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Carta à Berta

Carta à Berta é o local dos Desabafos de um Vagabundo, do Senhor da Bruma, essa bruma a que chamam de internet, de um Haragano, o Etéreo, qual cavalo selvagem que galopa entre cartas alegadamente, quiçá, sem fundamentos.

Carta à Berta é o local dos Desabafos de um Vagabundo, do Senhor da Bruma, essa bruma a que chamam de internet, de um Haragano, o Etéreo, qual cavalo selvagem que galopa entre cartas alegadamente, quiçá, sem fundamentos.

Carta à Berta. O meu Bairro...

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Olá Berta,

Ontem, por aqui, esteve um lindo dia de janeiro. Apetecia passear, espero que hoje o dia se repita, no que à luz diz respeito. É certo que não está calor, mas com a roupa apropriada apetece sair de máquina fotográfica e registar as belezas do meu Bairro, o Bairro de Campo de Ourique.

Já reparaste como sempre que algo nos agrada muito usamos o pronome meu (ou minha, conforme o género em causa) antes do sujeito? É sempre o meu Bairro, o meu Clube, a minha Casa (mesmo que ela pertença ao banco ou a um qualquer senhorio). Gostamos, temos algum prazer com o que quer que seja e… pimba… lá vem o pronome. É uma maravilha podermos fazer este tipo de possessões, pese embora o facto de o Bairro não me pertencer, nem o clube e muito menos a casa.

Hoje, mais uma vez a teu pedido, vou-te fazer um pequeno resumo sobre os estrangeiros a residir no Bairro de Campo de Ourique, em 2019 e dar-te uma breve panorâmica dos principais problemas do bairro. Como em tudo, nem sempre aquilo que luz é ouro, porém, em termos gerais, fiquei agradado com a minha “Petite Paris”, como lhe chamam alguns dos franceses que por aqui residem. O nome até poderia ser considerado um elogio por analogia com a Cidade Luz, mas o contexto é mais complexo do que isso, e as Amoreiras, embora lindas, não são a Torre Eiffel.

Contudo, descobri que Campo de Ourique é o Bairro de Lisboa com mais franceses residentes, tendo, apenas nele, 15 por cento dos franceses que, atualmente, vivem em Portugal. Não é preconceito, mas preferia que assim não fosse e que este número se estabilizasse de forma a não se perderem costumes, hábitos, rotinas e tradições.

Todavia, nas entrevistas que fiz aos residentes francófonos, descobri que eles também preferiam que não existissem pelo bairro tantos conterrâneos seus. Gostam dos portugueses que cá vivem, dizem que o bairro tem vida própria e uma convivência muito agradável. Apesar disso, a comunidade já representa um pouco mais de 5 por cento do total dos moradores. Há 10 anos eram pouco mais de 900 e agora rondarão os 1.500. A proximidade do Charles Pierre e da escola Redbrigde School, também ajuda à fixação desta comunidade pelo bairro.

Se, por um lado, os franceses representam quase metade dos residentes estrageiros que por aqui moram, é de assinalar uma forte presença, por outro lado, das comunidades brasileira, italiana e chinesa, para além das outras de menos expressão. No total, embora o número precise de validação oficial, o que só deve acontecer depois do Censos de 2021, Campo de Ourique tem cerca de 3 mil residentes estrangeiros. Este número, a confirmar-se, representa cerca de 13 por cento da população do bairro e traduz um aumento de 100 porcento face há 10 anos atrás.

Pode parecer muito, mas trata-se de um crescimento de estrangeiros residentes bem abaixo dos números registados em Lisboa, nomeadamente, em algumas zonas históricas. Bairros houve onde esse incremento ultrapassou já 1.000 por cento de aumento, isto no mesmo período de uma década. Isso sim, é uma coisa realmente indescritível.

São os sinais dos tempos. Porém, enquanto os estrangeiros se mantiverem em números que não excedam os 20 por cento do total dos residentes, aqui pelo bairro, não estou minimamente preocupado. Essa média, de um estrangeiro, para cada 4 nacionais é tolerável e perfeitamente assimilada pelo próprio meio, isto se confiarmos no que dizem alguns estudos sociológicos sobre a matéria. Aliás, existem artigos sociológicos e antropológicos a defender essa fração de população, vinda do exterior, como algo de essencial para a evolução positiva de uma sociedade sã. Não é a minha área, porém, não me incomoda enquanto teoria e até tem lógica.

Contudo, nas situações em que a média aumente mais do que isso, já o seu peso se começa a notar de uma forma que pode não apenas ser incómoda, como ajudar a desvirtuar o espírito local. Em resumo, temos uma margem para um crescimento de cidadãos estrangeiros na casa dos 7 por cento. Ora, a fazer fé, mais uma vez, nos estudiosos da matéria, um tal incremento dificilmente poderá acontecer na freguesia durante este século.

Já realmente preocupante é o envelhecimento geral da população do bairro. É um dado estatístico generalizado para todo o centro histórico de Lisboa e, no caso de Campo de Ourique, faz soar os alarmes da preocupação. O número de idosos com mais com mais de 80 anos quintuplicou face ao existente no início do último quartel do século passado. Pior do que isso, é a constatação de que as zonas metropolitanas de Lisboa e Porto, concentram 42 por cento dos mais velhos existentes em território nacional, sendo os centros históricos as áreas mais afetadas.

O Centro de Saúde de Campo de Ourique, por exemplo, há 11 anos que esgotou a sua capacidade de assimilar os novos residentes, sendo apenas residual o número de utentes a conseguirem ver o seu nome inscrito, nesta unidade de saúde, daí para cá.

O índice de envelhecimento no Bairro era, em 2011, de 221,5 idosos, com mais de 65 anos, para cada 100 crianças menores de 15 anos e, segundo dados não oficiais, deve rondar atualmente os 260. Se compararmos o nosso índice com o do Parque das Nações, facilmente abarcamos a dimensão do problema. Essa freguesia de Lisboa tem apenas 49,5 idosos por cada 100 jovens menores de 15 anos.

Ainda mais grave é o número de idosos a viver sozinhos em toda a vizinhança e o aumento significativo dos dependentes de serviços externos e de saúde nesse escalão etário.

Outro número importante é o da densidade populacional em Campo de Ourique. O Bairro tem o dobro da média do Concelho de Lisboa, sendo já a freguesia com maior número de residentes por quilómetro quadrado. Tal facto ajuda a explicar o agravamento dos problemas relacionados com o estacionamento e com a habitação.

Dito isto, minha querida Berta, continuamos a manter praticamente intactas as caraterísticas que fazem deste núcleo citadino um fenómeno de personalidade e identidade marcante, sempre renovada, viva e pulsante, único em todo o país.

Ainda ontem, eu e uma amiga minha, fomos conhecer um novo estabelecimento de restauração. O Dalí Cozinha Surreal, que abriu portas em meados de novembro do ano passado. O espaço deve ter cerca de 24 lugares sentados, sendo que parte deles são ao balcão, mas fica lotado com 18 pessoas. Tem uma boa carta de vinhos, uma excelente variedade de bebidas, como um pub deve ter, e um soberbo ambiente decorativo e musical.

Ora, verdadeiramente surreal é a comida. Experimentámos 2 pratos. A moqueca de camarão e a picanha. A minha amiga bebeu 2 taças de tinto e eu 2 cervejas. Ficámos clientes e cativados. Os preços são acessíveis, mas não baratos, porém, a qualidade é de primeira. Nem no Brasil comi uma moqueca tão boa e a picanha estava de ir às lágrimas, com doses fartas e serviço perfeito.

É no menu que a escolha deslumbra o cliente, pode comer um clássico pica pau português, uma moqueca de camarão brasileira, um polvo à galega tipicamente espanhol, umas ostras gratinadas à francesa, um carpaccio de vitela bem italiano e tem ainda outras propostas de comida Árabe, do Oriente ou da América. Existem também bastantes alternativas para os entusiastas do veganismo. Uma verdadeira e agradável surpresa, quase à porta de casa, na Rua de Infantaria 16.

Usei este bar restaurante como poderia ter usado outro, por exemplo, o restaurante “Isto é o da Joana”, que também abriu portas depois das legislativas do ano passado, na mesma rua, mas no extremo oposto, a fazer esquina com a Rua Sampaio Bruno, da atriz Rita Ribeiro.

O importante, Berta, é a vivacidade e a inovação constante, mas tipicamente amiga e familiar, dos espaços de comércio, serviços e restauração do Bairro de Campo de Ourique. Tudo bem calibrado pelo bater de um coração carinhoso que responde pela alcunha de Jardim da Parada.

O importante é poder respirar esta atmosfera de recanto encantado, encastrado no coração de Lisboa. Esta aldeia cheia de gente que a cuida como sua, que trata o bairro como seu, que lhe dá cariz e personalidade.

O importante é que eu tenho o privilégio de viver aqui, no meu Bairro de Campo de Ourique.

Desculpa lá qualquer coisinha. Sou um sentimentalão, fora de moda, mas muito feliz. Despeço-me com um beijo alegre, este teu amigo costumeiro,

Gil Saraiva

Carta à Berta: Leiria - O Muro da Vergonha

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Olá Berta,

Espero que tudo esteja bem contigo. Hoje tenho uma coisa insólita para te contar. Não te preocupes que não me vou alongar como da última vez. Não sei se conheces Leiria ou não. Eu, por acaso, só lá estive uma vez. Contudo, a história de hoje vem dessas bandas.

Não faço ideia quem é o presidente da autarquia, pode até ser uma pessoa muito bem-intencionada, todavia, aquilo que fez não pode acontecer numa região que, pelo que me é dado saber, pertence a Portugal.

Estou a falar das obras realizadas pela Câmara Municipal de Leiria ou por sua ordem, não imagino se direta ou indiretamente, num dos maiores bairros sociais desse burgo, pertencente à edilidade, sob sua orientação e responsabilidade. É esse facto que me faz dizer que algo vai mal no conceito que têm de país laico, solidário e em harmonia com as minorias populacionais, refiram-se elas a raça, etnia ou religião, já para não enumerar, exaustivamente, todos os outros casos de tratamentos diferenciados, onde a diferença vira ofensa e insulto grave, para dizer o mínimo.

No caso, aqui, a Câmara juntou uma boa parte da população de etnia cigana num único bairro. Poucos haverá que o não são, se é que existe algum caso. Este tipo de segregação, absurdo e abjeto, começa logo por trazer aquele fedor a Chega, e, segundo sei, esse partido não tem nenhum representante que tenha acento entre os vereadores de Leiria.

Pode até a autarquia vir a alegar que esse foi o desejo daquelas pessoas. Pretendiam ficar juntas e unidas. Contudo, não interessa o que elas poderiam ou não preferir, não se segregam ciganos, imigrantes, estrangeiros de qualquer tipo, negros, amarelos, roxos ou às bolinhas, seja essa a sua preferência ou não.

Depois, não se coloca o bairro, coincidentemente, afastado de todos os outros numa área isolada. E por fim, por mais que o edil aprecie Donald Trump, não se constrói um muro de betão armado, à volta de mais de metade do bairro, com 50 centímetros de largura, 2 metros de altura e apenas a 3 metros e pouco afastado das portas das casas. O espaço é tão apertado que, quem tente fazer a curva, na rua junto ao muro, arrisca-se a deixar por lá uma boa parte da pintura. Ainda mais se se tratar de uma carrinha, um género de um veículo bastante usado por estas populações.

Não penses que, quem sai de casa, tem qualquer tipo de paisagem que possa apreciar. Talvez os projetistas tenham elaborado o bairro durante as férias do arquiteto paisagista. A verdade é que não tem, não existe vista alguma, apenas resta aos moradores fixar os olhos no cinzento do muro. Aliás, como se trata de um bairro térreo, à janela, a imagem é a mesma, betão e só betão, tão frio, tão triste e tão amorfo como a soberba de quem o mandou erigir. Enfim, tudo cinzento, faça chuva ou faça Sol.

Na reportagem que vi da TVI, os responsáveis pela obra ainda têm, depois de tudo isto, a distinta lata de ironizar com a situação, dizendo que o muro até protege os residentes de possíveis fogos, que possam acontecer no futuro, nas matas vizinhas, como se o muro fosse um prémio extra oferecido a quem por ali reside.

Uma verdadeira vergonha, ainda por cima porque a obra usou, a acreditar no que os moradores afirmam, com indignação, fundos comunitários para os segregar e aprisionar. Parece anedota, seguida de outra que se prende com o nome dado ao bairro pelos inteligentes autarcas, a saber, Bairro da Integração.

Não sei o que fará a Comissão Europeia quando se enviarem estes dados para Bruxelas. Alguém que saiba como os fazer lá chegar, deveria remetê-los, com urgência. Não me parece bem usarmos esses Fundos para a prática da segregação de etnias. É revoltante, abjeto e mete nojo. Não haverá ninguém, Governo ou outra qualquer entidade, para obrigar esta Câmara a concertar o erro que cometeu, mas quanto antes?

Afinal, cada dia que passa nesta comunidade, nas circunstâncias referidas, não ofende os residentes apenas, ofende a mim e a muitos mais como eu, ofende Portugal.

Despeço-me saudoso com um beijo, este teu amigo,

Gil Saraiva

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