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Carta à Berta

Carta à Berta é o local dos Desabafos de um Vagabundo, do Senhor da Bruma, essa bruma a que chamam de internet, de um Haragano, o Etéreo, qual cavalo selvagem que galopa entre cartas alegadamente, quiçá, sem fundamentos.

Carta à Berta é o local dos Desabafos de um Vagabundo, do Senhor da Bruma, essa bruma a que chamam de internet, de um Haragano, o Etéreo, qual cavalo selvagem que galopa entre cartas alegadamente, quiçá, sem fundamentos.

Carta à Berta: Vivências em Campo de Ourique - A minha Junta de Freguesia

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Olá Berta,

É fácil criticarmos o que os outros fazem. Mais ainda se não pudermos ou quisermos fazer nós aquilo que criticamos, para demonstrar as diferenças entre o que se apresenta feito e realizado e o que nós poderíamos alcançar e que convictamente produziríamos.

A Junta de Freguesia de Campo de Ourique

Dito isto, só porque não existe como demonstrar como se faria melhor, na prática, porque na teoria todos somos muito bons, isso não impede a existências de críticas. Ainda mais, como é este meu caso de hoje, quando a crítica recai sobre uma entidade pública e, ainda por cima, quando esta foi eleita pelo voto das pessoas. Estou a falar concretamente da minha Junta de Freguesia.

Esta minha Junta é bem maior que muitas Câmaras do país, em termos populacionais, tendo apenas 1,65 Km quadrados de área, com um orçamento anual superior a muitas vilas e cidades portuguesas, algures na casa dos milhões de euros. É, aliás, a Junta que maior densidade populacional tem em Lisboa, a capital e a maior cidade deste país em que vivemos.

Faz hoje um mês que a Junta de Freguesia de Campo de Ourique publicou um Edital. Sobre ele tenho a tecer alguns comentários. Aliás, não é bem sobre ele, mas é mais a propósito da sua existência e contexto. Em si, ele reflete na Freguesia as medidas relacionadas com o Estado de Calamidade e toda a situação em volta do Covid-19.

Lido o Edital ficamos a saber o que funciona ou não no que às atividades relacionadas com a Junta, ou com projetos e espaços onde a mesma intervém, diz respeito. Como comunicado cumpre a sua função cinzenta, grave e institucional, ou seja, não há nada a dizer. Muito menos a criticar quanto à forma ou ao conteúdo. Podes lê-lo se tiveres interesse pois está online na página oficial da freguesia.

Então porque estou eu a falar dele? Tem a ver com o seu enquadramento na página principal, a usual “homepage” da Junta de Freguesia. Neste que é o Órgão de poder mais próximo de mim, cidadão e residente no Bairro de Campo de Ourique. Tem a ver com o restante conteúdo desta página. Da esquerda para a direita encontramos, sequencialmente, o Edital, seguido de uma publicação institucional relativa ao Coronavírus, depois vem o apoio domiciliário aos maiores de 64 anos ou portadores de 60% ou mais de deficiência e termina com a publicidade narcisista às revistas alegadamente mensais da Junta.

Abro aqui um parenteses para louvar a forma correta e absolutamente eficaz com que o serviço de apoio domiciliário tem estado a operar em Campo de Ourique. Funciona de segunda a sexta-feira, entre as 9 e as 18 e faz entregas de compras de supermercado (só trabalha com o Pingo Doce) ou de farmácia ao domicílio. Bem coordenado, boa distribuição, pessoal simpático na receção telefónica e na distribuição. Verdadeiramente muito bom e extremamente útil para quem precisa deste apoio.

Então, perguntarás tu, amiga Berta, de que me queixo eu afinal? Queixo-me da frieza institucional e da ausência de uma relação de proximidade, solidariedade ou até carinho com que o Presidente da Junta se deveria dirigir aos seus munícipes, numa esperada mensagem menos informal e mais emotiva de quem está ao nosso lado, bem no meio da página principal da Junta na internet.

Pode ser que a culpa, desta falta que sinto ali, seja do nosso Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, que nos habituou a essa partilha continuada e cuidada de conselhos, apoios e preocupação com todos nós, cidadãos de Portugal. Mesmo assim, acho que os bons exemplos são para se seguirem, principalmente quando estamos a falar de quem está mais próximo de nós ou deveria estar.

Eu sei que o nosso bonacheirão Presidente de Junta, Pedro Cegonho, é um homem ocupado, seja nos meandros do PS, seja no seu lugar de Deputado da Assembleia da República, seja como Presidente da Junta de Freguesia de Campo de Ourique, seja a preparar o filho do Primeiro-Ministro para o suceder na mesma no próximo mandato autárquico, enquanto ele se prepara para outros voos, mas, que diabo, uma carta solidária e agradável aos munícipes, assinada por si, só lhe requer o tempo para a ler e assinar, nem tem de a escrever, ora bolas.

Esta é, de longe, a maior queixa sobre a forma como a minha Junta de Freguesia se tem portado nestes tempos de pandemia. Porém, há uma outra que assinalo com desagrado. Sendo nós todos, os residentes do Bairro de Campo de Ourique, os seus quase 30 mil habitantes, gente preocupada com o presente vírus, faria algum mal a Junta manter um aviso diário de como a pandemia se está a comportar no bairro? Quantos casos temos? Quantos estão internados? Quantos recuperaram? Quantos residentes já perdemos nesta batalha? Custava muito? Não, não custava e demonstrava, mais uma vez, preocupação e carinho por todos nós.

Afinal, Campo de Ourique não é uma Junta de Freguesia qualquer. Tem, por exemplo, o dobro dos habitantes do Concelho de Valença do Minho, com uma área geográfica 71 vezes menor, enquanto possui, por outro lado, a maior concentração de seres humanos da Capital, num espaço circunstancialmente curto e muito limitado. Se Valença, como exemplo escolhido, tem direito a saber como está a sua população relativamente à doença, por que razão não o sabemos nós?

Mesmo não tendo a DGS optado pela divulgação transparente e universal dos casos de Covid-19 em cada Junta de Freguesia, dados que possui desde a primeira hora, pelo menos as grandes Juntas deveriam substituir-se nesse papel à Direção Geral de Saúde e informar a população sobre a atualidade da sua situação face à pandemia.

Em resumo, querida amiga, da minha Junta de Freguesia apenas me posso queixar da pobreza de proximidade da “homepage” oficial da mesma, onde informação, carinho, solidariedade e ombro amigo pouco significado têm face ao flagelo que a todos atinge, sem escolha de idade, sexo, raça ou credo e, infelizmente, fico triste, muito triste. Por hoje é tudo, despeço-me com o tradicional beijo, este sempre teu amigo,

Gil Saraiva

 

 

Carta à Berta: O jornal do Bairro de Campo de Ourique - O Javali

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Olá Berta,

Fez este mês 6 anos e meio que lancei em Lisboa, no Bairro de Campo de Ourique, um jornal local gratuito, semestral, destinado ao bairro e a quem o visitava. A ideia manteve-se viva e ativa durante 3 anos e permitiu que fossem editadas 6 publicações e distribuídos um total de 18 mil jornais. Foi uma iniciativa que me ajudou imenso a desenvolver a minha relação de proximidade com as duas freguesias que compunham, à época, a zona a que me dediquei, nomeadamente a freguesia de Santa Isabel e a Freguesia de Santo Condestável. Foi um trabalho gratificante e extremamente enriquecedor para um jornalista profissional que, como eu, se dedicava pela primeira vez à imprensa local.

Hoje em dia, as duas freguesias estão unidas e tomaram o nome do Bairro, passando a chamar-se Freguesia de Campo de Ourique, pelo que constituem a mais densa freguesia de Lisboa em termos de população e de concentração de comércio e serviços, num total de quase 2.500 empresas de comércio, negócios e serviços, encaixadas numa área de 1,65 quilómetros quadrados, com uma população que ultrapassa os 25 mil residentes.

Para fazeres uma ideia mais abrangente do Bairro, basta que te dê a noção que no número de estabelecimentos ligados à restauração ultrapassam já os 250, incluindo quiosques alimentares, padarias, cafetarias, leitarias, pastelarias, confeitarias, doçarias, cafés, tascas, tasquinhas, snack-bares, bares, pubs, “bistros”, “croissanterias”, “gastropubs”, cantinas, postos sociais de refeições, mercearias com refeições, “take-aways”, churrasqueiras, hamburguerias e restaurantes.

Convém realçar que, só no campo da restauração podes encontrar mais de 25 países, das mais variadas zonas do globo, representados pelos seus pratos típicos apresentados nas ementas. Quanto à gastronomia nacional, é fácil descobrir restaurantes representativos dos arquipélagos portugueses, do Norte, do Centro e do Sul do país. Tens nessa área os restaurantes tradicionais, regionais, vegetarianos, continentais e depois os especializados. Podes comer em espaços com ementas económicas, acessíveis ou relativamente caras, podendo escolher onde ir tendo em conta o que se tem na carteira disponível para tal.

Mas regressando ao princípio da carta, o jornal chamava-se “O Javali” porque era essa a figura que eu via quando olhava para o mapa e para os limites do bairro. Havia quem dissesse que via um elefante e quem não visse coisa alguma, mas “O Javali” foi o nome que acabou por ficar. Infelizmente a publicação nasceu no tempo da Troika e da austeridade e a administração decidiu, por motivos de viabilidade económica, encerrar o jornal ao fim de 3 anos de navegação adversa, bem como a revista do bairro que intercalava com ele e da qual te falarei amanhã ou num outro dia.

Tive imensa pena na altura. Ali se contaram, em formato A3 e em 48 páginas, em duas línguas, português e inglês, narrativas de grandes personalidades do bairro, a história de casas, ruas, monumentos, instituições e pessoas, para além da promoção do comércio e serviços locais. Também se lançavam propostas de itinerários, se destacaram os pontos de interesse e as novidades do bairro.

Lançamos receitas de culinária, fizeram-se entrevistas, ouviram-se as gentes na primeira pessoa e até houve lugar para as previsões dos astros para cada signo.   Quem sabe, alguém no bairro, um dia no futuro, não voltará a pegar na ideia e a lançar uma outra publicação, agora que a austeridade já não tem o mesmo peso que na época.

E não te incomodo mais com os meus saudosismos, minha querida amiga, despeço-me com um beijo carinhoso, deste teu amigo de sempre,

Gil Saraiva

 

 

Carta à Berta: Campo de Ourique - 2019 em Revista - fevereiro

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Olá Berta,

Fico feliz por te ter agradado o primeiro mês do ano de 2019, em revista, no que concerne ao Bairro de Campo de Ourique. Hoje é dia de avançar com o senhor que se segue, ou seja, o curto mês de fevereiro, passado no meu bairro, com os destaques que, pelo menos para mim, são de realçar neste recanto de Portugal, onde batem corações unidos por um amor comum, que mais não é do que a paixão pelo bairro de Pessoa. Regressar a fevereiro de 2019 nesta freguesia, afinal, nada mais é do que continuar a fazer prova da vivacidade e vitalidade da mesma. Espero que esta revista do ano passado te continue a agradar.

Campo de Ourique em revista, fevereiro de 2019:

O dia 1 de fevereiro deu o alerta e o 2 de fevereiro levou o Bairro de Campo de Ourique até aos noticiários televisivos. O mau tempo, trazido pela tempestade Helena, fez abater uma parte da Rua 4 de Infantaria mesmo em frente do Jardim da Parada, tendo obrigado ao desvio das carreiras de autocarros e obrigado ao condicionamento da circulação automóvel. Elementos da Proteção Civil, da Polícia Municipal e a Junta de Freguesia estiveram no local a avaliar os estragos causados.

No dia 3 de fevereiro, minha querida amiga, o jazz regressou a Campo de Ourique, o Mercado manteve a sua promessa de, com entrada livre, nos proporcionar as sonoridades do “jam” e do “jazz” com o trio “Out of the Blue” a atuar entre as 18 e as 22 horas. Imperdíveis as “jam sessions” da banda.

Dia 4 foi a vez da Revista Evasões divulgar uma reportagem sobre a Pikikos – cut, care and coffee, uma loja, uma cafeteria e um cabeleireiro para crianças e adultos, acabadinha de inaugurar no Bairro de Campo de Ourique, um verdadeiro 3 em um, na Rua 4 de Infantaria no nº. 53, de que tu irias gostar bastante querida Berta.

“O Corvo” – sítio de Lisboa, uma publicação online sobre o que se vai passando pela urbe alfacinha, publicava, também a 4 de fevereiro, uma notícia denominada: “Há sinais contraditórios sobre o suposto regresso do tráfico de droga e da insegurança ao antigo Casal Ventoso”. No corpo da notícia eram sublinhadas as áreas em causa, que atualmente fazem parte integrante de Campo de Ourique, embora se encontrem na margem mais afastada do Bairro. São elas: a Quinta da Cabrinha, a Quinta do Loureiro e a Avenida de Ceuta Sul, que ainda abrangem, também, as Freguesias da Estrela e de Alcântara. Para uma leitura mais atenta recomendo, amiga Berta, que consultes a página: https://ocorvo.pt/ha-sinais-contraditorios-sobre-o-suposto-regresso-do-trafico-de-droga-e-da-inseguranca-ao-antigo-casal-ventoso/.

Também a 4 de fevereiro a Casa Fernando Pessoa deu lugar ao debate e leituras do Clube dos Poetas Vivos com a participação de Ana Paula Inácio entre as 19 e as 20 e 10.

Foi a 10 de fevereiro que as “jam sessions” da banda “Out of the Blue” nos voltaram a proporcionar mais 6 horas de música, no fim de tarde e noite, no Mercado de Campo de Ourique. O domingo ficou a ganhar com mais esta prestação das sonoridades do jazz, interpretadas pela cada vez mais experiente tríade de músicos.

A 15, 16 e 17 de fevereiro, no Mercado de Campo de Ourique, teve lugar a quarta edição do Mercado do Vinho, com música ao vivo, workshops e muitos tintos, brancos, rosés e espumantes para provar. Teria sido uma ótima altura para teres dado um salto até ao meu bairro, minha querida Berta. Na sexta-feira a banda “Groovelanders” fez as honras musicais a partir das 21 horas.

A 16, sábado, o almoço foi acompanhado pelas sonoridades de Joel Pinto, entre as 13 e 30 e as 15 e 30 e mais tarde, pelas 20 e 30, foi a vez de se fazer silêncio porque se cantou o fado, pela voz de Cristina Madeira.

Ainda no domingo, dia 17, a banda que tem por nome a música de Miles Davis “Out of the Blue”, e por filosofia a inspiração de uma fonte longínqua, mais propriamente o pensamento budista do filosofo e poeta japonês Daisaku Ikeda, trouxe o jazz e a música encheu o espaço entre as 18 e as 22 horas no muito ativo Mercado de Campo de Ourique.

No dia 18 de fevereiro, entre as 16 e 30, onde foi servido um chá, e as 19 horas, a exemplo do que já tinha acontecido no mês anterior e que escapou ao meu radar, foi dada continuidade na Fundação Maria Ultrich, no nº. 240 da Rua Silva Carvalho, à temática d’ “as idades da vida e o processo de desenvolvimento da Santidade”, com entrada livre. Este foi mais um encontro dos amigos e colaboradores da Fundação, com o tema a cargo da Drª. Deolinda Botelho.

Aconteceu no dia 19 na Mercearia do Campo, cuja morada na Rua Saraiva de Carvalho, já pertence à Freguesia da Estrela, mas que teima em afirmar-se um espaço do Bairro de Campo de Ourique e para isso criou o conceito “Mercearia -1” ( leia-se: menos um), criando um clube quase secreto no Bairro de Campo de Ourique, onde nos pudemos deliciar escutando, ao vivo, desde jazz a blues, passando pela Bossa Nova. A -1 encontra-se na cave da Mercearia do Campo, o concerto de dia 19 arrancou às 21 horas. Foi um tempo de Bossa Nova com Micheline Cardozo a dar a voz, o Maestro Luiz Antônio Gomes e o violinista do Seu Jorge, Júnior Mouriz. Lembrei-me de ti querida amiga, acho que terias apreciado muito toda a envolvência. Quanto ao dia 20 a sonoridade foi outra bem diferente, a cargo do BR DUO JAZZ.

A 20 de fevereiro o bairro foi bafejado pela sorte, com a presença do CNAP, Círculo Nacional de Arte e Poesia, na Biblioteca e Espaço Cultural Cinema Europa, com uma exposição coletiva de pintura de 12 artistas associados do círculo, denominada pelo patrocinador, a Junta de Freguesia de Campo de Ourique, de “Exposição de Artes Plásticas”. Quanto aos artistas representados pudemos ver obras de Adelaide Freitas, Catarina Semedo, Elmanu, Fernanda de Carvalho, Josefina Almeida, Luís Ferreira, Margarida Dias, Maria Rita Parada, Marisa Castro, Olímpia Campos, Teresa Filipe e Vitor Hugo.

A Sociedade Filarmónica Alunos de Apolo, fez no dia 23 e 24, uma incursão ao Pavilhão Desportivo do Complexo Desportivo Municipal Casal Vistoso, em Lisboa, a Sociedade tinha sob sua responsabilidade a organização da POC 2019 – WDSF World Open Latin, com as respetivas provas internacionais de Dança Desportiva, as quais foram integradas conjuntamente com a realização da vigésima edição do Portugal Open em Dança Desportiva. Foi um fim-de-semana recheado de boa-disposição e muito bom profissionalismo num evento apoiado pela Câmara Municipal de Lisboa, Instituto Português do Desporto e Juventude e pela Junta de Freguesia de Campo de Ourique. Na divulgação ainda esteve garantido o apoio total da Associação de Turismo de Lisboa.

Por sua vez o dia 24 de fevereiro, trouxe ao Mercado de Campo de Ourique, para a sua última atuação de fevereiro, a banda “Out of the Blue”, onde as sonoridades do jazz fizeram a transição perfeita entre o chegar do crepúsculo e a noite que se foi instalando, entre as 6 da tarde e as 10 da noite, como sempre, graças ao jazz e às as suas imperdíveis “jam sessions”.

O regresso das atuações da Mercearia -1 aconteceram a 26 e 27 de fevereiro, ambos os dias pelas 21 horas, no primeiro dia a atuação esteve sob a responsabilidade de Maestro Duo e no dia seguinte foi a vez da voz de Ana Moreira se fazer ouvir. A Mercearia -1 sugere ainda, para ambos os dias uma passagem pelo piso superior, onde é possível experimentar a nova carta assinada pelos chefs Maria José e Alberto Pranches. Seguindo para a cave, encontramos aquele que a Mercearia do Campo diz ser o único bar em Portugal a oferecer o conceito Johnnie Walkers Club, onde o cliente pode comprar uma garrafa de Johnnie Walker e guardá-la num armário no bar até acabar, sendo que apenas o próprio utilizador fica com a chave.

Foi a 27 de fevereiro que teve lugar na Casa Fernando Pessoa a Aula de Poesia Mundial onde Rosalía de Castro nos foi dada a conhecer por Ângela Fernandes. Se a minha amiga tivesse estado em Lisboa poderíamos ter ido os 2, pois sei bem quanto gostas de poesia. O evento teve início pelas 18 e 30 e terminou pelas 20 horas.

Este pequeno relambório constituiu, a meu ver, a principal atividade do Bairro de Campo de Ourique em fevereiro do ano passado. Amanhã será o dia de falarmos de março de 2019. Despeço-me com um beijo amigo,

Gil Saraiva

 

Os Reis da Rua

Os Reis da Rua

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Olá Berta,

 

Cá estou eu de novo a escrever. Deves estar curiosa com o que tenho para te dizer. O título desta carta, embora sugestivo, não dá muitas pistas. Os Reis da Rua, são, neste caso específico, os 3 supermercados que tenho por vizinhos. Com o decorrer do que tenho para contar vais entender porquê.

Moro, conforme sabes, já lá vão onze anos, na Rua Francisco Metrass, em Campo de Ourique. Embora tenha instalado vidros duplos em casa, para minimizar os sons vindos do exterior e controlar melhor a temperatura ambiente, o último andar de um prédio quase a celebrar o centenário, feito em taipa e sei lá mais o quê, não abafa por completo os aviões, cuja rota de chegadas e partidas do aeroporto de Lisboa, fica mesmo por cima do edifício. Durante o dia, uma pessoa já quase não dá por eles, embora passem mais de 250 por cima da minha futura careca. O restante burburinho da cidade ajuda a dispersar a atenção.

Todavia, durante a noite, entre a meia-noite e as 6 da manhã, há sempre mais de uma dúzia que fura a hora de silêncio, e, pelo enorme tamanho dos passarocos, são todos aviões intercontinentais, a coisa faz-se ouvir e bem. Por isso, convém conhecer esses horários e tentar adormecer entre dois voos. Contudo, nunca me posso deitar entre as duas e meia e as três e meia da manhã. A essa hora passa o camião do lixo, que produz um chiqueiro tal, durante os 20 minutos em que se faz ouvir, que chega a parecer que sou eu quem está a ser despejado num dos caixotes.

Efetivamente, moro numa das ruas mais frenéticas do bairro. Se reparares nas fotografias que te envio vais, certamente, entender porquê. Não é normal num pequeno troço de 25 metros, para cada lado do prédio onde vivo, ter oito estabelecimentos de restauração, 6 esplanadas, 500 vizinhos, 400 estudantes, e mais um infinito número de viaturas a tentar estacionar num local onde só há lugar para 50 carros, que teimam em ficar mais agarrados ao lugar que político ao poleiro.

Podes imaginar facilmente pelo relato que, sempre que alguém arruma um carro em frente a uma garagem ou na zona de cargas e descargas, ou que para em segunda fila, se gera o caos em termos de ruído. São as buzinadelas nervosas dos transportadores ou dos automóveis que querem seguir o seu caminho ou entrar na sua garagem, os gritos de quem já perdeu a paciência e um vizinho ou outro que, em desespero, atira um cinzeiro de mármore da sua janela para o meio da confusão. Não te rias, é um facto, tenho testemunhas, e já aconteceu em diversas e complicadas ocasiões. Até um morador já foi preso, por chamar palhaço a um polícia fardado, por nada fazer perante um camião a descarregar parado no meio da via. Ao que parece a autoridade acha ofensiva a profissão dos que nos tentam fazer rir com o seu comportamento.

Apesar de toda esta narrativa nada se compara à atitude dos Reis da Rua. Os três supermercados, Pingo Doce, Mini Preço e Go Natural do Continente que, com o consentimento disfarçado da Câmara Municipal de Lisboa, da Junta de Freguesia, da Polícia Municipal e da PSP, cuja esquadra se situa a menos de 500 metros deste local, fazem o que querem e bem entendem, às horas que bem lhes apetece.

Não sei se sabes, mas cargas e descargas de camiões de médio e pequeno porte, na cidade, só podem começar a ser efetuadas das 8 horas da manhã em diante. As diretivas são emanadas quer da própria regulamentação camarária para esse tipo de serviços, quer ainda das leis gerais e municipais no que ao ruído diz respeito. Afinal, os moradores urbanos também têm direito ao seu período de repouso, descanso ou sono. Parece-te certamente lógico e natural que assim seja. Pois é… isso acontece em muito lugar, mas não neste troço de rua. Aqui mandam os 3 Reis.

Entre as 5 e 20 e as 5 e 40 da madrugada, mais coisa menos coisa, chega o camião do pão biológico do supermercado Go Natural do Continente. Para no meio da rua, deixa o motor a trabalhar e durante 15 a 25 minutos descarrega carradas de pão biológico para dentro do supermercado. Finalmente parte. Se por acaso alguma viatura quiser passar, o sujeito rabuja para o outro condutor que tente passar por cima. Ora uma discussão a essa hora da manhã ecoa pela rua como se de uma manifestação de zangados arautos se tratasse.

Finalmente o Rei parte, não deixou mirra, mas pão, e eu sei bem onde é que sua majestade o devia meter, mas adiante. Logo de seguida chega o camião do Mini Preço, como um relógio suíço, sempre entre as 5 e meia e um quarto para as 6. O segundo Rei traz consigo as iguarias destinadas às prateleiras do estabelecimento. A era do incenso parece ter ficado esquecida nos tempos. Durante as descargas e as cargas dos produtos para o supermercado e das embalagens vazias de regresso ao camião, fazem-se ouvir os alarmes do supermercado que disparam, não sei muito bem porquê, talvez porque quem saiu no turno que fica a fazer reposições até depois da uma da manhã, não o deixou devidamente ligado.  Adiante… durante 30 a 45 minutos a música que nos chega a casa é a produzida pelos carrinhos metálicos de dois metros a percorrer a calçada dos passeios ou o velho asfalto da rua, acompanhada no baixo pela báscula do camião e na bateria pelas chapas a bater no asfalto. Se juntares isso aos efeitos sonoros do motor do veículo a trabalhar, tens uma boa ideia do som da orquestra.

Às 6 da manhã toca o alarme do Pingo Doce por mais de 5 minutos (às vezes mais do que uma vez) porque chegam os primeiros funcionários. Podes perguntar porque raio isso acontece todos os dias. Não sei minha querida, mas acho que algum supervisor deve morar perto e quer saber se o pessoal chega a horas sem ter de sair da cama. Parte o camião do Mini Preço e chega com o terceiro Rei, o transporte, o primeiro, do Pingo Doce, não traz ouro, que o vil metal está pela hora da morte, mas os produtos frescos para o consumo do dia por parte dos clientes e toda a história se repete. A narrativa é muito semelhante até às 8 da manhã. Depois continua pelo dia fora, mas já dentro do permitido pela lei. Contudo, se ligas para a PSP ou para a Polícia Municipal, ou levas com um intelectual que te diz que as cargas e descargas podem começar às 6 da manhã (o que é verdade para as grandes superfícies fora dos centros urbanos, mas não para a cidade), ou dizem que vão mandar um carro que só chega (e acontece sempre) depois do camião acabar o serviço. O conluio é tal que a placa das cargas e descargas não diz 8 da manhã, como devia dizer, mas 7 horas.

É evidente, como sempre, que todas estas minhas confissões continuam no campo do alegadamente. Longe de mim jurar a pés juntos que a Câmara Municipal, a Junta de Freguesia, a PSP e a Polícia Municipal, recebem qualquer suborno dos supermercados para se fazerem de cegos, surdos e mudos. Nada disso, são tudo meras coincidências, podes acreditar que sou eu quem o afirma. Até o facto de esta malta nunca ter sido multada e de não haver fiscalizações sabendo que isto se repete diariamente é mero produto do congestionamento de serviços destas entidades, até a ASAE tem o mesmo comportamento.

Para terminar ainda te conto que uma destas madrugadas, enchi-me de paciência e falei diretamente com a gerente do Mini Preço que estava na rua, mesmo ao lado do camião. Ela olhou para mim, depois para o condutor do transporte e fez-lhe um sinal apontando diversas vezes com o dedo para a sua cabeça, como que a dizer que eu não batia bem da bola. Não bato mesmo. Sabes Berta, um dia destes, quem ainda atira um cinzeiro sou eu, espero é estar com a pontaria afinada.

 

Beijo minha querida, este teu amigo sempre saudoso,

 

Gil Saraiva

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