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Carta à Berta

Carta à Berta é o local dos Desabafos de um Vagabundo, do Senhor da Bruma, essa bruma a que chamam de internet, de um Haragano, o Etéreo, qual cavalo selvagem que galopa entre cartas alegadamente, quiçá, sem fundamentos.

Carta à Berta é o local dos Desabafos de um Vagabundo, do Senhor da Bruma, essa bruma a que chamam de internet, de um Haragano, o Etéreo, qual cavalo selvagem que galopa entre cartas alegadamente, quiçá, sem fundamentos.

Carta à Berta: O Cara de Cu

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Olá Berta,

A operação já passou. Segundo o médico cirurgião que me operou (e que afirmou estar farto de fazer este tipo de operações) nunca lhe tinha calhado uma vesícula enorme, bastante espessa, repleta de aderências e escondida por detrás do intestino.

Ainda hoje não sei se esta descrição me foi transmitida para justificar as duas horas e meia de operação, em vez dos 30 minutos costumeiros. O que sei é que o cirurgião pensou várias vezes em me abrir, pois teria sido mais fácil de conduzir a cirurgia.

Também me foi explicado que não podia ficar dois dias no recobro porque o meu vale, aquilo que o SNS contratou com o Hospital Trofa Saúde da Amadora, apenas requisitava serviço ambulatório, não estando previsto qualquer internamento.

Pelo que me foi dito, parte das imensas dores que sinto devem-se ao facto de o estomago e os intestinos terem sido tremendamente mexidos e remexidos para que o médico conseguisse acesso à famigerada vesícula e de forma a conseguir cortar-lhe o acesso.

O que isto quer dizer é apenas que o Serviço Nacional de Saúde não estava disposto a pagar aos privados uma operação que se podia tornar complicada, como veio a ser o caso, mas apenas uma operação de rotina, não deixando sequer uma alternativa ao Trofa Saúde para me poder internar se algo não corresse dentro do previsto, como, aliás, veio a acontecer.

As dores que sinto, para tentar explicar mais claramente, são equivalentes às que teria se um cão, estilo Dobermann, me estivesse a abocanhar seis diferentes partes internas da minha pança ou bandulho. Ainda por cima são permanentes e não passam com os dois analgésicos e o antibiótico que estou a tomar. A sensação de dor aguda constante só me lembra uma matilha de hienas a banquetear-se na minha barriga, num festim macabro a que eu sou obrigado a assistir vivinho da silva.

Segundo o médico este conjunto de dores só amanhã é que começará a abrandar. Espero, minha querida amiga, que assim seja. Caso contrário estou seriamente tentado a chamar uma ambulância e a apresentar-me nas urgências do Hospital São Francisco Xavier.

Rir, soluçar, tossir, espirrar ou soltar um traque, são atos que provocam uma dor equivalente ao arrancar de um dente do siso, a frio. E não penses que sou daqueles que se queixam por tudo e por nada. Pelo contrário, costumo aguentar sem um esgar a maioria das dores que tenho.

Quando fui operado à boca, para colocar implantes totais, em cima e em baixo, tiveram de usar uma rebarbadora, em miniatura claro, para me aplanarem as bases dos maxilares onde iam aplicar os implantes. A operação foi até ao fim sem a anestesia ter pegado e mesmo assim, não sofri metade do que sinto hoje.

Segundo o meu médico só quinta-feira é que posso comer alimentos sólidos. Lá vou eu perder mais uns quilitos até ficar bem. Porém, minha querida amiga Berta, como tu bem sabes, eu arranjo sempre um motivo ou outro para fazer sorrir os que me rodeiam. No caso desta operação existiram vários que só dá para rir. Como eu não o consigo fazer, ris tu em meu lugar, combinado?

Uma enfermeira novita (não teria mais do que 25 anos) veio-me buscar à sala de espera, para me levar para o bloco operatório. No caminho, passámos por um vestiário, onde ela me pediu que trocasse a minha roupa, pela bata, chinelos, touca e máscara que usaria no bloco. Assim fiz. Num cacifo coloquei as minhas coisas, vesti a bata branca, e meti a touca azul, na cabeça, com dois buracos para as orelhas e a máscara e os chanatos. Sobrava-me uma espécie de pulseira verde que eu não sabia para que servia.

A rapariguita bateu à porta e fez uma cara estranha de espanto quando me viu fardado. Fiquei sem saber o que pensar. Ao fim de uns segundos a miúda lá arranjou coragem para falar. “-Senhor Gil, as cuecas é para pôr em baixo e não na cabeça.” Disse ela visivelmente atrapalhada. Eu que julgava que os buracos da touca eram para as orelhas fiquei assim informado que serviam antes para pôr as pernas. A touca era a espécie de pulseira verde-alface, que se abria toda, para se conseguir enfiar depois na cabeça. Segundo a rapariga tudo aquilo era evidente e eu lá lhe expliquei ter pouca experiência daquele tipo de kits.

Afinal, os buracos da cueca pareciam mesmo feitos à medida para as orelhas, para depois se conseguir encaixar a máscara com facilidade. Só que, como tudo aquilo era elástico também neles acabaram por caber as pernas. Finalmente, a jovem abriu de novo a porta e pareceu mais tranquila quando me viu devidamente composto. No caminho para o bloco ainda disse duas vezes; “O senhor Gil desculpe, mas ainda não acredito que achou mesmo que a cueca era para pôr na cabeça…”

E com esta minha aventura termino a carta de hoje. Como vês, minha amiga, devo ter cara de cu, pois usei a cueca no sítio errado. Recebe um beijo deste teu saudoso amigo, que não te esquece,

Gil Saraiva

 

 

 

Carta à Berta: Livro - O diário Secreto do Senhor da Bruma - Os Primeiros Apontamentos - I.5

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Olá Berta,

Fico muito contente em saber que já te riste algumas vezes e sorriste outras tantas. Conforme dizes, e bem, o humor e “non sense” juntos, para quem não é britânico ou psicologicamente desarranjado nem sempre é fácil de apanhar à primeira.

Embora tenhas escolhido muito bem as palavras, fiquei na dúvida se me estás a elogiar ou a chamar maluquinho. Mas não importa. Continuemos com o Diário Secreto do Senhor da Bruma”.

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I

Os Primeiros Apontamentos (continuação I-5)

Janeiro, dia 29

Máscara:

  • Para além de designar o adereço usado para esconder algo ou alguém, a palavra ganhou, recentemente o significado de adereço de vestuário para proteção viral em situações de falta de confinamento ou de desconfinamento, permitindo, com as devidas distâncias, algum convívio social mais controlado. É totalmente falsa a afirmação de que a máscara protege, seja quem for, da prática de relações sexuais, sodomias e outras tropelias.

Máscara - Advertências:

  • Nunca use a sua máscara para se assoar, limpar qualquer tipo de secreções, fluidos orgânicos, urina ou fezes. A utilização de perfumes, à posteriori, para disfarçar esse uso, não desinfeta, em caso algum, o produto.
  • O uso deste acessório no pescoço não o protege de qualquer tipo de contaminação, como também não o impede de ser estrangulado por um maníaco qualquer.

Janeiro, dia 30:

Máscara cirúrgica:

  • Proteção das vias respiratórias, nariz e boca, habitualmente usada em procedimentos cirúrgicos, composta por tecidos filtrantes do ar, mais concretamente em contexto médico ou hospitalar operatório, como proteção viral ou bacteriológica, ou seja, para evitar contaminações, e, nos dias de hoje, com aplicação corrente na proteção e combate à propagação de uma epidemia no meio humano e social. Esta máscara, contudo, não impede um cretino de continuar a sê-lo.

Janeiro, dia 31:

Máscara Social:

  • Adereço de moda, que hipoteticamente deveria ter as mesmas caraterísticas filtrantes da sua congénere cirúrgica, mas que, muitas vezes, apenas cumpre o seu propósito de acessório de luxo.
  • Embora possa ser utilizada também de forma eficaz contra o mau hálito, este elemento decorativo não nos defende contra a má língua que um seu utilizador possa ter.

Fevereiro, dia 1:

Máscara Caseira:

  • Criação muito baratucha de um objeto simples que nos possa defender socialmente, em grupo, da transmissão comunitária de vírus ou bactérias de origem respiratória.
  • Inventada pelo povo, para o povo e porque o povo tem de ter uma alternativa minimamente aceitável feita à medida do seu bolso.
  • Todavia, a sua utilização não garante uma proteção 100% eficiente, salvo raras exceções, e de nada serve se, como todas elas aliás, for usada como gargantilha.
  • Não se conhecem casos reais em que a mesma seja determinante contra a verborreia de certos imbecis.

Fevereiro, dia 2:

Máscara Certificada:

  • Peça aprovada, como eficaz nos seus prossupostos de proteção e filtragem, pelos responsáveis oficiais do setor a nível dos respetivos órgãos de poder. Exige candidatura dos fabricantes à sua certificação, pagamento das devidas taxas e só é eficaz nos países onde o setor de autenticação não sofre já de contaminação por corrupção.
  • É uma das máscaras mais caras do mercado, só superada por certas máscaras sociais da alta roda da moda.
  • Normalmente pouco estéticas, porque certificação não implica bom gosto, em países civilizados podem ser realmente eficazes.
  • Porém, para além de ser um produto muito sujeito à contrafação, são totalmente inúteis em termos estéticos, não oferecendo benefícios de beleza a nenhuma cara de cavalo que a possa querer usar, pese embora se reconheça que pode ajudar as pessoas feias a passarem mais despercebidas em sociedade, evitando o seu isolamento social.
  • É a máscara de eleição do novo rico, do idiota chapado e dos hipocondríacos.

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Por hoje termino e me despeço com um beijo, deste teu eternamente amigo, repleto de saudades de ti, amiga Berta, e esperançoso de te rever em breve,

Gil Saraiva

 

 

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