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Carta à Berta

Carta à Berta é o local dos Desabafos de um Vagabundo, do Senhor da Bruma, essa bruma a que chamam de internet, de um Haragano, o Etéreo, qual cavalo selvagem que galopa entre cartas alegadamente, quiçá, sem fundamentos.

Carta à Berta é o local dos Desabafos de um Vagabundo, do Senhor da Bruma, essa bruma a que chamam de internet, de um Haragano, o Etéreo, qual cavalo selvagem que galopa entre cartas alegadamente, quiçá, sem fundamentos.

Carta à Berta: O Porquê da Campanha da Bandeira Azul

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Olá Berta,

Comecei este ciclo de cartas sobre o ambiente e não falei até ao momento daquele que é o mais antigo e permanente programa ambiental nesta transição de milénios em Portugal. O adiamento teve a ver, principalmente, por não saber, numa altura em que estamos em pleno inverno, se era relevante referir uma Eco Crónica, feita para o Expresso, em que, a Voz da ABAE explicava ao público em que consistiam as Campanhas Anuais da Bandeira Azul.

Contudo, acho que tem muito a ver com aquilo que te venho referindo, minha amiga, porque, até o banho se deseja sustentável… afinal, todos nós, ou pelo menos a maioria dos portugueses, gostamos de “ir a banhos” sempre que uma época balnear tem início. É natural, é próprio de um povo banhado pelo oceano, e está-nos na “massa do sangue”. Hoje em dia a praia tornou-se um bem, um prémio sublime após cada ano de trabalho, um ponto de vital interesse para os turistas que nos visitam em busca de Sol e Mar.

A praia traduz-se, neste despontar do Terceiro Milénio, numa oportunidade de usufruto de algo superiormente relaxante, na demonstração de uma determinada qualidade de vida, numa fonte de receita turística que parece infindável como o próprio oceano, que tão gentilmente banha todo o nosso vasto litoral. Bronze é status! Mar é surf, bodyboard e desportos radicais!

Praia é prazer, relaxe, turismo, ou seja, recurso natural com propriedades únicas. Mas nem sempre aquilo que parece é. O recurso natural e infindável tende a desaparecer a “olhos vistos”. O problema: somos nós mesmos. A matéria-prima está cada vez mais contaminada. Lixo, poluição marítima das águas que banham as praias, estruturas mal concebidas para exploração do recurso, enfim… a lista parece nunca mais ter um fim que se considere aceitável.

Devido a toda esta problemática, Berta, era imperativo educar, mas educar ambientalmente, ensinando os utilizadores e os exploradores deste precioso bem a preservá-lo. A ABAE, sendo uma associação diretamente vocacionada para a educação ambiental, tomou a seu cargo, há mais de 15 anos, o papel de moderadora e conselheira, tornando-se numa verdadeira orientadora, no que às boas práticas e respetivos cuidados importava levar em linha de conta, para que o uso das praias se apresentasse cada vez mais como um recurso reutilizável com qualidade.

Ao lançar a Campanha Bandeira Azul em Portugal a ABAE, membro da internacional Fundação para a Educação Ambiental (FEE), já lá vão mais de 30 anos, resolveu premiar anualmente os municípios que defendem as suas praias, cumprindo e fazendo respeitar um conjunto rigoroso de critérios de qualidade praia a praia, caso a caso. O intuito não apenas tinha como preocupação o uso devido dos recursos disponíveis, mas também ensinar como fazê-lo.

Para uma praia poder aspirar a uma Bandeira Azul passou, então, a ser necessário, que o município onde esta se encontra, se candidate ao galardão. Para o fazer, porém, tinha, e tem, de reunir, em torno da praia ou praias que escolher, uma série de qualidades balizadas por critérios bastante rigorosos e apertados. Qualquer praia pode-se candidatar, desde que esteja oficialmente designada como Zona Balnear (nacional ou internacionalmente) pela entidade responsável e desde que cumpra os requisitos que lhe são exigidos.

Existiam, e mantêm-se, 2 tipos de critérios distintos na candidatura ao Galardão. Os imperativos, que implicam a obrigatoriedade do seu cumprimento absoluto e os critérios tipo guia, que apontam linhas de conformidade a cumprir uma vez que, eles próprios, tendem a evoluir, gradualmente, para se tornarem critérios imperativos.

Os 2 tipos de critérios encontram-se ainda divididos em três grupos chave: Qualidade da Água de Banho; Informação e Educação Ambiental; Gestão Ambiental e Equipamentos. Todos os grupos são classificados por valores imperativos (que têm de ser cumpridos) e valores guia (que se aconselha o cumprimento), mas não importa agora descrevê-los. Importa reter sim, é a noção de que se, por exemplo, a Qualidade da Água de Banho não se encontrar dentro dos parâmetros imperativos a praia não recebe o galardão ou este pode mesmo ser-lhe retirado a meio de uma determinada temporada.

Todos nós, ou pelo menos a maioria dos portugueses gosta de “ir a banhos” sempre que uma época balnear tem início. É natural, é próprio de um povo banhado pelo oceano, e está na nossa própria génese. A Campanha Bandeira Azul apenas nos ajuda a cumprir, com segurança, qualidade, informação e conhecimento, esse prazer nas nossas praias, assim como contribuir para que os recursos possam manter a longevidade que todos desejamos. “Bons banhos, Portugal” é, sem dúvida alguma, o fito último destas campanhas e foi este objetivo de guia e orientador que manteve vibrante, viva e atuante a própria campanha ao longo de todos estes 30 anos.

Contudo, pese embora a sua extrema importância, há um outro critério que a associação mantém sobre vigília, mas que continua sem entrar nas contas das atribuições dos galardões da Bandeira Azul. Estou a referir-me à qualidade das areias nas praias em todo o território nacional.

Em 2002 a ABAE lançou um programa importantíssimo de monitorização da qualidade das areias em zonas balneares, em parceria com diferentes entidades, que variaram ligeiramente ao longo dos anos, entre as quais o Instituto Nacional de Saúde Dr. Ricardo Jorge (INSA), diferentes e variadas Câmaras Municipais, e as diferentes entidades que mais tarde foram agrupadas na APA (a Agência Portuguesa para o Ambiente).

Uma imensa quantidade de amostras das areias balneares foi sendo recolhida em mais de 30 zonas distintas, tendo revelado, em cerca de 20 por cento delas a existência de fungos e bactérias, entre elas a “E.coli”, embora estes microrganismos surgissem em valores abaixo dos máximos admitidos, na maioria das praias, segundo os dados apresentados nos estudos laboratoriais encomendados ao Instituto Nacional de Saúde Dr. Ricardo Jorge (INSA) e com o apoio da Agência Portuguesa do Ambiente (APA).

Estas iniciativas, sobre a Monitorização da Qualidade das Areias em Zonas Balneares, da Associação Bandeira Azul da Europa, passaram a ser divulgadas, anualmente, em relatórios, que são habitualmente publicados e também difundidos pela Agência Lusa, para que os seus resultados cheguem facilmente à generalidade dos utentes, exploradores e utilizadores das praias portuguesas.

Importa referir, que, à medida que a segurança e qualidade das zonas balneares se for desenvolvendo, não será de estranhar que a qualidade das areias passe a constituir um critério de igual valor aos até agora adotados. Apenas é preciso arranjar, amiga Berta, os mecanismos de agilização da recolha, análise e interpretação dos resultados em tempo útil, como já se consegue fazer com as análises referentes à qualidade das águas do mar.

Nas nossas praias é fácil encontrarmos a presença de “fungos leveduriformes”, de “fungos filamentosos” que são potencialmente patogénicos ou alergénicos, bem como a de “fungos dermatófitos”.

Por outro lado, no que às bactérias diz respeito, os aparecimentos mais frequentes são as da “Escherichia coli”, “coliformes e enterococos” intestinais. Contudo, estamos longe de concluir e garantir que a presença destes microrganismos, nomeadamente das bactérias, dê origem ao desenvolvimento de uma doença ou outra doença. Aliás, afirmam os especialistas, ter fungos ou bactérias não quer dizer que as areias das zonas balneares tenham má qualidade.

A única coisa que é certa é que existem vários fatores que influenciam negativamente a qualidade das areias e que importa monitorizar, minha  querida amiga, sendo os principais o lixo abandonado na areia e nas dunas, a sobrelotação de diversas praias por parte dos utilizadores, as atividades piscatórias com rede junto das zonas balneares e o respetivo abandono na areia de peixes e crustáceos não comercializáveis, a admissão de animais domésticos sem recolha imediata das suas fezes, a presença significativa de aves marinhas e o abandono de matéria orgânica disponibilizando-a no meio envolvente da praia.

Para resolver estas, e outras situações de menor importância, é recomendada a recolha frequente do lixo abandonado na areia, bem como a remoção mecânica e diária dos lixos, se possível associada ao revolver do areal, arejando-o e renovando a sua exposição aos raios UV do Sol. Para além disso, é importante a colocação de recipientes de lixo adequados às dimensões das praias e dos espaços adjacentes e a limitação do acesso às praias por trajetos bem definidos, sem com isso retirar o espaço necessário ao lazer circundante.

Outra área fundamental, que não pode, nem deve, ficar esquecida, é a da prevenção, implicando a realização de análises às areias ao longo de todo o ano para que se possa constituir um perfil da qualidade de cada praia, tornando assim possível a prevenção e a criação de métodos adequados para que se evitem os picos de contaminação microbiológica.

As alergias respiratórias, as renites alérgicas, o aparecimento de fungos na pele, entre outros problemas menos repetidos, estão dentro dos problemas mais frequentes das zonas balneares menos cuidadas, cara Berta. Falta ainda salientar que é igualmente importante identificar, vigiar e tratar, se necessário, outras fontes de contaminação adjacentes às praias como, por exemplo, a existência de cursos de água afluentes junto às zonas balneares, como é o caso das ribeiras.

Outra coisa que se deveria evitar é o ciúme demonstrado entre as diferentes associações ambientais, que tentam de todas as formas roubar protagonismo à associação rival. Um bom exemplo disso foi (e ainda é) a criação por parte da Quercus do galardão “Praias de Qualidade de Ouro” em concorrência nítida com as praias de Bandeira Azul atribuídas pela ABAE. A duplicação de recursos não só não é benéfica como confunde o público em geral. Eu sou, minha amiga, pelo ditado que afirma “cada macaco no seu galho”.

A Quercus não precisa de ter protagonismo nesta área, tem uma dinâmica bem enraizada noutras áreas da defesa ambiental e por aí se deveria manter. Mas isto sou eu a pensar, que nada tenho a ver com o assunto.

Muito mais haveria a dizer sobre toda esta temática, mas julgo, minha amiga, que ficaste com uma ideia geral sobre a Campanha da Bandeira Azul da Europa que era o que nesta carta importava referir. Despeço-me com um beijo, este teu saudoso amigo de sempre,

Gil Saraiva

Carta à Berta: A Teoria do Amor - Parte III - Viagem Para o Paraíso

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Olá Berta,

Desculpa ontem ter enviado 2 cartas, mas tive que desabafar. Há coisas que não devem ficar para o dia seguinte. Sei que não te importas destes pequenos abusos da minha parte, mas mesmo assim, por seres a amiga que és, acho que fica bem uma justificação.

Mando-te a terceira parte do poema que te tenho enviado aos poucos porque, ao fim ao cabo, são 4 poemas num só. Não quero que apanhes um enjoo de linguagem poética. Assim, aos poucos digeres melhor. Aqui vai:

 

"OS OUTROS - TRAGÉDIA EM QUATRO ATOS"

 

                   III

 

"VIAGEM PARA O PARAÍSO"

 

Perante os migrantes vindo do Oriente,

A Europa justa vai abrir os portões,

Dizem os líderes da União Europeia,

Criam cotas, repartem apoios, vão à televisão…

Mas a verdade esconde-se, abriga-se,

E o que se fala nada quer dizer, nem tem tradução;

Mas todos prometem intenções tão boas,

Numa teoria que jamais será Tese, Lei ou Saber.

 

Aceitam milhares, dizem os jornais,

Mas fazem-se muros, que é farpado o arame,

Entram meia dúzia, um pouco mais, mas de pouco não passa,

A custo, a medo, que a vergonha não esconde a cara…

 

Impera o cinismo, dizem que é cedo,

Mas para os migrantes o tempo parou,

E tentam entrar de qualquer maneira nessa Europa

Onde solidariedade se escreve a borracha,

Onde esperança é palavra oca que o vento varreu…

 

Por entre os milhares, fugidos da Síria curda,

Entre fome e sangue, entre dor, pânico e sobrevivência,

Uma família que o lar perdeu na perdida Kobane,

Já na Turquia, procura uma forma de chegar à Grécia, a Kos,

Nem terra, nem ar, que apenas o mar é solução…

 

E ali, em Bodrum, a dois passos da Europa,

Um casal com dois filhos decide arriscar,

Um entre os milhares que já são milhões.

 

Da praia de Ali Hoca partem de barco feito borracha

Que apaga vidas…

Onde cabem dez viajam cinquenta,

E dá-se a tormenta, o naufrágio, mais um,

Sobrevive o pai, sucumbe a mãe e as duas crianças,

De três e cinco anos que a idade é tenra

Mas a morte não.

 

A viajem acaba, como começou, em calamidade,

Igual a tantas outras que a precederam,

E assim chegaram, todos ou quase, por fim, finalmente,

A um paraíso que não tem país.

 

Sabes, minha amiga, costumo dizer que a maior sorte que tive em toda a minha vida foi ter nascido em Portugal. Para esta gente que nasceu nestes lugares, para onde o inferno tem os portões abertos, sobreviver já é uma aventura. Quando penso nisso e nos meus problemas acho que reclamo de barriga cheia.

Deixo-te um beijo de despedida, com as saudades que imaginas deste teu velho amigo de sempre,

 

Gil Saraiva

Carta à Berta: Imagine-se...

https://www.youtube.com/watch?v=NAEppFUWLfc  A Art Garfunkel... a minha modesta homenagem a um homem de 78 anos...

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Olá Berta,

Fico feliz de saber que tens reparado no facto de as minhas crónicas, nesta época festiva não terem a minha componente satírica e crítica habitual. Com efeito tenho-me esforçado por me manter mais calmo durante as festividades. Perguntaste-me o que é que eu via na Ria Formosa de tão extraordinário para me referir à paisagem como uma das analogias que usei na minha Teoria do Amor – Parte II. Pois bem, como sabes eu vivi 18 anos no Algarve, precisamente na mesma zona onde tu te encontras e tive imenso tempo para lhe absorver a envolvência. Segue o poema que deu origem à comparação que fiz. Espero que seja do teu agrado. O poema chama-se “Imagine-se”, mas tu não precisas, basta-te olhar para entenderes, espero que consigas ver e sentir o que eu captei, não pelos meus olhos mas pelos teus:

 

"IMAGINE-SE..."

 

Imagine-se

Um mar de prata

Bordado ao ouro macio

De um pôr-do-sol.

 

Deixemos agora

A nossa mente

Colocar algumas aves nidificando

Na costa fina de arbustos salgados,

Reserva natural

De um qualquer sonhado paraíso...

 

Em silêncio,

Os bateres de asas,

Se confundem com o restolhar do vento

Que sorri prá primavera

Agora tão tangível...

 

O sentimento é por certo de harmonia!...

 

Pra quem não sente em verso

O deleite que os sentidos propiciam,

Recomendo que respirem fundo,

Deixem entrar languidamente

O cheiro a maresia...

 

Issooo...

Procurem agora sentir

A aragem vos acariciar,

De leve,

Passando-se suave

Pelo brilho dos olhos

E obrigando ao esvoaçar de alguns cabelos...

 

Com o olhar

Sigam as aves

Que gritam cânticos de amor

E de acasalamento...

 

Se entreabrirem os lábios

As papilas vão, por certo,

Detetar o gosto a mar,

O gozo das sensações plenas

E do encontro puro

E idílico com Gaia,

A deusa que voluptuosa

Representa a Terra original...

 

Sentem?

Agora pensem,

Com um sorriso,

Num amor ausente...

 

Procurem influenciar a mente,

Mas sem esforço...

 

Issoooooo...

Estão vendo a sereia…?

Nesta Ria Formosa

Onde imaginar

Se torna milagre,

Esperança, acreditar,

Apenas o belo tem lugar.

Aqui não existe crise, cortes,

Recessão, nem suicídio…

Apenas amor, emoção

E a delicada teia dos sentidos…

 

É no exato instante,

De sensual

E romântica lasciva,

Em que de joelhos

Nos dobramos

Para colher uma flor

De beira de caminho,

Que estamos integrados!

Cheios de amor,

De vida e de natura,

Enfim, de plenitude!

 

O voo simultâneo dos flamingos

Faz-nos crer que o mundo

É cor-de-rosa

E que a vida,

Afinal, tem sentido.

 

Imagine-se

Um mar de prata

Bordado

Ao ouro macio

De um pôr-do-sol

E conclua-se

Que afinal amar

É simples...

 

Senão o mar seria água

E nada mais,

As aves: pássaros

E a reserva: pântano...

 

Imagine-se...

 

Este é, Berta, um dos poemas que escrevi até hoje que mais mexe comigo, é… sei lá, a natureza em todo o seu fulgor, é vida, essência e existir. Tem em si um não sei quê a mais e comporta ainda o como da esperança, da felicidade e, irremediavelmente, do amor, do amor puro, sincero, franco, genuíno e verdadeiro.

Minha querida amiga, recebe um beijo de saudades teu amigo de sempre,

Gil Saraiva

 

 

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