Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Carta à Berta

Carta à Berta é o local dos Desabafos de um Vagabundo, do Senhor da Bruma, essa bruma a que chamam de internet, de um Haragano, o Etéreo, qual cavalo selvagem que galopa entre cartas alegadamente, quiçá, sem fundamentos.

Carta à Berta é o local dos Desabafos de um Vagabundo, do Senhor da Bruma, essa bruma a que chamam de internet, de um Haragano, o Etéreo, qual cavalo selvagem que galopa entre cartas alegadamente, quiçá, sem fundamentos.

Carta à Berta: O Que Se Passa em Campo de Ourique - Entrevistas à Mesa do Café - II - Vitor Sarameco - O Homem da Bicicleta - Parte II

Berta 530.JPG

Olá Berta,

Termino hoje a entrevista ao “Homem da Bicicleta”, sob o tema “O Que Se Passa Em Campo de Ourique” que denominei de “Entrevistas à Mesa do Café”, ou seja, a entrevista ao senhor Vitor Manuel Fontes Rodrigues, vulgo Sarameco. Esta segunda e última parte decorreu na esplanada da pastelaria “AZ de Comer”.

Tenho a certeza que não foi o facto do Vitor ser do signo de Touro que o fez ganhar uma outra alcunha, esta durante os cinco ou seis anos em que passou pelos Bombeiros Voluntários de Campo de Ourique, mas sim a destreza demonstrada durante os primeiros treinos da sua formação profissional enquanto bombeiro.

A destreza, rapidez e à vontade férrea de provar que estava à altura do desafio, tudo junto, somado à impressionante agilidade com que atravessava telhados, trepava andaimes ou emaranhava pelas paredes fizeram-no ganhar o cognome de Tarzan.

Nos comentários que li nos grupos de Campo de Ourique, a quando da publicação da primeira parte desta carta, houve bombeiros a lembrar o grande trepador como se as coisas se tivessem passado ontem. Achei delicioso o carinho com que ainda é recordado nos Bombeiros de Campo de Ourique. Só quem é boa gente deixa um registo positivo por onde passa, eu acho.

Mas, voltando à entrevista, tratemos de esclarecer o que faz o Tarzan de Campo de Ourique. Conforme já tinha informado o senhor Vitor é aquilo a que se costuma chamar de um “faz-tudo”, mas o que é tudo? Foi essa a pergunta que lhe dirigi. Como resposta fiquei a saber que pode ajudar numa mudança, se faltar força de braços à transportadora, que é pintor, que coloca mosaicos e vários tipos de chão, que efetua trabalhos de pedreiro, aplicação de tijolo e rebocos, que trata de diversos problemas ligados à canalização, esgotos ou até de eletricidade.

Mas pode fazer mais, se alguém precisar de mandar algo pelo correio, se necessitar de levantar e transportar umas compras do supermercado ou da mercearia, de aviar uma receita, de ir buscar ou levar coisas à lavandaria e por aí fora, o amigo Vitor faz o serviço. Não tem preço, mas diz que é barato. É o que a pessoa puder e quiser pagar, foi o que eu entendi sobre o tema. Basta ligar para o 911 75 80 86 e combinar com o Vitor.

Aliás, a bicicleta só funciona quando não está a trabalhar ou quando a usa para fazer esse tipo de recados e isso durante o dia. Afinal, esse ímpeto de ciclista já celebrou vinte anos de atividade. É, segundo me afirmou, uma grande paixão, pedalar e ir deixando música por onde passa. A bicicleta só para por avaria ou nos períodos de dois ou três meses em que se encontra fora do país, em trabalho, enquanto trabalhador emigrante.

O Vitor emigrante já fez um pouco de tudo. Apanha de pimentos e outros vegetais, apanha de fruta, trabalho na indústria dos frangos e na construção civil. “- É o que vier, a gente não escolhe, é o que vier.” Afirma, quando interrogado e acrescenta: “- Nos últimos anos já estive em Maiorca, noutras partes de Espanha, em França, na Alemanha, em Itália, na Bélgica (já lhe disse que tenho 2 filhos em Antuérpia) e em Inglaterra, haja trabalho, e eu saiba, e lá vou eu.”

Agora, aos 58 anos, a bicicleta já lhe pesa nas pernas. A que usa foi ele que a arranjou. Foi um senhor, a quem fez umas pinturas na casa, que lhe a deu, avariada, mas recuperável. Porém, é muito pesada e as pernas ressentem-se. O atual autorrádio que usa não tem “pen drive” e atualmente só consegue usar o rádio.

Quando lhe perguntei como vai fazer para continuar ele sorriu e disse-me que ainda tem três sonhos na vida e que acredita que vai conseguir chegar a todos eles, porque tem fé, muita fé. Os sonhos do Vitor “Sarameco Tarzan” Rodrigues são simples e apenas três.

Primeiro: Arranjar uma bicicleta mais leve e se possível com mudanças.

Segundo: Arrumar um autorrádio que tenha entrada para colocar uma “pen drive”, que possa tocar muitas músicas de seguida (eu já lhe gravei uma “pen” com quase mil canções portuguesas).

Terceiro: Conseguir voltar a ter o amor e o carinho de uma mulher, que o queira como companheiro e a quem ele possa amar, para poder atravessar com ela a velhice, ou seja, o Vitor procura uma esposa.

“- Como o Gil sabe bem eu já não sou novo, nem para novo vou. É muito triste envelhecer sozinho, muito triste.”

Pois é, amiga Berta, desejos simples de uma pessoa simples, transparente e, no meu entender, pura, como a generalidade do nosso povo. Oxalá ele arranje a bicicleta e o rádio mais a companheira para o resto da vida. Oxalá. No rádio e na bicicleta talvez esta carta o possa ajudar, já no campo do amor... isso são contas de outro rosário. Espero que o Vitor tenha sorte nessas coisas do coração. E assim termino, com estes votos, a entrevista sobre o Sarameco Tarzan de Campo de Ourique. Com um beijo me despeço de ti, minha querida Berta, até à próxima carta, este teu amigo do coração,

Gil Saraiva

 

 

 

Carta à Berta: "A Flor Agreste"

Flor Agreste.jpg

Olá Berta,

Espero que tudo se mantenha de acordo com as tuas expetativas para estas festas. Eu ando um pouco atrapalhado com a promessa que te fiz de, entre o Natal e o Ano Novo, não te escrever a fazer críticas, ou a deitar abaixo, algumas das coisas que menos me agradam no nosso mundo.

É engraçado verificar que é mais fácil ser critico que que positivo e portador de boas novas no que à escrita diz respeito. Estava aqui a pensar sobre o que haveria de colocar nesta carta, para ti, quando o meu olhar caiu sobre um busto que tenho no cimo da estante, a cerca de um metro do monitor do computador.

É uma reprodução, em gesso, da Flor Agreste, uma obra de António Soares dos Reis, um dos mais consagrados e apreciados escultores mundiais dos finais do século XIX, um homem nascido em Vila Nova de Gaia, que estagiou e completou a sua formação em Paris e depois em Roma, onde era considerado um génio no mundo da escultura entre os críticos da especialidade e os seus pares.

As saudades do seu Portugal fizeram-no regressar a Lisboa depois de ter esculpido em mármore de carrara a magistral estátua de “O Desterrado”, como a sua obra final de primeiro pensionista (o programa Erasmus da época) da Escola de Belas Artes do Porto em Paris e Roma.

Aliás, “O Desterrado” é a primeira escultura no mundo a aludir especificamente à condição triste de um emigrante, desenraizado do seu povo e da sua terra, algures no estrangeiro, longe da sua pátria onde foi feliz. É peça representativa de um jovem nu, em tamanho natural, sentado num rochedo, olhando um mar metafórico que nos leva a entender a solidão, a melancolia e a saudade de quem se sente inadaptado no estrangeiro, embora aí tenha que viver, para se poder formar na profissão que abraçou, por força do seu talento ímpar.

O regresso a Portugal não foi, muito longe disso, minha querida amiga, o paraíso esperado. Na zona do grande Porto, onde residia, quase que apenas lhe chegavam encomendas de estatuária póstuma para cemitérios e trabalhos para ricaços empertigados, muitos dos quais se negou a efetuar, mas foi a sua recusa para mudar o rosto da Virgem, que tinha esculpido para a Igreja de Nossa Senhora da Vitória, no Porto, e a derrota no concurso para o Monumento dos Restauradores, em Lisboa, que mais o marcaram.

Fez em 16 de fevereiro de 2019 precisamente 130 anos que o Mestre Escultor Soares dos Reis se suicidou. Era um homem ainda novo. Deixou, contudo, uma explicação, muito clara, embora enigmática, por escrito: “Sou cristão, porém, nestas condições, a vida para mim é insuportável. Peço perdão a quem ofendi injustamente, mas não perdoo a quem me fez mal.”

O maior nome da Escultura Nacional, segundo muitos dos especialistas, da fase de transição entre o Romantismo e o Realismo, ceifou a sua própria vida, com 2 tiros de pistola, na cabeça, aos 41 anos de idade. Portugal perdeu, nessa altura, um dos seus maiores génios de sempre no que às Belas Artes diz respeito. Considerado um dos grandes, melhores e mais geniais escultores do mundo no seu tempo, morreu com apenas 22 anos de carreira, a sentir-se novamente e em absoluto, “O Desterrado” na sua própria pátria.

Soares dos Reis é também o autor da estátua em bronze de Dom Afonso Henriques, o nosso fundador, entre as inúmeras obras que produziu em pouco mais de 2 décadas de carreira atribulada. Foi o primeiro escultor a esculpir a Saudade em estátua. Criou o busto feminino, que te referi no início da carta, da Flor Agreste, um rosto belo, jovem, mas vindo do povo, não composto segundo as modas da época, ou o modelo não tivesse sido uma carvoeira vizinha do escultor. Sempre irreverente, mas sempre genial.

Deixo-lhe a minha modesta homenagem:

 

“ARTE”

 

Arte...

Harmonia do Tempo,

Em cada tempo...

Reflexo cultural

Semigenérico

Que só alguns dotados

Conseguem realmente apresentar...

 

Arte...

Porque qualquer de nós tem

Por dever:

Compreender, amar, saber sentir...

 

A estética é bela,

“Fenixiana” pura

E a Arte

É o sentir representado

Da harmonia estética do mundo,

De fénixes mil por cada tema:

Reflexos de nós

E nada mais!...

 

Séculos há

Em que a Fénix se propaga...

A espécie ganha força,

Gera frutos,

Num movimento imenso:

Universal!!!

 

No vigésimo primeiro século da História

Uma outra ave nasce...

É de rapina e tem uma palavra nova

Para a explicar:

“Artítese”!

 

Um monstro deformado,

Devorador de Fénixes,

O Anticristo

Da Ordem dos Dotados Criadores!...

Rareia,

Agora, a Fénix na Terra

E todos temem,

Tremem, mas não falam!...

 

A “Artítese”

Proclama-se de Fénix

E diz renascer da anterior...

Tem falta de harmonia,

Foge à estética

E só ao medíocre dá aval!...

 

Artistas, criadores,

Deste planeta,

Património de toda a Humanidade,

Ajudem-me a matar o predador!

É necessário

Tentar salvar a Fénix!!

 

Despeço-me com este poema, recebe um beijo, deste teu amigo de sempre,

Gil Saraiva

Mais sobre mim

foto do autor

Sigam-me

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

Em destaque no SAPO Blogs
pub