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Carta à Berta

Carta à Berta é o local dos Desabafos de um Vagabundo, do Senhor da Bruma, essa bruma a que chamam de internet, de um Haragano, o Etéreo, qual cavalo selvagem que galopa entre cartas alegadamente, quiçá, sem fundamentos.

Carta à Berta é o local dos Desabafos de um Vagabundo, do Senhor da Bruma, essa bruma a que chamam de internet, de um Haragano, o Etéreo, qual cavalo selvagem que galopa entre cartas alegadamente, quiçá, sem fundamentos.

Carta à Berta: MEO, NOS e VODAFONE, o Trio da Vida Airada

Berta 548.jpgOlá Berta,

Lembraste de eu ter-te contado que reclamei sobre o facto de agora termos que levar com 30 segundos de publicidade obrigatória sempre que queremos ver um filme ou um documentário nas gravações automáticas da MEO? Pois bem, já tenho resposta à minha reclamação e passo a transferi-la para esta carta.

“Caro Gil Saraiva,

Em resposta ao seu pedido que mereceu a nossa melhor atenção informamos que à semelhança do que se verifica nos restantes formatos de publicidade em televisão, não existe forma de excluir a publicidade. O que este novo modelo traz de diferenciador é a possibilidade de a publicidade ser segmentada consoante o perfil de cada utilizador. A partir de agora, terá sempre a opção de escolher entre publicidade personalizada ou genérica. Para visualizar o conteúdo gravado terá sempre de escolher uma das opções de visualização da publicidade. A plataforma tecnológica utilizada para a entrega de publicidade foi desenvolvida, em cooperação, pela MEO, NOS e VODAFONE. O projeto obedece às mais rigorosas normas de privacidade e proteção de dados de clientes. A par disso, todos os dados recolhidos para efeitos de publicidade são processados de forma anonimizada na plataforma criada para o efeito. Estão por isso garantidos todos os direitos consagrados no Regulamento Geral de Proteção de Dados. A não aceitação da visualização da publicidade, genérica ou personalizada, implica a não visualização do programa gravado. Mais informamos que pode consultar as Condições de Utilização das Gravações Automáticas em:

https://www.meo.pt/condicoes-de-utilizacao/gerais-dos-servicos...”

A resposta é muito esclarecedora, contudo omite tudo o que é importante e revela que realmente existiu concertação entre empresas de comunicação. Portanto, os cérebros da MEO, da NOS e da VODAFONE juntaram-se todos para lançarem esta publicidade obrigatória, concertando estratégias. Mas o que é, realmente, grave é o facto de todos eles acharem que estão no direito de alterarem unilateralmente as regras das gravações automáticas, acrescentando às mesmas uma obrigação que não constava nos contratos feitos com os seus clientes, ou seja, connosco. Eu poderia ir para tribunal? Podia, se fosse multibilionário para combater este lóbi na barra de um tribunal e provavelmente ganhava.

Eles afirmam que o projeto obedece às leis da privacidade, mas esquecem-se de dizer que alteraram um contrato comigo, enquanto operador, sem aviso ou autorização prévia. O que importa não é a garantia dos direitos de privacidade, mas a garantia da manutenção do contrato tal e qual foi feito comigo.

Alterar as Condições de Utilização das Gravações Automáticas devia requerer o meu consentimento e o de qualquer outro utilizador dos serviços destas empresas. O erro está no abuso de poder. Eu já pago uma verba no contrato com a MEO para poder ter acesso às gravações automáticas. A obrigatoriedade de me fazer ver 30 segundos de publicidade, antes de cada filme ou documentário, das gravações automáticas, é um preço acrescido, pago em tempo, por mim e por qualquer utente destes serviços, sem o nosso consentimento. Ou será que para estas tempo não é dinheiro? Claro que é e são bem pagas pela alteração que fizeram abusivamente.

Ás vezes tenho pena de não ser rico apenas por coisas assim. Iriam ter que retirar a nova norma ou reduzir os custos do contrato, repartindo os chorudos benefícios que têm com esta nova norma publicitária, isto se me fosse viável pô-los em tribunal. Assim, infelizmente minha querida Berta, ficam-se a rir, descaradamente na minha cara.

Mandei também a minha reclamação para as entidades de defesa do consumidor, até ao momento nem uma respondeu. Infelizmente é assim que funcionam os grandes grupos e pouco podemos fazer do modo como as coisas estão implementadas. Despeço-me triste, até à próxima carta, a imaginar que a MEO é um enorme “smile” de riso cínico e arrogante, fica um beijo,

Gil Saraiva

 

 

 

Carta à Berta: A Alegadamente Ignóbil Graça Freitas - Parte II/II

Berta 552.jpgOlá Berta,

Terminando o assunto relativo à entrevista dada ao jornal Público, no início da semana pela alegadamente ignóbil Graça Freitas, passo a comentar a restante entrevista e o que me ficou por assinalar sobre essa senhora na carta anterior e que não quero deixar de referir.

Na entrevista ao Público, a Diretora-Geral de Saúde sublinhou que, num tempo em que a Covid-19 está a começar a ser confinada, muitas das normas que estão em vigor deverão desaparecer brevemente. Ora, minha querida amiga, tu vês algum controle efetivo da pandemia? Neste momento só não estamos pior do que nos meses de janeiro e fevereiro e talvez março deste ano. O famoso RT continua acima dos 0,8. O número de casos ainda não baixou do milhar e os óbitos não mostram qualquer esperança de passarem a residuais. Onde está então o controle? Na vacina?  No excelente trabalho do almirante? Claro que isso ajuda, mas não resolve a situação.

A dona Graça fala no regresso à normalidade. Sempre com enfoque na vacina. Mas faz tábua rasa das previsões da Organização Mundial de Saúde, que apontam uma subida de mortos para a Europa, durante o inverno, que poderá ultrapassar o quarto de milhão de futuras vítimas. A senhora Freitas disse igualmente que: “Vamos tender a voltar à nossa vida como era em 2019”. Ninguém reforma esta mulher?

Ela prepara-se para enviar para o “Domínio dos Deuses” e para o “Reino da Opacidade” a informação referente ao evoluir da Covid-19 em Portugal seguindo o único exemplo mundial que sempre assim atuou, desta forma tão iluminada, a Coreia do Norte. Como é óbvio, amiga Berta, o fim dos boletins diários da covid-19 é um ato absolutamente condenável e de falta de respeito pelos portugueses. Se a DGS acabar mesmo, como promete a dita Freitas com os documentos que todos os dias informam o público do número de casos, mortes e internamentos pela pandemia, entraremos no âmbito norte-coreano da desinformação, situação que, no meu modesto entendimento, viola os direitos constitucionais de todo a população portuguesa.

Se esta entrevista, minha amiga, fosse efetuada pelo falecido Max, a senhora Graça seria equiparada certamente à mula da cooperativa por afirmar convictamente a seguinte asnice: “O foco da DGS vai tender a ser na doença propriamente dita e não tanto na infeção. Para isso, o boletim vai deixar de ser diário, para libertar os portugueses do peso dos números. Queremos aumentar o intervalo desta publicação, sendo que, sempre que acontecer alguma coisa inesperada, comunicaremos”.

Uma atitude que, a acontecer, vai levar este país em que vivemos a uma nova e gravíssima crise pandémica. Pode não morrer tanta gente como aconteceu até esta fase da vacinação, mas as consequências serão de uma gravidade completamente inimaginável. Despeço-me triste com tanta asneirada proferida por alguém que devia ter responsabilidades sérias na gestão da pandemia. Os meus votos, desejos e anseios vão para que Marta Temido e António Costa se apercebam da asneirada antes de esta se iniciar e que a possam extinguir atempadamente. Ah, resolvi nem esperar pela reunião do INFARMED para escrever esta segunda parte. Por hoje é tudo. Recebe um beijo de despedida deste teu amigo de sempre,

Gil Saraiva

 

 

 

Carta à Berta: A Alegadamente Ignóbil Graça Freitas - Parte I/II

Berta 551.jpgOlá Berta,

Por mais que eu não queira voltar a falar desta senhora, lá vem, de novo, a dita cuja Diretora Geral de Saúde, dizer uma alarvidade que me tira do sério. Desta vez, Graça Freitas (a alegadamente ignóbil diretora das ideias peregrinas e dos raciocínios absurdos), cujo nome já se tornou famoso no país, veio, através de uma entrevista dada ao jornal Público anunciar, como se algo de bom se tratasse, mais uma tentativa de fuga à transparência, com o mais vil descaramento.

Relembro-te, querida Berta, que a ela se deve o alegado facto de, em todo o país, (e principalmente nas zonas metropolitanas de Lisboa e Porto) nunca terem sido divulgados os casos, infeções e óbitos ao nível das freguesias, no âmbito da pandemia, mesmo contrariando com isso o que os especialistas acham ser o procedimento mais correto e eficaz para ajudar as populações a fazer uso das medidas anunciadas de combate à Covid-19. Usar de maior transparência podia trazer à ribalta e à vista de todos a imensa incompetência inicial da gestão pandémica.

O anúncio que a Dr.ª Freitas tinha para fazer ao país, minha querida amiga, bem no final da entrevista, como se isso alguma vez pudesse repor a normalidade no quotidiano ou como se fosse algo que realmente viesse a trazer algum benefício às pessoas, foi o seguinte:

“Vamos libertar os portugueses desta carga que é recordar todos os dias quantos casos, quantos internamentos, porque isso também dá um peso à nossa vida.”

Fazer esta afirmação a um órgão de comunicação social, como se estivesse a querer fazer algo de positivo não só é ridículo como é uma afronta à inteligência das pessoas. Graça Freitas não quer é continuar a ser escortinada pelos portugueses e está a tentar arranjar uma desculpa (esfarrapada, diga-se) para levar a água ao seu moinho. Esta é mais uma atitude inaceitável. Acabar com os relatórios diários da pandemia e os respetivos gráficos, numa altura em que os casos diários se mantêm na ordem dos milhares, a cada dia que passa, só pode servir interesses obscuros e quiçá sinistros.

É tão grave como quando afirmou, com total desconhecimento médico e científico, que: “O uso generalizado de máscara, por parte dos portugueses, só vai trazer à população uma falsa sensação de segurança.” Ainda te lembras amiga Berta?

A Dr.ª Freitas também queria ficar, alegadamente, com o controlo da vacinação em Portugal, imagina só o que poderia ter acontecido querida Berta. Para nossa sorte quer a Ministra da Saúde, Marta Temido, quer o Primeiro-Ministro, António Costa, dessa vez, estavam atentos e à revelia da DGS nomearam uma task-force cujo comando, depois das barracas de mais um burocrata, acabou por ser assumido, com o máximo sucesso, por um militar, o vice-almirante Gouveia e Melo.

É preciso arranjar uma forma de impedir que Freitas cancele os relatórios diários sobre a Covid-19 a que a DGS está atualmente obrigada, e isso, custe o que custar. Para não me alongar em demasia terminarei esta carta na próxima sexta-feira, já depois da reunião do INFARMED na quinta-feira, ou seja, amanhã. Despeço-me com um beijo saudoso,

Gil Saraiva

 

 

 

Carta à Berta: O Bom Taliban - Parte II/II

Berta 550.jpgOlá Berta,

Voltando ao tema do bom taliban, para concluir a ideia de ontem, escusas de avançar com a ideia de que só é aceitável aquele que está morto. Esse não é coisa alguma porque, pura e simplesmente, já não existe. Mas voltando ao que sabemos dos novos Talibans, no atual Afeganistão, já é certo que o Governo vai estar sob o comando e supervisão de um líder religioso e também é sabido que, em vez de uma constituição no país, a lei suprema será a religiosa, ou seja, aquela que aplica uma fanaticamente deformada definição de islamismo.

O ministro do Ensino Superior do novo Governo taliban, um tal de Abdul Baqi Haqqani, expôs as novas políticas religiosas numa conferência de imprensa em Cabul, dias depois da formação de um executivo que, como é do conhecimento de todos, é exclusivamente masculino. Para serem considerados diferentes este atual ministro taliban diz que as mulheres vão ter acesso à universidade, como se estivesse a conceder um prémio à comunidade internacional, imagina tu, amiga Berta. Porém, mais à frente no discurso, entre linhas, explica que as mulheres vão passar a frequentar universidades exclusivamente femininas, onde os 'hijabs' serão obrigatórios, só não especificou se tal significa o uso de lenços obrigatórios na cabeça, tapando totalmente a cara, mas não é difícil de adivinhar qual será o procedimento a adotar num próximo ano escolar.

Para além disso, o ministro quis ainda deixar claro que a coeducação não é, nem será nunca, permitida, bem como deverá ser imposta a segregação de género para (desculpou-se o líder taliban) assegurar a integridade física feminina. O que te parece Berta? O preocupado ministro garante ser também esse o motivo da implementação de um conjunto de regras para as mulheres que incluem igualmente um código de vestuário obrigatório. Apesar de tudo, de um modo condescendente, o ministro do Ensino Superior afirma ainda que as disciplinas ou cadeiras dos cursos superiores ministrados às mulheres vão ser alteradas, de maneira a melhor se adaptarem à sua própria condição feminina. Um verdadeiro rei da hipocrisia.

Há ainda o problema de permitir no país o acesso à música e às artes, como o teatro, o cinema, entre outras formas de expressão cultural, sendo que o governo taliban admite ainda estar a estudar o problema. Problema são também as manifestações públicas femininas que, segundo o novo Estado, estão absolutamente proibidas e que, caso aconteçam de novo, serão reprimidas rápida e violentamente. Os talibans afirmam que não pode haver direitos iguais entre géneros que são diferentes e que cada género terá de ocupar o seu verdadeiro lugar na sociedade islâmica que pretendem construir.

Como se tudo isto não fosse, por si só, suficiente, há ainda que lembrar que entre os elementos do governo e dos líderes religiosos, estão mais de uma dúzia de terroristas, atualmente com a cabeça a prémio nos Estados Unidos e que constam das listas de criminosos de guerra procurados pela NATO. Para cúmulo, a velha guarda taliban de há vinte anos (ou seja, os líderes talibans que sobreviveram aos últimos vinte anos) estão todos em lugares de poder ou na eminência de serem nomeados para muitos dos altos cargos ainda por preencher.

Voltando, por tudo isso, há existência ou não de um bom taliban tenho que reconhecer que tal não existe, porque a própria filosofia radical destes fanáticos religiosos impede que isso possa ser uma realidade. A verdade, minha grande amiga Berta é que o bom taliban permitiria uma carta de direitos humanos e nunca diria que a atual carta universal dos direitos humanos é uma distorção ocidental do significado de humanidade, completamente incompatível com a filosofia que está por detrás do novo regime taliban no Afeganistão. O exemplo da igualdade de género é usado para explicar que géneros diferentes (homens e mulheres) pelo simples facto de o serem, nunca poderiam ter direito a qualquer forma de paridade, quanto mais de igualdade.

Em resumo, minha querida Berta, este regime taliban é uma cópia fiel do anterior, apenas está a demorar algum tempo a ser integralmente implementado, a ver se o Ocidente liberta o país, quer das sanções, quer dos fundos monetários a que de momento lhes falta o acesso. E por aqui me fico, sem mais delongas. Despeço-me por hoje com esta minha conclusão sobre o que é o bom taliban. Conforme acho que deves ter adivinhado, o bom taliban é um conceito que não pode existir de modo algum, o fanatismo explica-o bem, ou se é bom ou se é taliban. Recebe mais um beijo de despedida,

Gil Saraiva

 

 

 

Carta à Berta: O Bom Taliban - Parte I/II

Berta 549.jpgOlá Berta,

A celebração do 11 de setembro é algo que me faz alguma confusão. Ainda mais quando já lá vão vinte anos. E pior ainda quando os americanos acabaram de abandonar à sua sorte o povo afegão, deixando-os entregues aos talibans. Quanto à lembrança de datas tristes eu sou dos que preferem não ficar a remoer. Registei por escrito e em poema a data, sofri na altura, perdi inclusivamente um grande amigo no ataque às torres, mas, porque a vida continua, arquivei o tema e deixei de celebrar a efeméride.

Não digo que aqui ou além, querida Berta, não tenha um momento de nostalgia amarga quando algo me traz à memória esse dia, porém, não gosto de carpir o passado, não é saudável e tende mesmo a ser algo depressivo.

Para meu espanto ainda há gente que acredita, não sei se genuinamente, que os atuais talibans são diferentes dos terroristas de há duas décadas atrás. As maiores estátuas do mundo budista, os budas de Bamiyan, de 55 e 38 metros de altura, destruídas selvaticamente pelos primeiros fanáticos, deviam ter servido de alerta para esta gente que abrigou carinhosamente Osama bin Laden e que foi mais do que berço do Estado Islâmico, pois que, minha grande amiga, serviu de refúgio e de campo experimental de um Estado Islâmico ultrarradical, como não há memória na história universal deste nosso imenso globo terreste.

Com efeito, querida amiga Berta, estou a falar de uma gente responsável por dar guarida aos planeadores e executores do 11 de setembro de 2001, um evento que usou aviões, carregados de seres humanos, como mísseis e que os fez explodir nas torres gémeas, no Pentágono, para além do que se despenhou na Pensilvânia, por intervenção heroica da tripulação. Estou a falar de assassinos religiosos da pior espécie, aos quais os talibans nunca deixaram de estar intimamente associados, por mais que atualmente tentem fugir com o rabo à seringa. Contudo, no meu modesto entendimento, são tão culpados como a Al-Qaeda, o ISIS e todos os grupos e organizações radicais de islamismo fundamentalista.

Estão, aliás, minha amiga de tantos anos, na mesma categoria do nazismo ou do estalinismo e deviam ser tratados com a devida proporção face aos atos praticados. Não há, nem pode haver qualquer perdão, para genocidas, assassinos, esclavagistas de género (neste caso, o sexo feminino) e qualquer tipo de facínoras à face deste nosso planeta, tendo em conta a mentalidade e o contexto dos factos, nas épocas em que os mesmos se desenrolaram. No atual mundo em que vivemos, tais práticas são absolutamente inadmissíveis e não deviam ter qualquer tipo de condescendência.

Por hoje fico-me por aqui, pois não te quero maçar em demasia com esta minha explosão de genuíno sentido de total afronta. Amanhã termino esta minha ideia. Um beijo,

Gil Saraiva

 

 

 

Carta à Berta: MEO e os Abusos das Grandes Empresas

Berta 548.jpgOlá Berta,

Cá estou eu, de novo, a reclamar. Desta vez, e ainda agora voltei ao meu convívio contigo através destas cartas, contra a MEO. Esta entidade está, uma vez mais, a abusar dos seus direitos e a obrigar-me a ver o que eu não quero ver. O problema tem a ver com publicidade obrigatória, daquela que não dá para saltar ou passar à frente, sempre que quero ver um documentário ou um filme nos canais incluídos no meu pacote de “canais pagos à MEO”, através das gravações manuais ou automáticas.

Ainda por cima, querida Berta, como se já não fosse um total abuso de poder impor publicidade na modalidade de obrigatória, a referida propaganda é sempre um anúncio de jogos ou casas de apostas ou de casinos online. Uma publicidade que deveria inclusivamente estar banida da televisão por ser, de longe, bem mais prejudicial para as famílias portuguesas do que o álcool ou o tabaco.

Não sei o que se passa nas outras operadoras como a NOS ou a Vodafone, porém, se o arranjinho for generalizado, o caso é ainda mais grave. Grave porque traduz uma ação concertada que visa viciar os mais fracos na prática do jogo a dinheiro, uma atividade que causa uma terrível dependência e graves problemas em muitos lares deste país que é o nosso. No entanto, eu estaria contra a propaganda obrigatória mesmo que ela fosse sobre a vacinação.

O meu contrato com a MEO, minha querida amiga, não tem nenhuma cláusula onde diga que, para além do pagamento mensal a que estou obrigado para usufruir dos serviços, eu ainda tenho que levar com a obrigação de gastar o meu tempo a ver publicidade que não quero.

Por isso mesmo, através do portal da queixa, apresentei a seguinte reclamação contra a MEO: “Venho, por este meio, reclamar contra a nova forma de publicidade imposta na MEO sempre que pretendo ver um filme ou um documentário nas gravações manuais ou automáticas dos canais pagos da MEO, ou seja, se eu já pago para ter acesso a um pacote de canais de filmes e documentários porque é que sempre que recorro às gravações sou obrigado a ver uma publicidade de 28 segundos, onde não me é permitido avançar para o que quero ver, sem primeiro ter de visualizar um spot de uma casa de jogos online?”

Não sei, minha querida, com que operadora tu tens contrato, mas se for outra que não a MEO, diz-me se isso também acontece contigo ou não e de que operadora se trata. Tenho estado a pensar apresentar queixa formal, contudo, não sei se o melhor canal para o fazer é o Provedor de Justiça, se as organizações de defesa do consumidor ou o PAN. Sim, sim, o PAN, porque só podem ser animais, para não dizer umas grades bestas, quem teve a ideia peregrina de implementar este sistema. Ora, o PAN tem certamente muito mais jeito do que eu para lidar com animais.

Por hoje é tudo, despeço-me sem reclamações, recebe um beijo deste teu amigo sempre pronto para desabafar e também para te escutar quando precisas, espero que tudo continue bem contigo e deixo um imenso registo das minhas saudades, sempre ao teu dispor,

Gil Saraiva

 

 

 

Carta à Berta: Cristiano Ronaldo - "Está Matematicamente Provado Que CR7 é o Melhor Entre os Melhores"

9db018b10f3cfa65cde7dbb78edc02c6.jpgOlá Berta,

Este é um regresso ainda tímido de férias. Enviar-te-ei uma ou outra carta durante o mês de setembro, mas efetivamente estava mesmo a precisar desta paragem criativa. Como diz o povo, e bem, eu estava a precisar de recarregar baterias. O tema de hoje é sobre Cristiano Ronaldo.

Um matemático bastante premiado e igualmente excêntrico da prestigiada Universidade de Oxford, no Reino Unido, afirma ter provado matematicamente que CR7 é o melhor jogador de futebol de todos os tempos. Ora, como diz o povo, mais uma vez, se está provado é porque deve ser, mesmo se o cientista em causa tem ar de derivar do cruzamento de Albert Einstein com a cantora Lady Gaga.

Ora, minha querida amiga Berta, a fórmula criada para um algoritmo por Tom Crawfort (que me lembra, não sei porquê, Lara Croft no filme Tomb Rider) prova que Cristiano Ronaldo é o melhor jogador de sempre, enquanto Messi e Pelé são os seus companheiros de pódio. Destaco que o matemático da Universidade de Oxford, no Reino Unido, criou esta maravilha da matemática para determinar quem é o melhor jogador de futebol de sempre e pôr um ponto final numa eterna discussão sobre o tema. Segundo o próprio professor surreal não restam dúvidas, se as houvesse, que Cristiano Ronaldo é o melhor de todos os tempos, quer se goste ou não do nosso herói.

Consultando o pódio, que acompanha a ilustração desta carta, podemos constatar que depois do nosso jogador internacional estão, obviamente, Lionel Messi, e o brasileiro Pelé. Porém, para surpresa certa do povo argentino, fora do pódio fica Diego Maradona, o que significa que, para este povo da América do Sul, a matemática deve ser uma batata e que eles optam por escolhas mais divinas ou coca-dependentes, como parece efetivamente ser o caso concreto e sem grandes dúvidas temáticas.

Segundo as “Notícias ZAP” do portal nacional da aeiou.pt, amiga Berta, o estudo foi encomendado pelo LiveScore, um dos líderes entre os fornecedores mundiais de informações desportivas em tempo real. O próprio LiveScore confirma que foram analisadas dezenas dos jogadores de futebol mais importantes da história, desde o início da modalidade, confirma igualmente que a escolha dos critérios foi criteriosamente avaliada tendo gerado sete parâmetros de dados fundamentais.

Desta avaliação resultou que os principais elementos que elevaram a fasquia para Cristiano Ronaldo foram os seus títulos nos clubes, os golos internacionais e recordes individuais, tendo o atleta criado, com estas escolhas de avaliação uma pequena, mas determinante vantagem sobre todos os seus adversários mais próximos. Segundo o avaliador, querida amiga, para melhor entendimento dos leitores, a lista dos dez melhores jogadores de sempre foi apresentada em percentagem, onde 100% é a maior pontuação possível.

Tom Crawfort, o invulgar professor e teórico matemático da Universidade de Oxford, revela na sua entrevista, minha querida Berta, que adora aplicar a matemática em temas que possam suscitar o interesse das pessoas e que para isso escolhe temas de interesse de cariz popular ou generalizado pelas redes sociais. Afirma mesmo que, nos últimos anos, tem sido muito divertido gerar respostas matemáticas para estas temáticas e que o futebol não podia ficar de fora das suas escolhas evidentes.

Numa entrevista ao “Soccerex”, Tom Crawford explicou que, embora Cristiano Ronaldo tenha ficado no topo do seu algoritmo, é claro que as estatísticas de todos os outros jogadores foram absolutamente incríveis, e que está certo que o debate vai continuar. Na sequência da mesma entrevista o diretor de marketing do LiveScore, Ric Leask, afirmou que:

“Pela primeira vez, queríamos aplicar a ciência da matemática para nos ajudar a resolver a questão eterna, e tem sido fascinante ver o professor Tom Crawford falar sobre os números em nome de milhões de fãs em todo o mundo.” Tendo ainda afirmado que “O índice é muito mais do que uma pontuação; para nós, ajuda a encerrar um debate que se arrasta há gerações. Em maio, apoiamos o nosso homem ao revelar Cristiano Ronaldo como o nosso embaixador mundial da marca e agora sabemos com certeza que temos a matemática do nosso lado.”

De notar ainda, querida Berta, que os sete parâmetros adotados como critérios e tidos em conta foram:

1- Golos por Clubes,

2- Títulos por Clubes,

3- Golos por Seleções,

4 - Títulos por Seleções,

5 - Bolas de Ouro,

6- Recordes Individuais

7- Épocas Fator-Z — um nome atribuído ao impacto de um jogador nas competições nacionais e internacionais que, de forma significativa, o tornam superior, relevante e único, num determinado ano, quando comparado com os demais jogadores, num período temporal de cinco temporadas consecutivas.

A este último fator eu teria dado o nome de o “Ano de Génio”, mas isso sou eu que não sou matemático nem tatuado. Espero que a temática de hoje te tenha agradado, minha querida Berta, neste meu ainda tímido regresso a estas nossas cartas. Despeço-me com um beijo saudoso,

Gil Saraiva

 

 

 

Carta à Berta: Boas Férias Minha Querida Berta

Carta à Berta.jpgOlá Berta,

Aproveito este início de agosto para fazer uma pausa nestas cartas. Digamos que vou de férias. Não quer isso dizer que vou viajar, nem muito menos que vou mudar muito as minhas rotinas quotidianas. Apenas serve esta pausa de agosto para te deixar respirar sem me teres por perto a zumbir lamentos e alegrias aos teus ouvidos a toda a hora e segundo, minha querida amiga.

Voltarei em setembro para que retomemos a nossa já longa rotina. Aproveito para te recomendar que, durante estas próximas semanas, te mantenhas afastada de crianças entre os zero e os quinze anos. Graças à Graça da DGS temos uma faixa da população sem vacina.

Nem a deixa do Presidente da República, a dizer que a opção (uma intervenção muito inteligente) ficaria ao critério dos pais, evitou que a senhora dos equívocos convictos viesse reforçar que os pais só poderiam vacinar as crianças com problemas ou mediante carta médica atestando a recomendação da vacina.

Graça Freitas, no meu entender, é o rosto da desgraça e das más opções da DGS ao longo deste ano e meio. Uma afronta à inteligência e bom senso dos portugueses. Espero que rapidamente chegue a sua hora de passagem à reforma e ao descaso que denota precisar com urgência. Beijos e boas férias minha querida, deste amigo de sempre,

Gil Saraiva

 

 

 

Carta à Berta: Portugal, o Censos 2021 e as Alterações Climáticas

Berta 544.jpgOlá Berta,

Numa altura em que foram publicados no site do INE os resultados preliminares do Censos 2021 e em que Portugal se prepara para seguir a via do desconfinamento e embora o Certificado Digital Covid-19 ainda dê problemas para chegar a todos os que já estão em condições de o ter, há coisas que realmente correm bem no reino luso, como, por exemplo, o auto agendamento, que cada vez tem menos travadinhas informáticas quando se tenta aceder a ele, embora ainda não esteja cem por cento funcional.

Positiva é, igualmente, a grande luz que se faz sentir sobre o adiamento dos tratamentos, consultas e operações, não relacionadas com a pandemia, minha querida amiga Berta. Porém, na realidade, existe falta de clareza na informação das responsabilidades criminais do pessoal ligado à saúde ou aos lares e à assistência social, onde possam vir a ocorrer óbitos provocados por contacto com estes trabalhadores que, devendo estar vacinados, optaram por não o fazer.

Parece certo que poderemos vir a assistir à abertura de processos judiciais, onde estes funcionários (e as instituições onde trabalham) correm o risco de ser diretamente acusados e condenados de homicídio por negligência, segundo a opinião de muitos advogados e constitucionalistas, pese embora o facto de, nesta altura, a situação ainda se manter na fase de avaliação e discussão temática.

Mas hoje, num mundo cheio de informação onde as novidades rapidamente se tornam obsoletas, prefiro falar um pouco do Censos 2021. De acordo com os primeiros resultados, Portugal, que tinha ainda tido um crescimento modesto da população de 5% entre 1991 e 2001, o que se traduzia num abrandamento significativo e constante, face às outras duas décadas anteriores, e um desacelerar de crescimento, menos significativo, de apenas 2%, entre 2001 e 2011, gerou, na última década, entre 2011 e 2021, minha simpática amiga Berta, uma verdadeira viragem ao entrar numa espiral real de declínio populacional, que nos retirou mais de um quarto de milhão de habitantes do país.

Em resumo, encolhemos de forma significativa nos últimos dez anos. Menos do que as previsões internacionais diziam (na casa dos 400.000 a 500.000 habitantes), mas, mesmo assim, é inegável que se trata de um encolher populacional grave e preocupante. A chegada de populações vindas da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, ou de outros pontos do globo, o regresso de muitos dos nossos emigrantes e a natalidade nacional não conseguiram, portanto, travar o envelhecimento e perda de população em termos globais. Mais grave se torna a situação se pensarmos que deveríamos crescer entre 250.000 a 500.000 habitantes e que em vez disso perdemos um quarto de milhão.

Numa outra perspetiva, é fácil de concluir que entre o abrandamento do crescimento e a realidade da atual diminuição da população, o país sangrou, perdeu ou fez evaporar, por força das circunstâncias, no século XXI, cerca de um milhão de habitantes, ou seja, 10% da sua atual população. Se nada for feito, amiga Berta, para inverter esta tendência, o final do século XXI pode apresentar Portugal com uma população total de apenas 6 milhões de habitantes, a mesma que tínhamos em 1920, há cem anos atrás. Uma verdadeira calamidade.

Podem os mais distraídos julgar que eu estou a ser exagerado, que algo assim é totalmente impossível, mas é para aí que caminhamos a passos mais largos do que aqueles que eu descrevi, efetivamente a Comissão Europeia prevê que a área em desertificação, em Portugal, passe dos atuais 68%, já observados em 2021, para os 93% previstos para 2050. Se pensarmos que em 1961, ano em que eu nasci, a área em risco de desertificação do país era de 23%, minha querida amiga, ora isso dá para ver bem a rapidez e evolução do flagelo. Em apenas 90 anos a desertificação pode subir, no mínimo, 70%, nunca menos. Contudo, estamos apenas a 29 anos dessa linha aflitiva e absolutamente grave.

Temos de agir enquanto país, e quanto antes, se não queremos ficar com um aspeto territorial semelhante ao do deserto do Sahara daqui a menos de três décadas. Mais grave ainda é que se somarmos estes dados, todos eles descritos e avançados nos inúmeros relatórios a que tive acesso, associados à diminuição gradual e progressiva que já se regista na população nacional, tal fusão de eventos pode fazer com que acabemos o século XXI com apenas um quarto da nossa população atual, ou seja, 2,5 milhões de habitantes.

Aliás, minha querida Berta, o Tribunal de Contas tem publicados diferentes alertas, aos sucessivos governos, no que respeita a estas áreas de combate à desertificação, ao auxílio na reposição da neutralidade dos solos, evitando a sua degradação, e posteriormente à reposição de solos produtivos e sustentáveis. Contudo, o Tribunal avisa que não consegue detetar para onde foram os milhões destinados ao combate à desertificação entre 1996 e 2021. A verdade é que estamos a perder todos os anos um por cento do território para a desertificação. Temos recebido verbas de vários programas, desde a Organização Nações Unidas até à União Europeia, sem que exista uma evidente aplicação destas verbas neste combate fundamental.

O assustador aumento dos incêndios parece tornar-se uma inevitabilidade e a nossa passagem de clima temperado a clima tropical já é quase um facto consumado. Temos de inverter esta situação ontem porque, afinal, amanhã, já será tarde demais. Acabei por me sentir árido com tudo isto, fico-me hoje por estes pensamentos, minha querida, recebe um beijo de despedida deste teu companheiro de desventura e de algumas alegrias,

Gil Saraiva

 

 

 

 

Carta à Berta: O Que Se Passa em Campo de Ourique? Conversa à Mesa do Café - IV - Os Bombeiros de Campo de Ourique - Espírito Pioneiro - Parte III/III

Berta 543.jpg(Fotografias de Gil Saraiva - Bombeiros de Campo de Ourique)    

Olá Berta,

Esta é a última de três cartas, sobre “O Que Se Passa em Campo de Ourique - Conversa à Mesa do Café" – Os Bombeiros de Campo de Ourique – Espírito Pioneiro. A presente carta trás consigo, pelo menos, mais duas situações que eu desconhecia de todo. Hoje o assunto versa, entre outras novas informações, aquelas que para mim constituem surpresa.

Efetivamente o Adjunto de Comando, André Fernandes, conseguiu fazer-me abrir a boca de espanto mais uma vez, nesta recolha de novos e surpreendentes conhecimentos, sobre os Bombeiros de Campo de Ourique, eles que são uma das sete corporações de Soldados da Paz existentes no Concelho de Lisboa.

Afinal, os “meus” bombeiros, e digo meus porque transportam consigo o nome do meu bairro (a que chamo meu, porque nele vivo e nele me sinto parte de um todo) que estão sempre prontos para socorrer e assistir quem deles precisa (ainda há poucos dias estiveram em Monchique), sem que disso sejam obrigados, tinham, minha cara amiga, muito mais para me revelar.

A conversa com o Adjunto do Comando já ia longa sem que André Fernandes demonstrasse qualquer pressa em lhe pôr um fim. A certa altura, enquanto me falava das viaturas ao serviço no quartel, que iam das quatro ambulâncias, ao veículo urbano de combate a incêndios, passando pela história adorável de como tinham transformado, estando já em fase de ultimação, um camião de transporte de leite num autotanque, até ao veículo de combate florestal e ao veículo ligeiro de combate a incêndios, veio à baila a necessidade de renovar este último.

No meio do diálogo, querida Berta, acabei por não anotar se tinham apenas um a funcionar e precisavam de renovar um segundo ou se se tratava de renovar o único existente. Porém, o relevante era mesmo a necessidade de atualizar devidamente uma das viaturas da corporação. Estas necessidades poderiam ser superadas mais rapidamente se o apoio da população, e de um ou outro mecenas, fosse mais relevante, o que atualmente era, cada vez menos, o caso.

Berta 543 b.jpg(Corredor de Fardamentos - Bombeiros Voluntários de Campo de Ourique)   

Como não podia deixar de ser, eu, que desde que entrara no quartel vira o estado de degradação em que todo o edifício se encontrava, encaminhei a conversa para a humidade visível, e para a falta de manutenção adequada, que era notória em todas as instalações no seu conjunto. Ora, cara Berta, sem qualquer vergonha o Adjunto do Comando reconheceu o óbvio. Aquele quartel fora antigamente uma fábrica de contadores de água, que por se encontrar ao abandono, fora ocupada pelos Bombeiros de Campo de Ourique, e transformada em novo quartel, precisamente porque as antigas, pequenas e obsoletas instalações da Rua Francisco Metrass tinam começado a meter água à séria.

Atualmente, a manutenção era efetuada à custa das artes e ofícios dos próprios bombeiros. O eletricista desenrascava o que era necessário para manter as ligações operacionais, os carpinteiros ajudavam na reparação de algum mobiliário, os canalizadores faziam o mesmo, bem como os pintores e outros ramos de operários que, simultaneamente, acumulavam as funções de bombeiros voluntários com a sua normal atividade laboral. O problema não era, portanto, o custo da mão de obra, porque essa era oferecida, mas o custo dos materiais para se fazerem as reparações.

Um sorriso no rosto de André fez-me perceber que vinha a caminho mais uma revelação, aliás, minha querida amiga, uma verdadeira surpresa. Porém, contava-me o Adjunto de Comando, a situação das instalações dos Bombeiros de Campo de Ourique, estaria certamente resolvida nos próximos anos, não mais que uma mão cheia deles e isso no máximo, afirmava ele convicto da situação.

Ao que parecia o imenso terreno, onde a corporação estava instalada, tinha-se valorizado de sobremaneira ao longo dos anos e era agora um território a que a Câmara Municipal de Lisboa queria deitar mão, para depois o valorizar em termos imobiliários, devido à situação estratégica e à excelente vista que proporcionaria a quem viesse a viver naquele local. Não apenas vistas para Monsanto, mas até ao Tejo se a construção fosse baseada em estruturas verticais de maior altura e porte.

Ora, para isso acontecer a Câmara iria em breve mandar construir um novo quartel para os soldados da paz, muito bem localizado, dentro do bairro e com facilidade de acesso a algumas vias principais da cidade de Lisboa.

O local mais provável, amiga Berta, parecia ser  a perpendicular à rua Ferreira Borges, na Rua de Campo de Ourique, do lado direito de quem vem a subir a Rua do Sol ao Rato, mesmo antes de chegar à Ferreira Borges, onde hoje se encontram uma imensidade de edifícios vazios e devolutos, prontos a dar lugar a um novo quartel de bombeiros. O local permitiria que os bombeiros ficassem com três saídas estratégicas das instalações, consoante a necessidade e urgência de cada situação, para outras tantas vias.

A alienação do atual terreno dos bombeiros dava e sobrava para a construção de raiz do novo espaço. É claro, dizia-me André, que continuariam com necessidades e carências para poderem ter um funcionamento menos preocupante, mas a atualização das tabelas de preços dos serviços prestados pela corporação, que se mantinham os mesmos desde há doze, treze ou catorze anos poderia ajudar.

Havia ainda a possibilidade de poder gerar algum rendimento através de dar formação aos lisboetas nas áreas dos primeiros socorros e outras, bem como às empresas, ou até de conseguir alguém capaz de elaborar um crowdfunding dirigido a necessidade específicas da instituição.

Berta 543 e.jpg(Sala de Formação - Bombeiros Voluntários de Campo de Ourique)     

Explicar às empresas e às pessoas que donativos em dinheiro ou em espécie, estavam abrangidos ao abrigo da Lei do Mecenato e que, portanto, eram donativos deduzíveis aos impostos, era ainda outra grande tarefa que eles tinham em mãos, minha querida amiga Berta.

Se alguém doasse, por exemplo, uma televisão ou casaco de cabedal ou uma bicicleta, o donativo aceite é traduzido pelo seu custo de mercado e a pessoa pode descontá-lo no IRS, sem precisar de ser ela a o transformar em dinheiro, elucidava-me André. Tinham era de arranjar formas de cativar a comunidade e gerar o envolvimento com eles, de forma a que todos se pudessem vir a sentir parte deste todo que se desejava implementar, ajudando a criar e fomentar esta interação.

A outra preocupação do Adjunto de Comando era fazer-me ver a importância do reforço de sócios dos Bombeiros de Campo de Ourique. Afinal, com apenas cerca de vinte euros pagos por ano, um novo sócio, se somado a muitos outros, pode contribuir de sobremaneira para suprir as necessidades mais urgentes dos soldados da paz.

André achava até que as pessoas deviam vir conhecer o quartel, visitar a sala-museu ou vir comer ao restaurante de forma a que a interação com o seu corpo de bombeiros pudesse crescer de forma sustentável e com isso ajudar a tornar mais fortes os laços comunitários. Era contagiante o carinho, dedicação e amor daquele homem aos bombeiros.

Uma pessoa pode não precisar dos bombeiros durante anos, mas quando precisa quer certamente ter a certeza de que pode contar com eles. A conversa à mesa do café aproximava-se do fim, minha querida amiga, e eu ainda não perguntara a André como faziam, nos dias de hoje, para arranjar pessoal, a mão de obra tão necessária para a existência de bombeiros voluntários.

Segundo o Adjunto de Comando, os voluntários estavam destinados a acabar em todo o país. Cada vez menos gente conseguia estar disponível para ir passar horas e horas, dias e mais dias, depois do seu horário de trabalho, afastado da família, a dar o tempo aos voluntários.

Antigamente era mais fácil, por exemplo, em Campo de Ourique, e sabendo que apenas as classes mais baixas estão, maioritariamente, disponíveis para servirem como bombeiros, a angariação de jovens era feita nas franjas menos abonadas do bairro, fosse na zona da Maria Pia ou da Meia Laranja, fosse mesmo no Casal Ventoso, onde, segundo André Fernandes, centenas de jovens foram, ao longo dos anos, salvos da droga, porque precocemente integravam os bombeiros voluntários como infantes e mais tarde cadetes, na esperança de chegarem a bombeiros.

Berta 543 c.jpg(Parte das Salas Museu dos Bombeiros de Campo de Ourique)    

Fiquei impressionado com mais esta surpresa, para mim uma verdadeira revelação, contudo, a lógica era inegável, se um jovem, ainda criança, tinha um objetivo nobre era, por força da situação, mais difícil que se metesse na droga.

De repente ao escutar o que o Adjunto me contava comprovei que, pelo que eu próprio conhecia que ele tinha toda a razão. Cheguei mesmo a inventar, para o interior dos meus pensamentos, um novo provérbio: “Gente fina não veste à bombeiro nem segura mangueira.” Sorri para mim mesmo. Era uma realidade… aos poucos os voluntários iriam, nos próximos anos, dar lugar a um cada vez maior número de bombeiros profissionais pagos pela sua função, devidamente, com uma carreira e devida progressão ao longo da vida. Era engraçado, querida Berta, que eu nunca tivesse pensado nisso.

Olhei para o relógio, a conversa estava a chegar às três horas de duração e o meu caderno já tinha cinco páginas cheias de apontamentos relevantes. O Adjunto de Comando devia querer ir-se embora, porém, fosse por educação ou gosto de me informar sobre assuntos que para ele eram uma evidente paixão, não dava qualquer mostras de cansaço da entrevista, nem de mim, por sinal.

Andávamos agora às voltas pelo quartel, enquanto ele me ia explicando tudo, passámos pela sala de formação, pelas instalações do comando e do comandante, sala de reuniões e foi nas salas do pequeno museu da instituição que uma fotografia me chamou a atenção. A foto, que me esqueci de apanhar com a máquina fotográfica que tinha ao peito, mostrava um grupo de raparigas, todas fardadas com a farda de bombeiro. Ingenuamente perguntei se era algum coro.

André Fernandes riu-se. Não, não eram coro algum, nem faziam parte de fanfarra ou de banda dos bombeiros. Aquela fotografia era a prova de que os Bombeiros Voluntários de Campo de Ourique, tinham sido o primeiro quartel de bombeiros de Portugal continental e ilhas a promover a igualdade de género e a incorporar no seu seio um corpo de bombeiros femininos de doze ou treze mulheres, já não tinha a certeza. Decorria o ano de mil novecentos e oitenta e um e, mais uma vez, o comandante via-se na dificuldade de angariar novos voluntários. Ao consultar os regulamentos e normas dos bombeiros, notou que estes nunca se referiam a bombeiros masculinos, mas sim a indivíduos.

Decidiu então consultar a autoridade máxima dos bombeiros nacionais a quem perguntou se a palavra indivíduos nos regulamentos e normas se referia apenas a indivíduos ou também a individuas. O seu superior nacional pareceu incomodado com a questão. Não havia individuas, a palavra indivíduos não tinha género, era como dizer pessoas, esclareceu indagando o porquê de tal disparate. O Comandante dos Bombeiros de Campo de Ourique esclareceu prontamente que aproveitava a ocasião para comunicar superiormente que no fim daquele mês o seu quartel teria uma nova secção de bombeiros femininos.

A polémica gerada foi imensa, mas o Comandante levou a sua avante e foi assim, querida Berta, que os quarteis de bombeiros passaram a ter homens e mulheres na sua constituição. Esta foi a minha maior surpresa nesta entrevista à mesa do café. Senti-me orgulhoso por saber que os “meus” bombeiros foram geradores e pioneiros na promoção da igualdade de género dentro da instituição que compõe os nossos soldados da paz. Mais ainda por saber que a minha rua, a Francisco Metrass, foi berço das primeiras bombeiras de Portugal. Caramba, vivam os Bombeiros de Campo de Ourique. Com isto termino, espero que tenhas gostado, minha querida Berta, recebe um beijo deste teu camarada,

Gil Saraiva

Berta 543 d.jpg(Entrada Principal - Bombeiros de Campo de Ourique) 

 

 

 

 

 

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