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Carta à Berta

Carta à Berta é o local dos Desabafos de um Vagabundo, do Senhor da Bruma, essa bruma a que chamam de internet, de um Haragano, o Etéreo, qual cavalo selvagem que galopa entre cartas alegadamente, quiçá, sem fundamentos.

Carta à Berta é o local dos Desabafos de um Vagabundo, do Senhor da Bruma, essa bruma a que chamam de internet, de um Haragano, o Etéreo, qual cavalo selvagem que galopa entre cartas alegadamente, quiçá, sem fundamentos.

Carta à Berta: Covid-19 – A Chegada da Contra Vaga

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Olá Berta,

Covid-19 – A Chegada da Contra Vaga, este seria o título que eu escolheria para relatar o que está atualmente a acontecer com a pandemia. Foi ontem à noite, no programa “Circulatura do Quadrado”, da TVI24, que o Primeiro-Ministro, António Costa, aventou, a medo, que um dos especialistas que servem de consultores ao Governo, lhe terá falado na possibilidade de estar a ocorrer não propriamente uma terceira vaga, mas uma vaga de sentido inverso a que eu chamei de contra vaga.

Intrigado por aquela afirmação, que passou totalmente despercebida quer no programa quer depois nas diferentes análises dos comentadores, em todos os canais televisivos, resolvi verificar eu, na parafernália de gráficos e dados que tenho em casa, se essa coisa da contra vaga, como lhe chamei, seria realmente possível e poderia estar mesmo já a acontecer, o que, a ser verdade, irá apanhar a Europa, África, Ásia e Oceânia totalmente de surpresa.

Segundo a teoria avançada quase como nota de rodapé, esta nova terceira vaga que temos em Portugal e no Reino Unido, não se está a movimentar como as outras duas anteriores de Oriente para Ocidente, mas precisamente no sentido inverso. Começou nas Américas e expandiu-se para a Europa atingindo primeiro os países mais periféricos, nomeadamente Portugal e Reino Unido. Pior, ganhou nova volumetria com a soma das estirpes inglesa, brasileira e da África do Sul.

Ora, a ser assim, coisa que me pareceu muito evidente nos meus gráficos, Portugal e Inglaterra não estariam a ser os piores casos da Europa, mas sim, os primeiros países europeus da contra vaga, que se irá em breve estender para o leste em direção à Ásia, África e Oceânia, no sentido inverso ao que até esta altura tem ocorrido.

O mais grave, querida Berta, é que se este for o caso, vão todos ser apanhados de surpresa por este movimento inverso. No caso europeu, será notório esta nova maré já a partir de meados de fevereiro, quando Portugal e o Reino Unido já estiverem a descer no número de óbitos, infetados e internados em UCI.

Se a nova teoria se confirmar vamos assistir a um novo agravamento em todo o espaço europeu já em meado do próximo mês. Por hoje fica-se por aqui este teu amigo do peito, que se despede com o usual beijinho,

Gil Saraiva

 

 

 

Carta à Berta: "António Costa - O Grande Golpe - Peça em Três Atos" - "Ato III - Um Corredor Aéreo Para Portugal"

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Olá Berta,

Termina hoje aqui, minha amiga, a minha peça em três atos sobre o que se pode ter passado realmente entre Portugal e o Reino Unido entre o fim de agosto e o princípio de setembro deste ano.

Esta foi a minha maneira de justificar a mudança de atitude do Governo Britânico, que estava determinado a fazer cumprir o fecho dos corredores aéreos para os países que, como Portugal, tivessem ultrapassado os 20 infetados por cada 100 mil habitantes e que, de repente, aparece com o critério (que apenas beneficia Portugal) do rácio entre o número de testes efetuados no país e o número real de infetados.

Uma surpreendente mudança, em cima da hora, a dias de anunciar como ficariam os corredores aéreos britânicos para os 15 dias seguintes.

“Terceiro Ato: Um Corredor Aéreo para Portugal

Na segunda e terça-feira seguintes, à conversa Costa versus Boris, os noticiários de todas as rádios e televisões anunciavam, com drama, o possível fecho do corredor aéreo entre Portugal e o Reino Unido. O país tinha ultrapassado o limite de 20 infetados por cada 100 mil habitantes o que implicava o automático anúncio, na quinta-feira seguinte, do fecho do corredor turístico entre Reino Unido e Portugal. Tudo parecia indicar este desfecho trágico para a economia portuguesa, já a braços com mais uma centena de outros problemas. A gota de água que podia fazer transbordar o copo do descalabro estava prestes a ocorrer. Muitos comentadores, principalmente os televisivos, davam o facto como inevitável e analisavam as consequências trágicas para o país.

Na quarta-feira o assunto Rui Pinto, e o julgamento do mesmo que começaria na sexta-feira, relegavam para segundo plano, um assunto que parecia condenado à tragédia e cujo desfecho se previa como óbvio. Apenas de passagem, sem relevo, se falava ainda do fecho do corredor aéreo com Inglaterra. Já existiam turistas a desmarcar férias, outros a antecipar para sexta-feira o regresso de férias, para não ficarem sujeitos ao confinamento no retorno ao Reino Unido.

Surpreendentemente na quinta-feira o Governo de Boris Johnson anuncia oficiosamente a mudança dos critérios de avaliação de risco para o turismo dos ingleses fora de Inglaterra. O novo critério só tem um único beneficiário: Portugal. Passa a ser recompensado quem mais testa, face ao número de infetados que estes testes revelam. O rácio volta a colocar Portugal nos países seguros e viáveis para o povo do Reino de Sua Majestade. Ninguém consegue entender ou encontrar uma justificação plausível para esta nova forma de avaliação inglesa.

Na sexta-feira a notícia torna-se oficial. Portugal vai continuar no verde no que toca aos corredores turísticos aéreos entre Inglaterra e Portugal. Os empresários algarvios, madeirenses e dos Açores respiram de alívio. Têm mais 15 dias de negócio pois, pelo menos, até 19 de setembro o corredor manter-se-á aberto.

Sentado em casa, a ouvir os noticiários, António Costa sorri. Ninguém suspeita do negócio. O país ganhou um novo fôlego e já só se fala do julgamento de Rui Pinto, passada que foi a enorme surpresa. O sentido de dever cumprido deixa-o feliz. Aquilo podia ter corrido mal, muito mal mesmo. Felizmente, por mais 15 dias tudo está bem na pacata Lusitânia.

Costa sabia que havia um preço a pagar, mas desde que ele cumprisse o prometido Boris Johnson nunca o poderia acusar de incumprimento do prometido. Isso era o mais importante, poder manter a face, sem ter cedido em nada de realmente importante para Portugal.”

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Fico-me por aqui, amiga Berta. Espero que te tenha agradado esta minha peça em três atos. Personagens reais, países reais, factos reais, causas alegadas no domínio do «podia ter sido assim». Com um beijo saudoso este teu amigo do coração despede-se até amanhã,

Gil Saraiva

 

 

 

Carta à Berta: "António Costa - O Grande Golpe - Peça em Três Atos" - "Ato II - Costa e BB - O Telefonema"

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Olá Berta,

Eu já sabia que a minha querida amiga ia dizer que eu punha os nossos governantes a falar de um modo muito vulgar nas reuniões. Não te esqueças que eu já fiz parte de uma direção distrital do Partido Socialista, ainda por cima enquanto elemento da Comissão Executiva de uma Federação Regional. Também sei que já passaram um pouco mais de 2 décadas, mas o vocabulário não mudou. Não foi o facto de eu ter saído dessas lides que alterou fosse o que fosse na linguagem utilizada pela maioria dos dirigentes entre portas.

Para facilitar as coisas vou apresentar a chamada para o Reino Unido no nosso português coloquial em vez do inglês brejeiro em que a mesma decorreu. A tradução facilita o entendimento de quem lê. Mas vamos ao que mais interessa, ou seja a nossa peça:

“Segundo Ato: Costa e BB – O Telefonema (leia-se Bi Bi de Boris Brexit)

Enquanto Augusto Santos Silva rabiscava num papel o novo número pessoal de Boris Johnson, acabadinho de ser arranjado por intermédio do embaixador britânico em Portugal, António, alinhava numa folha A4 as ideias base para a conversa. A meia hora seguinte serviu para todos darem sugestões sobre quais deveriam ser os assuntos discutidos e sobre a ordem em que os mesmos poderiam ir sendo apresentados. Era necessário pressionar seriamente o Primeiro-Ministro britânico, sem o chatear.

Por fim Costa passou a limpo os tópicos e sentiu-se preparado para avançar para a chamada.

       - Olá Boris, daqui é Costa… António Costa… Primeiro-Ministro de Portugal. Sim, sim, esse mesmo, o velho aliado a quem vocês fodem sempre que podem... — explicava Costa no decorrer da troca de piadas iniciais entre governantes.

       - Não é bem assim amigo Costa. Digamos que o Reino nem sempre pode fazer tudo aquilo a que se compromete. Às vezes, dá merda, fruto das circunstâncias. Mas a que devo esta chamada? O meu embaixador em Portugal já me tinha informado que transmitira o meu número ao teu homem dos negócios estrangeiros. Precisas de algum conselho sobre como podes sair da União Europeia? — ripostava Johnson com ar brincalhão.

       - Não pá. Preciso é que mantenhas a porra do corredor aéreo com Portugal e te deixes de moralismos hipócritas, caralho. Arriscas-te a afundar-me o PIB e isso pode gerar uma puta de uma bola de neve que nem com o dinheiro de Bruxelas me safo. Preciso mesmo que eleves a fasquia da velha aliança. — afirmou Costa tentando manter um ar sério e preocupado.

       - Puta que pariu. Isso está assim tão grave? Afinal serão apenas 15 dias. Não me digas que vais ao fundo por meia dúzia de ingleses não irem de férias? Não posso querer! — argumentou Boris.

       - Talvez se deixasses de oxigenar o cabelo e arranjasses um pente te fosse mais fácil entender que não estamos a falar de meia dúzia. Mas enfim, caralho, o que eu preciso é que não anuncies o fecho do corredor na quinta-feira. Posso contar contigo? — Costa parecia preocupado.

       - É pá, foda-se. Que culpa tenho eu que vocês tenham passado a média das 20 infeções por 100.000 habitantes? Tu sabes que esse é o nosso critério para manter os corredores aéreos... — justificava Boris com ar de quem nada poderia fazer.

       - Também sei que tinhas ficado de negociar a maioria dos termos do Brexit com a chanceler alemã e que ainda nem sequer tens nada que se veja. Estás em cima da linha de água para fazeres uma saída airosa no que ao acordo com a União diz respeito. E, até agora, nada de nada, caralho. — Costa preparava-se para lançar a escada. — Talvez não te lembres, mas eu recordo-te que a Presidência do Conselho Europeu é de Portugal durante o primeiro semestre de 2021.

       - Hum… isso quer dizer o quê meu velho e bom amigo? Estás a propor uma troca de favores, é? Acho que sabes que não consegues fazer nada se os outros estiverem do contra. Ainda não estou bem a ver onde queres chegar... — avançava Boris cautelosamente. Aquela poderia vir a ser uma aliança muito interessante para si. Se pudesse manipular um pouco a agenda negocial…

       - É pá, tu mudas o critério dos corredores aéreos para a percentagem de infetados por cada 100 mil testados. Nesse parâmetro estamos no topo dos melhores classificados da União. Já eu, pelo meu lado, articulo contigo a forma de trabalharmos a agenda do Brexit como te for mais conveniente, entre janeiro e junho. Podes até dar liberdade de escolha sobre o corte dos corredores ao País de Gales e à Escócia. Tens é de manter para eles o corredor aberto para Açores e Madeira e o Inglês para todo o território português. No continente o peso deles no turismo é residual. Não ultrapassa os 5%. Que te parece? — indagava António Costa esperançado no seu novo isco.

       - Hum… e o teu voto? Posso contar com o teu voto público quando a altura chegar? Desde que chateaste a Holanda publicamente que tens uma forte influência solidária nos países do Sul e do Leste. Votas comigo? Quer dizer, não precisas concordar com tudo, há coisas que vou exigir para depois as deixar cair durante as negociações. Posso avisar-te do que não faço questão de ter apoio. Então? — Boris parecia agora muito mais empenhado numa negociação. Até se esquecera de praguejar.

       - Podes contar comigo. Porém, os dossiers das pescas e do trabalho dos emigrantes ficam de fora. Sabes que em ambas as situações quem se podia foder era eu… — um silêncio fez-se ouvir do outro lado, Costa esperou.

       - Bem, bem… foda-se… nas pescas dava-me jeito o teu apoio, mas seria mau para ti, eu entendo. Ok, temos acordo. Vamos fazer assim, vou pôr vários elementos do Governo a dizerem que os corredores podem vir a ser fechados, mas que está tudo em análise. Na quinta-feira fazemos saber que os corredores não fecham e na sexta-feira sai o comunicado oficial do Governo Britânico. Parece-te bem? Já com essa ideia da mudança de critérios ou a junção desses com o atual, para parecer mais verosímil. Que tal? — questionou Boris.

       - Caralho! Estava a ver que não. Estamos combinados. Nós vamos manter as nossas infeções elevadas até sábado, dia 12. Depois vamos baixando para que possas manter a avaliação. Se não conseguirmos já será culpa nossa. Entendido? Estamos combinados? — Costa esperou pela confirmação de cortesia pelo lado de Boris.

       - Claro que sim. Mas baixa-me os infetados entre dia 13 e 18 de setembro. Deixa os 300 e os 400 para depois disso, senão pouco poderei fazer. Não há nada como um bom acordo para o Sol nos sorrir. Gostei da conversa António. Fica bem e está atento às notícias de quinta-feira. Puta que pariu. Já tinha visto que tu eras habilidoso, mas agora comprovei. Boa negociação. «Bye, bye». — Boris desligou a chamada francamente satisfeito com a conversa.

Os quatro ministros de Costa presentes na sala aplaudiam satisfeitos. Correra tudo de feição. Seria difícil arranjar uma outra situação em que tudo se tivesse passado exatamente conforme o que desejavam.”

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Por hoje é tudo, minha querida amiga Berta. Fica com uma despedida cheia de saudades deste teu velho amigo, recebe os mil beijinhos da praxe e espero voltar ao contacto contigo já amanhã

Gil Saraiva

 

 

 

 

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