Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Carta à Berta

Carta à Berta é o local dos Desabafos de um Vagabundo, do Senhor da Bruma, essa bruma a que chamam de internet, de um Haragano, o Etéreo, qual cavalo selvagem que galopa entre cartas alegadamente, quiçá, sem fundamentos.

Carta à Berta é o local dos Desabafos de um Vagabundo, do Senhor da Bruma, essa bruma a que chamam de internet, de um Haragano, o Etéreo, qual cavalo selvagem que galopa entre cartas alegadamente, quiçá, sem fundamentos.

Carta à Berta: Finalmente Vou Ser Operado ou Quem Espera Sempre Alcança

DSC_0078.JPG

Olá Berta,

Já ultrapassei as 500 cartas diárias para ti desde finais de outubro de 2019. Olha que é muita carta, minha querida amiga. Estávamos ambos a precisar de um intervalo. Foi este, aliás, conforme tínhamos combinado, o motivo da minha ausência nos últimos tempos.

Claro que retomarei a nossa rotina, mas agora sem a obrigação diária. Não só nem sempre se justifica, como nenhum de nós quer fazer da escrita ou da leitura, uma chata obrigação. A minha carta de hoje prende-se com um acontecimento previsto para amanhã:

Vou finalmente, depois de um ano e 5 dias em lista de espera, ser operado à vesícula, a uma hérnia e nem sei bem a que mais. A minha entrada no Hospital da Trofa Saúde, na Amadora, está prevista para as 7,30 da manhã. Ontem fiz o teste PCR à Covid-19, cujo resultado veio negativo e, portanto, estou apto para ser intervencionado.

Embora esta seja uma operação de rotina, que os cirurgiões costumam fazer com uma perna às costas, no meu caso há algum risco acrescido. Em primeiro lugar, fui obrigado a parar a medicação preventiva de AVC e a fazer um tratamento alternativo. Em segundo lugar, de acordo com o meu médico, tenho uma vesícula grande e mais espessa do que a média o que dificulta o trabalho. Em resumo, as hipóteses de não ficar internado depois da intervenção são de 50%.

Claro que eu, enquanto otimista nato, estou convencido de que regresso a casa já amanhã. Todavia, a realidade é que essa é apenas uma de duas hipóteses. Seja como for eu prefiro pensar que retornarei no próprio dia e que o resto é somente um cenário hipotético.

Fui ver as estatísticas e as operações do tipo da minha têm uma taxa de sucesso de 95% e uma probabilidade de sair no próprio dia de 80%. Assim sendo, como sempre fui um rapaz com sorte, tudo aponta para um imediato regresso a casa, sem problemas de maior.

Em síntese, minha querida amiga Berta, amanhã “desconfino” a minha vesícula e mando-a à vida, para que esta possa ter as suas próprias aventuras sem ter de me arrastar com ela nesses processos. Por hoje é tudo, aproveita bem os “dias do desconfinamento 2.0” que amanhã começam. Deixo um beijo saudoso, este que nunca te esquece,

Gil Saraiva

 

 

 

Carta à Berta: “A Prova dos Nove da Profecia de Haragano” ou a “Crónica do Impossível” - Epílogo

Berta 513.jpg

Olá Berta,

Entramos hoje no epílogo da “Prova dos Nove da Profecia de Haragano” ou, mais concretamente, a “Crónica do Impossível”. Ontem acabei a falar na capicua do número total de óbitos no mundo que chegou ao muito trágico valor de 2.722.272, o qual fazendo a operação dos noves fora não perfazia nenhum 666, mas apenas um único 6. Felizmente, embora sendo o primeiro algarismo do demo não era o número completo.

De repente vi o que ainda não vira, os 384 dias entre a primeira infeção e o dia 21/03/21 dera-me também um 6, ou seja, os algarismos dos quadros que faltavam (dias passados, total de recuperados e total de óbitos) cada um deles apresentava o algarismo 6. Ora, colocando todos, porque estavam intimamente relacionados num quarto e último quadro, teria outra vez o número de Satanás: 666 (ver quadro abaixo). Fiquei a olhar para o quadro de boca aberta. Era impressionante aquilo. Completamente incrível.

Berta 513 4º Número.jpg

Fascinado com os quatro quadros, a apresentarem todos o número do cornudo, resolvi fazer um estudo paralelo. Apesar de tudo o que já tinha visto, estes números não podiam ser apenas fruto do acaso, nem sequer dizer respeito à profecia de acertar que entre março de 2020 e março de 2021 aconteceriam 123.456.789 infeções no mundo inteiro. Todos aqueles dados pareciam apontar para algo mais. Esta carta estava a transformar-se numa Crónica do Impossível e parecia apontar para a verdadeira Profecia de Haragano e não para um caso de sorte, em que aleatoriamente eu acertara no número de infeções mundiais a ocorrer no espaço de um ano e pouco.

Peguei nos meus livros de ciências ocultas e botei mãos à obra. Consultei vários livros, desde as “Profecias de Nostradamus” ao “Livro de São Cipriano”, passando pelo Oráculo Egípcio, pelo I Ching, pelas Runas, pela numerologia, pela astrologia (onde fiz a carta astral do dia 21/03/21) até ao “Relógio de Haragano”. Porém, não vou descrever aqui de onde fui tirando as minhas conclusões, pois nunca mais acabava, mas cheguei à conclusão que os quatro quadros representavam os Quatro Cavaleiros do Apocalipse, sem tirar nem pôr.

O primeiro quadro representava a pandemia de Covid-19 (ou a Peste), o segundo quadro revelava a Guerra, os conflitos cada vez maiores contra os confinamentos em todo o mundo associados aos problemas climáticos e aos restantes conflitos mundiais, o terceiro quadro mostrava a Fome, também associada à grave crise económica a que as medidas da pandemia tinham conduzido, quando integradas nos outros já referidos problemas mundiais e, por fim, o quarto quadro, o mais complexo por ser o somatório de três números diferentes, apresentava-se como a Morte, o último dos Quatro Cavaleiros do Apocalipse.

Ora, o mais interessante, foi que também cheguei à conclusão que o dia 21/03/21 é o momento zero, o ponto de partida da profecia. Assim sendo, posso afirmar que a humanidade tem dois caminhos daqui para a frente: um leva à vitória do caos e à glória dos Quatros Cavaleiros do Apocalipse, o outro conduz a população mundial ao regresso à normalidade e a um caminho parecido ao que tínhamos antes da pandemia.

A escolha é de todos, porém, existem dois números que não se podem voltar a repetir, pois já aconteceram em janeiro deste ano (embora em dias diferentes) e acabaram por despertar os Cavaleiros. Se os dois acontecerem em simultâneo entraremos numa nova Idade das Trevas. Assim se num mesmo dia tivermos mais do que 765.432 num único dia, no mundo inteiro, e, nesse mesmo dia, atingirmos no planeta, devido à pandemia, 15.651 óbitos o Diabo ficará à solta, o que é o mesmo que dizer que o caos já não terá retorno e o mundo enfrentará uma extinção em massa sem precedentes na história humana.

As capicuas são números enigmáticos e quando se ligam a desgraças tendem a instalar o caos. Já tivemos em termos de óbitos no mundo duas capicuas fatais: a primeira quando o número total de óbitos atingiu (a 21 deste mês) o fatídico número de 2722272 de óbitos registados e causados desde o início da pandemia. Também já tivemos 15651 mortos num mesmo dia, no mundo, em janeiro. Temos de evitar a todo o custo uma repetição deste triste total.

Portanto, em conclusão, “A Profecia de Haragano” diz que podemos sair de tudo isto se não tivermos um dia em que apareçam 765.432 infetados no mundo que causem 15.651 óbitos ou mais. A parte positiva é que, embora os casos estejam de novo a aumentar na Europa e na América do Sul, tudo aponta para que não voltemos a ultrapassar os 15,000 falecimentos num só dia. Há que ter fé, esperança e sobretudo muito acreditar. Espero ter-te agradado, minha querida amiga, despeço-me cansado desta Crónica do Impossível. Ainda bem que eu não passo de um aprendiz que brinca com os números. Deixo um beijo,

Gil Saraiva

 

 

 

Carta à Berta: “A Prova dos Nove da Profecia de Haragano” ou a “Crónica do Impossível” - Parte III/III

Berta 512.jpg

Olá Berta,

“A Prova dos Nove da Profecia de Haragano” ou, mais sobriamente, a “Crónica do Impossível”, terminaria hoje a revelação da profecia projetada para o dia de ontem e com consequências no futuro que podem ou não ser graves, consoante o caminho escolhido pela humanidade, isto, claro está, se eu for um profeta que se veja, contudo, amanhã ainda publicarei o epílogo com as últimas observações e conclusões finais.

Vamos, pois, aos números e aos seus possíveis significados. Vou começar pelo número total de infetados no mundo que foi atingido ontem, dia 21/03/21, e que fez parte da minha previsão em março de 2020 para este março de 2021. Trata-se do número 123.456.789 os primeiros algarismos do 1 ao 9 seguidos, daí resulta o n.º de Lúcifer: 666, (ver quadro).

1º Número.jpg

Ora, se fizermos a Prova dos Nove ao dia 21/03/21 obtemos o seguinte resultado: 2+1+0+3+2+1= 9, noves fora = 0. Zero é, pois, um dia de início de qualquer coisa, o ponto de partida, por exemplo, para uma profecia. Não é à toa que, ao contrário do que eu pensava, o n.º 123.456.789 de infetados só foi atingido um ano e 19 dias depois do primeiro caso de Covid-19 em Portugal. Afinal, se somarmos os 365 dias do ano aos 19 dias extras que precisámos para termos chegado ao n.º de Lúcifer obtemos: 365+19=384, ou seja 3+8+4=15, número que, se tirados os noves fora, dá 6 (1+5=6), o primeiro algarismo do Demo. Faz todo o sentido que assim seja.

Porém, o dia 21/03/21 trouxe mais surpresas, pelas quais eu não esperava. Assim, ao olhar para o total de casos ativos no mundo, descobri que tínhamos atingido os 21.285.612, o que (como mostra o gráfico abaixo apresentado) volta a fazer aparecer o nº de Mefistófeles, ou seja, pela segunda vez: 666. Ora, eu nunca fui muito de acreditar em coincidências.

2º Número.jpg

Apesar de tudo, achei que poderia acontecer algo assim, mas com alguma sorte à mistura ou muito azar, falando mais corretamente. Certamente que os ciclos do demo ficariam por aqui e ainda me faltavam verificar mais dois parâmetros importantes: os totais de casos encerrados globalmente e o número total de mortos atingidos no mundo. Por mais que as coisas tendam todas a correr mal quando algo corre mal, como diz a Lei de Murphy, seria difícil continuar a ter números estranhos e arrepiantes.

Fui consultar o número de casos encerrados no mundo. O quadro do worldometer.com, que costumo consultar na internet, mostrava o seguinte número total de casos encerrados no planeta: 102.156.966. Pela terceira vez o 666, o n.º de Belzebu, voltou a aparecer (ver o quadro abaixo). Aquilo já não era uma banal coincidência fortuita.

3º Número.jpg

O dia continuou a passar e eu tinha abandonado esta carta um pouco impressionado com tanta repetição de números do demo. Faltavam-me ver o total de recuperados no mundo, que anotei como 99.429.333 e o número total de óbitos no globo, aquela palavra que tenta disfarçar que se fala de pessoas que morreram mesmo, cujo somatório era 2.722.272. Fazendo a conta e tirando os noves fora, para cada um dos números, o resultado apresentava apenas o algarismo 6.

Por hoje fico-me por aqui, querida Berta, voltarei amanhã com o epílogo desta Crónica do Impossível. Deixo um beijo de despedida, este teu amigo,

Gil Saraiva

 

 

 

Carta à Berta: A Propósito de Uma Pandemia

Berta485.jpg

Olá Berta,

Ando aborrecido com esta pandemia. Por um lado, a quantidade de gente no mundo que já morreu por causa direta, e devidamente registada, devido à Covid-19 é algo que está para lá do aceitável. Também me aborrece ter a certeza que amanhã Portugal ultrapassa, a contar desde o início desta praga, os 800 mil infetados com o coronavírus, ou seja 8% da população, uma verdadeira tragédia. É um em cada 12,5 portugueses que já foram afetados pela ameaça do “bicho mau”. Um horror.

Por outro lado, é certo que quando a morte não bate numa porta próxima de nós a situação nos parece vaga e genérica, contudo, só para ficares com uma ideia, minha querida Berta, imagina que todas as mortes provocadas pelo coronavírus tinham acontecido em Portugal, durante este último ano.

Se assim fosse, e se fossemos somando concelho a concelho até atingirmos o número total de mortos, o cenário era o equivalente a morrerem todas as pessoas, incluindo crianças e bebés, nos seguintes concelhos do país: Lisboa, Porto, Coimbra, Faro, Funchal, Ponta Delgada, Aveiro, Leiria, Viana do Castelo, Beja, Évora, Setúbal, Braga, Viseu, Vila Real, Covilhã, Castelo Branco, Ponte de Lima, Bragança, Guarda, Portalegre, Santarém, Entroncamento, Loulé, Tavira, Espinho, Almada e Oeiras.

Toda esta gente somada perfaz o número de vítimas por Covid no mundo, desde que a pandemia começou até hoje, somando um total de dois milhões e meio de pessoas. Uma verdadeira barbaridade.  Tudo isto sem contar com as mortes em excesso devido às dificuldades económicas ou às doenças que ficaram por tratar.

As estimativas aproximadas parecem indicar que desde que a pandemia teve início o mundo perdeu, para além da média anual de óbitos no globo, uma população equivalente à de Portugal, ou seja, se todas as mortes em excesso, desde março de 2020 até fevereiro de 2021, tivessem ocorrido em Portugal, o país já estava dado como extinto.

É este absurdo que mexe com a minha estabilidade emocional. Porque raio é que uma coisa destas tem de acontecer? Quase parece que o planeta quis mostrar aos humanos aquilo de que é capaz de fazer se o desafiarem. Estás a ver, minha querida amiga, estou nostálgico e chato. Já basta de te aborrecer. Não te preocupes que isto passa. Recebe um beijo amigo de até amanhã,

Gil Saraiva

 

 

 

Carta à Berta: Mercado de Campo de Ourique Fecha Devido a Covid

Berta 481.jpg

Olá Berta,

O Mercado de Campo de Ourique fechou hoje devido à Covid-19. Aparentemente um funcionário da limpeza acusou positivo na quinta-feira, o que levou a junta de freguesia e a Câmara Municipal a fecharem o mercado ao público para poderem proceder durante o dia de hoje à desinfeção do espaço, por intermédio dos operacionais do Regimento dos Sapadores Bombeiros de Lisboa.

As informações foram dadas à Lusa pelo não eleito Presidente da Junta de Freguesia de Campo de Ourique, o senhor Pedro Costa, filho do atual Primeiro Ministro. Segundo relatou a decisão de encerrar o espaço para descontaminação foi tomada em articulação com a Câmara Municipal de Lisboa, através do vereador da Câmara, responsável pela proteção Civil, Miguel Gaspar.

Devido ao encerramento brusco a Câmara Municipal decidiu indemnizar os comerciantes do mercado de Campo de Ourique pelas perdas das mercadorias de hoje. Contudo, devido à descontaminação não se sabe, até ao momento se o espaço reabrirá ou não já este sábado.

Aliás, no decorrer das declarações à Lusa, Pedro Costa, declarou: "Tudo depende dos contactos agora dos responsáveis da Saúde que estão a fazer o inquérito epidemiológico. Sei que se tratou de um funcionário do mercado, mas não sabemos agora os contactos que teve".

O atual presidente da junta informou ainda que poderão haver comerciantes identificados, devido aos contactos com o funcionário infetado, que terão de ficar em isolamento profilático. Adiantou ainda este responsável que a autarquia tem funcionários que poderá fazer deslocar para o mercado em caso de necessidade, para que este volte a abrir.

A operação de hoje envolveu duas viaturas do Regimento dos Sapadores Bombeiros de Lisboa, mais as da Proteção Civil e da Polícia Municipal. Ao todo, pelo que consegui contabilizar, minha querida Berta, a mobilização para estas ações envolveu uma força mista de 16 elementos. Sabes, minha querida, o mercado de Campo de Ourique é um daqueles espaços que dá vida ao bairro e é constrangedor vê-lo fechado, principalmente na zona das bancas de venda do peixe, onde a tradição ainda se sente na plenitude. Por hoje fico-me por aqui, recebe um beijo amigo,

Gil Saraiva

 

 

 

 

Carta à Berta: Campo de Ourique - Uma História de Três Gerações

Berta 474.JPG

(Campo de Ourique – 1º Andar de casa da R. Tenente Ferreira Durão - Foto de autor, direitos reservados)

Olá Berta,

Aos 102 anos de idade, a poucos meses de fazer 103, faleceu, no lar onde atualmente se encontrava, a Dona Irene. Uma senhora cuja morada oficial ainda é, na Rua Tenente Ferreira Durão, aqui, Bem na zona central do bairro de Campo de Ourique. Conheço o caso devido à minha amizade com a nora da Dona Irene, a minha amiga Ilda. Uma menina de 72 anos, com um sorriso afável, sempre pronta a ajudar quem precisa, amante convicta de animais.

A casa da Dona Irene, que fica no primeiro e último andar, tem estado ocupada pelo seu neto. Um jovem que ainda se passeia pela maravilhosa década dos quarenta. O funeral a que só puderam ir o filho, nora e netos, mas não os bisnetos, foi de caixão selado, sem que ninguém pudesse sequer identificar a senhora. Não houve direito a velório de igreja, nem a câmara ardente, nem mesmo a um último adeus. É que a Dona Irene faleceu vítima de Covid, no dia a seguir à família ter sido informada, pelo lar onde se encontrava, de que a centenária menina, se encontrava quase recuperada de uma febre que acusara Covid e que já apresentava melhorias significativas.

Na verdade, ao dia das melhoras significativas, seguiu-se uma noite da qual a Dona Irene não chegou a acordar. Há quem chame a este óbito uma morte santa. Para mim, se não está há espera que alguém faleça, é somente um choque e ao mesmo tempo triste, seja qual for a perspetiva em que se queira olhar toda a situação.

Independente do pesar da família, tema que não vou abordar por respeito, Campo de Ourique perdeu mais um dos seus centenários residentes. Até aqui, imagino eu, esta é a história, com mais ou menos drama, do que tem acontecido a quase quinze mil portugueses desde que a Covid entrou no pais. Seria até bom que todos tivessem partido com a mesma calma silenciosa da Dona Irene e, sabemos bem, que infelizmente não é essa a regra.

Estou a tentar, amiga Berta, não colocar demasiado sentimentalismo nesta carta, até porque, pessoalmente, eu não conhecia a Dona Irene, nem imagino sequer o tipo de pessoa que foi ou deixou de ser em vida. Apenas sei que faleceu, que era sogra de uma grande amiga e que as traseiras da sua casa dão precisamente para as traseiras da minha. A fotografia que junto é precisamente da parte de trás da casa dela.

O que me faz confusão, e que me levou a descrever toda a situação, tem três dias. Ou seja, ontem, no dia que se seguiu ao funeral, o neto da Dona Irene, um homem que trabalha num dos restaurantes, que ainda fazem entregas ao domicílio em Campo de Ourique, no caso a Padaria do Povo, recebeu, na caixa do correio, o aviso do senhorio dando-lhe 30 dias para entregar a casa. Assim, sem mais nem menos, porque é o que a lei permite, mas que a ética condena de forma severa. Não sei quem é o senhorio da casa, mas, num tempo como este em que vivemos, o ato é desumano.

Penso por mim, que em tempos também já fui senhorio. Eu teria não apenas transmitido os meus pêsames, como indagaria se ele pretendia manter-se na casa e se estaria preparado para a atualização da renda, de acordo com a legislação em vigor. Perguntaria também, caso ele não achasse ter condições para lá se manter, de quanto tempo precisaria ele para se mudar. Só perante a resposta, e sendo esta negativa, quanto à manutenção, é que tentaria encontrar um prazo razoável, mas com o acordo de ambos, se possível, para a entrega da chave.

Eu entendo até a pressa do senhorio em rentabilizar um bem que tem estado alugado a baixo preço há muitos anos. Mas a humanidade, a ética e a solidariedade nunca deixaram de fazer parte do perfil da pessoa humana ou deixaram? Provavelmente o problema deve ser meu que sou um romântico. Procuro sempre a melhor solução para evitar o conflito e para não criar stress ou nervosismo aos outros. Um sócio, que tive há mais de 20 anos, dizia-me que eu tinha a mania que era a Santa Casa da Misericórdia. Porém, ele estava errado, tratava-se apenas de procurar ser humano para com os outros humanos.

Não sou melhor nem pior que ninguém, nem me quero armar aqui em santinho. O que digo aqui é o que tenho praticado toda a minha vida e, confesso, nem sempre me saí bem pelo facto de ser como sou. Quando digo “saí bem” estou a falar económica ou financeiramente, mas sempre fiquei de consciência tranquila. Em paz comigo mesmo. Que é realmente aquilo que mais devia importar nas relações sociais. Para quem é ateu como eu, e que não tem a ajuda da fé e da religião, continuo a considerar que esta é a melhor forma de nos sentirmos bem connosco e de alcançar paz de espírito.

Afinal, a vida dá muitas voltas e um dia, sem sabermos ler nem escrever, podemos muito bem vir a encontrarmo-nos do outro lado de uma situação idêntica. A justiça é uma balança moral com dois pratos equilibrados e muitas vezes diverge dos ditames da lei. A economia de mercado, o capitalismo, a procura do maior lucro e a sociedade de consumo, não podem tornar-se, quase exclusivamente, nos únicos valores universais. Hoje, como ontem, foi mais um dia triste para mim (para alguém alegre como eu, dois dias assim, já é uma eternidade).

Espero que me tenhas entendido, querida amiga Berta, eu sei que tenho este feitio fora do tempo em que vivemos, porém, se queres saber, na verdade, acho que ainda há muita, mas muita gente, como eu. Despeço-me com o carinho do costume, este teu amigo,

Gil Saraiva

 

 

 

Carta à Berta: Reino Unido Decide Vacinar Imigrantes Ilegais

Berta 671.jpg

Olá Berta,

Sem querer sequer ser controverso eu sempre tive a noção que os britânicos, principalmente os ingleses, são tradicionalmente dos povos mais racistas que eu conheço. Porém, eu que adoro, como sabes, andar de chapéu hoje tiro-o ao Primeiro-Ministro Boris Johnson. Faço-o porque, segundo notícia do Jornal de Notícias quer os imigrantes ilegais quer os indocumentados no Reino Unido vão ter o direito de ser vacinados gratuitamente contra a pandemia, sem serem obrigados a provarem que têm direito de residência ou visto para se encontrarem no Reino de Sua Majestade, segundo o que anunciou, ontem o Governo britânico à comunicação social.

A divulgação foi acompanhada do seguinte discurso, traduzido pelo JN: "As vacinas contra o coronavírus serão oferecidas gratuitamente a todos os que vivem no Reino Unido, independentemente de seu estatuto de imigração. Os que estão registados com um médico de família serão contactados o mais rápido possível e estamos a trabalhar em estreita colaboração com parceiros e organizações externas para contactar aqueles que não estão registados e garantir que tenham acesso à vacina”.

Aliás, embora o Ministério do Interior tenha acesso a certos dados sobre os pacientes registados em centros de saúde do sistema nacional, o Governo fez questão de avisar os seus funcionários que a vacinação e igualmente a testagem (e ainda o tratamento contra a Covid-19) não estariam sob a alçada da necessidade de controle de vistos.

Porém, porque o seguro morreu e velho, a organização representante dos médicos, a British Medical Association, pediu a devida suspensão da transmissão de informações sobre estes imigrantes durante a pandemia, bem como uma comunicação "clara e ampla" da medida. O diretor britânico da comissão de ética da ordem dos médicos, afirmou inclusivamente que: "Para que a campanha de vacinação seja um sucesso, é fundamental que o maior número possível de pessoas seja vacinado". Acrescentando que a sua preocupação vai para o impacto da Covid-19 no seio das minorias étnicas existentes no Reino Unido.

Ora, sendo verdade que o país já leva mais de 112 mil mortes desde que a pandemia teve início, sendo aquele que maior número de óbitos tem na Europa e estando em quinto lugar no mundo em termos absolutos, o que importa no momento é que a vacinação seja um sucesso.

Para isso, a atual campanha de vacinação de larga escala, envolvendo meios que vão desde o exército, passando pelos profissionais de saúde, até aos milhares de voluntários que ajudam neste complexo processo, procurou trabalhar com a finalidade de se conseguir uma ampla vitória neste que é um projeto de gigantes.

Este raciocínio já permitiu administrar uma primeira dose a mais de 12 milhões de pessoas, mas as autoridades temiam que pudessem existir categorias da população que não fossem vacinadas por desconfiança, especialmente entre as minorias, o que levou às declarações prestadas ontem pelo Primeiro-Ministro, Boris Johnson.

Se todo este processo for sério e honesto, eu, minha querida Berta, não apenas tiro o chapéu a Boris, como quase me proponho a comê-lo a seco, embora o chapéu custe a digerir, tal é o meu grau de espanto. Nada mais há a dizer, a não ser que a história me provará se devia ter ou não mastigado o ornamento craniano. Despede-se com um beijinho o teu amigo, repleto de saudades,

Gil Saraiva

 

 

 

Carta à Berta: Covid em Dia dos Namorados

Berta 468.jpg

Olá Berta,

Faltam oito dias para o dia de São Valentim, o Dia dos Namorados. São tempos estranhos estes que vivemos. Tão estranhos que não me lembro de os ver relatados sequer na ficção. Em Portugal, pela primeira vez desde que tenho memória, não se recomenda a troca de beijos nem mesmo o famoso abraço apertado entre pessoas que se amam.

É claro que, para quem já vive no mesmo domicílio em comunhão de leito com o amor da sua vida, estas recomendações não se aplicam e apenas são recomendados alguns conselhos especiais, sobre as atividades antecedentes aos mimos, por parte de cada um dos elementos do casal. Por exemplo, são desaconselhadas partilhas de intimidade com elementos estranhos ao casal. Entre outras recomendações mais ou menos bizarras.

Contudo, para aqueles que ainda se encontram na fase de namoro (propriamente dita), ainda sem partilha de um teto ou uma cama de forma permanente e continuada, é que as coisas se tornaram quase absurdas. Se em janeiro de 2020 alguém dissesse que se iria pedir a um casal de namorados para não se abraçarem ou beijarem, já para não falar de partilhas mais íntimas, seria chamado de lunático, idiota ou pior ainda, seria insultado com aquela forma, tão em voga nas redes, impregnada de essências viperinas e carregada de insultos e impropérios dos mais variados.

Porém, é isso mesmo que está a acontecer este ano. Aos namorados é recomendado que façam uso do distanciamento social e que se evitem mutuamente, quer não partilhando beijos, mãos dadas ou abraços de modo a ajudarem, com a sua atitude a prevenir a propagação da famigerada pandemia.

Só falta mesmo alguém ter a ideia brilhante de criminalizar o abraço, o beijo e a mão na mão, para que se atinja o cúmulo da paranoia “covidiana”.  Mas já há quem defenda que, estes namorados (os que ainda não coabitam juntos) só troquem mimos, seja de que ordem for, se ambos estiverem testados e dados como negativos no que concerne ao coronavírus.

Agora experimentem imprimir alguma lógica a isto quando se dirigem a um casal na casa dos 13 aos 17 anos, por exemplo, seja este constituído ou não por heterossexuais, mas ambos com as hormonas aos saltos e em ponto de ebulição, sem serem, devido a essa mensagem, tratados com o devido escárnio por parte dos visados.

É que, principalmente para os jovens e com maior enfase nos adolescentes, é inconcebível que lhes seja solicitado que evitem os impulsos e as interações amorosas próprias destas idades tão especiais. É o tempo deles. Aquele tempo que recordarão para toda a vida com a famosa expressão “no meu tempo”.

Enfim, minha querida Berta, tudo isto para dizer que ainda não vi esta matéria devidamente tratada, pelos especialistas, com o cuidado e a atenção que deveria efetivamente merecer por parte de quem decide.

Educar é um processo complicado e é preciso fazê-lo tendo em conta as especificidades de cada ato educativo e do grupo alvo que se pretende formar. Faltam oito dias para o Dia dos Namorados… despede-se este teu amigo, com um beijo virtualíssimo, sempre ao dispor, saudosamente,

Gil Saraiva

 

 

 

Carta à Berta: As Vacinas em Portugal

Berta 467.jpg

Olá Berta,

Embora tu, minha querida amiga, já me tenhas pedido para falar do plano de vacinação em Portugal, por queres saber a minha opinião sobre o assunto, eu, muito sinceramente tenho evitado trazê-lo para as nossas cartas. Porém, como algum dia terá de acontecer, pode até ser já hoje. Apenas sublinho que vou dizer o que penso sobre o assunto sem mais delongas.

Quanto ao plano em si, e as prioridades definidas para a toma de vacinas eu acho que irá sempre haver quem o conteste e quem se sinta injustamente deixado para uma segunda ou terceira linha, seja qual for o critério de prioridades. Quanto às que atualmente estão em vigor estou de acordo que existam e que se façam cumprir da melhor maneira possível e com a celeridade projetada.

Penso, no entanto, que o grupo responsável pelos critérios irá fazendo pequenos ajustes às prioridades, consoante assim se achar melhor, durante o processo, e não vejo mal algum em que o façam. Um plano rígido era por si só muito mais absurdo. Cheguem atempadamente as vacinas da Europa e o serviço tratará de as distribuir atempadamente e julgo mesmo que sem problemas de maior.

Não sou arauto da desgraça, nem sequer sou uma Clara Ferreira Alves que, ainda ontem, ouvi dizendo que tudo estava e seria um caos. Pois bem, no meu entender isso não corresponde à verdade dos factos. A vacinação está a correr muito bem e acho que assim continuará. Também discordo com a jornalista comentadora do Eixo do Mal, quando ela vê e prevê um fim à vista para António Costa, todavia isso são contas de outro rosário e não vale a pena falar nisso presentemente.

No que respeita às vacinas que têm sido dadas indevidamente, a pessoas que não constavam nas prioridades, existem dois grandes tipos de situações. As que foram dadas a qualquer pessoa, para não desperdiçar doses que sobraram e que já estavam descongeladas, numa altura em que ainda não existiam alternativas definidas para o efeito, e as que foram alvo de abusos seja de que ordem for. Enquanto que o primeiro caso não foi grave, foi residual e serviu para serem criadas listas de suplentes para as sobras, a segunda é mais séria e merece ter as devidas consequências consoante a gravidade de cada caso.

Apenas acho que no caso nacional, onde essa divergência, sobre o que estava planeado, é inferior a 0,1% das vacinas já efetuadas e que entre primeiras e segundas doses já atingiram o meio milhão praticamente, é deveras irrelevante. Dito isto todos os casos devem ser analisados e punidos quando for realmente o caso.

Por hoje fico-me por aqui minha querida Berta. Despede-se este teu velho amigo, sempre ao dispor onde e quando me achares necessário, com um beijinho,

Gil Saraiva

Carta à Berta: Neva em Nova Iorque

Berta 464.jpg

Olá Berta,

Nova Iorque não via neve há cinco anos, quem o afirma é o New York Post, que garante que o fenómeno já não acontecia desde 2016. Aquela que foi durante muito tempo, em 2020, a capital da Covid-19 nos Estados Unidos da América, Nova Iorque, teve como brinde a neve oferecida pela Orlena, a tempestade de neve que chegou ao país neste domingo, segundo informação detalhada do instituto de meteorologia norte-americano.

A neve promete, entre ontem e hoje, uma descarga de flocos, que pode chegar aos sessenta centímetros de altura máxima, uma densidade bastante apreciável para o que normalmente acontece naquelas paragens. Para os garotos é tempo de divertimento, de bonecos de neve, de escorregas improvisados, de tombos e quedas misturados com risos e gargalhadas. Enfim, trata-se de aproveitar da melhor maneira possível um momento que, por força da ação do clima, se torna lúdico e alegre.

Basta percorrer as páginas online sobre Manhattan para descobrir fotografias e vídeos de diversão e folia na neve citadina. Por dois dias as pessoas esquecerão a pandemia, embora se note claramente a manutenção das distâncias sociais e um uso praticamente generalizado de máscaras contra o coronavírus. “Times Square”, não tem muita gente a passear a pé, estando os passeios higiénicos a acontecer em pequenos grupos familiares, quase todos com crianças, no Central Park.  Aí é possível construir com rapidez um boneco na neve e fotografá-lo para a posteridade.

Minha querida Berta, adorei trazer-te este relato bem-disposto numa época onde é rara a existência de momentos de alegria e de convívio. Despede-se, com um beijinho, este teu amigo, sempre pronto a ajudar no que precisares, com votos de que continues bem e feliz,

Gil Saraiva

Berta 464 a.jpg

 

 

 

Mais sobre mim

foto do autor

Sigam-me

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

Em destaque no SAPO Blogs
pub