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Carta à Berta

Carta à Berta é o local dos Desabafos de um Vagabundo, do Senhor da Bruma, essa bruma a que chamam de internet, de um Haragano, o Etéreo, qual cavalo selvagem que galopa entre cartas alegadamente, quiçá, sem fundamentos.

Carta à Berta é o local dos Desabafos de um Vagabundo, do Senhor da Bruma, essa bruma a que chamam de internet, de um Haragano, o Etéreo, qual cavalo selvagem que galopa entre cartas alegadamente, quiçá, sem fundamentos.

Carta à Berta: O Vitor da Bicicleta de Campo de Ourique

Vitor em Campo de Ourique.jpgOlá Berta,

Não me lembro se, nas tuas visitas a Campo de Ourique, alguma vez te deparaste com um sujeito, usando uma camisola do Benfica e uma bandeira do mesmo clube, a percorrer incansavelmente o bairro de bicicleta, enquanto uma aparelhagem adaptada ao veículo vai debitando música, bem alto, pelas ruas, praças e jardins de toda esta minha freguesia. Minha e, claro está, de todos os outros que também a tratam como sua.

Trata-se do Senhor Victor, um jovem (quase a chegar aos 60 anos de idade), que, pelo menos desde inícios deste milénio, percorre o bairro espalhando música e anunciando o amor evidente ao seu glorioso Benfica. O qual conquistou com o correr dos anos o estatuto de figura pública do bairro, querida por quase todos, mesmo por aqueles que não são do seu clube da águia. A verdade é que o Victor, por onde passa, tem sempre um aceno, um cumprimento e um sorriso para quem o interpela.

A situação, com o decorrer dos anos, tornou-o num caso sério de popularidade. Aliás, nem mesmo o dia da vitória do clube rival, neste campeonato, o impediu de sair, na sua habitual demanda, pelas ruas e de sorrir aos sportinguistas que lhe acenavam, batendo no emblema ao peito das suas camisolas verdes e brancas. Mais “fair play” do que esta demonstração do ciclista é difícil de encontrar na capital.

Em 2015, uma jornalista do Correio da Manhã, resolveu dedicar-lhe uma página inteira no matutino. Ainda me lembro muito bem do artigo. A senhora jornalista (que morava na Estrela) via e ouvia passar, de vez em quando, o nosso ciclista pelo Jardim da Estrela, e com a rudeza de um estivador do porto de Lisboa, dos finais do século XIX, resolveu dedicar-lhe cinquenta linhas da edição online com uma verborreia paupérrima e triste sob o título de “O Ciclista Maluco”.

No texto, a senhora jornalista, não se limitava  a apelar à intervenção da PSP, da Câmara Municipal de Lisboa e de outras autoridades, mas resolvera também insultar um homem, que não conhecia e sobre o qual não fez nenhuma investigação, com juízos de valor que começavam precisamente no pseudónimo de maluco e de louco, passando por perturbador da ordem pública, etc.. É claro que a dita jornalista desconhece as centenas (para não dizer milhares) de turistas que pedem ao senhor Victor licença para fazerem uma “selfie” com ele, sempre que o apanham parado no início da Rua Saraiva de Carvalho ou junto ao quiosque em frente ao cemitério dos Prazeres.

É igualmente claro que a mesma senhora nem imagina o carinho imenso que todo o bairro de Campo de Ourique tem por esta pessoa que não é maluco, nem nunca foi. É um faz-tudo, um pintor, um canalizador, um eletricista e um desenrasca, sempre pronto a ajudar o seu semelhante.

Ah, mas ele cobra esses serviços. É verdade, eu próprio já recorri a ele por diversas vezes, contudo, nunca senti que se esticasse nos preços e, bem pelo contrário, sempre o achei muito barato. O que a senhora jornalista podia atualmente noticiar é que, desde que há pandemia em Portugal, desde março de 2020 que, todos os dias, o santo do Victor montou aquela bicicleta e se fez às ruas do bairro para que os habitantes sentissem a sua presença.

Hoje, quando calhou falarmos, ele, por acaso todo feliz porque finalmente ia tomar a vacina, explicou-me porque não tinha parado um dia que fosse durante a pandemia. A justificação era de responsabilidade. Afinal, afirmava seriamente, ele sabia que tinha o dever de levar um pouco de alegria às centenas de idosos que vivem sozinhos e tristes no bairro, principalmente desde que a pandemia se instalara.

 “- Quando passam um dia sem me ouvirem na bicicleta ou sem me verem eles dizem-me que ficam mais tristes. Eu não posso falhar a esta gente.” Depois ria e dizia-me que muitos deles nem sequer eram do Benfica. “- Mas adoram picar-me e eu respondo sempre com um sorriso ou um aceno.”

O Victor é um homem do povo, de maluco ou de louco nada tem e, no meu entender, até já devia estar a receber, de há muitos anos para cá, um ordenado ou um apoio da freguesia, da Câmara de Lisboa ou até do Benfica, porque o Victor tem passado por sérias dificuldades para conseguir por pão na mesa da sua casa e cuidar da sua família.

Enfim, querida Berta, isto sou eu a falar. A minha opinião pouco vale nos corredores do poder. Contudo, a minha gratidão por este homem, que há duas décadas alegra os corações de tanta gente, é infinita. Podes nem concordar comigo e ser como a acéfala da senhora jornalista do Correio da Manhã, mas que era justo o homem ser compensado não tenho a menor dúvida. Deixo um beijo de despedida, deste teu eterno amigo,

Gil Saraiva

VÍDEO   I:   https://www.facebook.com/ILoveCampoDeOurique/videos/699365187288463/   

VÍDEO II:  https://www.facebook.com/ILoveCampoDeOurique/videos/3001581416556323/

Pedalando em CO.jpg

 

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