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Carta à Berta

Carta à Berta é o local dos Desabafos de um Vagabundo, do Senhor da Bruma, essa bruma a que chamam de internet, de um Haragano, o Etéreo, qual cavalo selvagem que galopa entre cartas alegadamente, quiçá, sem fundamentos.

Carta à Berta é o local dos Desabafos de um Vagabundo, do Senhor da Bruma, essa bruma a que chamam de internet, de um Haragano, o Etéreo, qual cavalo selvagem que galopa entre cartas alegadamente, quiçá, sem fundamentos.

Carta à Berta: "António Costa - O Grande Golpe - Peça em Três Atos" - "Ato I - Meeting na Aldeia de Campo de Ourique" (Continuação - II)

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Olá Berta,

Deves estar curiosa, pelo menos um pouco, assim espero, de ver como se desenvolve a minha peça em 3 atos. A reunião secreta dos cinco magníficos continua no edifício da Presidência do Conselho de Ministros:

“Primeiro Ato: Reunião Urgente do Gabinete de Crise (continuação - II).

       - Ó António, isto tem tudo a ver com o nosso nível de pandemia. Não achas que devíamos chamar a Marta para a reunião? Provavelmente tem algumas matérias importantes para nos comunicar... — avançou o Ministro das Finanças.

       - Ó João, não te armes em Rei Leão, ok? — atirou Costa irritado. — Eu quero que a Marta vá, mas é brincar aos médicos com o bastonário dos doutores e bem pode levar com ela a Santa Graça da DGS, que já nem a consigo ouvir.

       - Ai! O caralho. Vocês importam-se de deixar as picardias de parte? — interveio Santos Silva. — Desculpa, mais uma vez Mariana. É que já nem posso ouvir falar da Graça. Como é que alguém tem a lata de ir para uma conferência de imprensa dizer que crianças confinadas e em isolamento, não são infantes submetidos a um profundo constrangimento e, pior ainda, a um severo trauma de isolamento? Ainda por cima com um sorrisinho nos lábios. Um dia destes passo-me e pronto… faço-a engolir a placa. Acaba-se logo o cabrão do sorriso.

       - Não te aborreças, Augusto. Tu bem que lhe podias ensinar umas coisas de diplomacia… ­— opinou Pedro Siza Vieira, continuando: — Tu sobreviveste ao último Governo do Sócrates, tens a experiência máxima de como evitar situações de constrangimento.

       - É pá! Foda-se! Pedro, se tu ou mais alguém aqui me volta a falar do Zé, eu não respondo por mim. Costa, põe lá esta malta nos eixos ou não tarda muito estamos todos à chapada. Desculpa a linguagem Mariana, mas esta atitude dos «bifes» anda-me a tirar do sério… — rematou Santos Siva.

       - Augusto, praguejar faz-lhe bem à andropausa. Desabafe a seu belo prazer. Olhe lá, nunca lhe passou pela cabeça tentar lançar a escada à nossa Ministra da Administração Pública? Olhe que a Alexandra Leitão faz jus ao apelido que tem e enquanto comia, sempre acalmava… — retorquiu Vieira da Silva.

       - Caros ministros, vamos parar com esta conversa de sopeiras e discutir assuntos sérios. O que podemos nós fazer para impedir o fecho do corredor aéreo? Ideias?

Costa subira o tom de voz para se fazer ouvir e acabar com a discussão fútil que lhe atrasava a reunião. Se os deixasse continuar ainda lhe perguntavam sobre as tendências sexuais da Ministra da Cultura. Mais uma Graça que fora um total erro de casting. Precisava rapidamente de repor o nível da reunião. Olhem só uma conversa daquelas nas mãos da comunicação social… seria o descalabro (pensou). Refletiu por breves segundos e finalmente interveio de novo:

       - Augusto, temos o número direto do BB? — (leia-se Bibi) questionou o Primeiro-Ministro.

       - Tenho sim. O tipo mudou recentemente de número, mas eu tenho andado a par. O embaixador britânico deu-me o novo contacto ontem. Vais-lhe ligar?

       - Quem é o BB? – indagou João Leão.

       - É gíria diplomática… — retorquiu Santos Silva. — Em vez de chamarmos ao Primeiro-Ministro britânico Boris Johnson, todos usam o BB, de Boris Brexit.

       - Temos de lhe ligar e hoje ainda… — atalhou António. — Precisamos atacar já o problema. Vem mesmo a calhar, pois a nossa comunicação social vai passar o tempo a falar do Rui Pinto, podem nem se lembrar de olhar para nós. Segundo o Leão me informou antes de entrarmos aqui para a reunião, se os «bifes» nos cortam o corredor aéreo, isso pode vir a tornar-se a gota de água do nosso caos financeiro. Mariana, viste os dados da pandemia como te pedi? Podemos usar alguma coisa a nosso favor? Temos vantagem sobre a União nalgum item?

       - Claro que vi tudo, António. Estamos a ficar mal em tudo mas continuamos a ser o país que mais testa, proporcionalmente à população existente no país, em toda a União Europeia. No mundo, à nossa frente, temos apenas a Rússia, a Austrália, os Estados Unidos e, claro, o próprio Reino Unido… — avançou Vieira da Silva.

       - Maravilha! Leão, liga aí para alguém que tenha o rácio de infetados detetados face aos testes. Precisamos desses números… — quase gritou Costa entusiasmado com a ideia que lhe fervilhava no cérebro.

       - Não é preciso. Por causa da reunião, eu pedi ontem à DGS todos os dados da pandemia em Portugal. Tenho tudo aqui, no Excel. A Freitas ainda tentou saber para que é que eu queria as tabelas, mas eu respondi-lhe que a explicação estava acima do salário dela. Já estou como tu, até a vozinha da mulher me põe com alergias. — respondeu o Ministro das Finanças.

       - Ótimo, deixa lá ver isso. Ena, ena, este rácio é bem mais baixo do que a maioria dos Estados da União. É isto mesmo que vamos usar. Isso e os dados das infeções nas zonas do Algarve e dos arquipélagos. Augusto, passa-me aí o número do BB. — Costa sorria satisfeito. Agora sim! Já tinha um plano. Um excelente plano.”

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E pronto, querida Berta, fico-me por aqui, amanhã há mais. Recebe um beijo de despedida deste teu eterno amigo do peito, sempre muito saudoso,

Gil Saraiva

 

 

 

Carta à Berta: O Sujo Negócio Europeu das Peles de Animais

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Olá Berta,

A notícia de que te falo hoje já tem alguns dias. Não a abordei antes porque quis saber um pouco mais sobre o assunto e fazer alguma investigação antes de me pôr a opinar. Como resultado, acabei horrorizado. A minha carta, cara amiga, não é uma abordagem exaustiva sobre o problema da manutenção do negócio de peles de animais no seio da União Europeia, sejam elas de animais domésticos ou selvagens. É, apenas e somente, um olhar espantado sobre o assunto:

O Sujo Negócio Europeu das Peles de Animais

A minha atenção foi canalizada para a temática das peles dos animais selvagens no passado dia 20 de maio. Nessa altura uma notícia de rodapé na imprensa escrita dava a informação de que na Holanda tinha sido detetado um vison com Covid-19. Depois disso, uns dias mais tarde, já se informava o público de que, 2 martas, também na Holanda, tinham acusado positivo e que o Governo decidira mandar abater cerca de 10 mil martas numa vasta área de fazendas de criação destes animais no Sul do território holandês. Conforme algumas das notícias avançavam isso faria cair, com significado, a produção de peles de marta nos Países Baixos, prejudicando cerca de 160 fazendeiros e respetivas unidades de produção industrial.

Ora eu, um ignorante inocente da periferia da Europa, nem sequer fazia ideia que, nos nossos dias, no seio da União Europeia, ainda existiam quintas ou fazendas de animais selvagens para a produção de peles. Aliás, tirando suínos, bovinos, ovinos e caprinos, também utilizados na alimentação, desconhecia o uso europeu de quaisquer outros animais, por interesse de comercialização da sua pele. Já estou como Sócrates na Antiguidade Clássica: Quanto mais sei, mais sei que nada sei…

Já agora, por falar nessa época é bom lembrar que, para os Romanos, existiam uns povos no Norte da Europa, genericamente apelidados de Bárbaros. Pois é, mudam os tempos, mas pouco se alteram os factos. Com efeito, os Bárbaros, agora eufemisticamente chamados de Frugais, são um conjunto heterogéneo de povos egoístas e pouco solidários, de alma fria e coração de cristal de gelo.

Eu, que sempre defendi a União Europeia, vejo tristemente, cada vez com maior clareza, que existem, na melhor das hipóteses 2 tipos de povos completamente distintos entre si, podendo haver um terceiro grupo misto na fronteira entre ambos. Enquanto assim for, não serão, por certo, os povos do Sul da Europa a conseguirem transmitir sentimento aos que habitam lá mais para Norte. A minha esperança agarra-se agora à possibilidade de que as alterações climáticas e o aquecimento global possam levar, num esforço conjunto, algum calor aos corações gelados dessa gente.

Mas vamos às minhas assustadoras descobertas. Afinal, apenas 11 dos 27 países da União Europeia proíbem a criação de animais domésticos ou selvagens com a finalidade do uso comercial e industrial das suas peles, excetuando os suínos, bovinos, caprinos, ovinos e ainda coelhos.

De notar que a UE tem normas que determinam a extinção das quintas e fazendas de animais selvagens entre os anos de 2023 e final de 2025, sendo que é impossível prever quantos adiamentos mais deverá haver sobre esta lei, que se tenta impor sem grandes resultados, desde os anos 80 do passado século.

Fiquei a saber que a Holanda é o terceiro produtor mundial de martas, sendo a Dinamarca o segundo, quase colada à China. Aliás, entre animais deste tipo, existem não apenas as martas, como os minques e os visons, tendo estes últimos, na Dinamarca, o seu maior produtor mundial. Também no topo do mundo, mas no que se refere a raposas está a Finlândia, responsável sozinha pela produção de mais de 60% destas peles. Outros países como a Noruega e a Bélgica lutam também por um lugar no top na produção de visons, entre outros tipos de peles.

A título de curiosidade um site da especialidade apontava, com alguma mágoa, à perseguição das autoridades à melhor forma de matar estes animais e de enaltecer a qualidade das peles. O método consiste na electrocução anal e no esfolamento dos bichos ainda em vida.

Informava o dito site que a atual tentativa de imposição de usar o envenenamento dos bichos, por inalação de dióxido de carbono, retira brilho e vida às peles, diminuindo a sua qualidade. Afinal, a UE detém, à data de hoje, 63% da quota mundial da produção de peles de marta, minque e vison e 70% das peles de raposa.

Fora deste circuito, a América do Sul, fazem furor na produção de outros tipos de peles como é o caso das peles de Chinchila ou de esquilo, com o Peru, a Bolívia, o Chile, a Argentina e o Brasil a liderarem o top 5 deste comércio.

Mas, voltando à Europa, outro negócio paralelo, é a importação anual da China para a UE de mais de 2 milhões de peles de cães e gatos, uma vez que estas peles parecem ter propriedades de combate ao reumatismo e são muito utilizadas para produzir mantas e cobertores de topo de gama. Há ainda a questão das fazendas clandestinas de produção de gatos na União, sendo que a Bélgica é o país mais visado pelos ambientalistas.

Tudo isto para dizer, depois desta pequeníssima abordagem, muito pela rama, deste monstruoso problema, que ninguém no mundo (nem os Estados Unidos da América que produzem peles de mais de 80 animais selvagens de diferentes origens e espécies) tem a mínima moral de condenar a China, no que se refere ao comércio de animais, que ainda por cima são usados para a subsistência de mais de um bilião de pessoas.

Para haver moral não basta pregá-la. Há 11 países na União Europeia que podem armar-se em detentores da moral, se não nos pusermos a olhar para outros campos. No entanto, querida Berta, este meu pequeno estudo, acabou por fazer com que eu seja imensamente mais benevolente com o festival do tomate em Espanha, pelo desperdício alimentar ou com as touradas dos países latinos. Pelo menos os touros não são eletrocutados pelo cu e esfolados ainda em vida, nem nada que se pareça.

Não sou fundamentalista que eu saiba ou tenha consciência, por remota que seja, em coisa alguma, contudo, começo a ficar algo frugal no que respeita àqueles a quem os romanos chamavam de bárbaros. É que não me lembro, querida amiga, nem nas torturas chinesas de outros tempos, de ler, ou ouvir falar, em algo tão macabro com a electrocução anal, raios me partam se li. Essa agora…

Despede-se com carinho, este teu eterno amigo, sempre ao dispor para seja lá o que for,

Gil Saraiva

 

 

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