Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Carta à Berta

Carta à Berta é o local dos Desabafos de um Vagabundo, do Senhor da Bruma, essa bruma a que chamam de internet, de um Haragano, o Etéreo, qual cavalo selvagem que galopa entre cartas alegadamente, quiçá, sem fundamentos.

Carta à Berta é o local dos Desabafos de um Vagabundo, do Senhor da Bruma, essa bruma a que chamam de internet, de um Haragano, o Etéreo, qual cavalo selvagem que galopa entre cartas alegadamente, quiçá, sem fundamentos.

Carta à Berta: António Costa e a Aventura da CPLP

Berta 538.jpgOlá Berta,

António Costa fez anos ontem, celebrando os seus sessenta anos de idade. Ora, embora eu tivesse já a ideia da idade do nosso Primeiro Ministro, nunca tinha associado que ele, tal como eu, nascera em mil novecentos e sessenta e um, ambos em Lisboa. Portanto, o rapaz é moço da minha safra e, mais uma vez, como eu, viveu a adolescência nos conturbados anos pós vinte e cinco de abril de setenta e quatro.

Pelo que reza a história, ambos militámos no Partido Socialista, sendo que eu deixei a política ativa há mais de vinte anos, depois de ter chegado à Comissão Executiva Distrital do partido no Algarve e ele, ao contrário de mim, continuou. Ainda me lembro de António Costa e de algumas conversas, dos tempos em que eu também era delegado aos Congressos dos Socialistas. Porém, isso é narrativa do milénio passado e as semelhanças entre os dois terminam aqui.

Hoje, Costa está em Angola na cimeira da CPLP, ou seja, na reunião da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, constituída por aqueles que fazem do Português a quarta língua mais falada do mundo. Porém, o critério da língua, que deveria ser condição inequívoca para se pertencer à CPLP, passou para segundo plano com a entrada no grupo de uma Guiné, a onde o português é chinês.

Mal comparando esta aberração é idêntica a incluir no reino das aves um hipopótamo, só pelo facto de ele abanar a cauda muito depressa. Bem pode o bicho abanar o que quiser, até as orelhas, que isso nunca vai fazer dele um falcão ou um pardal.

Ainda por cima, estamos a falar de um país, a que chamamos de Guiné Equatorial, que vive num regime de ditadura e onde a pena de morte se encontra em vigor. É certo que esta Guiné existiu como território colonial português durante quatro séculos, entre o século quinze e o dezoito, mas até isso nos devia envergonhar pois serviu de entreposto de escravos e de pouco mais, durante o nosso domínio da região, onde apenas nos interessou manter o poder sobre o Arquipélago de São Tomé e Príncipe.

Voltando a Costa, o malabarista acrobático da diplomacia, não me parece tarefa fácil este equilibrar os egos dentro da CPLP. Senão vejamos o atual cenário: já aqui falámos do hipopótamo com penas da Guiné Equatorial, depois temos o Brasil, governado por um presidente, no mínimo, pouco democrático, com nariz de urubu e conversa de papa-formigas, responsável pelo genocídio de mais de meio milhão de brasileiros. Segue-se Angola, esse regime democrático, que agora assume a presidência da CPLP, com um líder que depois de prometer tanta transparência já virou crocodilo invisível. Já a Guiné-Bissau é governada por um conjunto de hienas de nariz branco, no verdadeiro reino do narcotráfico.

Em Moçambique, o presidente Nyusi lembra o camaleão, conseguindo esconder, com rabo de fora, a corrupção do Estado com as aflições humanitárias e trágicas que pululam entre a fome popular e o terrorismo islâmico. Falta falar de Timor-Leste, São Tomé e Príncipe e Cabo-Verde.

Ora bem, Timor-Leste é, atualmente, um Estado a onde os antigos guerrilheiros contra o colonialismo português chegaram em pleno ao poder, estou a falar da Fretilin. O atual presidente, Francisco Guterres, manteve-se como guerrilheiro no ativo até mil novecentos e noventa e nove e só terminou há dez anos a sua formação universitária, em direito. O presidente do país, como em Portugal, nomeia o Primeiro-Ministro oriundo do partido ou coligação eleitoral mais votada nas eleições parlamentares.

O aparecimento de petróleo e gás natural no mar de Timor, entre outras coisas, que não interessa agora aprofundar, justificam a razão porque o dólar americano é a moeda do país e porque o inglês é oficialmente considerado na constituição como língua comercial. Muitos timorenses referem-se aos seus atuais líderes como filhos da Aca, a serpente piton comedora de homens. No entanto, Timor-Leste é uma democracia reconhecida pela ONU. Embora apenas vinte e nove por cento das crianças tenham registo de nascimento e cinquenta e um por cento sofra de nanismo por falta de nutrição, palavras lindas que significam fome.

Há ainda a realçar que cerca de quarenta por cento das mulheres são vítimas de violência, num país onde a maioria da população vive abaixo do limiar da pobreza. Não sei se numa avaliação isenta chamaria ao regime timorense uma democracia pobre ou uma pobre democracia.

Quanto a São Tomé e Príncipe, estamos perante uma democracia e um regime em que o presidente, no momento Evaristo Carvalho, nomeia o primeiro-ministro, perante o resultado das eleições parlamentares. O país tem apresentado alguma estabilidade e crescimento e desde 2009 que não sofre tentativas de golpe de estado.

Devido ao aparecimento de petróleo e gás natural nas suas águas a ONU prevê que em dois mil e vinte e quatro a classificação de país subdesenvolvido seja substituída por país em vias de desenvolvimento. Espero, contudo, que o ouro negro, não venha a gerar no arquipélago influências nefastas e ditatoriais como as conhecidas na vizinha Guiné Equatorial. Ponto de turismo internacional o arquipélago é constituído por duas ilhas, São Tomé e Príncipe, e vários ilhéus, como as Rochas Tinhosas ou Ilhas Tinhosas (a grande e a pequena), o ilhéu Caroço, o  das Cabras, o de Santana, o Bombom e o ilhéu das Rolas, onde se encontra o Padrão do Equador, por este se situar sobre esta linha imaginária. A galinhola é a ave endémica em maior risco de extinção (menos de duzentas e cinquenta). Espera-se que o país da galinhola a consiga preservar junto com a democracia.

Finalmente, Cabo Verde, o último país desta CPLP, é atualmente um país democrático, onde o seu principal problema é a falta de água potável. Não se enquadra nos países subdesenvolvidos e o seu povo é calmo ou morno como a sua música. Aliás, o país tem o segundo melhor sistema educacional na África, logo depois da África do Sul. A tartaruga é um animal protegido e simboliza bem quer o convite ao turismo internacional, como à afabilidade e capacidade morna de acolhimento do povo cabo-verdiano. José Carlos Fonseca, o Presidente da República não é apenas um qualquer jurista formado pela Faculdade de Direito de Lisboa com classificação de muito bom, mas é também um reconhecido e considerado poeta do arquipélago.

Não convém esquecer que estava, minha querida amiga Berta, a falar de António Costa e da sua participação nesta cimeira da CPLP que decorre em Luanda, Angola.  Ora, se atribuir a cada país e seus representantes um animal, como seu símbolo representativo, gostaria de saber como é que os papagaios Costa e Marcelo vão conseguir lidar com um hipopótamo-de-pena-de-morte, um crocodilo-invisível, um urubu-papa-formigas, mais as hienas-de-nariz-branco, um camaleão-de-rabo-de-fora, uma serpente piton-aca, uma galinhola-quase-extinta e uma tartaruga-morna. Ninguém sabe ao certo até onde vai a retórica e a capacidade argumentativa destes papagaios, mas, com estes dois a bordo desta arca da Língua Portuguesa, juro que estou convencido que a cimeira terá um sucesso imenso.

E mais não digo, pois, o meu entusiasmo com as qualidades fonéticas dos papagaios levar-me-ia a ter de usar mais odes do que as que Camões usou nos Lusíadas, também não quero que julgues, querida Berta, que eu penso mal dos povos aqui descritos ou que possa existir em mim algum pensamento racista ou de um género segregacionista qualquer, nada disso, tenho maior respeito pelos povos em si, já quanto aos seus dirigentes essa admiração está sujeita a cada momento e à atualidade em causa. Por isso me despeço com um beijo saudoso. Até sempre, este teu amigo do coração,

Gil Saraiva

 

 

 

Carta à Berta: Memórias de Haragano - Confissões em Português - Parte III

Berta 203.jpg

Olá Berta,

Continuo hoje a nossa nova saga. As confissões entram na sua terceira parte e espero que sejam do teu agrado. Sem mais demoras, cá vai disto:

Memórias de Haragano: Confissões em Português – Parte III

"Quem sempre luta pelo pódio na disputa do segundo ou terceiro lugar é o Castelhano. Correndo o risco de me repetir, tudo depende dos estudos e das fontes usadas, a língua alterna com o Inglês um dos 2 últimos dos 3 lugares do pódio. Esta é uma guerra antiga entre os estudiosos germânicos e os latinos, ambos a reivindicarem o fabuloso segundo lugar.

Uma guerra sem importância relevante para o Português que, desde 2019, se viu, finalmente, consagrado pela ONU, através da UNESCO, com o lançamento simbólico do Dia Mundial da Língua Portuguesa, existente desde o ano 2000 no seio da CPLP, mas agora reconhecidamente universalizado. Não é demais voltar a dizê-lo, porque sempre existiram muitos interesses instalados, mas é diferente saber que a UNESCO nos reconhece como a quarta maior língua do globo, com mais de 300 milhões de falantes do Português, como primeira língua, do que sermos nós a dizê-lo. É como comparar água com vinho, no que à relevância diz respeito.

Com efeito, a data de 5 de maio, escolhida pela Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) no ano 2000, em Cabo Verde, para celebrar a difusão e importância das culturas e do idioma no mundo, acabou por ser reconhecida pela UNESCO que a transformou em Dia Mundial a 25 de Novembro de 2019, reconhecendo (e finalmente atualizando os dados) que existem entre 300 e 310 milhões de pessoas no mundo que usam o Português como primeira língua. Este reconhecimento terminou abruptamente com todas as disputas e lóbis nos corredores da linguística. Já há muito que uma metodologia séria tardava em vingar, tendo, por consequência, posto um ponto final às questões sobre qual é a quarta língua mais falada no globo.

Contudo, nos campos da pureza, beleza e complexidade do Português, os estudiosos destas matérias parecem todos concordar, que não temos outra que se lhe compare, em termos evolutivos e de sofisticação de elaboração sintática, gramatical e semântica, no universo latino. Para além disso, não é só o facto de sermos escutados nos 5 cantos do mundo é, também, a riqueza do idioma e a sua capacidade de expansão que nos torna relevantes. Todavia, nunca é demais dizê-lo, do quarto lugar mundial saltamos para a liderança  e para o topo da tabela quando nos referimos apenas às línguas faladas no Hemisfério Sul. Aqui reinamos destacados e nem o Castelhano, o Inglês ou o Mandarim, nos chegam aos calcanhares.

Não posso deixar de referir algo que me irrita profundamente. Parece que o nosso país dá uma especial importância e relevância às coisas e às críticas que vêm de lá de fora, do estrangeiro. Mas, contudo, deveria ser o inverso. Importaria sim escutar, com redobrada atenção, quem connosco partilha o país e a existência, bem como a nossa difusão linguística, ou até, generalizando, os países que, no seu todo, geraram o orgulho generalizado que todos possuímos pelo nosso idioma. Não temos que nos mostrar ofendidos porque na América há muita gente a pensar que Portugal é uma província de Espanha. Não é, já foi. Mas a ignorância e a tacanhez é deles e não nossa e só a eles mesmos assenta mal.

Voltando agora ao título do presente capítulo, Confissões em Português”, a parte que se refere às Confissões é que deveria chamar a atenção em primeiro lugar. Já o facto de ter usado o nome da língua apenas pretende dar aquele ar muito intelectual ao texto.

Dou um exemplo claro: é como o artista plástico que cria uma obra que lhe corre mal, mas que, depois do imenso trabalho que teve na sua elaboração, tem alguma pena de a destruir, assim, devido a essa mesma trabalheira e ao tempo que a dita lhe consumiu em todo o processo criativo, resolve incluir a falhada criação numa mostra internacional relevante, sabendo, conscientemente, que a sua obra vai estar patente ao público, sujeita a críticas, possíveis achincalhamentos, podendo conduzir mesmo ao escarnecer da sua qualidade indiscutível enquanto artista plástico.

Não querendo reconhecer o seu fracasso criativo, depois de muito matutar no assunto, lança a obra, com lugar de destaque na exposição, apelidando-a com o maravilhoso nome de:

Instalação II - O Fracasso do Canguru Perneta.

Para sua surpresa, vence o primeiro prémio daquela Bienal de Arte, pelo modo magnífico como conseguiu, de forma genialmente única, representar tão crua e friamente o significado de fracasso.”

Como podes verificar, querida Berta, muitas vezes as coisas não valem apenas pelo que são em si mesmas. O contexto em que são inseridas é um dos mais determinantes fatores para a sua relevância ou valorização. Com esta observação te digo adeus por hoje, embora amanha me vá dar ao trabalho de deixar mais claro este título fabuloso para a obra em causa. Recebe o beijo habitual deste teu amigo,

Gil Saraiva

 

 

Mais sobre mim

foto do autor

Sigam-me

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

Em destaque no SAPO Blogs
pub