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Carta à Berta

Carta à Berta é o local dos Desabafos de um Vagabundo, do Senhor da Bruma, essa bruma a que chamam de internet, de um Haragano, o Etéreo, qual cavalo selvagem que galopa entre cartas alegadamente, quiçá, sem fundamentos.

Carta à Berta é o local dos Desabafos de um Vagabundo, do Senhor da Bruma, essa bruma a que chamam de internet, de um Haragano, o Etéreo, qual cavalo selvagem que galopa entre cartas alegadamente, quiçá, sem fundamentos.

Carta à Berta: A Ministra Nabiça Que Nunca Será Espinafre!

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Olá Berta,

Não são apenas as pequenas livrarias independentes que suplicam pela reabertura dos seus espaços de venda, também os editores e livreiros fazem coro nesse pedido. O comércio de livros voltou a estar autorizado nas grandes superfícies como é o caso de hipermercados e supermercados, mas essa discriminação faz com que os mais pequenos, livrarias e alfarrabistas peçam coragem ao Governo para transformar esta pequena cedência numa coisa bem mais abrangente, geral e universal para todo o setor livreiro.

Não faz qualquer sentido que dentro do negócio dos livros sejam apenas as livrarias, os únicos que apenas fazem do livro o seu negócio exclusivo, a não poderem estar abertos para o negócio. A situação é realmente ridícula não ter sido considerada exceção no atual estado de emergência porque, em termos meramente comparativos, é mais perigoso uma pessoa deslocar-se a uma papelaria, quiosque ou tabacaria que também vende livros do que a uma livraria onde, por norma, a frequência de clientes até tende a ser menor e onde o risco de qualquer contágio é bastante inferior.

Em declarações à Lusa o próprio presidente da Associação Portuguesa de Editores e Livreiros, a APEL, Pedro Sobral diz não entender porque podem a Fnac ou o Corte Inglês ou as tabacarias estarem abertas e as livrarias não, segundo as suas afirmações à Lusa a situação não tem qualquer lógica.

A Rede de Livrarias Independentes (RELI), uma associação nascida em 2020 e que congrega cerca de 80 livrarias "sem ligação a redes e cadeias dos grandes grupos editoriais e livreiros" afirmou, pela boca do porta-voz, José Pinho, segundo a mesma fonte que: "Para nós, o livro tem de ser considerado um bem essencial e as livrarias têm de abrir. Ninguém tem a coragem para fazer isto, pelos vistos. Tem a coragem para fazer outras coisas que também são clivagens, mas a única coisa que tem sentido é: O livro é um bem essencial, logo, tem de estar à venda nas livrarias.”

José Pinho acrescentou ainda: “Quem tem que decidir que decida o mais rapidamente possível e que se acabe com esta conversa e esta discussão sem sentido, que nos põe uns contra os outros, põe os leitores contra os livreiros; é o absurdo dos absurdos. Alguém pensa que os livreiros não querem abrir porque querem receber subsídios? Como se houvesse subsídios para as livrarias. Isso não existe. Não há apoios a livrarias. Há apoios ao comércio e, do lado do Ministério da Cultura, o que houve foi compra de livros a algumas micro e pequenas livrarias, com valores que não têm expressão".

A APEL recorda à Lusa, pela voz de Pedro Sobral, que o setor livreiro e editorial está "a passar por um momento catastrófico", com o encerramento das livrarias, recordando que em 2020 registou uma perda de 26 milhões de euros. "Este ano, com cinco semanas do ano - três de confinamento - já vamos com uma perda de seis milhões de euros". Ora, o mais grave é que a previsão aponta para um fevereiro e um mês de março a seguirem as pisadas de janeiro o que será arrasador para o setor. Pior, trata-se de obrigar um negócio a fazer sacrifícios que não fazem qualquer sentido, face aos negócios que neste momento se encontram abertos em pleno funcionamento.

Eu sei, amiga Berta, que temos neste Governo aquela que é provavelmente a pior Ministra da Cultura que já alguma vez liderou este setor. Tem a força de uma nabiça se comparada aos espinafres de outros ministérios, mas alguém tem de acabar com esta estupidez de ter as livrarias fechadas em tempos em que o Estado de Emergência manda a população estar em casa, afinal, esta é a altura ideal para se poder ler. Não se entende a posição do Governo, nem faz qualquer sentido e chega a ser desonesto face à totalidade das outras exceções, muitas delas bem mais duvidosas e perigosas do que os espaços de venda de livros.

Se não fosse a Ministra Nabiça ser tão fraquinha, e entender tanto de cultura como um boi entende de palácios, sou capaz de apostar que as livrarias nunca tinham fechado em nenhum dos confinamentos. É revoltado que me despeço hoje, minha querida Berta, aqui vai um beijo do amigo,

Gil Saraiva

 

 

 

Carta à Berta: Memórias de Haragano - Confissões em Português - Parte XVII

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Olá Berta,

Hoje entro, sem demoras, num novo tema. Algo mais erudito porque, para meu próprio orgulho, também se torna necessário, dar um pouco de luz às cartas que te escrevo. A cultura não aleija e, por estranho que te possa parecer (ou talvez não), ajuda a formar mentalidades e identidades. Ao contrário do provérbio que afirma que << o saber não ocupa lugar>> eu considero que ele não só ocupa, como devia ser sempre encontrado no cume das nossas prioridades. Assim:

Memórias de Haragano: Confissões em Português – Parte XVII

“Caro leitor, desculpa-me se te pergunto, mas já leste tu, por acaso, a excelente obra-prima de Aquilino Ribeiro intitulada <<Andam Faunos pelos Bosques>>? O autor certamente que te diz alguma coisa, mas e a obra? Conheces a sua obra literária?

Como não estás presente para responder, vou depreender que não, pois será a resposta mais comum de quem me lê. Porquê? Porque sendo tu uma pessoa desta época, onde se vive a era da imagem, só por mero acaso ou gosto particular é que terias ido ler uma obra escrita em 1926, por muito clássica que esta possa ser. Vejo-te a ler mais facilmente os romances do José Rodrigues dos Santos do que a desempoeirares o Aquilino. Contudo, posso estar absolutamente errado na minha avaliação e, se for esse o caso, peço desculpa, apenas o disse porque a leitura não está na moda e muito menos ainda o Aquilino.

Porém, hoje, por motivos que explicarei um pouco mais à frente, interessa-me falar neste assunto. Nomeadamente sobre o romance do mestre: <<Andam Faunos pelos Bosques>>.

Resumindo a ideia da história, mas sem intenções de a contar, posso dizer que ela anda à volta de um muito estranho acontecimento, passado nas serranias das Beiras e em Viseu, em que as mais belas damas da região são vítimas (ou não) de um predador sexual. A polémica instala-se, principalmente entre os investigadores do caso: os padres. Uns ingénuos e cândidos, outros com uma visão ainda perfeitamente arcaica e rural. Ainda há alguns esclarecidos e modernos, influenciados por uma educação na capital e mais aqueles realistas, conhecedores das influências que, à época, ventavam Paris, com um bafo a meandros bem obscuros e muito pouco dados à fé.

As teorias sobre que criatura ou criaturas andariam a colocar as suas sementes nas beldades regionais divergiam entre si. As conjeturas  variavam entre os que defendiam tratar-se do próprio Belzebu; os que colocavam um anjo como protagonista; os que pensavam que deveria ser tudo obra, isso sim, de um Casanova regional ou até de vários e, por fim, os que atribuem as culpas a um ou mais faunos míticos e sedutores, os quais enfeitiçariam as donzelas, com a mágica e erótica música das suas flautas de Pã, arrastando-as para os bosques, onde consumariam os seus enfeitiçadores intentos.

É do alegado arrastamento das mulheres para os bosques, com intuídos de uso de uma flauta, que não a de Pã, que surge o título da obra <<Andam Faunos pelos Bosques>>. Ninguém sabe lá muito bem quem são, quantos são, onde estão e como fazem as coisas. Contudo, desafiando a lógica, serão eles os possíveis e derradeiros culpados. Pensaram mesmo que os faunos através do uso profano e encantador das sonoridades da sua Pã, enfeitiçam, usam e abusam das castas raparigas e das respeitáveis senhoras beirãs?”

Deves estar a estranhar o porquê da presente temática, querida amiga, todavia, dentro de um ou 2 dias será bem mais fácil entenderes as minhas motivações. Tem um pouco de paciência comigo. Por hoje fico-me por aqui. Este teu amigo despede-se com uma beijoca sorridente,

Gil Saraiva

 

 

Carta à Berta: Memórias de Haragano - Confissões em Português - Parte VI

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Olá Berta,

Fico satisfeito por teres achado graça à adivinha de ontem. Afinal, mesmo no teu caso que já conhecias as quadras, a explicação do tipo de ambiente em que devem ser declamadas fez-te sorrir de novo. Todavia, escusas de agradecer porque, a haver alguém que tenha de agradecer, sou por certo eu.

Quanto às minhas Confissões, que te têm agradado, aqui segue mais um pouquinho, mais curto do que o costume para não interromper pensamentos ou explicações a meio, pois acho que fica horrível. Assim:

Memórias de Haragano: Confissões em Português – Parte VI

“Alguns riem-se logo outros ficam sem saber muito bem o que dizer. E é nesse momento que se repete devagar a adivinha deixando que os ouvintes, que já sabem a resposta, visualizem cada verso. Desta vez no verso final já não se faz pausa. Pronto, está criado um momento agradável, deu-se nas vistas, não se ofendeu ninguém e por uns instantes fomos o verdadeiro foco de atenção. Agora só têm que se manter ativamente participantes na conversa para continuarem a ter audiência. Simples, não?

Este tipo de desbloqueador de conversa, como se dizia antigamente no programa <<Pão com Manteiga>>, costuma surtir excelentes efeitos. Tenho outro do género que termina com uma jogada de golfe e que fala de pau e bolas, mas é quiçá um pouco mais grosseiro. Vou ficar só pelo primeiro.

Por esta altura tu, que me lês, deves estar a pensar que este livro é muito brejeiro (peço desculpa do uso e do tratamento mais íntimo, por tu, mas é mais afável e fácil de criarmos uma relação de proximidade). De que estavas à espera? Por acaso julgavas que isto era uma coisa mais séria? E agora que já começaste, meu simpático leitor, achas que um livro deste género não teria qualquer hipótese num concurso literário sério. Só que o facto de tu me estares a ler não faz do livro candidato a qualquer concurso, quanto mais literário. Mas eu tenho uma explicação que julgo justificar estes primeiros capítulos, se tiveres a paciência de a leres.”

Não me vou adiantar mais no capítulo, por hoje, pois quero que leias a próxima parte seguida e numa só carta, pelo menos a parte que se segue. Não ficas zangada, minha querida amiga? Espero que não.

As minhas Confissões em Português não são muito longas, até porque não sou pessoa de escrever capítulos intermináveis. Está série que agora te escrevo não ultrapassa sequer a dezena e meia de cartas.

Despeço-me com o usual, que de banal nada tem, beijo diário, com votos de um restante dia bem brilhante para ti, fica-te com as saudades deste teu amigo,

Gil Saraiva

 

 

 

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