Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Carta à Berta

Carta à Berta é o local dos Desabafos de um Vagabundo, do Senhor da Bruma, essa bruma a que chamam de internet, de um Haragano, o Etéreo, qual cavalo selvagem que galopa entre cartas alegadamente, quiçá, sem fundamentos.

Carta à Berta é o local dos Desabafos de um Vagabundo, do Senhor da Bruma, essa bruma a que chamam de internet, de um Haragano, o Etéreo, qual cavalo selvagem que galopa entre cartas alegadamente, quiçá, sem fundamentos.

Carta à Berta: As Pandemias Que Assustam a Covid

Berta 472.jpg

Olá Berta,

Para haver moralidade todos devem comer pela mesma medida. A desculpa dada pelo Governo de Portugal (e de tantos outros no mundo inteiro), agora e no passado, para taxar os fumadores prende-se com questões ligadas à ética e à saúde pública e, ainda ao custo que um fumador provoca ao Estado, quando contrai doenças provocadas pelo seu vício nefasto, que afeta o próprio e quem o rodeia.

É com base nestes pressupostos que o fumador, em primeiro lugar, e outros frequentadores de espaços onde se vendem cigarros e outros produtos produzidos pelas tabaqueiras, em segundo lugar, são obrigados a visualizar as horríveis imagens explicitas dos ditos malefícios, de muito mau gosto e discutíveis, colocadas obrigatoriamente nas embalagens destes produtos.

A mesma base serve de argumento quer para o elevado peso dos impostos nestes produtos, quer para não permitir a publicidade expressa dos mesmos na televisão, rádio, imprensa, ou em qualquer outro meio de divulgação e anúncio da variedade e qualidade da oferta, que se encontra acessível ao consumidor. Não são permitidos, por isso mesmo “mupis”, outdoors e até publicidade digital. Tudo parece vedado a esta indústria pelo manifesto flagelo que a mesma constitui para a saúde pública. Ora, eu, mesmo sendo um fumador acho muito bem este combate.

Porém, quando digo que acho bem, também me considero no direito de exigir equidade de tratamento para todos os outros produtos que, de um modo comprovado e cientificamente conferido, causam idênticos prejuízos aos indivíduos e a sociedade no seu todo. Como dizia no início desta carta, minha querida amiga Berta, para haver moralidade todos devem comer pela mesma medida.

Ora esta norma, se aplicada, porque a justiça do seu princípio me parece inquestionável, devia proibir os apoios que são dados aos viciados em drogas (porque estas, ainda por cima, estão ilegalizadas e são penalizadas a vários níveis, pelo próprio sistema judicial) fornecendo-lhes gratuitamente seringas, salas de chuto e sucedâneos, como é o caso da metadona, ou tratamentos de combate ao vício suportados pelo Estado, o que obriga a despesas que saem diretamente do bolso do contribuinte.

Pelo mesmo princípio, todos os produtos ligados ao consumo do álcool deviam estar equiparados (e aqui com severas e idênticas penalizações e impostos) aos do tabaco. Com proibição de publicidade a qualquer nível, não devendo sequer ser permitido, como não é para o tabaco, o patrocínio destes produtos a eventos de massa e muito menos ainda a acontecimentos de natureza desportiva. Recordo-te, amiga Berta, que o número de mortos e de problemas e custos para a saúde pública ligados ao álcool supera atualmente os provocados pelos derivados do tabaco.

No caso do álcool acho pornográfico que se permita que a Sagres patrocine e publicite eventos, equipas e seleções desportivas, como é o caso da Seleção Nacional de Futebol. O mesmo processo deveria acontecer com a “Super Bock” e as outras cervejas. Aliás, nem devia ser permitido que as bebidas com álcool pudessem fazer publicidade, fosse em que meio fosse. Isto inclui a cerveja, todos os vinhos e as chamadas bebidas brancas ou destiladas.

Não é difícil de entender que só pela influência no espaço governativo dos lóbis ligados ao consumo de álcool se impede o Governo de obrigar à postagem de imagens alusivas aos malefícios do álcool em todas as garrafas colocadas à disposição da população. Sim, sim! Estes produtos matam anualmente em Portugal mais gente do que os ligados ao tabaco e provocam um peso gigante no campo da saúde pública, para já não falar nas causas indiretas como é o caso da sinistralidade na estrada.

Recordo que há já mais de uma década que os números de óbitos ocorridos, em Portugal, provocados pelos produtos derivados pelo tabaco ultrapassa anualmente os dos falecidos por Covid-19 desde o início da pandemia até hoje e que os mortos com origem no álcool são ainda superiores a este número.

Há, contudo, e embora sem reconhecimento oficial, um mal muito maior do que os quatro anteriormente apresentados. Um mal tão grave que é capaz de gerar, com facilidade, violência doméstica. Falência de famílias inteiras, miséria em agregados familiares já por si à beira da miséria, roubos, assaltos, descalabros sociais e económicos inacreditáveis no seio da classe média, depressões, suicídios, homicídios, disrupções sociais de toda a ordem e criar uma sociedade alienada com um perfil descrito pela ciência como ludopatia (um comportamento aditivo, uma doença grave do foro psicológico, que consiste em jogar e apostar sucessiva e descontroladamente até, se preciso for, em casos mais graves, à destruição integral do ludopata e, muitas vezes, de todo o seu agregado familiar).

A publicidade televisiva de jogos e casinos online devia estar interdita há já muito tempo. Não deveria inclusivamente ser permitida em lugar algum, nem mesmo nas redes sociais. É um crime (sobre o qual falta legislar severamente) incitar ao jogo. Mas a situação devia ser reprimida e interditada a quem não fizesse prova de poder jogar sem prejuízo claro da sua vida privada, familiar, pessoal e social.

Os casinos, os jogos da Santa Casa, os sites de apostas desportivas ou outras e, inclusivamente a famigerada raspadinha, são exemplos vivos e presentes de como se pode espoliar o povo, com o seu próprio consentimento, por o mesmo não se aperceber que é vítima de um processo criado de maneira a enganá-lo e estudado precisamente com esse fim absurdo e que tanto mal causa. A raspadinha, diz a ciência, é já um vício grave a nível nacional, em Portugal.

Dizem os cientistas que se nada for feito pode vir a gerar danos irreparáveis em mais de 50% da sociedade portuguesa. Estamos a caminhar para uma sociedade de viciados, que se julgam livres, e que (já existem registos do fenómeno no país) levam a que muita gente retire dinheiro à verba mínima que precisa para se alimentar (a si e aos seus) para poder raspar mais umas viciantes amostras de papel enganador.

Desculpa o desabafo, minha querida Berta, mas a hipocrisia dos mandantes, este tapar de olhos deliberado e motivado por lóbis ocultos, mete-me nojo de tal maneira que, às vezes, não consigo guardá-lo só para mim. Por hoje é tudo, despede-se este teu amigo saudoso,

Gil Saraiva

 

 

 

Carta à Berta: A Peça do Chinês - Parte III - Nova Viagem, Nova Estadia...

Berta 73.jpg

Olá Berta,

Hoje, vou continuar a contar-te a minha história sobre a peça do chinês. É uma descrição, minha querida amiga, que requer ainda uma boa caminhada até ao final, no episódio 6, e este é apenas o terceiro. Contudo, julgo que não darás o tempo de leitura por mal empregue.

Esta terceira parte da peça do chinês, fala de uma nova viagem, nova estadia… um pouco mais para a frente entenderás o título. Para já, vamos ao mote deste momento único: morfina, morfina, morfina e mais morfina. Qual janado, apaixonado por uma nova droga, dei comigo na firme disposição de trair, sem o menor dos embaraços, a minha velha, boa amiga e companheira, Nicotina. A traição, um ato que sempre repudiei por achá-lo característico de pessoas estilo Donald Trump, Andrés Aventureiros, Carlos Alexandrinos e dos consumidores genéricos de metadona, aparecia no meu horizonte como algo natural, lógico e até desejado.

A nova paixão, essa deliciosa, refinada e recém-chegada Morfina, tornava não só o meu quotidiano mais fácil de suportar, como me ajudava a ter esperança num futuro sobre o qual ainda não possuía qualquer vislumbre. A nova droga transformava o tempo ao meu redor. Com ela, as dores pareciam paisagens no horizonte e a realidade era como um filme, onde os dias se passavam apenas em horas.

Sabes, minha amiga, como ficamos no inverno, depois de estar umas horas ao computador, com a mão no rato? Pois é, gelam-nos os dedos primeiro e depois toda a mão. Porém, eu interrogo-me se aconteceria o mesmo se em vez de um rato o aparelho tivesse uma rata, que te parece? Por certo a mão estaria bem mais quente e seria um prazer deslizar os dedos por ali. Ora, nesta coisa de me tirar as dores o rato aparece representado pelo famigerado Nolotil, enquanto a rata se chamaria, sem qualquer dúvida, Morfina.

Contudo, o namoro foi breve. A rata, quero eu dizer a morfina, ficou confinada e diluída na solução analgésica intravenosa durante cerca de 3 dias, sumariamente à espera da reação provocada pela atuação de outros fármacos, sendo ela, mal a coisa se tornou viável, arrancada de meus braços pelos carinhosos, mas vigilantes, responsáveis pelo meu estado de saúde. Não me queriam ver viciado na rata, digo, morfina, e esta é muito dada a criar dependência.

No quinto dia (relembro-te, Berta, que esse tempo me pareceu durar apenas algumas horas), ainda sob o efeito da minha nova paixão, mas a vê-la desvanecer-se na bruma hospitalar, fui informado que o meu problema era de cálculo. Estranhei a informação. Como poderia eu ter errado no cálculo se eu não fazia contas há dias? Não, não era nada disso. Eu estava a confundir as coisas, ainda por culpa dos efeitos secundários da droga administrada. Rapidamente voltaria a entender tudo de novo, diziam.

Aliás, um cirurgião com quem troquei algumas palavras, durante uns poucos instantes de lucidez, achara imensa graça ao meu comparativo do Nolotil e da Morfina com o rato e a rata, principalmente, pelo ar carrancudo da enfermeira que o acompanhava. Todavia, dizia-me que essa criatividade se iria dissipando à medida que a droga desaparecesse do sistema.

Por fim, com a paciência dos sábios, e usando uma linguagem que o meu cérebro meio perturbado pudesse entender, lá me informaram que um calhau, que tinha residido clandestinamente na minha vesícula, uma espécie de tonel devidamente preparado para lidar com a bílis, tal como os toneis lidam com o vinho, junto à adega, que neste caso era o meu fígado, tinha sido desmascarado e, consequentemente, posto de imediato em fuga, talvez com receio que eu lhe cobrasse renda ou solicitasse uma musculada ação de despejo.

Porém, na pressa de fugir, o meliante acabara por ficar retido numa viela, à qual o meu douto sábio cirurgião chamou de canal biliar. Em resumo, no meu entender, o velhaco calhau, disfarçado de gôndola que desliza por um canal em Veneza, tentou esquivar-se, sem ter reparado que a sua estadia o engordara ao ponto de ele nunca se conseguir fazer passar por um barco veneziano, mas sim, tomar a forma de um paquete turístico transatlântico. A consequência óbvia foi ter encalhado, nas águas pouco profundas, no meu canal biliar.

Soube mais tarde que a descoberta do vadio paquete se ficou a dever a um jovem médico, que decidira não abandonar o seu turno, terminado há algum tempo, sem pôr em pratos limpos o que era aquilo, que só ele julgava estar a ver e que lhe parecia ser efetivamente uma sombra. Uma sombra que poderia estar a ocultar algo mais, tipo o meu famigerado transatlântico. A sua observação aos resultados das diferentes ecografias, que mandara repetir por 3 vezes, contrariava a palpação e a douta opinião do experiente cirurgião de serviço e chefe da equipa da urgência, que nada sentira.

Contudo, à chegada da terceira ecografia, finalmente, o calhau, a pedra, o paquete transatlântico, foi localizado. Estava encravado ou, na linguagem marítima, encalhado, e sem hipóteses de fuga, num recanto do tal canal, ou seja, no canal biliar, que nada tem a ver com O Tal Canal, protagonizado na RTP pelo comediante Herman José, que para aqui não é chamado e cuja alusão parece referir um outro canal não só mais desejado, como também absolutamente feminino.

Em resumo, depois de 2 dias e meio de fuga, ficou claro que se impunha uma intervenção para remover o patife obstrutor da propriedade alheia, esse paquete de trazer por casa, que me levara, sem aviso prévio, a conhecer paragens localizadas muito para além dos quintos do inferno, algures em terras de Dante.

Não só já não ia ser recambiado para casa, sem sequer levar comigo um diagnóstico conclusivo, como defendera primeiramente o chefe da equipa, como teria de ser intervencionado, tipo campo agrícola, depois da passagem revolucionária da reforma agrária. Tudo isto porque, um abençoado jovem médico, daqueles teimosos e obstinados, jejuou, nadou contra a corrente e resolveu bater o pé, qual prova de triatlo original, na senda da sua nobre demanda de descobrir que raio de coisa era aquela que ele achava ser, na melhor das hipóteses, uma sombra.

Dizem que a sorte protege os audazes. Acredito que sim, contudo, também me protegeu, numa altura em que a diferença entre mim e uma múmia paralítica era apenas a dos meus gemidos de dor, sem ter sequer a consciência de estar a gemer. Portanto, o ditado devia ser alterado para esta situação bem mais abrangente, talvez para: a sorte protege os audazes e as múmias paralíticas.

Tive de esperar pelo fim de quarta-feira e o início de quinta-feira para ser transferido, definitivamente, para os serviços de gastroenterologia do hospital que guarda a memória do nosso Nobel da Medicina, na forma referenciada e clara do uso do mesmo nome. Estou a falar da minha transferência, não confundir com trasladação, até porque continuava vivo e bem vivo, para o Hospital Egas Moniz. A decisão da minha mudança de instalações fora tomada logo após a descoberta da obstrução do canal biliar e era definitiva.

Por mim aguardava essa nova viagem e nova estadia num outro lugar, num outro hospital, já devidamente diagnosticado e pronto para uma intervenção que colocaria um ponto final nas minhas mágoas e sofrimento. Mas, como em tudo na vida, cada coisa tem sua hora, o seu momento, porque tudo tem um tempo certo para ocorrer. Não vale a pena ter pressa em demasia porque, por mais que se deseje o inverso, as coisas só acontecem no tempo certo, quando, efetivamente, têm de acontecer.

No meu caso, seria uma nova viagem a efetuar, mas só quando vagasse uma cama no terceiro piso do Egas Moniz, onde estavam localizados os respetivos serviços, que interessavam à minha situação, nesta instituição. Pondo a coisa de outra forma eu só tinha 3 hipóteses para ser transferido para o local da minha nova estadia.

No primeiro caso, era se um dos pacientes do terceiro piso dos serviços de gastroenterologia morresse e eu fosse ocupar o lugar do morto, o que seria algo como me ficar destinada a cama fúnebre, a segunda situação era um paciente descobrir que ia ser operado por um seguidor do criador de Frankenstein e pôr-se em fuga do hospital indo eu ocupar o leito do apressado fugitivo, a terceira probabilidade era a de alguém ter alta hospitalar e eu receber a cama que vagasse por essa auspiciosa saída. Não existia uma quarta hipótese, nem qualquer outra alternativa para que a transferência tivesse lugar.

Vale a pena referir, que graças às “troikices” de Passos Coelho e ao desinvestimento e cativações de Centeno, já na sua mágica cadeira ministerial de guardião financeiro do pecúlio do povo português, os serviços do Hospital Egas Moniz estavam assoberbados de pacientes e carentes de recursos. Algo que nos 3 anos seguintes se tornaria no calvário de quem fosse caindo nas garras forçadas e afiadas do Serviço Nacional de Saúde, vulgo SNS.

Porém, mais uma vez, a sorte protegeu a múmia paralítica, ou seja, eu. Lá fui, uma vez mais, de ambulância, acompanhado ainda e sempre pelos prestáveis bombeiros, para a minha nova estadia, a cama 316 do Hospital Egas Moniz, acabada de vagar por um paciente que tivera alta ao meu quinto dia de Hospital São Francisco Xavier.

Importa esclarecer que muitos destes meus relatos não foram vividos diretamente por mim, embora eu estivesse presente em todos eles. Foram-me transmitidos por quem também os acompanhou, ou a minha amiga que se provou incansável em toda a saga, ou os bombeiros, os auxiliares, os enfermeiros e os médicos que, nos meus períodos muito curtos de lucidez, me foram inteirando dos diferentes factos e situações.

Só já na nova estadia, a tal cama 316 do Egas Moniz, é que o efeito da morfina passou por completo e eu regressei, qual migrante contrariado, à realidade e ao presente abandonando a bruma onde fora Senhor por alguns dias.

Sempre me lembrarei desse tempo de Senhor da Bruma, sem qualquer noção de existir, absolutamente irresponsável pelos meus atos, entregue a uma amante chamada de Morfina, mas que, para mim, fundia Vénus e Minerva numa só entidade mítica e maravilhosa. Iria ter saudades, minha querida amiga Berta.

Foi no dia seguinte que, pela primeira vez, me falaram da Peça, sim, a do Chinês. Contudo, amiguinha, isso fica para a quarta parte da nossa curta novela. Despeço-me com um beijo de saudades, este teu amigo de sempre,

Gil Saraiva

Carta à Berta: O Submarino da Fortuna

Submarino.jpg

Olá Berta,

Cá estou eu de novo a escrever. Acho que esta nossa correspondência se está a tornar um vício. Tenho que ter cuidado. Não gosto de estar dependente seja lá do que for. Chegam-me bem, infelizmente, os 2 comprimidos que, diariamente, tenho que ingerir. Todavia, sem eles, o risco de AVC torna-se bem mais ameaçador. Ah! Escusas de me vir falar nos cigarros, conheço perfeitamente os meus hábitos.

Contudo, a minha carta de hoje, tem a ver com isso mesmo, vícios, mais concretamente, o mercado e o vício das drogas, onde, em meu entender, a cocaína continua impávida e serena o seu reinado. Faz-me lembrar a Rainha de Inglaterra, aliás, numa análise superficial, não sei qual das 2 reina há mais tempo.

Não te vou descrever nesta carta os prós e os contras da droga, os perigos que acarreta, o problema social que dela advém e nem sequer vou falar de reabilitação ou mesmo dos toxicodependentes.

Podia abordar a temática, porém, tudo o que sei sobre o assunto é demasiado vago, muito pela rama, sem a profundidade necessária para estar para aqui a “botar postas de pescada”. Consigo fazê-lo, pelo menos numa ou outra vertente, se investigar a fundo o tema. Mas, por agora, não é uma daquelas coisas de que me agrade falar. Se um dia tiver de ser, será.

A coca, usando o nome mais habitual, para além de toda a sua parte trágica, muito bem documentada em inúmeros registos de todo o tipo, já nos deu livros intensos, filmes que se tornaram intemporais, músicas inesquecíveis e manifestações de criatividade, genialidade, representação, superação e resistência incríveis ao longo dos anos.

Eu não faço parte do grupo dos cínicos que não reconhece o papel dessa droga, entre outros, talvez, na superação alcançada por apresentadores, artistas, atores, músicos, pensadores, políticos e mesmo cientistas, sob o seu efeito. Casos há, em que, apenas através dela, o rasgo e o génio se revelam na sua plenitude.

Ora eu, não sendo propriamente um santo, até porque já fui adolescente e jovem, prefiro manter oculto, dentro de mim, um dom superlativo que hipoteticamente possua, do que ter de recorrer a esta, ou a qualquer outra droga, para o fazer emergir e se revelar ao mundo. Não há nada a fazer, são apenas opções de vida e cada um, à partida, faz as suas como bem entende. Eu fiz a minha.

Pronto, ponho-me para aqui a dar opiniões e acabo por deixar para trás o que realmente queria dizer. É sempre a mesma coisa. Desculpa lá, amiguinha, tu sabes que não o faço com maldade. Um pensamento puxa outro e, quando damos conta, o fio da meada está perdido num labirinto de frases e considerações. Vou tentar ser mais objetivo naquilo que, esta semana, me deixou perplexo.

Estava a ler as notícias do jornal Expresso online, quando me deparei com uma que, pelo insólito, me parecia tirada de um filme de James Bond. Até pensei que se aquilo fosse usado num livro de ficção, se calhar, era considerado irrealista, desproporcionado e demasiado fantasista. Contudo, ali estava, mais uma vez, a realidade a superar a ficção, de um modo absolutamente espetacular.

Espanha tinha acabado de apreender um submarino de 20 metros, um tamanho equivalente a 5 carros, tipo Seat Ibiza, alinhados uns atrás dos outros, ou 8 veículos como o Smart Fortwo, alinhados em bichinha pirilau. O submergível terá, aparentemente, ficado sem combustível, e a tripulação fê-lo encalhar e vir parcialmente à superfície, para se poder pôr em fuga. Dos 3 fugitivos apenas 2 foram apanhados e um terceiro continua a monte. A carga é, revelaria a investigação, um absurdo loteamento de 3 toneladas de cocaína de elevado grau de pureza.

A viagem parece ter começado algures na costa norte da América do Sul, ou perto, para as bandas do Golfo do México ou Caraíbas, sendo o fabrico do submarino, provavelmente, originário da Guiana Francesa.

Depois de consultar outras notícias, em diversos jornais online, confirmei que, basicamente, os relatos eram muito coincidentes, pelo que me limitei a compilar os dados apresentados para os poder descrever, o mais corretamente possível, nesta carta.

Ora, há nesta história várias coisas que me espantam e deixam perplexo. Em primeiro lugar, pelos registos descobertos, a viagem transatlântica era regular, ocorrendo de há vários anos a esta parte e estando na classificação das operações correntes e banais dos narcotraficantes.

Em segundo lugar, como é que alguém, seja quem for, que transporta 360 milhões de euros de mercadoria ilegal, clandestina, proibida e altamente penalizada pelos sistemas judiciais europeus, se esquece de abastecer? Como é possível ser-se idiota ao ponto de conduzir 6 milhões de doses de coca para o mercado europeu, a 60 euros a dose, correndo uma imensidade de riscos e não verificar o combustível? Parece impossível que, em operações desta envergadura, exista gente que, além de criminosa, é intrinsecamente estúpida. Mais uma vez a realidade ultrapassa a ficção.

Em terceiro lugar, tendo por base as fontes, podemos tentar extrapolar um cenário provável. Por exemplo, quanto representa este negócio, só por esta via, se o transporte se fizer sempre na mesma quantidade de coca, o que, a julgar pelas acomodações, parece muito plausível, e se a sua regularidade for, digamos sem exagerar, mensal e já decorrer há 7 anos, mais coisa menos coisa? Feitas as contas, neste quadro, que, quanto a mim, é bem superior aos meus cálculos, na realidade, estes meninos trouxeram para a Europa mais de 30 mil milhões de euros em droga. É de cortar a respiração.

Todavia, não me admiraria nada, se este submarino não for apenas um, mas parte de uma frota de 4 ou 5. Há droga mais do que suficiente, na origem, para que esta ideia seja real. Para além de ser menos provável que quem tem um negócio destes apenas tenha um, e só um, transporte deste tipo em funcionamento. Passando isto para dinheiro, que é o que mais campainhas faz soar, até porque a Europa consome anualmente imensamente mais coca do que isto, estamos a falar, em 7 anos, de montantes no valor de 150 mil milhões de euros, o suficiente para pagar, por 2 vezes, o dinheiro que Portugal pediu à Troika, após Sócrates.

Porra, Berta, já imaginaste bem? E andas tu a sonhar com o euromilhões, isto é que é um negócio de alto rendimento. Menos de um décimo disso teria dado para ter continuado com o Banco Espírito Santo a funcionar, sem inventar um banco mau, e sem ter de o vender ou ter lesados.

Mas se esta rede de narcotraficantes, que se sabe fazer escala em Portugal, estiver relacionada com a descoberta, 2 dias antes, pela Polícia Judiciária, nos arredores de Lisboa, num armazém de fruta, disfarçada em caixas de bananas, de mais uma tonelada e meia de coca quase pura (a qualidade parece muito semelhante à outra) que se apurou chegar por via marítima, em navios mercantes, então, não estamos a falar de um mero grande cartel, mas de um império que, num só ano, gera receitas suficientes para pagar, completamente, a dívida portuguesa.

Algo que nenhum “Robin dos Bosques” seria capaz de fazer, por mais milionários sem escrúpulos que roubasse em toda a sua vida.

Uma obra bem feita seria Portugal e Espanha, os portões europeus deste império do mal e do mel, conseguirem descobrir e confiscar o dinheiro, que estes parasitas da humanidade, têm algures depositado em aprazíveis paraísos fiscais. Isso sim, era algo que valia a pena. Infelizmente esta é a parte onde esta carta entra definitivamente no campo da ficção romântica.

Fica bem minha querida, despeço-me saudoso com um beijo. Este teu eterno amigo,

Gil Saraiva

Mais sobre mim

foto do autor

Sigam-me

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

Em destaque no SAPO Blogs
pub