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Carta à Berta

Carta à Berta é o local dos Desabafos de um Vagabundo, do Senhor da Bruma, essa bruma a que chamam de internet, de um Haragano, o Etéreo, qual cavalo selvagem que galopa entre cartas alegadamente, quiçá, sem fundamentos.

Carta à Berta é o local dos Desabafos de um Vagabundo, do Senhor da Bruma, essa bruma a que chamam de internet, de um Haragano, o Etéreo, qual cavalo selvagem que galopa entre cartas alegadamente, quiçá, sem fundamentos.

Carta à Berta: O Vitor da Bicicleta de Campo de Ourique

Vitor em Campo de Ourique.jpgOlá Berta,

Não me lembro se, nas tuas visitas a Campo de Ourique, alguma vez te deparaste com um sujeito, usando uma camisola do Benfica e uma bandeira do mesmo clube, a percorrer incansavelmente o bairro de bicicleta, enquanto uma aparelhagem adaptada ao veículo vai debitando música, bem alto, pelas ruas, praças e jardins de toda esta minha freguesia. Minha e, claro está, de todos os outros que também a tratam como sua.

Trata-se do Senhor Victor, um jovem (quase a chegar aos 60 anos de idade), que, pelo menos desde inícios deste milénio, percorre o bairro espalhando música e anunciando o amor evidente ao seu glorioso Benfica. O qual conquistou com o correr dos anos o estatuto de figura pública do bairro, querida por quase todos, mesmo por aqueles que não são do seu clube da águia. A verdade é que o Victor, por onde passa, tem sempre um aceno, um cumprimento e um sorriso para quem o interpela.

A situação, com o decorrer dos anos, tornou-o num caso sério de popularidade. Aliás, nem mesmo o dia da vitória do clube rival, neste campeonato, o impediu de sair, na sua habitual demanda, pelas ruas e de sorrir aos sportinguistas que lhe acenavam, batendo no emblema ao peito das suas camisolas verdes e brancas. Mais “fair play” do que esta demonstração do ciclista é difícil de encontrar na capital.

Em 2015, uma jornalista do Correio da Manhã, resolveu dedicar-lhe uma página inteira no matutino. Ainda me lembro muito bem do artigo. A senhora jornalista (que morava na Estrela) via e ouvia passar, de vez em quando, o nosso ciclista pelo Jardim da Estrela, e com a rudeza de um estivador do porto de Lisboa, dos finais do século XIX, resolveu dedicar-lhe cinquenta linhas da edição online com uma verborreia paupérrima e triste sob o título de “O Ciclista Maluco”.

No texto, a senhora jornalista, não se limitava  a apelar à intervenção da PSP, da Câmara Municipal de Lisboa e de outras autoridades, mas resolvera também insultar um homem, que não conhecia e sobre o qual não fez nenhuma investigação, com juízos de valor que começavam precisamente no pseudónimo de maluco e de louco, passando por perturbador da ordem pública, etc.. É claro que a dita jornalista desconhece as centenas (para não dizer milhares) de turistas que pedem ao senhor Victor licença para fazerem uma “selfie” com ele, sempre que o apanham parado no início da Rua Saraiva de Carvalho ou junto ao quiosque em frente ao cemitério dos Prazeres.

É igualmente claro que a mesma senhora nem imagina o carinho imenso que todo o bairro de Campo de Ourique tem por esta pessoa que não é maluco, nem nunca foi. É um faz-tudo, um pintor, um canalizador, um eletricista e um desenrasca, sempre pronto a ajudar o seu semelhante.

Ah, mas ele cobra esses serviços. É verdade, eu próprio já recorri a ele por diversas vezes, contudo, nunca senti que se esticasse nos preços e, bem pelo contrário, sempre o achei muito barato. O que a senhora jornalista podia atualmente noticiar é que, desde que há pandemia em Portugal, desde março de 2020 que, todos os dias, o santo do Victor montou aquela bicicleta e se fez às ruas do bairro para que os habitantes sentissem a sua presença.

Hoje, quando calhou falarmos, ele, por acaso todo feliz porque finalmente ia tomar a vacina, explicou-me porque não tinha parado um dia que fosse durante a pandemia. A justificação era de responsabilidade. Afinal, afirmava seriamente, ele sabia que tinha o dever de levar um pouco de alegria às centenas de idosos que vivem sozinhos e tristes no bairro, principalmente desde que a pandemia se instalara.

 “- Quando passam um dia sem me ouvirem na bicicleta ou sem me verem eles dizem-me que ficam mais tristes. Eu não posso falhar a esta gente.” Depois ria e dizia-me que muitos deles nem sequer eram do Benfica. “- Mas adoram picar-me e eu respondo sempre com um sorriso ou um aceno.”

O Victor é um homem do povo, de maluco ou de louco nada tem e, no meu entender, até já devia estar a receber, de há muitos anos para cá, um ordenado ou um apoio da freguesia, da Câmara de Lisboa ou até do Benfica, porque o Victor tem passado por sérias dificuldades para conseguir por pão na mesa da sua casa e cuidar da sua família.

Enfim, querida Berta, isto sou eu a falar. A minha opinião pouco vale nos corredores do poder. Contudo, a minha gratidão por este homem, que há duas décadas alegra os corações de tanta gente, é infinita. Podes nem concordar comigo e ser como a acéfala da senhora jornalista do Correio da Manhã, mas que era justo o homem ser compensado não tenho a menor dúvida. Deixo um beijo de despedida, deste teu eterno amigo,

Gil Saraiva

VÍDEO   I:   https://www.facebook.com/ILoveCampoDeOurique/videos/699365187288463/   

VÍDEO II:  https://www.facebook.com/ILoveCampoDeOurique/videos/3001581416556323/

Pedalando em CO.jpg

 

Carta à Berta: Covid-19 no Bairro de Campo de Ourique 1.º Caso Escola Secundária Pedro Nunes Dia 12/03/2020.

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Olá Berta,

Ontem, dia 12, recebi no meu correio eletrónico a confirmação, enquanto jornalista, do primeiro caso de infeção de coronavírus no Bairro de Campo de Ourique. Não me leves a mal se interrompo a sequência de cartas que te estava a mandar sobre o tema do vinho, “Os Segredos de Baco”, mas tinha-te prometido avisar quando o primeiro caso acontecesse.

Segundo a informação, a pessoa infetada era uma aluna da Escola Básica e Secundária Josefa de Óbidos, na Rua Coronel Ribeiro Viana, número 11, que se localiza no bairro. A escola, segundo uma vizinha que lá tem as netas, não esperaria por segunda-feira para ser encerrada e hoje já não abriria portas.

Este encerramento coincidiria com o Estado de Alerta Nacional ativado pelo Governo, que é o primeiro degrau de 3 a nível de situações excecionais no país, a seguir vem o Estado de Contingência Nacional e o último é o Estado de Calamidade Nacional. Estas crianças e jovens que agora regressam a casa devem cumprir rigorosamente as medidas de segurança recomendadas pela Direção Geral de Saúde, nomeadamente cumprir a quarentena que se impõe.

Entretanto, logo após a publicação desta carta, recebi informações de uma das minhas fontes na DGS que que não se trata de um caso confirmado, mas sim que uma criança que aguarda resultados do teste. O que é completamente diferente. Peço as minhas mais humildes desculpas por quase ter dado origem a uma notícia que está muito longe da realidade e que pode até nem ser nada. Por isso voltei a trás, amiga Berta, para acrescentar este parágrafo e corrigir os parágrafos anteriores e todo texto daqui para a frente.

Contudo, já ontem, o liceu francês Charles Lepierre, tinha também sido encerrado pela confirmação de outro caso. Ora, embora este estabelecimento não se encontre dentro do Bairro de Campo de Ourique, faz fronteira com ele e tem muitos, mas muitos, dos alunos que o frequentam a viver nesta freguesia. Também estes terão, por certo, quarentena programada.

Para além disso, e depois de muito barafustar com a minha fonte, fui avisado no Facebook que o primeiro caso do bairro já existe mesmo e que é da Escola Secundária Pedro Nunes, facto que já confirmei no site da escola e junto da DGS. Em suma, temos mesmo um caso de Covid-19 no Bairro. Esperemos que seja também o último.

É importante que todos estes jovens não passem agora estes dias sem escola a passear pelo bairro ou fora dele. Estamos perante um vírus que mata, numa situação gravíssima que importa ser levada a sério e respeitada em todas as suas vertentes. O melhor remédio é cumprir todas as recomendações da DGS.

Com o alargar do encerramento dos outros estabelecimentos de ensino e com as outras medidas de contenção já anunciadas, e as que se lhes seguirão, o apelo aos encarregados de educação para que cumpram, e façam os seus filhos cumprir, o isolamento social recomendado pelas autoridades torna-se prioritário.

A guerra contra o Covid-19 não se avizinha curta e é preciso manter a determinação e a luta até ao dia em que o seu fim for anunciado. Nem sequer está em causa se concordamos ou não com algumas das medidas adotadas, uma vez que, o importante mesmo é sabermos que temos de as executar sem hesitações e com respeito.

Afinal, o nosso bairro, tem uma elevada taxa de gente da terceira idade, quase um terço da sua população. É a vida desta gente que está nas mãos de todos e é bom que isso não seja esquecido por ninguém.

Despeço-me triste, segundo fonte que não confirmei ainda já são 2 os casos do Pedro Nunes. Recebe um beijo de amizade, este teu amigo de sempre,

Gil Saraiva

Carta à Berta: Série "Os Segredos de Baco" - VI - Avaliadores e Pontuações.

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Olá Berta,

Hoje, ainda na senda de te passar “Os Segredos de Baco”, chegamos ao sexto capítulo, dedicado às pontuações atribuídas aos vinhos. Para que servem? Porque são elas necessárias? Quem as faz? Começando pela última questão sobre quem cria as pontuações dos vinhos, posso afirmar que existem cerca de 4 géneros de avaliadores.

I) Os Avaliadores:

Os mestres do vinho, verdadeiros profissionais, técnicos de viticultura e de vinhos, responsáveis pelas escolhas e opções na produção, avaliando todas as variáveis, solos, clima, videiras, castas, estado das uvas, tratamentos e opções na composição de um determinado vinho, denominados por enólogos, usualmente formados em agronomia e especializados em enologia.

2) Os especialistas em vinhos, responsáveis nas escolhas do vinho e da sua harmonização com o que se come, na elaboração da carta de vinhos e outros detalhes como, por exemplo, as condições de armazenamento, temperaturas quer no armazenamento, quer na hora de o servir, ainda fazem habitualmente provas de vinhos e outros detalhes importantes na apresentação do vinho, são técnicos altamente profissionalizados e especializados,  assinalados como escanções ou sommeliers.

3) Os enófilos, todos os apreciadores da cultura que envolve o vinho. São normalmente provadores, ou seja, degustam o produto, gerando anotações e apreciações sobre cada vinho provado, habitualmente integrados em confrarias, promovendo e participando em encontros vínicos, sem, contudo, terem qualquer responsabilidade na elaboração do produto final.

4) Os críticos e/ou os jornalistas do mundo vitivinícola, que podem ou não englobar uma ou mais das categorias anteriores ou serem, simplesmente, apreciadores dedicados e apaixonados pelo vinho. Eles são capazes de detetar aromas, cor, maturação, texturas e paladares do vinho, conseguindo apreciar as refinadas nuances do produto e eficientes a reconhecer castas, regiões de cultivo e outras particularidades do vinho, mas, principalmente, possuidores de um sentido crítico apurado e refinado bom gosto.

É no seio deste último grupo que me sinto integrado. Não apenas por ser jornalista desde 1981, mas por ter estado sempre perto da cultura vitivinícola toda a minha vida, participando em vindimas, feiras e provas de vinho, frequentando adegas e garrafeiras. Para além disso, mantendo-me informado no acompanhamento da evolução técnica do mercado, cobrindo o mundo do vinho, quer no terreno, quer através da literatura produzida sobre esta matéria nos últimos 40 anos. Aliado a tudo isto, ainda acrescento um paterno e hereditário faro de perdigueiro.

II) Pontuações

Muitas vezes é possível encontrar nas garrafas de vinho a referência quer a prémios conquistados pelo vinho de um determinado ano, quer sobre a sua boa classificação neste ou naquele concurso ou ainda uma ou outra referência à pontuação que lhe foi atribuída pelos especialistas, podendo esta ser o resultado de uma atribuição em concurso ou fruto de uma publicação, blog ou listagem por parte dos críticos da especialidade.

A) Ratings - Pontuações: Existem Pontuações de 0 a 3, de 0 a 5, de 0 a 10, de 0 a 20 (com ou sem décimas ou centésimas) e de 50 a 100 pontos. De realçar que algumas pontuações são apresentadas sobre a forma de estrelas, outras há que as substituem por cores e ainda existem os que preferem o uso de termos, normalmente adjetivos, para ilustrarem os pontos atribuídos ao vinho. Se os franceses preferem classificar os vinhos de 1 a 10 e os americanos de 50 a 100 o que mais importa reter é que todos têm por finalidade ajudar os enófilos a optar por um bom vinho.

B) Robert Parker: Ele é na atualidade o mais apreciado de todos os especialistas que pontuam o vinho a nível mundial. As suas classificações são publicadas na revista de vinhos: Wine Advocate. Contudo, não se pense que não tem opositores. Seria um erro imaginar que isso era possível. Os europeus, por exemplo, contestam muitas vezes as classificações de Parker.

1) Os Parâmetros Qualitativos: Usados no seu sistema de classificação aparecem parametrizados numa escala de qualidade de 50-100 pontos. De notar que o próprio Parker enfatiza que a descrição do vinho degustado é o mais importante, sendo a nota apenas um complemento. A poesia está em entender o vinho enquanto uma obra de arte. Efémera para cada garrafa, mas eterna na História Universal do Vinho.

2) A Classificação Europeia: Do ponto de vista de Parker, os sistemas adotados na Europa, as escalas de 0-20 pontos ou pior as ainda mais curtas, não oferecem flexibilidade suficiente e, muitas vezes, resultam na avaliação de um vinho de modo mais comprimido ou presunçoso. Segundo este autor corre-se o risco de misturar alhos com bugalhos e de confundir quem consulta as classificações deste tipo de escalas de pontuação diminuta. Para combater isso, o uso da classificação de 0 a 5, de 0 a 10 ou de 0 a 20, até às décimas e, nalguns casos, até às centésimas, visa equilibrar a coisa, tornando a pontuação bem mais elástica, equiparando-as.

3) A Wine Advocate: Revista onde Parker publica, aprecia o rigor extremo no que à critica dos vinhos diz respeito, ou seja, na dúvida sobre a qualidade do vinho a nota desce em vez de subir e as avaliações numéricas são utilizadas apenas para reforçar e complementar as notas de prova, que é o principal meio de comunicação dos juízos de valor passados ao consumidor ou aos seus leitores.

4) Esta escala de pontuação traduz o seguinte (com as proporcionais equivalências para outras escalas):

a) 96-100: Um vinho extraordinário de caráter profundo e complexo, apresentando todos os atributos esperados de um vinho clássico da sua variedade. Os vinhos desta magnitude merecem um esforço especial para serem procurados, encontrados, comprados e consumidos.

b) 90-95: Um vinho de excecional complexidade e caráter. Em suma, um vinho excelente.

c) 80-89: Um vinho benévolo ou até um pouco mais do que isso. Já é, por certo, um vinho bom ou até mesmo muito bom, exibindo vários graus de requinte e sabor, bem como um caráter correto, sem falhas visíveis.

d) 70-79: Um vinho médio, com pouca variação, correto. Em essência, um vinho simples e inócuo. É um vinho que se consome sem dificuldade, mas que se encontra fora da classe daqueles que poderemos chamar de néctares. Perfeito para usar como tempero na elaboração de alguns pratos especiais da gastronomia, todavia, ainda bebível.

e) 60-69: Um vinho abaixo da média, com deficiências visíveis, tais como a acidez excessiva e taninos fora do esperado, uma ausência de sabor, ou, eventualmente, aromas ou sabores indesejados. Não se recomenda o seu consumo, nem mesmo o uso deste para temperar alimentos.

f) 50-59: Um vinho considerado inaceitável. Sobre os vinhos nesta categoria, que infelizmente ainda se consomem em demasia no nosso país, importa dizer que o uso de garrafas de vidro para o seu engarrafamento é um total desperdício de vidro e de rolha. Não devia ser usado para consumo humano nem mesmo como tempero.

Espero que tenhas apreciado, minha querida Berta, tanto como eu, mais estes esclarecimentos. Por hoje, termino com um beijo, sempre saudoso, deste teu eterno amigo,

Gil Saraiva.

 

 

Carta à Berta: Série: Quadras Populares Sujeitas a Tema - 7) O Juiz

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Olá Berta,

Não sei se tens acompanhado, minha amiga, a discussão sobre a eutanásia. Terminar com a vida de alguém é efetivamente uma coisa séria. Mas nós vivemos em democracia e demos o poder de legislar, nas urnas, aos nossos representantes.

Os deputados, por muito que alguns lhes invejem a vida, mesmo sendo obrigados a votar, até contra a sua própria vontade, por disciplina partidária, por mais que se descubram desonestos no seu seio, são quem escolhemos, dentro das regras democráticas que traçámos para o país. São eles que regulam e criam as normas legislativas do país e foi precisamente para essa tarefa que os elegemos.

É a eles, que incumbe a responsabilidade de decidir o que fazer quanto a cada tema, de acordo com as maiorias parlamentares que arranjem, para cada um dos assuntos em causa, durante os anos que ali estão em funções. Portanto, terão de ser eles a votar a eutanásia e a definir as regras da sua execução, quer isso signifique a aprovação ou o chumbo da lei, apenas eles e mais ninguém.

Não me parece justo é ir pôr em causa a vida ou a morte de alguém, baseada na minha opinião, cuja área principal é o jornalismo, na opinião da Igreja Católica, que impõe o celibato aos padres e descrimina as mulheres, ou do meu eletricista que só quer saber de curto-circuitos, de minis e de futebol.

Votar a adoção e legalização da eutanásia por referendo é que seria profundamente errado. Se não confiamos no sistema temos, pelo voto, a possibilidade de o mudar. Mas não me peçam a mim para tomar o lugar que não é o meu e ir votar em algo sobre o qual até sei alguma coisa, embora tendo a consciência de não saber o bastante para aceitar essa responsabilidade.

Desculpa o aparte, mas o assunto anda na ordem do dia e eu sinto-me incomodado com algumas das coisas que vou ouvindo e lendo. Quanto à temática da nossa carta, sobre quadras sujeitas a tema, escolheste-me para hoje algo ligado à justiça. Por via das dúvidas fiz 3 quadras.

 

Série: Quadras Populares Sujeitas a Tema - 7) O Juiz.

 

O Juiz I

 

Se fores, em tribunal,

Injustamente acusado,

O juiz que te fez mal

Devia acabar culpado.

 

O Juiz II

 

Condenar, sem ter certeza,

Perdoar, por preconceito,

São critérios de tristeza

De juízes com defeito.

 

O Juiz III

 

Decidir, sem ter razão,

Num juiz é mais que asneira…

Se uma luva é para a mão,

Não se usa na carteira.

 

Gil Saraiva

 

Com estas 3 respostas me despeço, recebe um beijo amigo deste que nunca te esquece,

Gil Saraiva

Carta à Berta. Lisboa, Capital Verde Europeia 2020

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Olá Berta,

Em 2004, um ano que já lá vai, perdido na memória da primeira década do século XXI, era eu editor e jornalista do boletim oficial “TerrAzul”, da Associação da Bandeira Azul da Europa, escrevi uma série de eco crónicas para o semanário Expresso. São elas a base de algumas reflexões que, passados estes anos, e já sem o fervor ambientalista de então, acho relevante analisar agora. Não me vou dedicar aos artigos em si, mas ao evoluir das problemáticas então apresentadas. Espero que te agrade.

A vida é uma teia complexa de eventos que interligam de forma, mais ou menos perfeita, factos, atitudes e comportamentos. No final do segundo milénio a preocupação com o ambiente era crescente e ganhava adeptos, mais ou menos ferrenhos, em quase todas as frentes. Nasceram os partidos ditos ecologistas, desenvolveram-se as associações ligadas à defesa do ambiente. As sementes estavam lançadas. Era agora necessário cuidá-las.

A sociedade civil e os senhores do poder em todo o mundo foram, aos poucos, cedendo à necessidade: Era imperativo tomar medidas! Finalmente, na Conferência das Nações Unidas para o Ambiente e Desenvolvimento, que ficou conhecida como a Cimeira da Terra ou ECO92 ou RIO92, realizada no Rio de Janeiro em 1992, geram-se, entre outros, 2 documentos basilares: A Agenda 21 e a Agenda 21 Local.

 O conceito de “Desenvolvimento Sustentável” amplamente difundido na ECO92 possuía, por fim, amiga Berta, instrumentos e conceitos operacionais para uma aplicação eficaz e efetiva de políticas para ele direcionadas. Estavam inventadas as fórmulas de referência para a construção de um plano de ação a ser desenvolvido global, nacional e localmente, quer pelas organizações do sistema das Nações Unidas, quer pelos Governos e Autoridades Locais.

Mas onde? Onde aplicar semelhante plano? A resposta é por demais evidente, minha querida amiga: Em todas as áreas onde a atividade humana provoca impactos ambientais desfavoráveis.

É desde o RIO92 que quase duas centenas de países passam a considerar o “desenvolvimento sustentável” como elemento efetivo da sua estratégica política conjugando ambiente, economia e aspetos sociais.

A primeira Conferência das Partes (COP1 - Conferência das Partes designada também por Conferência das Partes da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas) ocorreu em 1995 na cidade de Berlim e nela foi firmado o Mandato de Berlim, no qual os países do Anexo I assumiram maiores compromissos com a estabilização da concentração de GEE ( a Emissão de Gases com Efeito de Estufa), por meio de políticas e medidas ou de metas quantitativas de redução de emissões.

Um salto significativo foi dado depois pelo Protocolo de Quioto em 1997, onde uma série de metas ficaram definitivamente estabelecidas e acordadas. Já no atual milénio, em setembro de 2002, a Conferência das Nações Unidas sobre o Desenvolvimento Sustentável, em Joanesburgo, reafirmou, inequivocamente, o imperativo de plena implementação da Agenda 21, entre outros documentos essenciais.

A Agenda 21, minha amiga, que se traduz na criação de objetivos e indicadores que possam aferir progressos e estabelecer metas a atingir para um desenvolvimento sustentável, tornou-se a ferramenta ideal para a aplicação de medidas e premeditação de objetivos no que ao ambiente dizia respeito.

Portugal (e é o nosso caso que nos importa mais diretamente, embora esteja globalmente inserido na estratégia mundial) tem, em termos de legislação ambiental, uma posição relevante na salvaguarda do Planeta. O nosso único problema é que parece que nos ficamos pelo papel, pela palavra escrita, pela promessa assinada.

As medidas tardam a ser implementadas e algumas das que florescem parecem temer ser coladas a adjetivos como “fundamentalista” ou “pseudo-qualquer-coisa”, mas nem tudo se perde e, aos poucos, lá vamos encontrando o traçado correto, pois temos os instrumentos para ir e chegar bem mais longe...

Começámos tão bem, nestes anos de definição de estratégias que temos de ir em frente, nem que seja… por um “desenvolvimento sustentável”.

Estes 2 últimos parágrafos servem para vermos como a passagem dos textos aos atos é enganadora. Portugal, que implementou entre 1992 e 2004 um excelente conjunto de medidas na legislação, passou os 15 anos seguintes a assobiar para o lado, a ver a banda passar. É certo que houve alguma evolução positiva, mas as centrais a carvão não deixaram de funcionar. As energias alternativas foram subsidiadas quase exclusivamente numa perspetiva muito mais económica do que sustentável e a meada ainda teria muito fio se lhe resolvêssemos pegar seriamente. Tudo correu de tal forma que, a dada altura, nós, que partimos na carruagem da frente da defesa do ambiente, perdemos literalmente o nosso lugar no comboio.

Apenas em 2019 a coisa voltou a ser importante para o país e a tomar uma relevância, muito por força de novos movimentos e partidos, pelas eleições legislativas, pelo Acordo de Paris em 2015, pelas COP seguintes e depois pela Cimeira do Clima em Madrid,  convocada pelo Secretário Geral das Nações Unidas, António Guterres, para coincidir com a COP25 e dela tirar um proveito sustentável com a aprovação de novas medidas e metas a alcançar para o equilíbrio climático, envolvendo, praticamente, todos os países.

Infelizmente, Berta, graças à Austrália, Estados Unidos e Brasil, seguidos da Índia, China e Rússia, num patamar abaixo, tudo volta a ficar adiado, uma vez mais, para a COP26. O caso australiano, então, é perfeitamente surpreendente e absurdo, se tivermos em linha de conta que o estado de calamidade que o país atravessa é, quase na totalidade, devido aos incêndios, fruto das próprias alterações climáticas, que geram tempestades secas, repletas de raios, que vão gerando o caos, à medida que provocam incêndios, que alteram o comportamento dos ventos, que, que, que… numa reação em cadeia sem fim à vista.

Mais grave ainda é sabermos que estes 6 países são os produtores diretos de mais de 50 por cento das emissões produzidas no planeta, e que, por isso mesmo, são diretamente responsáveis pelo agravamento do problema, que continua sem solução à vista. Durante este ano resta-nos seguir com a União Europeia o caminho da Sustentabilidade. A UE resolveu continuar o seu trajeto, independentemente dos outros parceiros mundiais o fazerem ou não. É por causa disso que Lisboa é, a partir de ontem, a Capital Verde Europeia 2020, com obrigação de plantar, este ano, 20 mil árvores, entre outros objetivos.

Este, minha querida amiga, é o atual ponto de situação, esperemos que os anos 20, agora iniciados, sejam mais auspiciosos para todos nós. Despeço-me com um beijo saudoso, este teu amigo de sempre,

Gil Saraiva

 

Carta à Berta: Bolsonaro... e o alegado caminho para a DITADURA!

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Olá Berta,

Espero que o vento previsto aí para o Algarve não seja demasiado forte nem incomodativo. A região está habituada a brisas suaves e a ventos pouco intensos. Principalmente nessa zona do Sotavento onde te encontras.

Um dos alegadamente maiores idiotas da história do Brasil, ocupa, neste momento, a presidência do país, de seu nome, Jair Bolsonaro. Depois da COP25 e do papel mesquinho, ridículo e assustador a que o Brasil se prestou, por força das diretrizes presidenciais, é a vez de o próprio país, vir a público, revelar mais algumas facetas do alegado fanático de direita religiosa.

Segundo declarações, da Presidente da Federação Nacional dos Jornalistas do Brasil, <<Bolsonaro mostra-se hostil à liberdade de expressão e de imprensa e tem demonstrado essa hostilidade com diversos meios, não só pelos ataques verbais que faz aos jornalistas, mas também pelas tentativas de desacreditação dos “media”(…) Há no Brasil o princípio constitucional da liberdade de imprensa, mas o Governo tenta impor-se contra este princípio usando o seu poder>>.

Por outro lado, Rogério Christofoletti, professor da Universidade Federal de Santa Catarina e membro do Observatório da Ética Jornalística, afirma que está em movimento no Brasil a implantação de uma agenda anti jornalística.

O douto responsável mostra-se convicto quando diz: <<Estou convencido que esta estratégia faz parte das relações que o Presidente do Brasil tem com a sociedade, numa busca de inimigos claros e evidentes. Ele escolheu a imprensa como um desses inimigos e, para jogar com o seu público, faz críticas e acusações, promovendo uma campanha anti jornalística>>.

Para a Presidente da Federação Nacional dos Jornalistas do Brasil, Maria José Braga, e para o já referido membro do Observatório da Ética Jornalística, Rogério Christofoletti, é evidente que Jair Bolsonaro, enquanto Presidente do Brasil, promove uma política concertada de ataques à liberdade de expressão.

Aliás, a Presidente da FENAJ adiantou que Bolsonaro deixou claro, ainda como candidato, nos seus discursos de apologia à ditadura militar e à violência, que, os mesmos, uma vez implantados como métodos de Governo, gerariam a sua oposição ao papel dos meios de comunicação social de fiscalizar os poderes da democracia.

Maria José Braga afirma ainda: <<Ele é uma pessoa, um político, e agora um Presidente, que de facto não tem nenhum apreço pela democracia e, por isso, não respeita as regras democráticas (…) não só em palavras, mas por atos, o Presidente tem atacado e retaliado os “medias” brasileiros>>.

A Presidente da FENAJ é perentória ao afirmar que, após um estudo, realizado pela Federação a que preside, ao quase primeiro ano completo de Governo as conclusões são alarmantes.

Segundo a mesma fonte, Bolsonaro desenvolveu ataques sistemáticos à liberdade de expressão e de imprensa ao promover um determinado número de medidas, que passam por avançar com:

Críticas diretas a repórteres e órgãos de comunicação social; extinção da obrigatoriedade de registo para exercer a profissão de jornalista; restrições visando órgãos de comunicação social específicos, apresentando o caso particular das medidas contra o jornal “Folha de S. Paulo”, uma publicação impressa, líder em todo o país, que foi proibido de participar em concursos e licitações públicas.

Aliás o estudo, já referido, divulgado este mês de dezembro pela Federação, indicou que o Chefe de Estado terá realizado, pelo menos, 111 ataques públicos contra profissionais da comunicação social quer em entrevistas, quer em publicações nas redes sociais, isto só no ano de 2019, o que indica um ataque programado e bem direcionado a cada 3 dias.

Ainda segundo a mesma fonte, estes ataques seriam uma forma de o <<Presidente incitar os seus seguidores a não confiarem no trabalho jornalístico da maioria dos órgãos e dos profissionais, principalmente quando divulgam notícias críticas>>.

Por sua vez Rogério Christofoletti apresenta como resultado das suas avaliações ao longo deste ano a conclusão de que o Presidente do Brasil decidiu adotar ações semelhantes às do Presidente dos Estados Unidos da América, Donald Trump, quer na retórica quer no comportamento, que, reiteradamente, afirma que os meios de comunicação social críticos ao seu Governo propagam notícias falsas.

Segundo Christofoletti, o Presidente tenta assim, com esta atitude, estabelecer uma narrativa que quer ser preponderante aos factos e que, em última análise, sequestra a verdade dos mesmos. Acrescenta ainda que Bolsonaro faz transmissões ao vivo na internet, na rede social Facebook, todas as quintas-feiras e que usa como seu canal de comunicação, em direto com o público, o Twitter e que, deste modo, prescinde dos mediadores convencionais, ou seja, da comunicação social tradicional. Mas o membro do Observatório da Ética Jornalística vai mais longe, afirmando que o Presidente do Brasil sataniza e demoniza a imprensa brasileira e não só.

Os exemplos são muitos, mas, voltando apenas ao já referido, o Presidente, não só excluiu a Folha de S. Paulo das licitações e concursos públicos como, por retaliação, cancelou a assinatura do jornal da lista de periódicos recebidos pelo Governo brasileiro.

Esta medida causou uma reação de Lucas Furtado, o subprocurador-geral junto do Tribunal de Contas da União, o TCU, tendo, na sequência dos factos, apresentado um pedido formal para que a Folha de S. Paulo não fosse excluída das licitações. Até ao momento em que te escrevo, minha querida amiga Berta, este pedido ainda não foi sequer analisado, segundo é referido pelas mesmas fontes.

Quando no fim de outubro, Bolsonaro, declarou que nenhum órgão do Governo voltaria a receber a Folha de S. Paulo, adiantou, à laia de explicação, que o jornal era um órgão propagador de notícias falsas.

Visando criar a sua própria imprensa, devidamente moldada à sua imagem e semelhança e devido à falta de jornalistas devidamente creditados para a comporem, o poder executivo enviou em outubro para o Congresso, um projeto chamado “Verde e Amarelo” que prevê a extinção de registo profissional para quem exerça a profissão de jornalista.

Já em agosto último, Bolsonaro havia declarado publicamente que um outro jornal, o “Valor Económico” poderia ter de fechar as portas, uma vez que o Governo iria acabar com a norma que obrigava as empresas de capital aberto a publicarem os seus balanços financeiros em jornais nacionais, e, com isto, retirar os fundos necessários à sobrevivência da publicação, uma vez que esta ousara, por diversas vezes, criticar a sua gestão, nomeadamente, na vertente económica e financeira.

Contudo, a determinação do Presidente do Brasil, precisou, e ainda bem, de aprovação do Congresso, que inteligentemente a chumbou, sem propor sequer qualquer alternativa possível.

Este é um pequeno exemplo do que tem sido a governação de Bolsonaro. Muito pior do que isto tem acontecido numa imensidão de áreas, desde as questões ambientais, à tentativa de alteração de costumes, ao ataque sistemático às tribos indignas e à criação de uma legião de fanáticos. Em apenas um ano, ainda por terminar, o programa de implementação de uma alegada nova ditadura no Brasil vai adiantado.

A minha esperança, minha querida amiga, é que este povo que eu adoro como se fosse o meu, consiga arranjar forma de inverter esta vertiginosa sucessão de acontecimentos e que este alegado lunático consiga ser travado a tempo. Seja por eleições, seja por impugnação, seja por abuso de poder, seja pelo que for. Impõe-se o fim, a curto prazo, desta desastrosa governação de gente que acha que os peixes são inteligentes e as pessoas burras que nem calhaus.

Despeço-me, como sempre, enviando-te um beijo saudoso, deste que não te esquece,

Gil Saraiva

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