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Carta à Berta

Carta à Berta é o local dos Desabafos de um Vagabundo, do Senhor da Bruma, essa bruma a que chamam de internet, de um Haragano, o Etéreo, qual cavalo selvagem que galopa entre cartas alegadamente, quiçá, sem fundamentos.

Carta à Berta é o local dos Desabafos de um Vagabundo, do Senhor da Bruma, essa bruma a que chamam de internet, de um Haragano, o Etéreo, qual cavalo selvagem que galopa entre cartas alegadamente, quiçá, sem fundamentos.

Carta à Berta: O Que Se Passa em Campo de Ourique - Entrevistas à Mesa do Café - II - Vitor Sarameco - O Homem da Bicicleta - Parte II

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Olá Berta,

Termino hoje a entrevista ao “Homem da Bicicleta”, sob o tema “O Que Se Passa Em Campo de Ourique” que denominei de “Entrevistas à Mesa do Café”, ou seja, a entrevista ao senhor Vitor Manuel Fontes Rodrigues, vulgo Sarameco. Esta segunda e última parte decorreu na esplanada da pastelaria “AZ de Comer”.

Tenho a certeza que não foi o facto do Vitor ser do signo de Touro que o fez ganhar uma outra alcunha, esta durante os cinco ou seis anos em que passou pelos Bombeiros Voluntários de Campo de Ourique, mas sim a destreza demonstrada durante os primeiros treinos da sua formação profissional enquanto bombeiro.

A destreza, rapidez e à vontade férrea de provar que estava à altura do desafio, tudo junto, somado à impressionante agilidade com que atravessava telhados, trepava andaimes ou emaranhava pelas paredes fizeram-no ganhar o cognome de Tarzan.

Nos comentários que li nos grupos de Campo de Ourique, a quando da publicação da primeira parte desta carta, houve bombeiros a lembrar o grande trepador como se as coisas se tivessem passado ontem. Achei delicioso o carinho com que ainda é recordado nos Bombeiros de Campo de Ourique. Só quem é boa gente deixa um registo positivo por onde passa, eu acho.

Mas, voltando à entrevista, tratemos de esclarecer o que faz o Tarzan de Campo de Ourique. Conforme já tinha informado o senhor Vitor é aquilo a que se costuma chamar de um “faz-tudo”, mas o que é tudo? Foi essa a pergunta que lhe dirigi. Como resposta fiquei a saber que pode ajudar numa mudança, se faltar força de braços à transportadora, que é pintor, que coloca mosaicos e vários tipos de chão, que efetua trabalhos de pedreiro, aplicação de tijolo e rebocos, que trata de diversos problemas ligados à canalização, esgotos ou até de eletricidade.

Mas pode fazer mais, se alguém precisar de mandar algo pelo correio, se necessitar de levantar e transportar umas compras do supermercado ou da mercearia, de aviar uma receita, de ir buscar ou levar coisas à lavandaria e por aí fora, o amigo Vitor faz o serviço. Não tem preço, mas diz que é barato. É o que a pessoa puder e quiser pagar, foi o que eu entendi sobre o tema. Basta ligar para o 911 75 80 86 e combinar com o Vitor.

Aliás, a bicicleta só funciona quando não está a trabalhar ou quando a usa para fazer esse tipo de recados e isso durante o dia. Afinal, esse ímpeto de ciclista já celebrou vinte anos de atividade. É, segundo me afirmou, uma grande paixão, pedalar e ir deixando música por onde passa. A bicicleta só para por avaria ou nos períodos de dois ou três meses em que se encontra fora do país, em trabalho, enquanto trabalhador emigrante.

O Vitor emigrante já fez um pouco de tudo. Apanha de pimentos e outros vegetais, apanha de fruta, trabalho na indústria dos frangos e na construção civil. “- É o que vier, a gente não escolhe, é o que vier.” Afirma, quando interrogado e acrescenta: “- Nos últimos anos já estive em Maiorca, noutras partes de Espanha, em França, na Alemanha, em Itália, na Bélgica (já lhe disse que tenho 2 filhos em Antuérpia) e em Inglaterra, haja trabalho, e eu saiba, e lá vou eu.”

Agora, aos 58 anos, a bicicleta já lhe pesa nas pernas. A que usa foi ele que a arranjou. Foi um senhor, a quem fez umas pinturas na casa, que lhe a deu, avariada, mas recuperável. Porém, é muito pesada e as pernas ressentem-se. O atual autorrádio que usa não tem “pen drive” e atualmente só consegue usar o rádio.

Quando lhe perguntei como vai fazer para continuar ele sorriu e disse-me que ainda tem três sonhos na vida e que acredita que vai conseguir chegar a todos eles, porque tem fé, muita fé. Os sonhos do Vitor “Sarameco Tarzan” Rodrigues são simples e apenas três.

Primeiro: Arranjar uma bicicleta mais leve e se possível com mudanças.

Segundo: Arrumar um autorrádio que tenha entrada para colocar uma “pen drive”, que possa tocar muitas músicas de seguida (eu já lhe gravei uma “pen” com quase mil canções portuguesas).

Terceiro: Conseguir voltar a ter o amor e o carinho de uma mulher, que o queira como companheiro e a quem ele possa amar, para poder atravessar com ela a velhice, ou seja, o Vitor procura uma esposa.

“- Como o Gil sabe bem eu já não sou novo, nem para novo vou. É muito triste envelhecer sozinho, muito triste.”

Pois é, amiga Berta, desejos simples de uma pessoa simples, transparente e, no meu entender, pura, como a generalidade do nosso povo. Oxalá ele arranje a bicicleta e o rádio mais a companheira para o resto da vida. Oxalá. No rádio e na bicicleta talvez esta carta o possa ajudar, já no campo do amor... isso são contas de outro rosário. Espero que o Vitor tenha sorte nessas coisas do coração. E assim termino, com estes votos, a entrevista sobre o Sarameco Tarzan de Campo de Ourique. Com um beijo me despeço de ti, minha querida Berta, até à próxima carta, este teu amigo do coração,

Gil Saraiva

 

 

 

Carta à Berta: O Que Se Passa em Campo de Ourique - Entrevistas à Mesa do Café - II - Vitor Sarameco - O Homem da Bicicleta - Parte I

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Olá Berta,

Continuando a falar sobre “O Que Se Passa Em Campo de Ourique” na rúbrica que denominei de “Entrevistas à Mesa do Café”, resolvi entrevistar o “Homem da Bicicleta”, o senhor Vitor Manuel Fontes Rodrigues, vulgo Sarameco. Afinal, falei-te nele, por duas vezes, sem muito saber sobre a pessoa que circula, já lá vão vinte anos, no bairro, de bicicleta, dando música a quem o quer escutar.

Esta entrevista que realizei com o “Homem da Bicicleta” foi longa, divertida e esclarecedora sobre quem é esta personagem que conquistou o coração de todo o bairro. Daí advém o facto de ter de a dividir em duas partes para que não se torne demasiado longa. Vamos à primeira parte:

Sentámo-nos na esplanada do AZ de Comer. Pedi uma Superbock para mim e outra para ele. O homem tinha começado por pedir uma mini, porém, quando lhe disse que era meu convidado, optou pela Superbock normal. Sorri. Alegre, como sempre, o Vitor tinha alguns esclarecimentos para me fazer que considerava serem importantes.

Um amigo tinha-lhe mostrado as duas cartas que te escrevi e que publicara, sobre ele, no Facebook. Ora, ele fazia questão de me informar que não se chamava Victor com “c”, com a gente fina, mas sim Vitor sem “c”, como era normal entre a gente do povo, como ele, que não precisava do nome escrito à francesa.

Quanto à alcunha de “Sarameco”, ela nascera no tempo em que, em criança e adolescente, jogara à bola no Sport União Fonte-Santense, atualmente designado por Sporting União Fonte Santense e sediado na Rua Possidónio da Silva 35A, 1350-248 Lisboa.

Por essa altura, rondaria ele os 15 anos de idade, ou até um pouco menos, havia nesta associação um jogador da equipa principal, uns sete ou oito anos mais velho, a quem os colegas e amigos chamavam de Sarameco. Quando o Vitor começou a dar nas vistas do futebol do clube, nos escalões mais jovens, era muitas vezes comparado com o tal jogador do primeiro time.

Fisionomia, forma de jogar, camaradagem, timidez e boa disposição, tudo nele lembrava aos outros o Sarameco original. A saída deste da coletividade acelerou mais ainda a transição e herança da alcunha. Fora assim que, por tudo isto, um Sarameco dera lugar a outro Sarameco. O nome colou e de tal forma que, 43 anos mais tarde, continua a haver quem apenas o conheça pela alcunha e nem sequer saiba da existência do seu nome verdadeiro: Vitor. Coisas de bairro.

Ora o Vitor, minha querida amiga Berta, é apenas um ano e meio mais novo do que eu e, ao contrário de mim que só me apaixonei por Campo de Ourique há 13 anos, ele é um produto do bairro onde nasceu há 58 anos, no dia 24 de abril de 1963, em casa, na Vila Amorim, uma habitação situada na Rua Maria Pia, uns cento e cinquenta metros acima da meia laranja, para quem sobe esta rua. Atualmente vive na Rua Francisco Lacerda, outra rua do nosso bairro de Campo de Ourique.

Tem três filhos, de 26, 28 e 30 anos, os quais teve de criar sozinho com a ajuda dos progenitores, pois que a esposa fugiu de casa, no início do milénio, para não mais voltar, deixando-lhe a árdua tarefa de fazer vingar três crianças com idades aproximadamente entre os dois e os seis anos. Atualmente vive feliz com o pai e a madrasta (a mãe, essa, já se encontra no reino dos céus faz algum tempo).

Dos descendentes apenas um se mantém a viver em Portugal, lá para os lados da outra banda, em Almada. Os outros dois a vida fê-los emigrar, desde o tempo em que Passos Coelho aconselhava a saída dos portugueses em dificuldades da sua terra natal, para a Bélgica, onde se instalaram na cidade de Antuérpia, na senda da sobrevivência.

Amanhã termino esta carta, minha querida Berta, sobre este “Homem da Bicicleta” que tão facilmente nos aquece o coração. Por hoje despeço-me com um sorriso, este teu amigo que nunca te esquece e com quem podes contar para o que der e vier,

Gil Saraiva

 

 

 

Carta à Berta: O Que Se Passa em Campo de Ourique - Entrevistas à Mesa do Café - I - Mamma Mia!

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Olá Berta,

Escrevo-te para te falar sobre “O Que Se Passa Em Campo de Ourique” na rúbrica que denominei de “Entrevistas à Mesa do Café”. Hoje dedico a minha atenção sobre a “Mamma Mia” a única Geladaria Italiana de Campo de Ourique com fábrica e laboratório próprios em todo o bairro.

No rescaldo da pandemia a Mamma Mia é mais um daqueles negócios que tenta sobreviver ao fecho de portas, fruto das medidas impostas pelo Governo de Costa, por intermédio da DGS. Passar mais de um ano sem poder manter a sua normal atividade comercial, é uma barra muito pesada, para uma atividade de formato familiar e artesanal, que depende totalmente das duas únicas almas que gerem e representam a empresa.

Foi na esplanada da Tentadora que, numa destas tardes, me sentei com o senhor José Perdigoto, o elemento português deste duo, para a “Entrevista à Mesa do Café”. Apaixonado por um bairro onde vive já lá vão trinta anos, era um sonho antigo, deste homem de 53 anos, poder um dia investir as suas poupanças no bairro que o formatou com adulto e onde sempre foi feliz.

A oportunidade apareceu em 2017 quando, devido a um acaso feliz, a sua vida se cruzou com a de um italiano, em turismo pelo nosso país. O italiano vero, Natale Giovanni Tassitani, nascera na Cantábria italiana, na ponta da bota, 52 anos antes, no decorrer do mês de dezembro. Devido ao mês de nascimento os progenitores decidiram chamá-lo de Natal (Natale, em italiano). Ora, segundo fiquei a saber, Natale apaixonou-se pelo nosso país e muito em particular pelo nosso bairro.

Palavra puxa palavra e a amizade entre Zé e Natale cresceu rapidamente. O turista acidental tornou-se repentinamente emigrante e, no mês de julho de 2017, abriam juntos a Mamma Mia, a única geladaria italiana, reforço, com laboratório e fabrico próprio de Campo de Ourique.

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O Zé entrou com a maioria do capital e Natale com o conhecimento e o trabalho. Claro que, sempre que é necessário, o Zé arregaça as mangas e dá uma ajuda ao seu sócio. Contudo, não causando nenhum espanto, a alma da Mamma Mia é genuinamente italiana e proveniente de um milagre chamado Natal.

Os sorvetes e gelados da Mamma Mia fazem-me lembrar facilmente o início dos famosos Gelados Santini, na linha de Cascais, na altura em que a mestria italiana de Santini e a confeção totalmente artesanal, alicerçada na sabedoria italiana, os tornavam um produto único em toda a área da zona de Lisboa e Vale do Tejo, antes da ganância e da propagação da marca Santini, por diversas lojas e espaços, fazerem diluir a mestria artesanal do criador e se perder o requinte único da casa mãe.

A Mamma Mia não é fácil de encontrar, sendo uma loja de rua não é totalmente visível para quem sobe, pelo lado direito, a Rua Saraiva de Carvalho até ao número 147. Com efeito, o espaço está localizado no acesso pedonal que faz a ligação, por entre os prédios, com a Rua do Patrocínio, até à pastelaria Maria Farinha. Esta zona pedonal entre ruas, é designada pelo nome de Galeria Campo de Ourique, e a loja 3, onde se situa a geladaria, é logo a primeira à esquerda de quem entra neste acesso, pelo 147 da Rua Saraiva de Carvalho. O telefone é o 213 970 628.

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Mas o que faz realmente lembrar os antigos Gelados Santini na Mamma Mia é todo o carinho, amor e mestria que Natale põe na confeção artesanal dos mesmos. Um saber italiano tradicional com uma história muito antiga. Assim, sejam sorvetes (feitos com água e frutas frescas do dia) ou gelados (com leite, frutos secos ou café), é voluptuoso poder degustar as delícias da Mamma Mia. No inverno os crepes são outra iguaria do espaço, mas, nesta época, sejam batidos de fruta, gelados ou sorvetes o importante é ter-se a certeza da deliciosa qualidade e do genuíno sabor dos produtos.

Os sabores clássicos da geladaria italiana, seja o pistáchio, a avelã, o chocolate, a nata, o café, a manga, o coco, o morango, o ananás, a framboesa ou a noz ou o caramelo salgado, o arroz doce, o creme de ovo, a abóbora ou o requeijão, que são as variedades móveis da geladaria, contribuem, em conjunto, para a festa do palato de todos os clientes. Mas se, por mero acaso, alguém for apreciador de café não se deve sair da Mamma Mia sem experimentar um Affogato, que é algo de ir às lágrimas pois, efetivamente, a bola de gelado afogada em café expresso desperta sensações sensoriais incríveis que eu, pessoalmente, desconhecia de todo. Aquilo é uma iguaria ímpar verdadeiramente digna dos deuses.

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Agora, se não tem tempo para ficar na geladaria a degustar calmamente o seu gelado, a Mamma Mia tem umas embalagens de esferovite, de diferentes tamanhos, para que se possa, uma vez chegado a casa, tirar partido da mestria de Natale no conforto do lar.

Outro detalhe delicioso é poder-se observar, se houver vontade e tempo, a confeção das diferentes iguarias, através das vitrines da montra e da loja, que dão para o laboratório e fábrica de confeção. Em termos de conceito e transparência acho que a geladaria Mamma Mia é pioneira, em absoluto, nesta faceta e que vale o tempo empregue na observação desta que é verdadeira arte culinária.

Se voltares a Campo de Ourique, querida Berta, tenho que te levar à Mamma Mia. Ela, por si só, é suficiente para se ter ciúmes de não se morar em Campo de Ourique. Por hoje é tudo, despeço-me com o costumeiro beijo de até à próxima, este teu amigo,

Gil Saraiva

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Carta à Berta: O Que Se Passa em Campo de Ourique - Entrevistas à Mesa do Café - I - Mamma Mia!

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Olá Berta,

Escrevo-te para te falar sobre “O Que Se Passa Em Campo de Ourique” na rúbrica que denominei de “Entrevistas à Mesa do Café”. Hoje dedico a minha atenção sobre a “Mamma Mia” a única Geladaria Italiana de Campo de Ourique com fábrica e laboratório próprios em todo o bairro.

No rescaldo da pandemia a Mamma Mia é mais um daqueles negócios que tenta sobreviver ao fecho de portas, fruto das medidas impostas pelo Governo de Costa, por intermédio da DGS. Passar mais de um ano sem poder manter a sua normal atividade comercial, é uma barra muito pesada, para uma atividade de formato familiar e artesanal, que depende totalmente das duas únicas almas que gerem e representam a empresa.

Foi na esplanada da Tentadora que, numa destas tardes, me sentei com o senhor José Perdigoto, o elemento português deste duo, para a “Entrevista à Mesa do Café”. Apaixonado por um bairro onde vive já lá vão trinta anos, era um sonho antigo, deste homem de 53 anos, poder um dia investir as suas poupanças no bairro que o formatou com adulto e onde sempre foi feliz.

A oportunidade apareceu em 2017 quando, devido a um acaso feliz, a sua vida se cruzou com a de um italiano, em turismo pelo nosso país. O italiano vero, Natale Giovanni Tassitani, nascera na Cantábria italiana, na ponta da bota, 52 anos antes, no decorrer do mês de dezembro. Devido ao mês de nascimento os progenitores decidiram chamá-lo de Natal (Natale, em italiano). Ora, segundo fiquei a saber, Natale apaixonou-se pelo nosso país e muito em particular pelo nosso bairro.

Palavra puxa palavra e a amizade entre Zé e Natale cresceu rapidamente. O turista acidental tornou-se repentinamente emigrante e, no mês de julho de 2017, abriam juntos a Mamma Mia, a única geladaria italiana, reforço, com laboratório e fabrico próprio de Campo de Ourique.

 

O Zé entrou com a maioria do capital e Natale com o conhecimento e o trabalho. Claro que, sempre que é necessário, o Zé arregaça as mangas e dá uma ajuda ao seu sócio. Contudo, não causando nenhum espanto, a alma da Mamma Mia é genuinamente italiana e proveniente de um milagre chamado Natal.

Os sorvetes e gelados da Mamma Mia fazem-me lembrar facilmente o início dos famosos Gelados Santini, na linha de Cascais, na altura em que a mestria italiana de Santini e a confeção totalmente artesanal, alicerçada na sabedoria italiana, os tornavam um produto único em toda a área da zona de Lisboa e Vale do Tejo, antes da ganância e da propagação da marca Santini, por diversas lojas e espaços, fazerem diluir a mestria artesanal do criador e se perder o requinte único da casa mãe.

A Mamma Mia não é fácil de encontrar, sendo uma loja de rua não é totalmente visível para quem sobe, pelo lado direito, a Rua Saraiva de Carvalho até ao número 147. Com efeito, o espaço está localizado no acesso pedonal que faz a ligação, por entre os prédios, com a Rua do Patrocínio, até à pastelaria Maria Farinha. Esta zona pedonal entre ruas, é designada pelo nome de Galeria Campo de Ourique, e a loja 3, onde se situa a geladaria, é logo a primeira à esquerda de quem entra neste acesso, pelo 147 da Rua Saraiva de Carvalho. O telefone é o 213 970 628.

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Mas o que faz realmente lembrar os antigos Gelados Santini na Mamma Mia é todo o carinho, amor e mestria que Natale põe na confeção artesanal dos mesmos. Um saber italiano tradicional com uma história muito antiga. Assim, sejam sorvetes (feitos com água e frutas frescas do dia) ou gelados (com leite, frutos secos ou café), é voluptuoso poder degustar as delícias da Mamma Mia. No inverno os crepes são outra iguaria do espaço, mas, nesta época, sejam batidos de fruta, gelados ou sorvetes o importante é ter-se a certeza da deliciosa qualidade e do genuíno sabor dos produtos.

Os sabores clássicos da geladaria italiana, seja o pistáchio, a avelã, o chocolate, a nata, o café, a manga, o coco, o morango, o ananás, a framboesa ou a noz ou o caramelo salgado, o arroz doce, o creme de ovo, a abóbora ou o requeijão, que são as variedades móveis da geladaria, contribuem, em conjunto, para a festa do palato de todos os clientes. Mas se, por mero acaso, alguém for apreciador de café não se deve sair da Mamma Mia sem experimentar um Affogato, que é algo de ir às lágrimas pois, efetivamente, a bola de gelado afogada em café expresso desperta sensações sensoriais incríveis que eu, pessoalmente, desconhecia de todo. Aquilo é uma iguaria ímpar verdadeiramente digna dos deuses.

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Agora, se não tem tempo para ficar na geladaria a degustar calmamente o seu gelado, a Mamma Mia tem umas embalagens de esferovite, de diferentes tamanhos, para que se possa, uma vez chegado a casa, tirar partido da mestria de Natale no conforto do lar.

Outro detalhe delicioso é poder-se observar, se houver vontade e tempo, a confeção das diferentes iguarias, através das vitrines da montra e da loja, que dão para o laboratório e fábrica de confeção. Em termos de conceito e transparência acho que a geladaria Mamma Mia é pioneira, em absoluto, nesta faceta e que vale o tempo empregue na observação desta que é verdadeira arte culinária.

Se voltares a Campo de Ourique, querida Berta, tenho que te levar à Mamma Mia. Ela, por si só, é suficiente para se ter ciúmes de não se morar em Campo de Ourique. Por hoje é tudo, despeço-me com o costumeiro beijo de até à próxima, este teu amigo,

Gil Saraiva

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Carta à Berta: Os Serviços de Televisão, Internet e Telemóvel em Portugal

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Olá Berta,

Desde que a pandemia se tornou o prato principal à mesa dos portugueses que as operadoras de televisão, internet e telemóvel ganharam um protagonismo superior ao que era habitual até finais de 2019. Porquê? Porque consumimos mais estes serviços. As principais operadoras de telecomunicações que oferecem todos os serviços conjuntamente, em Portugal, são a MEO, a NOS, a Vodafone e a NOWO.

Todas prometem mundos e fundos para captar clientes. Pacotes de canais de televisão, fibra, dados móveis com mais ou menos gigabytes, com ou sem telefone fixo, descontos e ofertas disto ou daquilo, mais ou menos velocidade de navegação online, enfim, uma verdadeira parafernália de possibilidades.

O diabo está nos detalhes. É verdade. Aderimos por exemplo a uma destas operadoras e elas prometem-nos serviços de fibra em casa (todas o fazem), mas, na realidade, a fibra só chega até ao primeiro router. Se optarmos por cabo, dentro de casa instalam-nos cabos coaxiais à moda antiga e, como consequência disso, todas as televisões depois da primeira perdem qualidade. Na maioria dos lares a internet sem fios dentro de casa até funciona razoavelmente, porém, e é sempre assim, sempre com valores inferiores ao prometido na propaganda.

Contudo, é nos serviços ligados ao conteúdo e naquilo que nos é imposto que a situação se torna deveras problemática. Com efeito, se eu já pago os canais por cabo, não deveria ter que levar com publicidade em nenhum deles.

Não importa se são os canais de informação, de documentários, de filmes ou de séries ou outros, fora os canais generalistas, nenhum deles devia poder ter publicidade, uma vez que já estamos a pagar pelos programas que transmitem. Muito menos, e cada vez é mais frequente, ter de gramar (para não dizer pior) com publicidade de 25 a 30 segundos obrigatória (e que não conseguimos passar à frente) quando queremos ver um certo filme ou série nas gravações automáticas.

Aliás, não sei mesmo se esta prática recente é legal e se está contemplada na lei. Pelo que consegui apurar não existe regulamentação nacional sobre o assunto e nem mesmo sei se a ERC, a Entidade Reguladora para a Comunicação Social, está a par de mais esta marosca.

Todavia, o que mais me irrita, em termos dos serviços prestados por estas operadoras é a falta de respeito e de profissionalismo que as mesmas têm para comigo (e deve acontecer com todos nós) na forma como me tratam com total desrespeito nos conteúdos fornecidos, por exemplo, nas gravações automáticas. Não há nada mais irritante do que escolher um episódio de uma série ou um filme para ver e a gravação terminar antes do filme chegar ao fim.

Caramba, eles só fazem isto, ou seja, quem trata do enquadramento da programação e da divisão da emissão por programas não faz outra coisa. A não ser que esteja de tal modo automatizado este sistema que já nem exista supervisão humana, o que seria péssimo e resultaria num serviço de baixa qualidade, que é o que julgo estar atualmente a acontecer.

Mas isto sou eu, amiga Berta, que penso como é fácil pisar e desrespeitar os mais fracos. As poderosas operadoras estão-se nas tintas para os seus clientes enquanto pessoas, o que lhes interessa é sermos mais um número de contribuinte que paga todos os meses o serviço. Por hoje é tudo, deixo um beijo saudoso nesta despedida,

Gil Saraiva

 

 

 

Carta à Berta: Victor, o Ciclista de Campo de Ourique

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Olá Berta,

O site https://lifespray.wordpress.com/ publicou em três de dezembro de 2012, já lá vão quase nove anos, a notícia que seguidamente transcrevo sobre o meu amigo Victor de Campo de Ourique, que se mantém ativo, na sua bicicleta, a dar música ao Bairro de Campo de Ourique, ostentando a bandeira do seu clube (o Benfica) quer este esteja em forma ou tenha acabado de ser derrotado, como foi o caso do presente ano, pelo rival Sporting.

Não consegui até ao momento apurar quem são os autores do site, mas pela quantidade e qualidade de erros de ortografia que tive de corrigir, para passar para aqui a presente publicação, sou levado a concluir que não se trata de gente que domine bem a língua portuguesa. Aqui vai o seu conteúdo:

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LIFESPRAY

moments.flashes.thoughts.views.

03/12/2012

1 COMENTÁRIO

SEM CATEGORIA

O HOMEM DA BICICLETA

Afinal, o Homem da bicicleta não é maluco. Afinal, o que ele é, é um homem livre. Que vai atrás do que gosta e gosta do que traz atrás. Dá música por onde passa, deixa um rasto nos olhares que somos nós, que sem saber já nos conformámos, descontando a sua loucura.

Mas, afinal de contas, o homem assim decidiu a sua vida levar: anda de bicicleta com uma telefonia empoleirada, mas bem amarrada, a bandeira do seu clube de eleição (Benfica é a sua cor), bronzeado sempre, concentrado no transito e a deslizar pelas ruas de Lisboa.

Encontro-o muita vez no Jardim da Estrela ou nas Amoreiras, depende da hora do dia. Mas, Campo de Ourique é o seu bairro. E confere. O senhor da Bicicleta aos 49 anos anda à procura do Amor. E não desiste, faz ele bem.

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Comentário

One thought on “O HOMEM DA BICICLETA”

08/12/2012 às 10:17 pm

  1. duarte diz: muito bom!!!!!

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Pelo que consegui entender este site, que mais parece um blog, embora mantenha o acesso na internet, teve a curta duração de um mês. Nada é dito sobre o seu autor ou autora, nem mesmo ficamos a saber se estamos a lidar com uma pessoa de nacionalidade portuguesa. Porém, o que aqui se destaca é que, nas parcas publicações feitas no site, cerca de meia dúzia, uma delas é dedicada ao nosso ciclista de eleição em Campo de Ourique, o senhor Victor, ferrenho adepto do Benfica, que enche, há mais de duas décadas, o coração de Campo de Ourique com as melodias ambulantes, transmitidas em alto som, a partir da sua passagem de bicicleta pelo bairro sempre que está sem trabalho.

Hoje, enquanto te escrevia esta segunda carta, amiga Berta, sobre o meu amigo Victor, entrei no meu blogue, para verificar da aceitação ou não, da primeira carta sobre ele, principalmente a reação à mesma por parte dos utilizadores do Facebook. Ora, sempre que te escrevo uma carta, costumo ter uma afluência média de leitores entre cinquenta a setenta pessoas, maioritariamente de gente que me acompanha os blogues através do Facebook. Desta vez, em apenas dezasseis horas, tive mais de duas mil visitas à carta. A grande maioria (de um modo esmagador) de gente solidária ou agradecida a este típico ícone do bairro de Campo de Ourique, o ciclista, pintor e faz-tudo, benfiquista, o bem-disposto e meu amigo, Victor.

Face a isso resolvi lançar hoje aqui um pequeno apelo: se nos próximos dias passar pelo ciclista de Campo de Ourique por favor não se iniba e lance-lhe um “obrigado Victor” para que ele saiba que é querido pelo esforço que faz, à sua maneira tão peculiar, de espalhar alegria por todo este bairro, ou, se não quiser gritar, mostre-lhe os dois polegares bem para cima.

Quanto a ti, amiga Berta, obrigado pela tua resposta à carta de ontem. Fico contente que, também tu, gostes do Victor como eu gosto. Despeço-me com um beijo saudoso, feliz com essa tua opinião,

Gil Saraiva

 

 

 

Carta à Berta: O Vitor da Bicicleta de Campo de Ourique

Vitor em Campo de Ourique.jpgOlá Berta,

Não me lembro se, nas tuas visitas a Campo de Ourique, alguma vez te deparaste com um sujeito, usando uma camisola do Benfica e uma bandeira do mesmo clube, a percorrer incansavelmente o bairro de bicicleta, enquanto uma aparelhagem adaptada ao veículo vai debitando música, bem alto, pelas ruas, praças e jardins de toda esta minha freguesia. Minha e, claro está, de todos os outros que também a tratam como sua.

Trata-se do Senhor Victor, um jovem (quase a chegar aos 60 anos de idade), que, pelo menos desde inícios deste milénio, percorre o bairro espalhando música e anunciando o amor evidente ao seu glorioso Benfica. O qual conquistou com o correr dos anos o estatuto de figura pública do bairro, querida por quase todos, mesmo por aqueles que não são do seu clube da águia. A verdade é que o Victor, por onde passa, tem sempre um aceno, um cumprimento e um sorriso para quem o interpela.

A situação, com o decorrer dos anos, tornou-o num caso sério de popularidade. Aliás, nem mesmo o dia da vitória do clube rival, neste campeonato, o impediu de sair, na sua habitual demanda, pelas ruas e de sorrir aos sportinguistas que lhe acenavam, batendo no emblema ao peito das suas camisolas verdes e brancas. Mais “fair play” do que esta demonstração do ciclista é difícil de encontrar na capital.

Em 2015, uma jornalista do Correio da Manhã, resolveu dedicar-lhe uma página inteira no matutino. Ainda me lembro muito bem do artigo. A senhora jornalista (que morava na Estrela) via e ouvia passar, de vez em quando, o nosso ciclista pelo Jardim da Estrela, e com a rudeza de um estivador do porto de Lisboa, dos finais do século XIX, resolveu dedicar-lhe cinquenta linhas da edição online com uma verborreia paupérrima e triste sob o título de “O Ciclista Maluco”.

No texto, a senhora jornalista, não se limitava  a apelar à intervenção da PSP, da Câmara Municipal de Lisboa e de outras autoridades, mas resolvera também insultar um homem, que não conhecia e sobre o qual não fez nenhuma investigação, com juízos de valor que começavam precisamente no pseudónimo de maluco e de louco, passando por perturbador da ordem pública, etc.. É claro que a dita jornalista desconhece as centenas (para não dizer milhares) de turistas que pedem ao senhor Victor licença para fazerem uma “selfie” com ele, sempre que o apanham parado no início da Rua Saraiva de Carvalho ou junto ao quiosque em frente ao cemitério dos Prazeres.

É igualmente claro que a mesma senhora nem imagina o carinho imenso que todo o bairro de Campo de Ourique tem por esta pessoa que não é maluco, nem nunca foi. É um faz-tudo, um pintor, um canalizador, um eletricista e um desenrasca, sempre pronto a ajudar o seu semelhante.

Ah, mas ele cobra esses serviços. É verdade, eu próprio já recorri a ele por diversas vezes, contudo, nunca senti que se esticasse nos preços e, bem pelo contrário, sempre o achei muito barato. O que a senhora jornalista podia atualmente noticiar é que, desde que há pandemia em Portugal, desde março de 2020 que, todos os dias, o santo do Victor montou aquela bicicleta e se fez às ruas do bairro para que os habitantes sentissem a sua presença.

Hoje, quando calhou falarmos, ele, por acaso todo feliz porque finalmente ia tomar a vacina, explicou-me porque não tinha parado um dia que fosse durante a pandemia. A justificação era de responsabilidade. Afinal, afirmava seriamente, ele sabia que tinha o dever de levar um pouco de alegria às centenas de idosos que vivem sozinhos e tristes no bairro, principalmente desde que a pandemia se instalara.

 “- Quando passam um dia sem me ouvirem na bicicleta ou sem me verem eles dizem-me que ficam mais tristes. Eu não posso falhar a esta gente.” Depois ria e dizia-me que muitos deles nem sequer eram do Benfica. “- Mas adoram picar-me e eu respondo sempre com um sorriso ou um aceno.”

O Victor é um homem do povo, de maluco ou de louco nada tem e, no meu entender, até já devia estar a receber, de há muitos anos para cá, um ordenado ou um apoio da freguesia, da Câmara de Lisboa ou até do Benfica, porque o Victor tem passado por sérias dificuldades para conseguir por pão na mesa da sua casa e cuidar da sua família.

Enfim, querida Berta, isto sou eu a falar. A minha opinião pouco vale nos corredores do poder. Contudo, a minha gratidão por este homem, que há duas décadas alegra os corações de tanta gente, é infinita. Podes nem concordar comigo e ser como a acéfala da senhora jornalista do Correio da Manhã, mas que era justo o homem ser compensado não tenho a menor dúvida. Deixo um beijo de despedida, deste teu eterno amigo,

Gil Saraiva

VÍDEO   I:   https://www.facebook.com/ILoveCampoDeOurique/videos/699365187288463/   

VÍDEO II:  https://www.facebook.com/ILoveCampoDeOurique/videos/3001581416556323/

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Carta à Berta: O Campeão Sporting Clube de Portugal

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Olá Berta,

O Sporting é Campeão da Primeira Liga de Futebol Profissional em Portugal. Como benfiquista que sou é com desportivismo que dou os parabéns aos verdes e brancos. Até ao momento trata-se de um campeonato ganho sem derrotas, sem espinhas e sem qualquer margem para dúvidas. Ganhou o melhor e, este ano, o melhor foi o Sporting Clube de Portugal. Cabe aos leões a glória de invadir o Marquês.

Não é fácil passar dezanove anos sem levantar o caneco. Nem mesmo é simples de assimilar que nos últimos cinquenta anos que o Sporting apenas por seis vezes tenha conseguido chegar ao topo. Nada melhor do que, depois de ter acabado de se tornar Campeão Europeu de Futsal, o clube de Alvalade veja o ano coroado com a glória de se tornar número um no futebol profissional português. Não há como não dar os parabéns, reforço e enfatizo,  ao Sporting Clube de Portugal pelo feito.

A obra de arte ganha foros de ironia e escárnio quando se sabe que o treinador foi um ex-jogador do Benfica, um tal de Ruben Amorim, que conduziu com mestria os leões novamente ao estatuto de reis da selva, dividindo a glória com uma equipa de miúdos nos quais depositou confiança e que conseguiram envergonhar Luís Filipe Vieira, Jorge Jesus e meter num saco sem fundo os cem milhões que este ano a SAD benfiquista gastou em jogadores.

Já eu, minha querida amiga Berta, que não queria de novo o Jorge Jesus no Benfica, sinto que foi feita justiça este ano. Custa assumir, é um facto, mas não deixa de ser a verdade, independentemente da tristeza que me invade a alma e o coração.

Resta-me o consolo de não ter sido o Futebol Clube do Porto a ganhar. Esse é, por força dos factos, o grande e verdadeiro rival do Benfica. Espero, como sempre se espera nos três grandes, que para o ano tudo seja diferente. Mas hoje não é dia de carpir seja o que for. Há um novo campeão nacional que merece festejar à grande e ao som da Portuguesa.

Resta-me deixar uma palavra ao Governo e em particular à DGS. Isto de vir para a imprensa dizer aos sportinguistas para terem contenção na celebração da vitória do campeonato, aliás, acompanhada por um apelo idêntico do Presidente da República, é uma forma idiota de fugir às responsabilidades. Há que tempos que o Estado sabe que este dia estava para chegar. Se querem contenção que criem os mecanismos policiais de segurança de forma a coordenarem e controlarem, da melhor maneira possível, os festejos e que não atirem para cima de quem não celebra à 20 anos o ónus da incompetência. Mais uma vez: PARABÉNS SPORTING! Despede-se com um sorriso amarelo, querida Berta, este teu amigo,

Gil Saraiva

 

 

 

Carta à Berta: A Arte de Desconfinar com CUPIDO

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Olá Berta,

“Portugal é o país da União Europeia com menos novos casos diários de infeção por SARS-CoV-2 e continua entre os com menos mortes por milhão de habitantes nos últimos sete dias, segundo o site estatístico Our World in Data”, divulgado hoje pelo site nacional “Notícias ao Minuto”.

Ainda, segundo as mesmas fontes: “Desde a semana passada, Portugal desceu em número de novos casos por milhão de habitantes para 32,29, muito longe do país em pior situação, Chipre, com uma média de 499 novos casos diários.” Por fim, pode-se ler ali também que: “Em relação à média de mortes por milhão de habitantes atribuídas à Covid-19 nos últimos sete dias, Portugal aumentou ligeiramente na última semana de 0,17 para 0,21, igual à Finlândia e quatro centésimas acima da Dinamarca, que é o país com a média inferior.”

Tudo isto é muito bonito, principalmente se nos lembrarmos do passado mês de janeiro, em que vertiginosamente atingimos o topo no ranking dos piores países do mundo em termos de pandemia. A grande questão é saber como conseguimos este feito de passar do pior país do mundo, no que à Covid diz respeito, para o ranking dos melhores em apenas dois meses. Há quem fale na vacinação eficaz, nas medidas de confinamento implantadas, da sensatez dos portugueses ou da agilidade da nossa DGS. Tudo treta.

A recuperação de Portugal ficou a dever-se, isso sim, à implantação de um método transparente, e de fácil perceção pelos cidadãos, de gestão da pandemia. Este novo processo de confinar ou desconfinar, dividido por várias fases, cada uma delas com objetivos específicos, e acompanhado por gráficos da evolução dos parâmetros adotados, permitiu o entendimento total do problema pela generalidade da população.

A reforçar a ideia, a possibilidade de os concelhos avançarem ou regredirem no confinamento, consoante o seu comportamento face ao padrão adotado, implementou responsabilidade e união em torno de objetivos comuns, ou seja, o povo sabe comportar-se se as coisas lhe forem devidamente explicadas.

É claro que a vacinação competente, o aumento do rastreio, a maior dinâmica no acompanhamento dos surtos e o grande acréscimo da testagem, também contribuíram para o sucesso, mas nada teria sido conseguido sem a implementação deste espetacular método.

Na elaboração do esquema o Governo optou, e muito bem, por criar limites aos desconfinamentos que, há data da sua implementação, eram metade dos exigidos na União Europeia, ou seja, 120 casos por cem mil habitantes, por concelho, para períodos de 14 dias, face aos 240 adotados na maioria dos países europeus e recomendados pela EMA. Uma jogada inteligente que cedo deu frutos.

Aliás, se registássemos a patente deste método, sem sermos líderes no âmbito da inteligência artificial, nem mesmo sermos produtores de qualquer tipo de vacina para a Covid-19, veríamos facilmente a importância do valor acrescentado que Portugal deu no combate a este flagelo, que não para de fazer vítimas em todo o mundo.

Fora de brincadeiras e de patentes, aplicar na Índia o método luso, poderia ajudar mais os indianos a recuperar do que qualquer ajuda material que Portugal consiga dar a este povo com quem tem laços seculares. Aliás, o mesmo se poderá dizer relativamente ao Brasil e a muitos outros países do mundo, em que as populações não conseguem compreender porque é que os seus governantes mandam confinar e desconfinar sem uma explicação evidente.

Portugal foi inovador na criação de um sistema eficaz e fácil de compreender, composto por parâmetros ambiciosos e por consequências de desvios ao plano imposto. Foi tão inovador que lhe deveria, no meu entender, minha querida amiga Berta, dar-lhe um nome.  Talvez CUPIDO (Criação Única de Processos Interativos de Desconfinamentos Organizados). Tal como o deus do arco e flecha que leva amor aos corações dos amantes este CUPIDO transporta, com provas dadas, a saúde aos lares de todo o pais, sendo radicalmente eficaz no combate à pandemia. Viva CUPIDO! Por hoje é tudo, deixo um beijo e a promessa de escrever em breve, recebe ainda um grade abraço deste amigo de todos os dias,

Gil Saraiva

 

 

 

Carta à Berta: Século XXI - No Limiar da Pobreza

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Olá Berta,

Ontem, no Facebook, no grupo Bairro de Campo de Ourique, um membro colocou a seguinte frase numa publicação:Um País com 2,2 milhões de pessoas na pobreza isto numa população de cerca 9,8 milhões dá que pensar? Como isto é possível?”

Caso a publicação fosse apenas e só uma questão de opinião eu teria deixado passar a publicação sem dizer nada. O facto de ser eu o administrador do grupo não me leva a censurar nada do que os outros elementos pensam. Porém, o caso muda de figura em certas publicações que contém dados adulterados ou falsos, noutras que fazem apenas publicidade, naquelas que atentam contra os valores fundamentais da humanidade ou nas que fazem propaganda direta de partidos políticos em nome dos mesmos. Nesses casos, mediante a gravidade ou apago o “post” ou faço o comentário que considero devido.

No caso concreto argumentei em vários comentários o conteúdo adulterado da publicação. Para conseguir tal objetivo fui à procura dos factos. É que os dados apresentados não representam nada sem a devida fundamentação. Pelo que consegui analisar, a população do país, não estava correta, segundo o INE a população residente é de 10.295.909 habitantes, ou seja, aqueles dados apresentavam um erro de meio milhão de pessoas.

Em segundo lugar, esclareci que o estudo mais recente sobre pobreza em Portugal era da PORDATA que apontava 16,2 % da população em risco de pobreza (uma vez que esse estudo publicado já este ano se referia a 2019), ou seja, 1.667.937 pessoas. Mas referi também que a PORDATA diferencia o risco de pobreza da pobreza efetiva, ainda assim.

Mais há a dizer e aproveitando a ocasião reforço que desde 1994 a população em risco de pobreza tem vindo a diminuir todos os anos, em Portugal. Em 1994 eram 2.368.059, ou seja, daí para cá (e até 2019, data do último estudo) os habitantes em risco de pobreza diminuíram em 700.123 pessoas. Contudo, é provável que a pandemia tenha, pela primeira vez em 28 anos, causado um forte aumento do risco de pobreza, invertendo o ciclo, todavia, e até saírem os dados do CENSUS de 2021, tudo o que se possa afirmar perentoriamente sobre os números atuais é, no mínimo, prematuro.

Acresce ainda dizer, que de acordo com os dados dos estudos sobre a economia paralela em Portugal, ela abrange mais de um terço das pessoas referenciadas como estando no limiar da pobreza, ou seja, cruzando os estudos podemos concluir que, dos 1.667.937 habitantes em risco de pobreza, cerca de 700.000 vive da economia paralela, o que significa que tem rendimentos que não apresenta às finanças. E não pense que são apenas biscateiros por conta própria, só para dar uma ideia a economia paralela em Portugal em 2019 dava para financiar mais 5 orçamentos atuais da saúde, por ano.

Tal informação, tendo em conta o último estudo, feito em 2013, do Observatório de Economia e Gestão de Fraude, ultrapassa os 45 mil milhões de euros anualmente. Vale tanto como 5 bazucas europeias por ano.

Em conclusão, cruzados os dados, cerca de 9% da população do país encontra-se efetivamente nos valores de rendimento que a colocam no limiar da pobreza, o que significa que ganham menos de 6.500 euros por ano. Porém, apesar de tudo, a pandemia pode e deve ter provocado aumentos significativos nestes números, mas ainda é cedo para sequer fazer previsões das verdadeiras consequências.

Assim sendo, podemos dizer que é realmente triste a realidade de ambas as situações. Por um lado, a economia paralela a minar a riqueza do país e por outro 16,2% de uma população em risco de pobreza. Mas, embora sirva pouco de compensação, piores que nós, só na Europa, ainda temos: Sérvia, Macedónia do Norte, Montenegro, Turquia, Luxemburgo, Grécia, Croácia, Bulgária, Estónia, Lituânia, Letónia, Roménia, Reino Unido, Itália e Espanha, todos eles com níveis de risco de pobreza mais elevados que o nosso em termos percentuais. Acresce ainda que a taxa média do limiar da pobreza na Europa é de 17%, ou seja, 0,8 acima da de Portugal, tendo em conta dados oficiais de 2018.

Ora, todos estes números se devem agravar em 2021, o que não é bom para a vergonha europeia nem para a nacional, mas a seu tempo teremos elementos para analisar o caso. Resta-me recordar que não é na Europa que a situação se apresenta pior face ao resto do mundo. Com efeito, mais grave ainda é o limiar da pobreza na América do Sul onde a taxa se situa nos 33% ou nos Estados Unidos onde o problema é ainda mais significativo atingindo 43% da população.

Não vou referir os dados da Asia, Oceânia ou de África, mas posso confirmar que são muito piores que os europeus e que a Rússia também não é exemplo. Em resumo, a vergonha é mesmo mundial, minha querida Berta, e toda a gente, com responsabilidades políticas, parece assobiar para o ar, sem querer lidar com a gravidade do assunto.

No meu modesto entender a “pandemia do risco mundial de pobreza” é realmente o flagelo mais grave que no presente atinge a humanidade, seguido de perto pelo problema absurdo da falta de medidas efetivas contra as alterações climáticas no globo e tendo no terceiro lugar deste triste pódio a atual pandemia de Covid-19. Termino esta carta, depois de mais um desabafo, fazendo votos que neste século as prioridades consigam mudar. O mundo é de todos e para todos e isto devia ser uma premissa absoluta. Despeço-me com um beijo saudoso,

Gil Saraiva

 

 

 

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