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Carta à Berta

Carta à Berta é o local dos Desabafos de um Vagabundo, do Senhor da Bruma, essa bruma a que chamam de internet, de um Haragano, o Etéreo, qual cavalo selvagem que galopa entre cartas alegadamente, quiçá, sem fundamentos.

Carta à Berta é o local dos Desabafos de um Vagabundo, do Senhor da Bruma, essa bruma a que chamam de internet, de um Haragano, o Etéreo, qual cavalo selvagem que galopa entre cartas alegadamente, quiçá, sem fundamentos.

Carta à Berta: 25 de abril... Quando a Polícia me Bate à Porta.

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Olá Berta,

Hoje, 25 de abril de 2020, sábado, feriado, pelas 18 horas da tarde, fui impedido, à minha porta, pela polícia, de continuar a emissão de música, comemorativa do 25 de abril, para a Rua Francisco Metrass, em Campo de Ourique.

É inacreditável que 46 anos depois da implantação da liberdade, a polícia se ache no direito de impedir um festejo coletivo entre pessoas do mesmo bairro, na tarde em que se comemora a liberdade confinada que o país vive.

Segundo a descrição da autoridade houve uma pessoa que apresentou queixa. Mas estiveram os 3 agentes que me visitaram, e intimaram com um auto se teimasse em manter a música, em casa da queixosa a medir o índice de ruído que lá chegava, como manda o regulamento geral do ruído? Nada disso, nem lá foram. Tomaram como certa a declaração da senhora. Violando de forma grosseira os meus direitos e os de todos os que nas janelas e na rua aplaudiam e celebravam na sua condicionada forma de liberdade, a própria liberdade nacional. Nem mesmo foram a casa dessa pessoa identifica-la, como fizeram comigo, não registando, por isso mesmo, oficialmente, nenhuma queixa formal. O telefonema, ao que parece foi o bastante para agirem.

O outro argumento foi de que existem pessoas que trabalham por turnos e que têm o direito ao descanso e ao silêncio a meio do feriado de 25 de abril, a um sábado, às 6 da tarde. Sim, como se as músicas de abril fizessem mais ruído do que as cargas e descargas que acontecem nesta mesma rua, todos os dias, incluindo, sábados, domingos e feriados, com os respetivos carrinhos metálicos a ecoarem por todo o lado, entre as 6 da manhã e as 21 horas, para abastecerem os 3 supermercados que aqui se encontram concentrados num espaço de 30 metros.

Estou tentado a apresentar queixa por abuso de autoridade na esquadra de Campo de Ourique. O problema é que não sei quando serei operado e quando acaba o meu confinamento. Já liguei para a esquadra para lhes dar conhecimento de que pretendo apresentar queixa pela forma como tudo se passou e por aquilo que penso ter sido um claro abuso de autoridade, indevidamente balizada em argumentos não comprovados de uma queixosa não identificada devidamente. Contudo, não sei ao certo se conseguirei, em tempo útil, apresentar a devida queixa.

É uma pena que estas coisas continuem a acontecer. É triste, minha amiga, ver a polícia, que deveria estar atenta a tantas outras coisas, vergar perante a queixa de alguém sem verificarem os prossupostos da mesma. Pelo que entendi a queixosa é uma pessoa influente, não entendi a que nível, mas deve ter sido isso que terá dispensado a verificação dos factos.

É com um profundo pesar que hoje me despeço de ti, minha querida amiga, recebe um beijo deste amigo,

Gil Saraiva

Carta à Berta: Alegria Solidária em Campo de Ourique – 25 de ABRIL – Música para os Confinados

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Olá Berta,

Tenho andado para aqui a meditar o que posso eu fazer, durante o feriado do 25 de Abril, para animar a malta no meu Bairro de Campo de Ourique. Porém, não penses que, quando utilizo o pronome “meu”, estou a tentar monopolizar um bairro que pertence a todos os que por cá passaram e aqueles que aqui vivem. Nada disso, é tanto meu como de todos os que acabei de referir, aliás, até é daqueles que por cá trabalham e nas nossas ruas fazem compras.

Lembrei-me de que podia ser engraçado pôr a tocar para a minha rua, a Francisco Metrass, músicas de outros tempos, principalmente em português, mas não só. Não possuo, contudo, grandes aparelhagens modernas de topo de gama, apesar disso, tenho uma antiga aparelhagem, com gira-discos, e uma coleção de mais de um milhar de discos de vinil. As colunas são grandes e o som não é mau de todo, julgo que poderá fazer chegar a musicalidade até uma boa extensão da rua. Achas a ideia interessante?

Seguidamente põe-se o problema do horário. A que horas começar a transmissão e a que horas terminar? Pensei que seria interessante iniciar algures entre o meio-dia e as 2 da tarde e terminar entre as 8 ou 9 da noite. Seria um dia diferente, sem grande preocupação de transmissão de mensagens políticas, contudo, com uma forte componente de solidariedade para com todos os que estão em casa.

A ideia em si parece-me agradável. Porém, como ainda estou com as dores provocadas pela minha vesícula, que ainda não tem data para ser operada, nem tenho a certeza se será viável. E se eu tiver uma crise mais forte durante essa tarde? Pois é, minha amiga, não sei bem o que fazer. O que achas do assunto? E se noutras ruas do bairro e outras pessoas pudessem fazer o mesmo? Seria um bairro inteiro a celebrar abril e a esperança de melhores dias. Era muito giro, mas será que é viável?

O que pensarão os outros habitantes da ideia? Haverá alguém que se importe e com condições de fazer o mesmo? Seria possível mandarmos uma mensagem solidária para todo o país? Provavelmente estou a sonhar alto. Muito alto. Não consigo sequer antever a reação dos outros habitantes do bairro. Será que a ideia era bem aceite? Ou, meia hora depois de começar, tinha a polícia à porta a mandar-me desligar a música?

Para mim, que passo metade do dia enjoado por causa da vesícula, embora com menos dores do que há uma semana, ia ser uma estopada das grandes, contudo, se trouxesse alegria a todos nós, acho que me faria mais bem do que mal. O que achas tu, amiga Berta?

Dá-me a tua opinião o mais rapidamente que puderes, pois faltam poucos dias para o 25 de abril. Despeço-me com um beijo franco,

Gil Saraiva

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