenha tapado os meus dados pessoais com uns “aliens”, uma cópia do requerimento enviado para a autarquia. Nele solicito 3 coisas:

  1. Uma fiscalização devidamente bem elaborada que acabe, definitivamente, com os abusos praticados no que se refere aos horários de cargas e descargas presentemente em vigor na Rua francisco Metrass em Campo de Ourique, mas uma fiscalização que multe e penalize esta gente de acordo com o que a própria lei prevê;
  2. Um esclarecimento sobre como é possível uma deliberação e regulamento camarário se poderem sobrepor aos Decretos-Lei que se encontram em vigor no que concerne ao Regulamento Geral do Ruído.
  3. Um pedido de alteração do horário de funcionamento das cargas e descargas, para tentar que o mesmo só seja autorizado a funcionar a partir das 8 horas da manhã.

Eu sei que provavelmente esta última solicitação vai cair em saco roto. Afinal estas cargas e descargas afetam pouco mais de 200 pessoas. Um peso que pode não chegar para obrigar a Câmara Municipal a repensar o horário atribuído a estes “aliens” que, por não pertencerem ao bairro, se estão nas tintas pelo respeito de vizinhança que deveriam ter.

Contudo, se for efetuada uma fiscalização séria aos abusos no que aos horários diz respeito, pode ser que, com sorte e algum bom senso, deixem de existir cargas e descargas antes das 7 da manhã, o que, a acontecer, já era um progresso muito significativo.

Estou ainda curioso de saber como a Câmara vai ou não contornar o facto de estar a fazer letra morta do Regulamento Geral do Ruído ao colocar horários de carga e descarga de camiões, em áreas residenciais, antes da hora estipulada por aquele regulamento.

Prometo enviar-te notícias assim que obtiver uma resposta final dos serviços. Porém, caso tudo fique em águas de bacalhau, estou decidido a avançar para um abaixo assinado a enviar conjuntamente com um segundo requerimento, espero é que isso não seja preciso, mas apenas pela trabalheira que dá e pelo tempo que demora.

Por hoje é tudo, despeço-me com um abraço enorme, sempre saudoso, este que não te esquece,

Gil Saraiva

 

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