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Carta à Berta

Carta à Berta é o local dos Desabafos de um Vagabundo, do Senhor da Bruma, essa bruma a que chamam de internet, de um Haragano, o Etéreo, qual cavalo selvagem que galopa entre cartas alegadamente, quiçá, sem fundamentos.

Carta à Berta é o local dos Desabafos de um Vagabundo, do Senhor da Bruma, essa bruma a que chamam de internet, de um Haragano, o Etéreo, qual cavalo selvagem que galopa entre cartas alegadamente, quiçá, sem fundamentos.

Carta à Berta: A Nova Europa, Portugal e Mundo

Berta 537.jpgOlá Berta,

O outro dia, julgo que foi na passada segunda-feira, escutei à mesa do café Az de Comer, na esplanada, uma conversa de uma criança de doze anos com o pai. Achei imensa graça ao diálogo e chegado a casa fui tentar tirar as minhas próprias dúvidas. A jovem menina queria saber quantos países e territórios tinha a Europa. O assunto tinha vindo à baila na escola e a professora fugira à questão.

O pai, com a experiência que os anos lhe deram, contornara a questão dizendo que existiam vários países entre a Europa e a Ásia, que estavam sempre, conforme os critérios, a ser considerados ou uma ou outra coisa. Deu o exemplo recente do euro2020 em que existiram jogos realizados em Baku, capital do Azerbaijão.

Ainda lembrou o festival da canção da Eurovisão, onde já há alguns anos passaram a entrar países euroasiáticos como o Azerbaijão, a Geórgia e a Arménia. Para além disso, a coisa ainda era mais complicada se fossemos contar com o Kosovo, reconhecido como país por mais de noventa dos seus pares, mas ao mesmo tempo não aceite como tal pela Sérvia, que o considera seu território.

Certo, certo, afirmava o pai lá do alto da sua sabedoria, eram os países que constituíam a União Europeia. Esses eram vinte e sete e para fazerem parte da mesma tinham que ser efetivamente europeus.

Foi no nono segundo depois desta afirmação que eu soltei uma gargalhada bem audível, que depois tentei disfarçar, amiga Berta. É que a catraia indagou, quase imediatamente o pai, querendo saber se ele tinha a certeza porque, segundo ela, Chipre, membro da União, parecia localizar-se na Ásia, pelo menos fora isso que ela aprendera na escola. O homem pareceu mastigar a informação enquanto ingeria um mini rissol de camarão.

Ora bem, cara amiga, pela geografia dos meus tempos a Turquia (excetuando Istambul até se atravessar a ponte) e a Ilha de Chipre já se encontram em território asiático. Porém, num continente euroasiático, a dinâmica diplomática, política e estratégica tende a estabelecer fronteiras que não são exatamente as que se aprenderam na escola. A definição moderna de Europa separa-a da Ásia no mar Egeu, Dardanelos-mar de Mármara-Bósforo, mar Negro, tergos do Grande Cáucaso, parte noroeste do mar Cáspio e montes Urais, como exemplificam muitos atlas, entre os quais o publicado pela National Geographic Society.

Há, por isso mesmo, uma espécie de nova Europa em expansão, nos tempos que correm, influenciada pela própria definição de Europa, que culturalmente estabeleceu raízes a partir da Idade Média, no ocidente europeu. Esta Europa expansionista procura estabelecer os seus limites pelo Mar Mediterrâneo e pelos países árabes a Sul e pela Rússia (que é parte Europa, parte Ásia) e pelo mar Cáspio a Leste.

Já a Norte a fronteira é evidentemente traçada pelos vários mares do Norte que se ligam ao Oceano Ártico, enquanto o Oceano Atlântico gera os limites a Oeste, incluindo Açores, Gronelândia e Ilhas Canárias.

Porém, um conjunto muito unido e organizado de cientistas e geógrafos a nível mundial tem, cada vez com maior sucesso, tentado acabar com a ideia de dois continentes (Europa e Ásia), com fundamentos meramente políticos e estratégicos, para passar a falar do continente Euroasiático, enquanto unidade continental única e indivisível.

Assim, somente pela definição moderna e política, a atual Europa inclui cinquenta e quatro países e territórios. A Arménia, a Geórgia, o Azerbaijão e Chipre são, portanto, países europeus, assim como o Kosovo, que é maioritariamente reconhecido enquanto país pela grande maioria dos seus pares europeus, de fora ficando a Sérvia, o Chipre, a Eslováquia, a Grécia e a Roménia, para além da Turquia e da Rússia. Fora da Europa nem a China nem o Brasil apoiam o reconhecimento independente do Kosovo. Em números redondos, aliás, o Kosovo só é reconhecido por cerca de um terço da população global, sendo que mais de cento e vinte países e territórios do mundo não o consideram um Estado independente e soberano.

Já à Turquia, por ter a cidade de Istambul situada na Europa, é deixada igualmente a possibilidade de ser considerada um país quer europeu, quer asiático, ficando por isso também incluída no grupo dos cinquenta e quatro países e territórios com reconhecimento europeu.

A ambição europeia atual parece querer ainda ir mais longe e já reconhece ao Cazaquistão, que tem uma leve fatia do seu território dentro das fronteiras geográficas da moderna definição de Europa, o direito a solicitar a sua integração na União Europeia. Pensamento peregrino certamente, uma vez que a Rússia nunca permitiria uma tal adesão.

Por curiosidade resolvi investigar mais uma ou outra situação. Dos cinquenta e quatro países e territórios da dita Europa que lugar ocuparia Portugal em termos de população? Seria um país considerado pequeno, médio ou o quê? E na listagem dos territórios europeus mais infetados pela Covid-19, em que lugar estaríamos nós?

As respostas a estas questões foi, mesmo para mim que me considero minimamente informado, surpreendente. Descobri que somos o décimo quinto país da Europa (incluindo Rússia e Turquia) com mais população. O que quer dizer que estamos bem dentro do primeiro terço dos países europeus mais populosos, com trinta e nove países e territórios atrás de nós. Também em termos de total de infetados por Covid-19 ocupamos a décima quinta posição, bem coincidente com o nosso lugar em termos de quantidade de habitantes. Fiquei deveras surpreendido e por isso alarguei a minha pesquisa a outras dúvidas no âmbito da Covid-19 e tento em conta o nosso número de habitantes.

Desta vez usei outro critério. Verificar em que lugar estaríamos nós, em termos de testagem à Covid-19, dentro dos países europeus e mundiais com igual ou superior número de habitantes de Portugal. Mais uma vez fui surpreendido pelos números, à nossa frente em testagem na Europa apenas encontrei o Reino Unido, a França e a República Checa com mais testes por milhão de habitantes que Portugal.

Já em termos mundiais os números, vistos de acordo com estas premissas, são ainda mais elogiosos, minha querida Berta, porque, parece mentira, apenas somos ultrapassados pelos três já referidos atrás e pelos Estados Unidos da América, ficando em quinto lugar mundial neste ranking dos países que mais testam a Covid-19 no globo, dentro daqueles que têm mais de dez milhões e cem mil habitantes.

Hoje vou para a cama mais sereno e menos preocupado com a forma como o Governo de Portugal tem combatido a pandemia. Estamos perfeitamente na média de infeções face á população que temos e somos dos países do mundo que mais se esforça em testar a sua população. Atrás de nós ficam oitenta e cinco países na testagem mundial, dentro destes parâmetros. Por hoje é tudo, despeço-me com amizade. Recebe um beijo, minha querida Berta, deste teu amigo de sempre,

Gil Saraiva

 

 

 

Carta à Berta: Afinal de Contas...

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Olá Berta,

Hoje vou abordar 2 temas distintos. A verdadeira dimensão da pandemia em termos mundiais e o problema demográfico de Portugal que se agrava a cada ano que passa. Daí escolher hoje o título:

Afinal de Contas…

Já deves saber que o mundo ultrapassou pelos dados oficiais os 7,2 milhões de infetados com o vírus pandémico e que mais de metade destes casos continuam ativos. A somar-se a isso estão uns assustadores 410 mil óbitos oficialmente declarados como resultantes deste flagelo.

Contudo, os dados reais são entre 2 a 3 vezes superiores a isto, para as infeções, podendo as mortes oficiais apenas serem um quinto dos óbitos, na mais positiva das hipóteses, e por motivos muito diferentes, consoante o país que os reporta. Espanha, que está a ferver de urgência para reabrir as fronteiras, deixou de reportar mortes no boletim oficial do Governo, como se tivesse resolvido o pior problema, contrariando os dados regionais enviados pelas autarquias. O Brasil, desde a primeira hora sempre adulterou o número de mortes por questões de resistência presidencial e por problemas ligados aos seguros de vida que, no país, não cobrem as mortes causadas por Covid-19.

A Venezuela, Cuba e Rússia, entre outros, por questões políticas e de regime quase não anunciam falecimentos, quiçá para tentarem parecer mais eficazes do que na realidade são. Todavia, uma grande quantidade de países não reporta, devidamente, os dados, sejam infetados ou fatalidades, por falta de recursos para diagnóstico, seja de quem está infetado, seja de quem morreu por Covid-19.

Nalguns casos as organizações de saúde consideram que nem um quinto dos casos reais são comunicados no que se refere às infeções e, pior ainda, apenas cerca de 10% das mortes são anunciadas, e apontam-se os casos do Bangladesh, do Paquistão e da Índia como alguns dos mais evidentes.

Em resumo, é possível e credível pensarmos que já há muito que foram ultrapassados os 25 milhões de infetados e que o valor real dos óbitos no mundo deve andar, na verdade, na casa dos 2 milhões até ao momento.

Contudo, por mais que os países tentem esconder a realidade, quando chegarmos ao final de 2020 e compararmos os números de óbitos do ano com os 5 ou 10 anos anteriores, é que saberemos, de forma mais aproximada e realista, qual foi o verdadeiro valor da mortalidade e em quanto é a que mesma se desviou dos padrões esperados.

Já o próximo ano de 2021, vai trazer outro tipo de novidades em termos nacionais. O Censos 2021 irá dizer-nos, entre muitas outras coisas, quantos somos. Já estaremos nós abaixo dos 10 milhões de habitantes? Teremos de tomar medidas drásticas para parar o acelerado decréscimo populacional em Portugal? A falta de uma taxa de natalidade, que nos ajude a manter o índice populacional, e envelhecimento da população, em nada ajudam nesta demanda que, numa primeira análise parece perdida.

Neste momento Portugal ocupa o octogésimo sétimo lugar em termos de população no ranking mundial, entre mais de 213 países e territórios, ou seja, 60% dos Estados, e Zonas com algum tipo de Autonomia do mundo, detêm um menor número de habitantes do que nós, no seu espaço geográfico. Se continuarmos a perder população à velocidade de 40 mil habitantes por ano, dentro de 30 anos teremos perdido entre 13 a 20 lugares do ranking, ficando situados, provavelmente, na metade que corresponde aos países de menor população mundial. Uma mudança de paradigma significativa.

Mais grave ainda poderá ser o nosso reposicionamento no espaço da União Europeia dos 27, onde apoios e contribuições são definidas pelo número de habitantes de cada Estado membro. No presente momento temos, com menor população do que nós: Malta, Luxemburgo, Chipre, Estónia, Letónia, Eslovénia, Lituânia, Croácia, Irlanda, Eslováquia, Dinamarca, Finlândia, Bulgária, Áustria, Hungria, Suécia, República Checa, Grécia, (tomados como referência os Censos de 2011). Com mais população estão apenas 8 Estados membros: Bélgica, Holanda, Roménia, Polónia, Espanha, Itália, França e Alemanha.

Porém, após o Censos 2021, é quase certo que passaremos a ter menos população que mais 3 países: Suécia, República Checa e Grécia. Países que estatisticamente já possuem mais população que a portuguesa, mas a quem, a efetiva contagem de 2021, trará outro peso e importância no contexto da União, para quem apenas os números reais contam.

Nos próximos 30 anos ainda nos arriscamos a ser ultrapassados pela Áustria e pela Hungria o que nos colocará no topo da metade inferior dos países com menos população no seio da União Europeia. Ora, nada disto teria grande importância se a distribuição de verbas entre os Estados não estivesse direta e indiretamente ligada ao número de habitantes. Mais grave ainda será o continuo envelhecimento da população nacional, a diminuição assustadora da população ativa e a pressão cada vez mais ostensiva sobre o SNS e sobre a Segurança Social.

Em conclusão, analisando as 2 temáticas, no caso português, urge combater agora com determinação a pandemia e devem ser aproveitados os recursos que ai vêm para termos uma eficaz política de crescimento populacional que não nos obrigue a definhar enquanto povo.

Por hoje é tudo, minha muito querida amiga. Este teu permanente amigo despede-se com o usual beijo de saudades e carinho, sempre às ordens,

Gil Saraiva

 

 

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