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Carta à Berta

Carta à Berta é o local dos Desabafos de um Vagabundo, do Senhor da Bruma, essa bruma a que chamam de internet, de um Haragano, o Etéreo, qual cavalo selvagem que galopa entre cartas alegadamente, quiçá, sem fundamentos.

Carta à Berta é o local dos Desabafos de um Vagabundo, do Senhor da Bruma, essa bruma a que chamam de internet, de um Haragano, o Etéreo, qual cavalo selvagem que galopa entre cartas alegadamente, quiçá, sem fundamentos.

Carta à Berta: Campo de Ourique - Maria da Fonte, Símbolo de Liberdade

Berta 557.jpgMaria da Fonte - Campo de Ourique - Lisboa – Portugal (Gil Saraiva -Fotos de autor, direitos reservados)   

OS 101 ANOS E 21 DIAS DA ESTÁTUA DA MARIA DA FONTE EM CAMPO DE OURIQUE EM 6 DE OUTUBRO DE 2021

Olá Berta,

Não sei se sabes, mas dá-se o nome de MARIA DA FONTE à revolta no seio do povo cuja primeira chama teve origem no Minho, no decorrer dos idos de maio de 1846, tendo acabado por se propagar a todo o reino de Portugal, desencadeando uma cruel contenda popular que ficaria na história como «A GUERRA DA PATULEIA», que deixou a rainha D. Maria II em muito maus lençóis.

Não me vou armar em historiador, nem pôr-me aqui a desenvolver um grandioso ensaio sobre este período da nossa História, bem pelo contrário, apenas pretendo te apresentar um pequeno vislumbre do ocorrido explicando o como e o porquê da estátua da Maria da Fonte se encontrar desde há cento e um anos no Jardim da Parada em Campo de Ourique.

Pelo que nos dizem os cronistas da época, a causa do conflito teve origem na proibição real de se enterrarem os mortos nas igrejas, como era hábito até então. Este facto serviu de rastilho à revolução, movida pelo ódio popular contra o Governo, contra a política fiscal, e contra a pessoa do Conde Costa Cabral que o liderava e que apelidaria a revolta como a «REVOLUÇÃO DO SACO AO OMBRO E DA ROÇADEIRA NA MÃO».

No dia quinze de setembro de 1920, a propósito dos cem anos da proclamação do regime liberal, foi lançado um marco comemorativo que se traduziu na inauguração de um monumento a Maria da Fonte, a mulher de Fonte da Arcada que terá tido um papel relevante na sublevação das mulheres minhotas, que culminaria com o fim do governo de Costa Cabral, exonerado a 17 de maio de 1846.

Porém, a estátua da Maria minhota de Fonte da Arcada é basicamente usada como um símbolo da libertadora revolta popular que foi fulcral para a consolidação da liberdade e do regime liberal em Portugal, mais do que uma homenagem, propriamente dita, à mulher do Minho que se terá destacado no início dos conflitos de 1846.

A estátua da Maria da Fonte, representa uma mulher de armas, num movimento guerreiro e decidido e é inspirada nas artísticas correntes Naturalista e Realista, sendo de autoria de Costa Motta. Trata-se da imagem, em mármore branco, de uma jovem mulher minhota descalça, que avança bramindo um apelo guerreiro, de arma de fogo na mão direita, ao alto, e com um rudimentar pau com ferrão sobre o ombro esquerdo, antigamente denominado por chuço, num perfeito movimento de incitamento à luta.

A sua colocação no Jardim da Parada, em Campo de Ourique, não é um mero acaso, pelo contrário, serve para realçar o local onde teve origem, nos idos de 1803, o movimento revolucionário gerador das revoltas populares que implicariam o estabelecimento do regime liberal em Portugal.

É a escultura desta mulher do Norte que faz a ponte emblemática e liberal entre o Minho e Lisboa, num claro simbolismo de unidade nacional, a qual, ao ser colocada na capital, no sítio preciso onde o Liberalismo português nasceu, tenta mostrar às gentes que vale a pena lutar pela liberdade.

A demonstração, por intermédio de uma escultura colocada a centenas de quilómetros do local onde a respetiva heroína se notabilizou, traduz assim, de uma forma clara, que locais tão díspares como o Minho ou Lisboa (e que poderiam ter ocorrido entre outros quaisquer pontos do país, como, por exemplo, Ponta Delgada ou Faro) podem contribuir com igual relevância na consolidação da unidade nacional e do valor mais alto que a liberdade representa.

A estátua de Maria da Fonte representa assim, mais do que a consolidação do liberalismo, sob uma forma feminina, decidida e guerreira, a luta de um povo pela unidade nacional contra tiranias, na vontade inequívoca, decidida e persistente da implementação da liberdade.

Por hoje despeço-me, minha querida amiga Berta, cento e um anos e vinte e um dias depois da colocação da escultura de Maria da Fonte no Jardim da Parada, em Campo de Ourique, neste dia seis de outubro, um dia depois do feriado que comemora a implantação da República em Portugal, neste ano de 2021, enviando um beijo saudoso deste teu amigo de sempre,

Gil Saraiva

 

 

 

Carta à Berta: A Teoria do Amor - Parte II - O que é o Amor? Comparo... o amor com o meu bairro. O Bairro de Campo de Ourique...

O Amor e Campo de Ourique.JPG

Olá Berta,

Como o prometido é devido e não de vidro, aqui vai a segunda parte da minha Teoria do Amor. Nada melhor do que leres, descontraidamente, a opinião de um poeta perdido entre a latitude das suas palavras e a longitude dos seus versos. Espero que estejas a passar um excelente dia após esta quadra de Natal. Por aqui as coisas continuam amenas como o tempo que, finalmente, resolveu instalar um período de bonança durante as festividades, em todo o país. Ora bem, aqui vai disto:

TEORIA DO AMOR

Parte II – O QUE É O AMOR?

Ao contrário do que dizia Camões eu não sou dos que acham que o amor é fogo que arde sem se ver. Amor que não se vê é o amor não correspondido, aquele em que apenas uma das partes é detentora do sentimento mais puro. Mas esse não é o objeto da minha teoria. A razão é simples: Quem ama e não é acompanhado, com o mesmo sentimento, pela pessoa amada, mesmo que não o mostre, sofre e sofre muito. É como ter um carro topo de gama e não o poder conduzir, bater um recorde mundial sem ter ninguém para o comprovar, ganhar o Euromilhões e perder o comprovativo, mas, tudo isso junto, elevado a uma potência que eu nem sei calcular. O amor não correspondido é mais uma forma de dor e sofrimento do que uma verdadeira forma de amor.

Infelizmente, não deixa de ser uma subespécie de amor, mas sem a maravilhosa envolvência que faz dele o mais sublime dos sentimentos. Falta o brilho no olhar, a nostalgia do crepúsculo, o encanto do pôr ou do nascer do Sol. Falta a dualidade una.

O amor superlativo, puro, verdadeiro, não se constrói apenas com um ser. Tal como no tango são precisos 2 para o objetivo se cumprir. Senão vejamos: Uma coisa é escutar um tango, mesmo que este seja tocado ao vivo, outra, completamente diferente, é vê-lo ganhar vida, fibra, raça e glória, nos passos eternos de um par que o interpreta com mestria imortal. Sentimo-nos elevados, emocionados, a transbordar sentimentos, durante aqueles poucos minutos em que a música é soberbamente interpretada pelo casal que, com a sua indescritível destreza, nos eleva o espírito e quase nos faz sentir que somos nós quem dança como se não houvesse amanhã.

Ora, muito bem… o tango pode fazer com que vibremos por minutos, contudo, o amor faz o mesmo, mas durante o resto da vida dos dois seres que, depois de se encontrarem pela primeira vez, o partilham para a eternidade. Vibram para sempre num tango sem fim, magicamente interpretado por dois corações, 2 almas gémeas, que tiveram a fortuna de se encontrarem e se desfrutarem mutuamente numa simbiose tão única que 2 parecem um. Um paradoxo brilhante e vivo em cada caso, em cada par, que o encarne com verdade.

O amor, o verdadeiro amor desafia a matemática e as leis da física. Um mais um deixam de ser 2 e passam, na mais límpida realidade, a ser, apenas e só, um. Podem até, aos olhos de terceiros, parecer 2. Mas o importante passa-se noutro nível bem superior. Um amor, uma vida, uma experiência, um sentimento, uma viagem, um ser superior. Porque o amor é o único sentimento que distingue o ser humano dos restantes animais.

Podem os apaixonados pelo mundo animal dar milhares de exemplos de como eu estou errado. Todavia, embora entenda a confusão, os animais não amam, nem conhecem o amor, dedicam-se. Seja ao seu parceiro numa monogamia livre e selvagem, que pode durar uma vida, seja, no caso de alguns animais domésticos, ao seu dono ou dona, ou, no plural, aos seus donos.

Até acho aceitável que se use, em termos ternos e comparativos, a palavra amor, mas não é verdadeiramente a mesma coisa. Existe toda uma dimensão na fusão dos pensamentos e dos egos que não se consegue encontrar no mundo animal. Aliás, não é de estranhar que muitos destes defensores desta quase forma de amor, nunca tenham, eles mesmo, encontrado a sua alma gémea no espetro da sua própria espécie. Porém, sou dos que respeita e valoriza a relação do ser humano com as outras espécies animais deste mundo. Os bichos podem não amar, mas sentem, e é muito bonito respeitar todo e qualquer ser que sinta.

Comparo muitas vezes o amor com o meu bairro. O Bairro de Campo de Ourique é uma excelente imagem para explicar o que é o amor. Mesmo antes de ser uma e uma só freguesia, o bairro era composto por 2 freguesias, lado a lado, ombro a ombro, sempre, complementando-se e dando a sua quota parte ao outro para que este se sentisse completo. Se uma tinha a Escola de Hotelaria e Turismo, o outro tinha a UAL, com os seus cursos de artes e arquitetura. Um possuía a grande diversidade de comércio e serviços e a outra tinha as ruas estreitas, o povo simples e dedicado, e a colina suave que a levava ao seu par. Um, Santo Condestável, a outra, Santa Isabel, um par perfeito feito de um amor chamado Campo de Ourique.

Santa Isabel nunca foi igual ao Santo Condestável, nada disso, são elementos complementares de um bairro único, quiçá, no mundo. Ela com a Casa Museu Amália Rodrigues, ele com a Casa Fernando Pessoa, ambos a fazerem fronteira com o romântico e delicioso Jardim da Estrela. Um local de namoro urbano onde, fossem eles pessoas, os teríamos muitas vezes visto a namorar. Ela com o Ginásio Clube Português, o Clube Atlético de Campo de Ourique e os Alunos de Apolo, ele com as Piscinas Municipais, onde o convite à natação, torna ainda mais fluída toda a relação. Diferentes, complementares, mas um só bairro, um só par, num bater de corações em uníssono, tão uníssono que parecem uma e apenas uma entidade: o Bairro de Campo de Ourique. Parecem? Eu disse parecem? Nada disso, são uma entidade!

Em resumo, o amor é o ser abstrato, que podemos visualizar numa única paisagem que, para os olhos de quem ama, traduza a unidade de uma dualidade. A paisagem pode ser diferente em cada observador, mas o seu significado será sempre o mesmo. Seja Santa Isabel e Santo Condestável formando Campo de Ourique, onde uma única flor vermelha é capaz de florir sozinha, sob a proteção firme da Maria da Fonte, seja a Bruma trazida pelo Atlântico à Serra de Sintra, que se transforma na Serra da Lua, seja a Ria Formosa, que se gera no espaço entre a costa e as ilhas que a cercam, formando uma maravilha sem igual no Sotavento Algarvio. O amor só existe a 2 e só se vive a um, uno e indivisível.

Não te zangues comigo, minha amiga Berta, se não fui romântico o suficiente ao falar de amor. Posso não ter escolhido os exemplos que tu escolherias, não ter escrito versos languidos e apaixonados, mas a intensão era apenas dizer-te o que acho que é o amor. Não com muitos floreados, de forma clara, e dentro do possível objetiva. Espero ter dito o suficiente para ter o teu entendimento.

Despeço-me com o beijo costumeiro, este teu amigo do coração,

Gil Saraiva

 

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