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Carta à Berta

Carta à Berta é o local dos Desabafos de um Vagabundo, do Senhor da Bruma, essa bruma a que chamam de internet, de um Haragano, o Etéreo, qual cavalo selvagem que galopa entre cartas alegadamente, quiçá, sem fundamentos.

Carta à Berta é o local dos Desabafos de um Vagabundo, do Senhor da Bruma, essa bruma a que chamam de internet, de um Haragano, o Etéreo, qual cavalo selvagem que galopa entre cartas alegadamente, quiçá, sem fundamentos.

Carta à Berta: A Libertadores é de Jesus

Jorge Jesus.jpg

Olá Berta,

Deves estar, como eu, satisfeita com o nascimento e ascensão aos céus de mais um herói nacional, desta vez não aqui no nosso pequeno burgo, mas pelas paisagens imensas das terras de Vera Cruz.

Jesus é louvado pela imensidão de gente rubro negra que parece ter invadido o Brasil. Para onde quer que ele vá, será seguido por muitos e muitos anos por essa massa gigantesca de fãs que lhe reconhecem a audácia de um verdadeiro “Mister”, e que só não o naturalizaram já, porque a pronúncia do mesmo dificulta a confusão.

O Brasil é hoje terra de um povo libertado depois de 38 de um Flamengo sem ganhar a Taça dos Libertadores. Nem mesmo o pulmão amazónico, a definhar a olhos vistos, parece calar o pulmão recém-nascido de uma gente imensa, de milhões e mais milhões, que canta bem alto a palavra vitória, enaltecendo com rubor as faces pálidas de um homem da Amadora, que quis a sorte chamar-se Jesus.

Jorge Jesus vai voltar ao velho continente com o “Brasileirão” ganho e a Taça dos Libertadores debaixo do braço. Volta, porque para ser eternizado não pode manter-se no posto e fazer menos do que acabou de alcançar. Volta, porque a demanda disparou na Europa. Já se fala que o querem em Inglaterra e há quem diga que ele será o próximo treinador do Barcelona. Volta, porque quer ser lembrado eternamente.

Volta, para pena minha, que preferia vê-lo a representar a nossa bandeira fora do país. Eu admiro o Jesus que conseguiu vingar no Brasil, aplaudo e incentivo esse Jesus, porém, sou dos que continuam a achar que ele não devia, jamais, regressar ao Benfica. Há os que me recordam que ele ganhou 3 campeonatos pelo clube, mas eu sou dos que pensa que ele perdeu 3 campeonatos pelo Benfica e mais a final de uma Taça UEFA.

Contudo, este meu raciocínio não tira qualquer mérito ao treinador. Apenas não me agrada ver um iletrado a liderar a minha equipa, o que muito provavelmente tem a ver com o facto de eu me considerar um intelectual. Manias de um Gil, minha querida Berta, preocupado não apenas com o conteúdo, mas também com a forma, de quem lidera o seu clube de coração.

Se o homem for realmente para o Barcelona vou torcer por ele com todas as minhas forças, exatamente como o fiz no Brasil. A simplicidade do treinador faz escola, tem o seu mérito e não lhe deveria ser pedido, nem por mim, que vire Camões ou que tenha o dom da oratória e a cultura geral de um Lobo Antunes. Todavia, eu sou assim, prefiro o herói fora de portas. Talvez o defeito seja meu, não digo que não, mas o que importa é que a saga de Jorge Jesus se mantenha viva, levando consigo o nome de Portugal. Afinal, ninguém lhe pede uma pós-graduação em gramática para que seja um treinador de nível 4, cujo sucesso anda agora perto do 10.

Regressando aos feitos conseguidos pelo herói no Brasil, penso que se passarão muitos anos até que um outro português o consiga repetir naquelas paragens. E, mesmo assim, jamais será igual, porque Jesus o fez primeiro que todos com a garra de um puro Lusitano, nos últimos minutos virando uma desvantagem, na reviravolta da glória de um jogador, um tal de Gabigol. É assim que se escreve história.

Desejo que Jesus continue o seu galope, de crina prateada ao vento, em gestos gritados para dentro de um campo de flores sem tempo. Desejo-lhe felicidades e vitórias, desejo-lhe boa sorte.

Despeço-me, minha querida Berta, saudoso, este amigo que não te esquece,

Gil Saraiva

Uma Blasfémia Chamada SUPER BOCK

Palácio-Pavilhão.jpg

Olá Berta,

É com alguma tristeza que me encontro a escrever hoje. Perguntar-me-ás se o meu desalento tem algo a ver com o regresso do outono e eu terei de o negar categoricamente. Desta vez, o meu estado sombrio tem a ver com a honra, a palavra e a dignidade das pessoas e dos atos.

Estou a falar da reabertura do Pavilhão Rosa Mota. Um local cuja toponímia enaltecia e dava brio, valor, destaque e grandeza ao nome de quem, por Portugal, fez subir a Bandeira Nacional e tocar-se a Portuguesa por variadíssimas vezes com as suas conquistas desportivas, no palco internacional, levando o nome deste pequeno país a todo o mundo, pelo orgulho e a raça do povo que sentia representar, de um povo que cantou em uníssono os Heróis do Mar à luz do Ouro Olímpico de Rosa Mota.

Sabes Berta, ainda me lembro de mim, em pé, em frente à televisão, mais hirto que pau de virar tripas, a vibrar interior e exteriormente e de lágrimas no olhos a ver a Rosa, que coitada até sai ao pai, a receber o Ouro em 87 em Roma nos Campeonatos do Mundo de Atletismo, pelo primeiríssimo lugar na prova da Maratona. Julgava eu então, que, pelas pernas daquela minorca portuguesa, se atingira a plena conquista, elevando o nome do Povo Luso aos píncaros do desporto mundial. Porém, vi-me no ano seguinte em Seul, ajoelhado na alcatifa, porque me faltaram forças nos joelhos e nas pernas, tal a comoção, a ver aquela pequena figura a receber o ouro pela Maratona, a prova rainha dos Jogos Olímpicos, símbolo supremo do desporto terráqueo, ao som do hino nacional, enquanto a bandeira portuguesa se ia erguendo até ao topo máximo da glória. Ah, Berta, sobram-me dedos de uma mão para contar o número de vezes em que me senti assim. Isto é algo que jamais se apaga das memórias de quem vivenciou momentos tais.

Contudo, regressemos ao meu estado sombrio, estava a falar desse pavilhão agora denominado Super Bock Arena, um espaço que vangloriza, em letras garrafais, maiores do que barris, o consumo do álcool, como se o mesmo fosse uma glória que tarda em se afirmar. Por baixo, em letras que lembram contratos de seguradora ou de banco, pode ler-se, envergonhadamente, Pavilhão Rosa Mota. Esta heresia cometida pelo presidente da Câmara do Porto, Rui Moreira, seus acólitos e pelos concessionários do espaço para os próximos 20 anos não lesa apenas Rosa Mota, mas sim, fere de morte a memória coletiva de todos nós, os portugueses.

O Palácio de Cristal, uma obra de inspiração inglesa, foi demolido em 1951, no seio de um processo muito problemático, mesmo para a época em que aconteceu. No seu lugar apareceu um projeto futurista que foi denominado Pavilhão dos Desportos, isto entre 1952 e 1988, pois que, a partir daí, com o fito de eternizar o nome da campeã olímpica da maratona nos Jogos Olímpicos de Seul em 1988, mudou a sua toponímia para Pavilhão Rosa Mota, tendo sido posteriormente deixado ao abandono, por sucessivas governações da autarquia do Porto, nos últimos 20 e tal anos.

Ora o contrato de recuperação Pavilhão Rosa Mota realizado entre a Câmara e o futuro concessionário, a Super Bock, não tinha, em lugar algum, a alteração do nome do pavilhão, como uma condição determinante para que a recuperação se fizesse ou para que as obras avançassem.

Foi em 2017 que, depois de várias peripécias em reuniões entre Rosa Mota e os patrocinadores e entre estes e a autarquia e entre esta e a atleta, que o alegadamente o ignóbil edil concordou com a alteração da toponímia, quando as obras se encaminhavam para o seu desfecho. Faz lembrar um tal de Judas que traiu Cristo por 30 vinténs.

Precisando de um estratagema o autarca (por quem eu nutria alguma admiração, devo confessar), chamou à edilidade a campeã e com desculpas de extrema necessidade, lá convenceu, muito a contragosto, a atleta a aceitar que, por baixo do nome Pavilhão Rosa Mota, figurasse a inscrição Super Bock Arena. Porém, na inauguração tudo estava invertido. Coisa de somenos achou Rui Moreira, para quem nem devia haver polémica. Um insulto nacional digo eu e diriam mais de 10 milhões de portugueses se fossem chamados a opinar. (continua depois da imagem)

Super Bock Arena.jpg

Agora pergunto eu: Como é que o nome de uma bebida alcoólica, sabendo nós que o álcool mata 13.500 portugueses por ano, mais do que o tabaco que só chega aos 12.000, consegue associar a sua marca ao nome de uma notável atleta e a um pavilhão desportivo (ou multiusos como lhe chamam agora), enquanto que o tabaco é banido de todo o lado, sofre impostos absurdos e é obrigado a ostentar imagens das consequências do seu consumo? Afinal se é pelo critério da prevenção todas as garrafas de vinho, cerveja ou bebidas brancas deveriam ter o mesmo tipo de rótulo que o tabaco, o mesmo tipo de imagem e a sua propaganda proibida. Isso sim, seria coerente.

Era bom que os portugueses desta vez não fossem pacíficos e como forma de protesto ninguém voltasse a entrar nessa coisa insultuosa chamada de Super Bock Arena, até o verdadeiro nome do pavilhão ser reposto com dignidade e sem associações que deveriam ser consideradas criminosas. Quanto tempo ainda terá de passar até que este tipo de atitudes e conivências continue impune em Portugal? Poderia acrescentar mais uma série de detalhes ao que descrevo, todos, uns e outros no domínio estrito do alegadamente, mas acho que o que te conto já é suficiente para que me entendas.

Eu, pela minha parte, não só nunca mais naquele lugar meterei os pés como jamais voltarei a beber Super Bock. É pouco, mas se formos muitos pode vir a fazer a diferença. Porém, como não vivo no Porto, não poderei não votar em Rui Moreira nas próximas autárquicas, mas tenho imensa pena de ali não poder votar.

Desculpa o desabafo Berta. Despeço-me com um beijo saudoso,

 

Gil Saraiva

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