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Carta à Berta

Carta à Berta é o local dos Desabafos de um Vagabundo, do Senhor da Bruma, essa bruma a que chamam de internet, de um Haragano, o Etéreo, qual cavalo selvagem que galopa entre cartas alegadamente, quiçá, sem fundamentos.

Carta à Berta é o local dos Desabafos de um Vagabundo, do Senhor da Bruma, essa bruma a que chamam de internet, de um Haragano, o Etéreo, qual cavalo selvagem que galopa entre cartas alegadamente, quiçá, sem fundamentos.

Carta à Berta: Memórias de Haragano - Confissões em Português - Parte XIII

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Olá Berta,

A propósito da minha última carta, em que te falei da descendência, convém fazer um certo aparte sobre o que eu acho ser a educação de crianças e adolescentes. O tema, nesta época em que a violência doméstica está na ordem do dia, tem de ser abordado numa perspetiva sã, em que é imperativo distinguir o que é violência no lar, daquilo que é educação de menores.

Até os filhos fazerem 18 anos de idade os progenitores são responsáveis pelos atos praticados por estes, na quase totalidade dos casos. A lei abre algumas exceções que nem importa, minha amiga, estar aqui a referir. A atenção dos pais é essencial para que os normais parâmetros de civilidade não sejam ultrapassados.

Contudo, dar uma sapatada, com força medida e não desmedida, numa criança que faz, muitas vezes propositadamente, uma asneira repetida ou que se comporta inconvenientemente em público, não é violência doméstica é criação de limites e barreiras. Aliás, na maioria das vezes, basta que se suba e agrave o tom de voz para que a criança arrepie caminho. Agir assim é saudável, forma caráter nos infantes e dá-lhes as diretrizes base para melhor se conseguirem inserir num futuro, que nunca é muito longínquo, sem grandes custos na sociedade e comunidade adulta. Educar, não é perversão, é amor. Assim:

Memórias de Haragano: Confissões em Português – Parte XIII

“Dizia eu que fico feliz por ter tido filhos educados, que viveram as infâncias respetivas sem muitas das costumeiras birras infantis, e que acabaram por vingar e se tornar jovens adultos que, acima de tudo, sabem o que querem. Tais factos não podiam ser mais verdadeiros, nem mais importantes, por muito que se conjeture.

Não gosto nada de crianças malcriadas. Custa-me muito a aceitá-las, a baterem o pé e serem tratadas por você pela mamã, que os repreende com o mesmo ar com que ralha com o gato persa, que não lhe apeteceu usar a caixa de areia. Uma lamparina, distribuída na devida altura, ilumina mentes e educa. Ah! Contudo, não precisa deixar marca para surtir efeito. O melhor de tudo é que se trata de um ato de amor e não de violência doméstica gratuita e abusiva.

Inversamente, já é violência civil eu ter que assistir ao desaforo de cada vez ser mais fácil de se encontrarem crianças grosseironas, sem o mínimo polimento e com completa falta de regras ou normas de conduta. Fazem uso de birras, bate-pé e artimanhas pouco convincentes, para escaparem impunes e vitoriosas dos seus próprios disparates. Porém, nesta nossa sociedade, do oito e do oitenta, parece que um castigo bem dado e merecido numa criança passou, indevidamente, a ser um horroroso crime de violência doméstica.

Ora bem, eu sei que crimes dessa natureza existem, não tenho a menor dúvida, e os que o são deviam e devem ter pesadas consequências, mas, por favor, sem qualquer confusão com os atos de mera educação.”

Recebe um beijo amigo, querida Berta, deste fiel vagabundo feliz, que se despede com um sorriso de até amanhã, se não for antes, seja ao telefone ou numa qualquer rede social,

Gil Saraiva

 

 

Carta à Berta: Memórias de Haragano - Confissões em Português - Parte XII

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Olá Berta,

Cá estou eu para dar continuidade às minhas confissões, sem preocupações que não sejam as de tentar não me esquecer de detalhes que possam ser importantes. Assim:

Memórias de Haragano: Confissões em Português – Parte XII

“Porquê? Perguntarás tu, meu caro leitor, sem teres como vislumbrar uma razão lógica. Porque não contar friamente os factos ocorridos que levaram ao divórcio? Porque fazê-lo apenas serviria para minha satisfação egoísta e pessoal e não para um melhor crescimento e amadurecimento na adolescência de ambos os meus filhos. Era com a mãe que os 2 iriam viver, teria de ser com ela com quem melhor se teriam de relacionar, já lhes chegava a amargura da rotura e do afastamento face ao pai, que sempre fora presente. Já era trauma suficiente.

Falar da situação, gerar incómodos e possíveis atritos, para meu único benefício, nunca me pareceu de bom tom. Aliás, até corria o risco, depois de tantas vezes escutarem as queixas e a versão da mãe, de nem sequer acreditarem em mim. Não era algo que me tirasse o sono, mas, na realidade, era um cenário que poderia muito bem ter ocorrido. Bastava que lhes passasse pela cabeça que eu estava a tentar arranjar desculpas, para o que eles pensavam ter acontecido e cuja versão tomavam como verdadeira. Eu vivo com um compromisso fixo comigo mesmo na cabeça, que é, nunca ir contra a minha própria consciência, mesmo saindo-me mal disso.

Contudo, fico contente porque acompanhei intensamente a infância de ambos. Acabaram os 2 por vingar na vida e seguirem os seus caminhos de adultos preparados e com opções definidas e bem vincadas. Não se pode pedir mais, principalmente vivendo a muitos quilómetros de distância daquele que foi o meu lar.

Além de ter estado sempre presente, quando solicitado, fosse porque me queriam contar algo, fosse porque precisavam deste ou daquele bem, sempre puderam contar comigo. Nem mesmo quando vivi durante um ano e meio na rua, como um verdadeiro vagabundo, lhes dei a conhecer esse facto e a minha então precária situação, pelo contrário, mantinha o meu apoio, nem que para isso ficasse reduzido a uma sopa de feijão por dia. Feitios. Fazer o quê? Era feliz assim e eu prezo muito a minha felicidade, meu caro leitor.

Foi essa a razão que, nos termos do divórcio, renunciei à vivenda de 3 pisos, ao carro, à muito valiosa coleção de arte (na altura segurada em um milhão de contos), ao recheio da casa, etc., fazendo apenas exceção de parte dos meus livros e alguns dos meus discos de vinil, para além da minha roupa. O porquê também é simples e cristalino. Os meus filhos iam viver ali, já bastava perderem a presença do pai.”

Com isto me despeço até à minha próxima carta de confissões. Não te preocupes, querida Berta, que não considero que esteja a expor demasiadamente a minha vida privada. Não tenho o que esconder.  Não te posso é deixar de referir que o que te conto não passa, infelizmente, da minha visão dos factos. Certamente haverá versões bem mais tenebrosas do que a minha. Recebe um beijo de até mais, este sempre teu amigo,

Gil Saraiva

 

 

 

Carta à Berta: Memórias de Haragano - Confissões em Português - Parte XI

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Olá Berta,

Depois de me abrir nestas pequenas narrativas, sobre a minha ascendência, não vejo problema em passar à descendência. Tudo isto faz parte das Confissões de um Português em Português. Problemático seria referir-me à vida e intimidade de terceiros, sem o seu devido conhecimento e consentimento.

Contudo, tal como fiz até aqui, se reparares bem, apenas falo de mim relativamente a sentimentos e pensamentos e, o que digo sobre os outros intervenientes, é meramente explicado na minha perspetiva, alegadamente correta, do que racionalmente constato como verdadeiro.

Não me considero nem vítima, nem herói deste filme que constitui a minha vida. Julgo, isso sim, enquanto não me pesar a consciência, que serei uma pessoa feliz e de bem com a vida. Tenho, como ser humano, defeitos e qualidades. Não me acho pior, nem melhor que terceiros, mas estou convicto de que sou único e diferente enquanto individuo.

Herdei alguns dos defeitos menos bonitos do meu pai. Por exemplo, quanto corto uma relação com alguém, seja a que nível for, do mero conhecimento informal, à amizade ou à família, é para sempre e não há maneira, forma ou jeito de poder voltar atrás. Com efeito, nem mesmo se esse corte me dilacere a alma e embargue o coração. Se foi um ato consciente está resolvido e arquivado. Passemos ao capítulo:

Memórias de Haragano: Confissões em Português – Parte XI

“Infelizmente por força do meu próprio divórcio, o primeiro, ao fim de 17 anos de casamento, passei a acompanhar a educação dos meus filhos (a partir dos nove anos de idade de um e dos catorze anos da outra), à distância. Sei também, com uma grande certeza que isso influenciou negativamente a vida deles… não há soluções fáceis, nem mesmo coelhos a saltarem sorridentes de chapéus, na vida de cada um de nós, antes houvesse...

Afinal, quando se diz, num caso deste tipo, que a solução foi fácil é porque, logo à partida, o problema nem sequer existia e, portanto, esse casamento não passava de uma folha de papel registada.

Infelizmente, para mim, foi precisamente o inverso, ou seja, tratou-se de uma situação imensamente complicada, embora tenha sempre evitado demonstrá-la quer à pessoa de quem me separei, quer principalmente aos meus filhos. A estes, já lhes bastava a crua realidade de perderem a presença do pai.

Também nunca lhes expliquei porque é que a mãe se quis separar de mim, nem as palavras absolutamente cruéis e injustas que me disse, quando me pediu o divórcio. Efetivamente, para ser franco, nem quando a mãe de ambos, que ficou com a custódia deles, distorceu toda a história da separação eu lhes quis mostrar o meu lado da razão.”

Ficamos por aqui e seguiremos o nosso curso na próxima carta, minha amiga. Recebe um beijo de até amanhã, com os mimos e rococós do costume, deste teu amigo sempre presente, embora distante,

Gil Saraiva

 

 

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