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Carta à Berta

Carta à Berta é o local dos Desabafos de um Vagabundo, do Senhor da Bruma, essa bruma a que chamam de internet, de um Haragano, o Etéreo, qual cavalo selvagem que galopa entre cartas alegadamente, quiçá, sem fundamentos.

Carta à Berta é o local dos Desabafos de um Vagabundo, do Senhor da Bruma, essa bruma a que chamam de internet, de um Haragano, o Etéreo, qual cavalo selvagem que galopa entre cartas alegadamente, quiçá, sem fundamentos.

Carta à Berta: Série "Os Segredos de Baco" - XII - O Caso Especial de Portugal

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Olá Berta,

Continuando nos “Segredos de Baco”, e antes de mais, há certos destaques sobre este tema de que não me quero esquecer de te mencionar. Não são fundamentais no que que ao vinho diz respeito, mas ajudam a posicionar o país e a sua relevância no panorama internacional. Espero que me desculpes igualmente o facto de eu não resistir a fazer também um pequenino relato histórico de enquadramento luso na temática do vinho.

Vou começar pelo Douro. Conforme sabes as vinhas tradicionais da região são feitas em socalcos e esta aparente escadaria ao longo do rio e dos seus afluentes, é de tal forma única, em termos de paisagem, que foi reconhecida pela UNESCO como Património da Humanidade. Contudo, não é apenas a Região Vinhateira do Alto Douro, onde se produz o vinho generoso designado por Vinho do Porto, que é património mundial, reconhecido pela UNESCO, também a Paisagem da Cultura da Vinha da Ilha do Pico, nos Açores, tem essa mesma distinção.

Portugal tem o mais antigo sistema vinícola do mundo, a região demarcada do Douro. Quando te falo em sistema estou-me a referir a uma região delimitada, onde existem regras específicas ligadas a todo o processo produtivo. Tal ordenamento leva a que só uns determinados tipos de castas de vinhas possam ser aí implementados.

Esta região, entre outras, como a dos Vinhos Verdes, produzem alguns dos vinhos mais requintados, exclusivos e valorizados no mercado global. Importa salientar, amiga Berta, que os vinhos portugueses não apareceram por geração espontânea. Eles são o resultado de um suceder de tradições introduzidas no país, ao longo dos séculos, por uma panóplia de civilizações que pelo território foram transitando. Estou a falar dos fenícios, dos cartagineses, dos gregos e principalmente dos romanos, apenas para citar os mais importantes.

Se, por um lado, as primeiras exportações do vinho no nosso território foram para Roma, durante os tempos do Império Romano, o arranque das exportações modernas, por outro, desenvolveram-se com o comércio com o Reino Unido, em 1703, através do Tratado dos Panos e dos Vinhos, assinado entre Portugal e a Grã-Bretanha, conhecido por Tratado de Methuen.

Graças à influência inglesa, aliás, ficámos muito mais cientes das nossas próprias riquezas neste setor. A nossa diversidade climática e territorial é tal que o guia “The Oxford Companion to Wine” descreve Portugal como um verdadeiro e incrível “tesouro de castas locais”, ou seja, de castas de origem nacional. Com efeito, verifica-se a existência de cerca de 285 castas nativas. Isto permite produzir obviamente uma imensa diversidade de vinhos com personalidades muito distintas entre si.

Todos sabemos que temos uma dimensão geográfica e territorial reduzida. Porém, a qualidade e carácter único dos seus vinhos portugueses tornam-nos uma referência de destaque entre os principais países produtores, com um lugar de relevo e em crescimento, entre os 10 principais produtores mundiais, sendo que nos idos de 2003 já eramos responsáveis por 4% de todo o mercado mundial. Isso ainda se torna mais relevante se pensares, minha amiga, que somos considerados um produtor tradicional do velho mundo, onde a cultura da vinha ocupa mais de 8% do continente.

Mais espantoso é o facto de este pequeno país representar 9% do total das vinhas da União Europeia. Aliás, temos a quarta maior superfície vinícola, depois de Itália com 19%, França com 25% e da Espanha com 30%. Passando isto para hectares e superfícies abrangidas, e tendo em conta os dados de 2015, Portugal tinha 199 mil, Itália 610 mil, França 803 mil e Espanha 941 mil. Contudo, importa referir que em 2018 a área vitivinícola no país tinha descido para os 177 mil hectares, havendo ainda cerca de 2 mil hectares de vinha usados para a produção de uva para consumo.

Na minha próxima carta tentarei dar-te, querida Berta, algumas noções sobre siglas ligadas ao vinho e explicar algumas noções o produto, embora não prometa conseguir concentrar tudo isso numa só carta. Importa, por exemplo saber o que é o Vinho ou de onde é proveniente.

Hoje não te distraio mais com os meus devaneios, minha querida amiga, despeço-me com um beijo, deste teu amigo para o que der e vier,

Gil Saraiva

 

Carta à Berta: Série: a Arte de Bem Comer em Campo de Ourique. 2) Verde Gaio

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Olá Berta,

Sabes, coloquei ontem online, no Facebook, o primeiro restaurante dos que classifiquei, aqui do meu bairro. Ainda estou abismado com o número de pessoas que foram ler a minha opinião. Ao que parece não sou o único a gostar de comer e de ver o que os outros acham dos locais escolhidos. Fiquei bastante satisfeito. Aqui vai mais um do meu registo pessoal. Irei pôr até os que gostei menos, mas isso não quer dizer que sejam maus, apenas direi que, por um ou outro motivo, não se coadunam tanto comigo.

Série: a Arte de Bem Comer em Campo de Ourique.

2) Verde Gaio:

A melhor grelha a carvão de Campo de Ourique.

Quando falo em restaurantes familiares, minha amiga, estou logo a querer dizer que o local me faz sentir em casa ou que este é um ambiente acolhedor. Ora, no Verde Gaio, para além disso, a família faz realmente a diferença. O senhor Jorge é um especialista nos grelhados, a acompanhá-lo, na cozinha, a esposa dirige a equipa dos tachos e na sala o filho, Rafael, e a nora, Verónica, fazem as delícias de todos no simpatiquíssimo atendimento aos clientes. O restante pessoal varia mais, embora tenham tendência a ficar bastante tempo na casa. Chego a pensar que a comida é confecionada como se fosse para eles.

Sou um fanático, embora a preferência não seja muito ecológica, pela grelha a carvão. Normalmente, amiga Berta, corro o risco de comer as coisas secas e queimadas ou malpassadas e sem sabor. Porém, tal nunca me aconteceu no Verde Gaio. A mestria do senhor Jorge, nesse departamento, faz do restaurante um ponto de paragem obrigatório para quem vive ou passa por Lisboa.

Conforme já descrevi, aqui trabalham, lado a lado, marido e mulher, filho e nora, gente próxima da família e, mais raramente, um ou outro elemento mais afastado deste padrão. Mesmos os poucos desacatos familiares a que por vezes assistimos no espaço dão ao estabelecimento o seu ar mais genuíno e verdadeiro, marcadamente “made in Portugal”. Aliás, querida amiga, os pequenos conflitos são gerados pela razão última de fazer com que o cliente desfrute de uma refeição de topo, a preços que sempre nos parecem de promoção ou de saldos.

Um achado, dirão, por certo, os que o experimentarem pela primeira vez. Pena o orçamento não dar para cá vir todos os dias, pensarão outros. Mas passando à comida, ou seja, àquilo que realmente importa quando se pensa em comer fora. Imagina, minha saudosa amiga, uma paleta de tintas, com as mais variadas cores e tonalidades, com que um artista pinta um quadro. Agora, transpõe a paleta para a grelha e esta vira protagonista de relevo, de uma panóplia de sabores, para as tuas papilas gustativas.

Será escusado dizer que o peixe e a carne são sempre frescos e que se encontram bem expostos nas duas vitrines, logo na entrada do restaurante, quase parecendo sorrir para quem entra, acho que ias adorar o aspeto, Berta. Contudo, grelhar é uma arte e o maior segredo do Verde Gaio é a mestria do verdadeiro artista, o Grão-Mestre Grelhador, da Ordem Culinária da Antracite, o Mestre Jorge. Pode até parecer que me estou a repetir, mas há coisas cuja importância não pode ser descorada. Pois a verdade é que, para mim, esta é a melhor grelha de Lisboa, bem na frente do Mercado de Campo de Ourique, na rua Francisco Metrass, no número 18.

Como a casa também trabalha com a Uber, e os demais distribuidores, e com Take-Away, convém dizer que poderias, cara amiga, se não estivesses a morar no Algarve, fazer diretamente as encomendas pelo número de telefone 213 96 95 79 ou, em alternativa, para os diferentes canais de recolha. Como conselho, recomendaria que ligasses a saber quais são os pratos recomendados para o dia, pois poderias ter a sorte de apanhares umas deliciosas ovas cozidas ou uma garoupa, linguado, e muito mais, como bónus extra à ementa do dia-a-dia.

Embora já tenha referido alguns pratos, destaco, ainda, o melhor piano grelhado de Lisboa, quiçá do país, os legumes grelhados com broa de chorar por mais, peixe ao sal (desde que encomendado previamente), joaquinzinhos fritos, rins fritos ou grelhados, iscas de porco à portuguesa, franguinho frito à ribatejana, costeletas de porco preto grelhadas, robalos ou douradas ou salmonetes grelhados, salmão na grelha à posta, garoupa grelhada, bacalhau assado à lagareiro, lulas grelhadas, camarão na brasa, enfim, podia estar a escrever mais 2 páginas, Berta, que não terminava. Todavia, alguns dos pratos só existem quando o Mestre Jorge os arranja frescos, pelo que convém ligar a combinar previamente, certas iguarias mais especiais.

Destaco ainda as entradas e as sobremesas, com ameijoas à bulhão pato, cogumelos recheados, empadas de frango, de legumes ou de atum, entremeadinha frita, gambas fritas “al ajillo”, linguiça assada, mini alheira grelhada, rissol de camarão, morcela assada com laranja, ovos mexidos com farinheira, “pimentos padron”, paio do lombo fatiado, pica-pau, favas salteadas e até salada de polvo. Continuando para as sobremesas, para além da fruta da época, recomenda-se a sericaia com ameixa, bolo de bolacha ou de mousse, mousse de manga ou de chocolate, tarte de limão “merengada”, pudim de ovos e torta de laranja.

Tipo: Grelhados / Cozinha Portuguesa / Take-Away

Fecha: Domingo ao Jantar e Segunda

Preço: Acessível

Classificação no Género: 5 Estrelas

Sugiro ainda que se experimentem os vinhos tintos do Douro, Alentejo, Lisboa ou Dão, mas aconselho e destaco especialmente o Dão “Quinta de Cabriz” 2015, cuja garrafa sai a 9 euros. Tu ias adorar, Berta.

Bem, minha amiga, por hoje é tudo, despeço-me de água na boca, sempre saudoso, com um beijo, este teu eterno amigo de longa data,

Gil Saraiva

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