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Carta à Berta / Desabafos de um Vagabundo / Miga, a Formiga / Estro

Julho de 2022: blogs do Senhor da Bruma, assinados por Gil Saraiva, são reunidos em "alegadamente": Estro (poesia), gilcartoon (cartoons) e Desabafos de um Vagabundo (plectro). Tudo deve ser entendido no âmbito do alegadamente.

Julho de 2022: blogs do Senhor da Bruma, assinados por Gil Saraiva, são reunidos em "alegadamente": Estro (poesia), gilcartoon (cartoons) e Desabafos de um Vagabundo (plectro). Tudo deve ser entendido no âmbito do alegadamente.

Carta à Berta n.º 605: Portugal - Brasil - A Viagem de um Coração

Berta 605.jpg

 Olá Berta,

Numa altura em que o Brasil festeja os seus dois séculos de independência, esta carta, minha querida, chega a ti a propósito do circo montado em torno da viagem do horrível coração de D. Pedro IV de Portugal e, simultaneamente, D. Pedro I do Brasil, enfiado num frasco de formol, que atravessa o Oceano Atlântico, que separa Portugal do Brasil, para ser exposto, bizarramente, durante uns dias no nosso país irmão.

Só o facto de terem enfiado o coração do ex-monarca em formol, transformando-o numa relíquia, já é, por si só, um facto arrepiante e de um mau gosto atroz (embora fosse uma vontade expressa do monarca). Depois, minha amiga, o facto de duas repúblicas se prestarem a este ritual ainda torna tudo mais gótico, desconcertante e macabro.

Conforme tu sabes, Bertinha, eu nunca fui um fervoroso adepto de Lula da Silva, mas, e isso importa, perante a presidência de Jair Bolsonaro, faria a minha escolha eleitoral facilmente à esquerda, se fosse brasileiro.

Podes pensar, minha querida, que eu não gosto de Bolsonaro por ele ser um tipo de direita, na linha de Trump, Ventura, Orbán, Putin, entre outros, mas é mais do que isso, muito mais. Bolsonaro tem tiques de ditador e mistura religião e política de um modo que considero abjeto e intolerável. A somar a isso as suas atitudes no poder demonstram uma cultura racista e xenófoba inaceitáveis neste século XXI.

Como já te contei, por variadíssimas vezes, eu tive casa no Brasil durante vários anos. Aliás, foram duas, primeiro, uma fazenda em Eusébio, perto de Fortaleza e, depois, um apartamento em Natal. Não fosse a degradação do nível de vida em Portugal e, minha doce amiga, eu ainda teria ambas. Porquê? Porque adoro o Brasil enquanto país e os brasileiros e brasileiras enquanto pessoas e enquanto povo. Só não consigo gostar de fanáticos religiosos e de radicais de direita ou de esquerda, sejam eles de que país forem.

Tenho amigos no Brasil há mais de 37 anos, minha querida. Gosto da alegria de um povo, que consegue rir sempre, mesmo quando sofre na pele a violação constante da amazónia, a falta de cuidados de saúde para uma grande fatia da sua população e o abuso dos poderosos. Contudo, tenho orgulho de termos dado a independência ao território numa época em que ainda nem se falava de independência de colónias em lugar algum do mundo.

Porém, Berta, não alinho em espetáculos deploráveis, como o envio do coração de um monarca, enfiado em formol, como se fosse algum relicário religioso e sagrado. Só o facto, por si mesmo, é capaz de gerar, observações deploráveis de governantes, como as de Bolsonaro que, ao receber a relíquia no Palácio do Planalto, em Brasília, proferiu, logo após o hino, a frase fascista gasta por Salazar: “Dois países, unidos pela história, ligados pelo coração. Duzentos anos de Independência. Pela frente, uma eternidade em liberdade. Deus, pátria, família! Viva Portugal, viva o Brasil!”, uma formulação a lembrar o antigo regime português.

Este salazarento “Deus, pátria, família…” é que envenena todo o discurso de Bolsonaro e revela intensões históricas de tirania, intolerância, racismo e xenofobia. Ora isso, Bertinha, é mesmo inaceitável. A celebração da Independência do Brasil, devia ser uma festa de inclusão, liberdade, tolerância, direitos humanos e de esperança dos dois povos no futuro e jamais servir como um difusor distorcido de más práticas do passado e de ideias bolorentas que se desejam arquivadas nos anais da história. Aqui fica o meu protesto, contra esta trasladação gótica, assustadora e macabra de gosto muito duvidoso, recebe um beijo deste teu amigo,

Gil Saraiva

 

 

 

Jorge Jesus e Lula da Silva

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Olá Berta,

Perguntar-te se estás bem parece-me desnecessário visto que ainda ontem conversámos. Conto que continues fina e alegre como sempre te conheci. Não sei se tens acompanhado as notícias do nosso país irmão. Irmão, digo eu, porque para alguns brasileiros somos mais um primo afastado, quase desconhecido, que interessa manter longe da restante família. Mas esses são a exceção, pelo menos eu prefiro pensar assim.

Ontem, um tal de Jesus, adotado pela enorme massa adepta do Flamengo, conseguiu cumprir mais um jogo vitorioso frente a um Bota-Fogo, constituído principalmente por caceteiros profissionais. Porém, o Mister continua, serenamente, passo a passo, a fazer a sua caminhada em direção à consagração. Uma tarefa impressionante, tendo em conta que a média de sobrevivência de um treinador pelas terras do samba é de 4 meses, mais coisa menos coisa.

Quando Jorge Jesus chegou ao Brasil, para treinar o Mengão, este estava a 8 pontos de distância do primeiro lugar e a Taça dos Libertadores era uma miragem muito ao fundo de um negro túnel sem ponta de visibilidade.

Hoje, a 7 jogos do final do Brasileirão, o Flamengo, tem 8 pontos de vantagem sobre o segundo classificado, o Palmeiras, Jesus, que já bateu o recorde de pontos no campeonato, continua a sua escalada em ascensão a caminho do título. Em pouco mais 3 meses e 3 semanas, o treinador recuperou 16 pontos e está já apurado para a final da competição favorita de todos os brasileiros, a Taça dos Libertadores, disputada entre os melhores clubes dos diferentes países da América do Sul, que muitos consideram uma espécie de Liga dos Campeões do continente sul americano.

Eu, que nunca fui fã de Jorge Jesus, desde que ele saiu do Sporting de Braga, vejo-me agora a torcer pelo homónimo do Cristo Rei, com ganas de adepto fervoroso. Ai-ai, as voltas que a vida dá, minha querida amiga. Com a minha idade já devia ter aprendido a ficar calado porque nem sempre se pode dizer “desta água não beberei” com certezas absolutas.

Outra notícia que me espantou foi a da libertação de Lula da Silva, o ex-Presidente do Brasil. Aconteceu hoje. A ordem foi dada e cumprida no próprio dia. Embora muita gente considere o homem um corrupto, que fez e que aconteceu, eu, que acompanhei o caso com a máxima atenção, continuo a pensar que o julgamento foi político e não criminal. As provas apresentadas contra Lula nunca saíram da esfera do circunstancial e, cá para o meu sentido de justiça, ou se prova sem dúvidas a culpa de alguém ou essa pessoa não pode ser culpada com o que parece ser.

É claro que, hoje em dia, depois do juiz que o condenou, um tal de Moro, ter ido parar ao governo de Bolsonaro, já existem muitos mais a pensar como eu. Todavia, mantenho todas as reservas que sempre tive, ou seja, se algures, num qualquer processo judicial, se provar inequivocamente que o sujeito é culpado, sem margem para dúvidas, então que se prenda o homem e se deite fora a chave pelo tempo que demorar a pena proferida na sentença. Porém, primeiro a prova e depois a pena. Nada mais simples.

Por falar nisso ainda te hei de mandar a minha opinião sobre a prisão dos governantes na Catalunha e sobre um tal de Presidente dos Estados Unidos da América. Contudo, não será hoje que já vou longo nos desabafos de um vagabundo cheio de supostas alegações. Recebe um beijo saudoso deste que não te esquece,

Gil Saraiva

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