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Carta à Berta

Carta à Berta é o local dos Desabafos de um Vagabundo, do Senhor da Bruma, essa bruma a que chamam de internet, de um Haragano, o Etéreo, qual cavalo selvagem que galopa entre cartas alegadamente, quiçá, sem fundamentos.

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Carta à Berta: "Black Friday"

Black Friday.jpg

Olá Berta,

Espero que algum mau tempo não te impeça de ir às compras na próxima sexta-feira, afinal, estamos a falar da grande “black friday” e, tão próximo do Natal, sempre deves arranjar algumas coisas aliciantes e mais baratas para presentes da época e até pode ser que descubras algo de interessante para ti. Toma atenção, é já a 29 de novembro. Porém, tem cuidado, pois ainda há gente a querer vender gato por lebre e a tentar enganar o freguês com uma ou outra falsa promoção.

A “black friday” é, aliás, o tema da minha carta de hoje. Não apenas pelo facto de a grande promoção geral, de comércios e serviços, estar para próximo, mas também porque o ministro do ambiente e da ação climática, João Pedro Matos Fernandes, resolveu opinar sobre o tema, bem lá do alto da sua douta sabedoria e inteligência.

Sem que lhe fosse pedida qualquer opinião, decidiu sua excelência, este enorme e sábio representante do meio e das suas modificações, meter foice em seara alheia. Estás a imaginar, minha querida, o que aconteceria se fosse eu o atual ministro da economia? Bem, dir-lhe-ia, preto no branco, onde é que ele devia colocar a dita cuja. Sim, sim. Estou a falar da foice.

Como seria de esperar, as organizações comerciais e de serviços vieram logo a público defender a sua dama negra, o dia em que mais se fatura durante todo o ano, aliás, vieram com dados do Instituto Nacional de Estatística, INE, refutar a regurgitação ministerial.

É que a semana em volta da “black Friday” (e já agora a quinzena) são, em conjunto com o próprio dia, responsáveis por produzir receitas superiores a todo o trimestre anterior. A data, e a sua adoção em Portugal, trouxeram para o PIB um impulso equivalente à existência, no ano, de mais um trimestre altamente rentável, no que aos serviços, compras e pequenos negócios diz respeito. Gerando um verdadeiro vulcão de compras e aquisição de serviços que, começando a tremer uma semana antes do dia propriamente dito, só volta a serenar mesmo no fim do ano civil.

Aliás, com a vantagem de praticamente não haver grande acréscimo de despesas salariais ou reforços de mão de obra, o que tem ajudado ao aumento dos índices de produtividade no país, num setor que, só por si, é responsável por bem mais de dois terços do Produto Interno Bruto português. Pena é que, uma área com um tal dinamismo apenas receba a ajuda e o apoio de 4 porcento dos fundos comunitários, para o comércio, e 11 porcento nos serviços.

Uma disparidade gigantesca, se comparada com a fatia de leão entregue a outros tubarões. De realçar que o aumento, para a casa dos 50 porcento, faria, pelo desaparecimento do fosso entre ricos e pobres, mais do que todas as medidas implantadas desde que o país entrou na democracia.

Tendo Portugal uma carga fiscal altamente alicerçada nos impostos indiretos, com especial relevância para as taxas aplicadas ao consumo, sendo o setor o maior empregador nacional e com um peso tão relevante na economia do país, não fica nada bem escutar um dirigente nacional a chamar nomes aos consumidores e a todo este setor produtivo. Ao fim ao cabo, quem julga a douta cabecinha pensadora que lhe paga o ordenado ao fim do mês?

Eu ainda não me esqueci que foi esta sumidade quem gerou a balburdia no setor automóvel por vir dizer, para a praça pública, que, quem comprasse um carro a gasóleo, estava a fazer um mau investimento, pois não o conseguiria revender ou trocar quatro anos depois. Isso foi em janeiro deste ano, daqui a 3 aninhos alguém deverá pôr o alegadamente intelectual de manjedoura a prestar contas pelas suas afirmações e danos causados.

E não falei em manjedoura por mero acaso, uma vez que foi o tendencialmente invertebrado, no que ao raciocínio diz respeito, que veio aplaudir a medida da Universidade de Coimbra, de deixar de servir nas cantinas carne de vaca. Em vez de dizer que a universidade arranjara uma artimanha manhosa, para passar a gastar menos com as cantinas, porque esta carne é a mais cara do mercado, veio apoiar a medida, como se o metano produzido, pelos animais em causa, lhe tivesse invadido o cérebro de forma permanente.

Este é o mesmo ministro que, no caso do lítio, chutou a bola para canto, ou seja, deixou o seu Secretário de Estado, João Galamba, com a batata quente na mão, em vez de intervir como era sua competência e responsabilidade.

Apesar de tudo, importa saber o que realmente disse o versátil representante da deusa Gaia no Governo de Portugal, que, segundo a notícia do JN de 25 de novembro e resumindo o essencial, foi o seguinte:

  • "Nesta evolução de consumidores para utilizadores, com todo o respeito por quem promove os 'Black Fridays' da vida, eles são, de facto, um contrassenso".
  • O ministro considerou que atualmente se verifica a passagem de uma ótica de consumo de produtos para serviços, dando como exemplo as diferenças entre "ter uma lâmpada ou ter luz", "ter uma máquina de lavar roupa ou ter ciclos de lavar roupa", ou entre "ter um berbequim ou um furo na parede".
  • "O que eu quero é mesmo um serviço e não necessariamente um bem. E por isso cada vez mais vamos ter uma sociedade orientada a serviços que têm bens lá dentro", prosseguiu.
  • Classificou ainda a 'Black Friday' como "um expoente máximo e negativo de uma sociedade capitalista", sem antes dizer que acredita "na livre escolha e na iniciativa" numa "democracia aberta".
  • "Acho que é fundamental nós mudarmos de hábitos para podermos aguentar esta mesma democracia e este regime aberto e de livre iniciativa e de livre oportunidade", continuou manifestando também receio de que "alguém o faça por nós e o faça mal".
  • o ministro lamentou ainda ver "muitas entidades financeiras a dizerem como é que vão apoiar as compras que nós vamos fazer no 'Black Friday'".

Ora muito bem, conseguiste entender o que pensa João Pedro Matos Fernandes? Não? Minha querida, não te preocupes, nem tu, nem eu, nem 99,99 porcento dos portugueses, conseguem vez alguma entender a douta cabeça que tantas vezes nos traz alegadamente à memória a imagem do alho chocho.

Este novo Merlin dos Tempos Modernos, considera que estamos a evoluir de consumidores para utilizadores e acha que os que promovem a “Black Friday” representam um contrassenso relativamente a esta evolução.

Ora, acontece que o contrassenso é, o ministro da economia, o das finanças e o primeiro-ministro, deixarem o Douto Mago abrir a boca fora da sua área de intervenção (porque nesta ele vai-se mantendo calado), sempre que a ave rara lhe apetece armar-se em papagaio. Até porque, se as promoções ligadas a este dia estivessem a rumar contra a maré, as adesões da população não cresciam ano após ano, como se tem vindo a verificar, nem o volume de negócios era, como é, cada vez mais significativo.

O intelectual que alegamos ser, por certo, de vão de escada, afirma ainda que estamos a sair do consumo de bens para a utilização de serviços no seu lugar. A frase faz sentido se acrescentarmos que vamos evoluindo no tipo de produtos que consumimos e que estes trazem agora, muitas vezes, serviços associados, senão vejamos: o ministro dá exemplos: “é diferente ter uma lâmpada ou ter luz”.

Também acho, até por a lâmpada, como algumas cabeças pensadoras, pode estar fundida, enquanto que a luz é sempre a luz e fica lá para os lados da segunda circular, em Lisboa. Gostava de saber o número de telefone do fornecedor de energia elétrica que, juntamente com o abastecimento fornece também as respetivas lâmpadas. É que já procurei e não encontro.

Outro exemplo ministerial é: "ter uma máquina de lavar roupa ou ter ciclos de lavar roupa". O ministro refere-se, certamente, às lavandarias existentes nas principais cidades, em que o utilizador põe ele próprio a roupa na máquina e depois da lavagem, a traz para casa, pronta a secar ou já seca se, pagando mais alguma coisa, a colocar noutra máquina de secagem, depois da lavagem.

Esta estratégia quase parece convencer, porém, essas lojas, apenas cobrem uma percentagem ridícula de utilizadores, que nem chega aos 5 porcento, sendo que mesmo estes estão num perfil etário mais jovem e ainda capazes de transportar as roupas de um lado para o outro. O que cada vez tem menos a ver com o país em que vivemos. Tudo o que são vilas e aldeias estão fora do conceito e a terceira idade, mesmo nas cidades, tem dificuldade de usar o serviço pelo que este exige de esforço físico a um idoso. Era provavelmente boa ideia que quem pensa de forma tão afunilada usasse uma dessas lavandarias para lavar a mioleira, quem sabe se, depois de lavada e bem seca, não deixava de produzir barbaridades imbecis.

Há ainda uma terceira afirmação que me deixa perplexo. O ministro fala que é diferente “ter um berbequim ou um furo na parede”. Aliás, o senhor Jacques de La Palice não diria melhor. Quererá a cabecinha pensadora desta alma iluminada dizer que, daqui em diante, chamamos o homem do berbequim, para nos fazer um furo em casa, quando precisamos de colocar uma bucha e um prego, para pendurar um quadro? E em seguida? Contratamos um homem de martelo, bucha e prego, para encher o buraco? E depois? Já sei contratamos um decorador de interiores ou um arquiteto paisagístico para colocar um quadro de um melão, vegetal bem mais arguto do que quem convictamente solta estas verborreias perigosas e ainda não domesticadas.

Não sei em que país vive o homem que nos cuida do ambiente, mas deve ser certamente nalgum diferente dos existentes na Terra, situado numa outra galáxia, ainda desconhecida dos humanos. Este pensamento leva-me a crer que, talvez, o ministro seja um “allien”, um extraterrestre disfarçado de “parolêz”, com a barba mal feita.

O sábio governante explica ainda que caminhamos para “uma sociedade orientada a serviços que têm bens lá dentro”. Pode ser que tenha razão e, já que não será mais cedo, que pelo menos seja mais tarde. Entretanto, dava um jeitão passarmos primeiro por uma sociedade que tivesse governantes com cabeça e que esta tivesse qualquer coisa lá dentro. Mas em que país vive o ministro? Que raio de sociedade é que o rodeia que eu desconheço e que não consigo ver? O caminho de que o ministro fala, se é que eu o entendi corretamente, está bem mais longe e será mais difícil de percorrer do que os famosos caminhos de Santiago. Prevejo que no próximo século, se consiga ter acesso ao mapa dos ditos, e que, antes do fim do seguinte, a fabulosa meta seja alcançada, para a generalidade da população e não apenas para uns idealistas do bacoco e do rococó da ficção científica de trazer por casa.

Quando olho para o que já escrevi, nos parágrafos anteriores, nem consigo acreditar que tudo isto foi enumerado, com convicção por um governante do meu país, mas foi. E disse mais, afirmou que: a 'Black Friday' é como que "um expoente máximo e negativo de uma sociedade capitalista". Por onde andas saudoso Álvaro Cunhal? Os perfumes da tua existência deixaram nalgumas cabeças mais fracas, resquícios débeis e dementes dos sonhos dourados do velho mundo comunista.

Expoente máximo e negativo de uma sociedade capitalista poderá ser a ação que os bancos portugueses tiveram, este século, expropriando o país da sua riqueza e obrigando o povo a repor-lhes os fundos, nunca, jamais, em tempo algum, os saldos, de um dia de descontos, mais avultados, podem ser chamados de expoente máximo e negativo de coisa nenhuma, quanto mais do capitalismo. Quem é capaz de uma tal afirmação deve ser o híbrido produto, alegadamente, da junção de um burro com um camelo, e, mesmo assim, corro o sério risco de ser chamado à atenção pelo PAN, por estar a diminuir os animais.

O ministro do ambiente e da ação climática, mostrou-se triste por haver entidades financeiras dispostas a ajudar os consumidores a adquirirem os bens e serviços durante a “Black Friday” e afirmou: "Acho que é fundamental nós mudarmos de hábitos para podermos aguentar esta mesma democracia e este regime aberto e de livre iniciativa e de livre oportunidade", continuou manifestando também receio de que "alguém o faça por nós e o faça mal".

Ora, finalmente eu, um cabeça de alfinete e o ministro, estamos de acordo. Todos receamos que alguém o faça por nós e mal, seja lá a que for que o ministro se refere. É que fazer e prestar pior serviço do que a sua douta e sabedora pessoa é quase uma impossibilidade.

Senhor João Pedro Matos Fernandes adorava que alguém lhe dissesse que quem tem de mudar de hábitos e de ares, talvez até sair, em pezinhos de lã, do Governo, é vossa excelência. Isso sim, seria um ótimo serviço prestado à nação e digna de condecoração por parte do Presidente da República Portuguesa, o ilustríssimo professor Marcelo Rebelo de Sousa.

Despeço-me de ti, querida Berta, com um beijo de saudades, diverte-te com a “Black Friday” que se avizinha, deste teu amigo,

Gil Saraiva

Carta à Berta: A População Portuguesa – Perspetivas

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Olá minha querida Berta,

Acabei de reparar que esta já é a vigésima carta que te escrevo. Sabes o que isso significa? Quer dizer que te foste embora há já duas dezenas de dias. Não ligues aos arrufos deste que sente a tua falta. O importante é que estejas bem e feliz.

A novidade de hoje é a divulgação dos dados do INE, Instituto Nacional de Estatística, relativos a 2018, no que à evolução da população diz respeito. A conclusão continua desfavorável uma vez que a população existente continua a decrescer. As estatísticas do organismo são claras, Portugal perdeu mais 14 mil habitantes, face a 2017.

Não sou muito daqueles que gosta de jogar com os números para dizer barbaridades, uma vez que estes podem ser usados e interpretados de forma a ajustarem-se áquilo que defendemos. Porém, por estar curioso, resolvi comparar os dados dos últimos 20 anos. Estava com interesse em saber realmente o que se passou com a população desde os últimos 2 anos do século passado até 2018. Afinal, 20 anos é um quinto de século. Uma boa amostragem para podermos avaliar tendências. Fiquei satisfeito por saber que, arredondando as contas na casa dos milhares de pessoas, temos mais 58 mil residentes em 2018 (face a 1999). Infelizmente a minha satisfação ficou por aqui, todos os outros números são desastrosos seja qual for a perspetiva.

Atualmente, dos zero aos 24 anos, tendo o país mais 58 mil habitantes do que há 20 anos, perdemos 705 mil crianças e jovens. Uma verdadeira tragédia geracional. Passámos de 3 milhões e 74 mil jovens para 2 milhões 508 mil jovens abaixo dos 25 anos de idade, ou seja, em apenas 20 anos, desapareceram 22,4 porcento das crianças e jovens do país, em linha consonante com o que aconteceu entre 74 e 99..

Se este número se vier a repetir nos próximos 20 anos, chegaremos a 2038 com apenas 1 milhão 377 mil crianças e jovens até aos 24 anos, ou seja, em idade escolar. O que implicaria uma redução superior a 43 porcento desta faixa populacional. Agora se extrapolarmos isto para um igual período de tempo até 2078, a população escolar dos zero aos 24 anos existente em Portugal seria de apenas 459 mil indivíduos dos 0 aos 24 anos e estaríamos à beira da extinção enquanto povo.

Mas a coisa não melhora quando olhamos para a terceira idade, ou seja, para a população com 65 ou mais anos. Em 20 anos, até 2018 esta faixa etária aumentou em 601 mil idosos, qualquer coisa como mais 27 porcento de idosos do que em 1999. Isto aponta, se a tendência não se alterar no próximo ciclo de 20 anos, para mais um milhão e 202 mil seniores, um aumento de 52 porcento face a 1999, passando a constituir esta faixa etária um terço da população nacional em vez de um quinto que representava em 1999, ou seja, se nada for feito em 2078 os habitantes em Portugal seniores serão mais de 2 terços da atual população, atingindo o número absurdo de 6 milhões 912 mil.

Esta barbaridade absoluta colocaria a população ativa entre os 25 e os 64 anos com apenas 2,45 milhões de pessoas, tudo isto tendo em consideração que a população se mantem na casa dos 10 milhões de residentes, como nos últimos 20 anos, ou seja, o mesmo seria dizer que cada pessoa a trabalhar teria de suportar, com os seus impostos e com o seu vencimento 1 jovem a estudar e 3 pensionistas reformados. Algo absolutamente impraticável.

Pois é Berta, e este é o cenário favorável em que a população envelhece, mas se mantém estável em termos globais, porque, se a dada altura começar a decrescer face à constante diminuição de população jovem, então tudo se precipitaria não para daqui a 60 anos, mas para daqui a 30.

Não penses, minha amiga, que entre o 25 de abril de 1974 e 1998 a situação foi diferente, a única diferença foi que crescemos nesses anos quase 2 milhões em população por força do regresso dos emigrantes e graças aos retornados das ex-colónias. Mas nem isso mascarou o cenário horrível que tem assolado Portugal. Em 74 quase 50 porcento da população estava em idade escolar, eram perto de 4 milhões de crianças e jovens até aos 24 anos para 8 milhões e picos de população. Agora são 2,5 milhões na casa até aos 24 anos para mais de 10,275 milhões de habitantes, ou seja, perdemos 50% da nossa juventude em 44 anos.

É prioritário que o Estado tome medidas efetivas imediatamente, é impossível que eu seja o único a olhar para estes números. Aliás isto requer como nunca, a união esmagadora dos partidos com acento parlamentar numa política concertada de combate ao envelhecimento sem a contrapartida de um aumento gigantesco da natalidade. A gravidade dos números aponta para que sejam tomadas medidas ontem, porque amanhã poderá já ser demasiado tarde para reverter a situação.

Deixo-te um beijo saudoso, deste teu grande amigo que não te esquece,

Gil Saraiva

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