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Carta à Berta

Carta à Berta é o local dos Desabafos de um Vagabundo, do Senhor da Bruma, essa bruma a que chamam de internet, de um Haragano, o Etéreo, qual cavalo selvagem que galopa entre cartas alegadamente, quiçá, sem fundamentos.

Carta à Berta é o local dos Desabafos de um Vagabundo, do Senhor da Bruma, essa bruma a que chamam de internet, de um Haragano, o Etéreo, qual cavalo selvagem que galopa entre cartas alegadamente, quiçá, sem fundamentos.

Carta à Berta: Série "Os Segredos de Baco" - IX - Contornos Específicos e Especiais

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Olá Berta,

Poucos temas existirão que tenham o condão e a capacidade de nos ajudar a distrair dessa coisa terrível chamada coronavírus. Porém, não é saudável ficarmos absorvidos apenas por essa temática, como em qualquer outra doença, precisamos de pontos de fuga que nos possam auxiliar a desanuviar um pouco.

É essa a razão para eu voltar, hoje, ao tema de “Os Segredos de Baco”. Esta abordagem visa esclarecer e explicar coisas que nunca vi colocadas por escrito e devidamente sistematizadas, mesmo assim, isso não quer dizer que não existam, mas, apenas, que eu não as encontrei.

Um importante segredo de Baco é a criação de laços de confiança e empatia entre o vinho e o seu consumidor. Trata-se de um jogo subtil, com contornos suaves, sem imposição, gerado quase que instintivamente, na senda de nos fazer acreditar que estamos perante um produto ímpar, merecedor do nosso foco e atenção.

III) O Vocabulário da Terminologia usada nos Vinhos Nacionais e alguns Porquês…

A) Os Contornos do Prazer associado ao Conforto e ao Bem-Estar.

Secção II) Contornos Específicos e Especiais: Portugal, Raízes, Eixos, Avaliadores e Terminologia.

1) O Caso de Portugal:

Julgo que em enquanto nação fomos dos povos mais influenciados por certos valores da antiguidade. Não só falamos uma língua latina, embora com imensa influência grega, principalmente no vocabulário, como, sendo nós periféricos, marítimos, descobridores e aventureiros, usufruindo das benesses do clima mediterrânico, somos um país com quase um milénio de existência, muito mais próximos do que outros povos das influências clássicas. Porém não somos exclusivos, mas fazemos parte de um grupo muito restrito.

2) As Raízes:

Não é de espantar que muitas destas tradições e práticas da antiguidade se tenham infiltrado na forma como lidamos com o vinho, com o tipo de marketing que para ele escolhemos e que exista uma real influência de terminologia e vocabulário que ficaram. Afinal, graças às caraterísticas do nosso território, e aos diferentes climas e microclimas, tivemos a possibilidade de gerar uma variedade imensa de vinhos específicos e adaptados a cada local, com peculiares detalhes próprios de cada região. Os produtores, levados pelo método da experiência e erro, foram inovando, testando e moldando as verdadeiras raízes que, mais tarde, serviriam para caraterizar cada zona vitivinícola e, por fim, cada região demarcada. Portugal, no seu pequeno território, é um exemplo único, no que diz respeito, à diversidade.

3) Os Eixos:

a) Entre o Mar e a Serra, o Sul e o Norte na busca daquilo que nos relaxa: Não poderia ser de outra forma. Por um lado, o consumo do vinho apela por si só ao relaxe, à paz e à descontração. Sem estes eixos seria impossível podermos produzir de forma tão diferenciada, os diferentes tipos de vinho. O segredo encontra-se na adaptação das vinhas e da produção a cada região. Foi isso mesmo que nos tornou singulares no universo de Baco. Por outro lado, os nomes das garrafas procuraram, na sua grande maioria, ajudar a manter essa ideia ou, se possível, fazê-la atingir patamares mais elevados na procura de ligar um bom nome de um vinho a um momento muito bem passado, a uma região demarcada, a uma história e a uma tradição.

b) A harmonia das ideias e da alma convergem, se forem ajudadas por lembretes felizes, na rotulagem das garrafas de vinho. Se num carro gostamos de sentir potência e emoção, adrenalina e perigo, num vinho procuramos o gosto pelas coisas simples da vida, de uma forma quase pura. Importa saber realçar a relação entre o prazer de existir e o deleite de beber, como elementos complementares de uma convergência que tem de nos parecer natural. A criação da necessidade deverá parecer emergir da nossa vontade. É por isso que aqueles que combatem os problemas causados pelo vinho apenas têm um sucesso relativo. O vício não vem do vinho, mas das pessoas, o que é uma mensagem sublime.

4) O Papel dos Avaliadores:

a) Sejam eles provenientes dos Enólogos, dos Escanções, Enófilos e Críticos de Vinhos, Jornalistas e de todos Os Especialistas no Universo da Vitivinicultura:

Todos já lemos as descrições que os peritos deste imenso mundo fazem ao apreciarem um vinho. É pura poesia, numa literatura de palavras em que estas constituem maravilhosas descrições influenciadas pelo vastíssimo horizonte do palato e do olfato, sem nunca esquecer a cor, o brilho do néctar e a própria apresentação da garrafa comentada.

b) O uso de um vocabulário requintado:

Procura-se transmitir ao consumidor a mesma serenidade e prazer que os produtores e as gentes do marketing põem nas garrafas. Eles poetizam sobre como o vinho ganha volume com o tempo na garrafa, se é refrescante ou acolhedor consoante a época do ano. Comentam sobre a existência no néctar de um alinhamento no diapasão da fruta madura. Divagam sobre a comida que os pode acompanhar nessa senda pelo estar muito bem dentro do bem-estar. A recomendação atual de que se deve beber com moderação visa, em última análise, desresponsabilizar o produto de quaisquer culpas sobre os seus malefícios. O malefício é o uso desmedido ou exagerado que certos indivíduos dele fazem, ou seja, a culpa não é nem do produto, nem do produtor. Quem bebe é que deve saber beber.

  1. c) O conjunto das apreciações tem um objetivo bem determinado:

Divulgam fragrâncias, sabores ocultos, vivacidade e brilho. Insistem que tem um terminar longo e profundo, injetando mistério e volúpia. Enfim poetizam para nos cativar. Para nos encaminhar na aventura de todos nós tentarmos decifrar e descobrir quais são, na realidade, “Os Segredos de Baco”.

5) As Escolhas na Terminologia:

Ao prazer e ao conforto juntam-se outras valências intrinsecamente relacionadas.

a) A tradição vinda da antiguidade, o valor da religião, da família, da propriedade e dos locais, a afirmação do nome, a importância da realeza e da nobreza:

Tudo na busca do poder, num ambiente sensorial original, que cheira a terra e a mistério, que nos coloca de novo em contacto com a natureza, com a fauna e com a flora, nessa luta firme pela pesquisa perfeita pelo maior dos regalos. A importância da subtileza dessas abordagens encontra-se no detalhe das descrições, naquilo que, à primeira vista, nos parece somente uma mera descrição de um vinho, uma adega ou uma vinha.

b) Tudo somado gera uma galáxia de palavras e opções na terminologia:

Afinal, importa deixar claro o destaque e o valor deste hidromel da nossa atualidade. Palavras há que se encaixam nos diferentes apelos e, por isso mesmo, o seu uso ainda se torna mais aliciante. Em síntese, a mensagem subtil do vinho aparece retratada de forma indelével, nos diferentes apelos criados para que, subconscientemente, a consigamos assimilar com naturalidade, quase sem disso termos a noção, ou seja, converter sem convencer. Algo brilhante que apenas no vinho tem esse nível perfeito de sofisticação e habilidade absoluta e perfeita.

Espero ter conseguido passar-te a mensagem deste intricado método de induzir a necessidade aos apreciadores sem que dela se fale. Despeço-me, certo de que, amiga Berta, por certo, irás querer saber mais sobre os apelos, que constituem esta última faceta sobre a terminologia do vinho. Contudo, terás de aguardar pelas próximas cartas, para os conheceres de forma clara, em vez daquela que, até ao momento, é meramente intuitiva. Recebe um beijo saudoso deste teu amigo de todos os dias,

Gil Saraiva

 

Carta à Berta: Miss Universo

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Olá Berta,

Como estás minha querida amiga? Espero que tudo continue pelo melhor por essas terras algarvias. Por aqui, as coisas vão saudosas da tua companhia, mas calmas. Recebi mais um selo de participação do “tripavisor”, pelas minhas opiniões sobre restauração e hotelaria, principalmente no que diz respeito ao Bairro de Campo de Ourique. Fiquei surpreso por saber que me encontro no escalão dos 20 porcento, entre aqueles cujas críticas são mais consultadas no site, no que se refere à capital.

Julgo que terás assistido este domingo à eleição de Miss Universo 2019. Embora eu não entenda muito bem o que tu vês de interessante nesse concurso, porque, em definitivo, não é a minha praia, acabei por assistir por me lembrar que tu adoras a prova.

Deves estar feliz, ganhou o antirracismo, coisa que já não acontecia tão manifestamente desde 2011. Porém, quedo-me a pensar se a notória tendência do júri, para esta glorificação do antirracismo, não acaba, ela mesma, por se tornar racista. Afinal, às mulheres brancas deste ano, nem que fossem as mais perfeitas “Cinderelas” ou “Brancas de Neve” de nada lhes teria valido, melhor teriam feito se nem tivessem entrado no concurso. Já sei que vais reclamar comigo. Perguntar-me pelos outros anos onde só ganharam as meninas de raça branca. Tens alguma razão.

É a questão do copo meio cheio ou meio vazio. Embora este ano eu ache que foi demasiado exagerada a tendência de premiar a cor da pele e as origens das concorrentes. Afinal a vencedora é da África do Sul, a concorrente negra Zozibini Tunzi; a primeira dama de honor, Madison Anderson, veio de Porto Rico, e, embora seja loira, traz o carimbo bem conhecido pelos americanos de ser porto-riquenha, povo que eles rotulam com slogans bem racistas. Ora, ainda por cima, a segunda dama de honor é mexicana, Sofia Aragón, cuja fisionomia e o olhar deixam bem patentes a sua origem latina.

Tu sabes que eu não gosto deste concurso que premeia as mulheres enquanto objetos de cobiça masculina e escusas de me dizer que, atualmente, já existem parâmetros que levam em linha de conta outros fatores. O facto é que nunca uma bruxa ganhará o concurso, portanto, o critério de bibelot será sempre o mais valorizado. Os outros só existem para amenizar as vozes críticas.

Mas não penses que sou apenas contra este concurso, o de Mister Universo, dos machos estereotipados, é-me igualmente adverso. Não precisas de me lembrar que, para mim, homem sem pelos é como cowboy sem chapéu e sem pistolas. Não é isso que está em causa, mas sim, e sempre, as ideias por detrás destes pódios. Podem mudar-lhes as regras de mil maneiras e feitios que de nada valerá. No meu entender bonecas e machos são estereótipos de um passado.

Devo-te confessar que só assisti a partes do concurso, embora goste de ver mulheres bonitas na televisão, a ideia de montra e o meu antagonismo anti machista, mesmo sem eu querer, acaba por prevalecer. Não fiques zangada comigo. Tens todo o direito de pensar de maneira diferente e eu respeito isso.

Quanto a mim, todo o concurso é uma imensa hipocrisia. Deixo-te aqui as palavras que a vencedora proferiu depois da vitória, segundo o site do MSN Notícias, quando lhe perguntaram o que faltava, ainda, nos nossos dias, às mulheres: "Liderança. É algo que falta a mulheres e mulheres jovens há muito tempo, não porque elas não a desejavam, mas por causa de como a sociedade rotulou como as mulheres deveriam ser." (o português da tradução é da responsabilidade do site).

Tu achas que é ganhando este tipo de títulos que as mulheres vão alcançar a liderança, minha querida? Enfim, como sei que temos opiniões opostas, não vou mais bater na ceguinha. Já te fiz despertar, quanto baste, o sentido critico. Despeço-me com um beijo. Este teu eterno amigo que jamais te esquece,

Gil Saraiva

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