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Carta à Berta

Carta à Berta é o local dos Desabafos de um Vagabundo, do Senhor da Bruma, essa bruma a que chamam de internet, de um Haragano, o Etéreo, qual cavalo selvagem que galopa entre cartas alegadamente, quiçá, sem fundamentos.

Carta à Berta é o local dos Desabafos de um Vagabundo, do Senhor da Bruma, essa bruma a que chamam de internet, de um Haragano, o Etéreo, qual cavalo selvagem que galopa entre cartas alegadamente, quiçá, sem fundamentos.

Carta à Berta: O Pança de Porco

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Olá Berta,

Cá estou eu, minha amiga, a tentar, com algum esforço, manter-te a par da minha recuperação pós-operatória. Fui tentar investigar o significado de ter sido operado pela chamada “técnica dos furinhos”. Descobri que o nome correto para a coisa é: laparoscopia, que significa que esta é uma técnica cirúrgica mais moderna, menos invasiva, e que utiliza pequenas incisões (com cerca de 5 mm) para realizar uma grande variedade de procedimentos cirúrgicos.

O cirurgião utiliza para esse fim um laparoscópio, que é uma câmara de alta resolução ligada a um cabo de fibra ótica, que lhe permite visualizar num ecrã os diferentes órgãos, por exemplo no abdómen. É assim possível tratar a área afetada de uma forma pouco invasiva e cómoda, tanto para o cirurgião como para o paciente, sem necessidade de fazer grandes incisões, sendo usada para a remoção de órgãos doentes, como a vesícula biliar ou o apêndice.

A noção é agradável e fiquei mais tranquilo depois de me inteirar do assunto, afinal, hoje era dia de mudar, pela primeira vez, os quatro pensos que tenho na barriga. Saber que ia ver quatro pequenas incisões com cerca de 5 mm cada, deixava-me completamente sossegado. Ainda me lembrava de o médico me ter dito que a minha operação tinha sido complicada, o que o obrigara a aumentar o tempo da mesma, da meia hora prevista, para duas horas e meia.

Porquê? Porque ele não encontrava a vesícula, que estava escondida debaixo do estômago e por detrás do meu intestino. Ainda por cima a dita cuja era enorme, muito espessa e estava repleta de aderências, queira lá isto dizer seja o for (sendo que cheira a complicações).

Ao olhar para a barriga, desprovida do habitual tapete de pelos caraterístico do macho latino, achei estranho o tamanho dos pensos originais. Eram enormes, tendo cerca de 5 cm de largura por 8 cm de comprimento. Ri-me. Tanto tamanho para tapar incisões de 5 mm. Via-se logo que eu fora operado num hospital privado, onde tudo é à grande e à francesa.

Removi os pensos e ia-me dando um ataque.  O furinho mais pequeno tinha 1,5 cm de diâmetro e os dois maiores 6,5 cm cada um, sendo que ainda havia um quarto de 2,5 cm, ou seja, no total a minha pança fora retalhada em 17 cm de extensão. A segurar as incisões estavam 17 agrafos metálicos arrepiantes cravados na carne.

Se aquilo era a famosa “técnica dos furinhos” eu era o Santo António a pregar aos peixes. A expressão vernácula que termina em “que o pariu” veio-me imediatamente à mona. As crateras abertas no meu bandulho insinuavam uma zona de guerra, onde não existira clemência. Os buracos situados nos extremos da pança distavam 25 cm um do outro e ainda havia outros dois de permeio, sendo que um orbitava na orla do meu umbigo com 7 agrafos a ornamentá-lo.

Ficou claro para mim que jamais poderia voltar a servir de modelo de nu para os alunos de Belas Artes. A arte do meu cirurgião, que se gabara à minha frente, já no recobro, de ter executado uma obra prima, parecia-me muito equivalente à do avô do meu primo, após acabar de retalhar o animal por altura das festas da aldeia, na matança do porco.

De um momento para o outro deixei de ser o “cara de cu” da antevéspera para passar a ser o “pança de porco”. Por isso as minhas dores eram o que eram. Qualquer movimento, tosse, espirro, repuxavam os 17 agrafos cravados na carne. Se somarmos a isso os órgãos remexidos pelo talhante, ainda à procura do seu lugar natural, não tinha porque me admirar de sentir o tipo de dores que efetivamente sentia.

Agora vivo na contagem decrescente para voltar a ver face a face o cirurgião que me operou. Faltam 9 dias. De momento parece uma eternidade, mas eu hei de olhar o homem olhos nos olhos e nessa altura discutiremos ombro a ombro o conceito de obra-prima “que o pariu”. Por hoje é tudo, Bertinha, um abraço do amigo,

Gil Saraiva

 

 

 

Carta à Berta: A Peça do Chinês - Parte III - Nova Viagem, Nova Estadia...

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Olá Berta,

Hoje, vou continuar a contar-te a minha história sobre a peça do chinês. É uma descrição, minha querida amiga, que requer ainda uma boa caminhada até ao final, no episódio 6, e este é apenas o terceiro. Contudo, julgo que não darás o tempo de leitura por mal empregue.

Esta terceira parte da peça do chinês, fala de uma nova viagem, nova estadia… um pouco mais para a frente entenderás o título. Para já, vamos ao mote deste momento único: morfina, morfina, morfina e mais morfina. Qual janado, apaixonado por uma nova droga, dei comigo na firme disposição de trair, sem o menor dos embaraços, a minha velha, boa amiga e companheira, Nicotina. A traição, um ato que sempre repudiei por achá-lo característico de pessoas estilo Donald Trump, Andrés Aventureiros, Carlos Alexandrinos e dos consumidores genéricos de metadona, aparecia no meu horizonte como algo natural, lógico e até desejado.

A nova paixão, essa deliciosa, refinada e recém-chegada Morfina, tornava não só o meu quotidiano mais fácil de suportar, como me ajudava a ter esperança num futuro sobre o qual ainda não possuía qualquer vislumbre. A nova droga transformava o tempo ao meu redor. Com ela, as dores pareciam paisagens no horizonte e a realidade era como um filme, onde os dias se passavam apenas em horas.

Sabes, minha amiga, como ficamos no inverno, depois de estar umas horas ao computador, com a mão no rato? Pois é, gelam-nos os dedos primeiro e depois toda a mão. Porém, eu interrogo-me se aconteceria o mesmo se em vez de um rato o aparelho tivesse uma rata, que te parece? Por certo a mão estaria bem mais quente e seria um prazer deslizar os dedos por ali. Ora, nesta coisa de me tirar as dores o rato aparece representado pelo famigerado Nolotil, enquanto a rata se chamaria, sem qualquer dúvida, Morfina.

Contudo, o namoro foi breve. A rata, quero eu dizer a morfina, ficou confinada e diluída na solução analgésica intravenosa durante cerca de 3 dias, sumariamente à espera da reação provocada pela atuação de outros fármacos, sendo ela, mal a coisa se tornou viável, arrancada de meus braços pelos carinhosos, mas vigilantes, responsáveis pelo meu estado de saúde. Não me queriam ver viciado na rata, digo, morfina, e esta é muito dada a criar dependência.

No quinto dia (relembro-te, Berta, que esse tempo me pareceu durar apenas algumas horas), ainda sob o efeito da minha nova paixão, mas a vê-la desvanecer-se na bruma hospitalar, fui informado que o meu problema era de cálculo. Estranhei a informação. Como poderia eu ter errado no cálculo se eu não fazia contas há dias? Não, não era nada disso. Eu estava a confundir as coisas, ainda por culpa dos efeitos secundários da droga administrada. Rapidamente voltaria a entender tudo de novo, diziam.

Aliás, um cirurgião com quem troquei algumas palavras, durante uns poucos instantes de lucidez, achara imensa graça ao meu comparativo do Nolotil e da Morfina com o rato e a rata, principalmente, pelo ar carrancudo da enfermeira que o acompanhava. Todavia, dizia-me que essa criatividade se iria dissipando à medida que a droga desaparecesse do sistema.

Por fim, com a paciência dos sábios, e usando uma linguagem que o meu cérebro meio perturbado pudesse entender, lá me informaram que um calhau, que tinha residido clandestinamente na minha vesícula, uma espécie de tonel devidamente preparado para lidar com a bílis, tal como os toneis lidam com o vinho, junto à adega, que neste caso era o meu fígado, tinha sido desmascarado e, consequentemente, posto de imediato em fuga, talvez com receio que eu lhe cobrasse renda ou solicitasse uma musculada ação de despejo.

Porém, na pressa de fugir, o meliante acabara por ficar retido numa viela, à qual o meu douto sábio cirurgião chamou de canal biliar. Em resumo, no meu entender, o velhaco calhau, disfarçado de gôndola que desliza por um canal em Veneza, tentou esquivar-se, sem ter reparado que a sua estadia o engordara ao ponto de ele nunca se conseguir fazer passar por um barco veneziano, mas sim, tomar a forma de um paquete turístico transatlântico. A consequência óbvia foi ter encalhado, nas águas pouco profundas, no meu canal biliar.

Soube mais tarde que a descoberta do vadio paquete se ficou a dever a um jovem médico, que decidira não abandonar o seu turno, terminado há algum tempo, sem pôr em pratos limpos o que era aquilo, que só ele julgava estar a ver e que lhe parecia ser efetivamente uma sombra. Uma sombra que poderia estar a ocultar algo mais, tipo o meu famigerado transatlântico. A sua observação aos resultados das diferentes ecografias, que mandara repetir por 3 vezes, contrariava a palpação e a douta opinião do experiente cirurgião de serviço e chefe da equipa da urgência, que nada sentira.

Contudo, à chegada da terceira ecografia, finalmente, o calhau, a pedra, o paquete transatlântico, foi localizado. Estava encravado ou, na linguagem marítima, encalhado, e sem hipóteses de fuga, num recanto do tal canal, ou seja, no canal biliar, que nada tem a ver com O Tal Canal, protagonizado na RTP pelo comediante Herman José, que para aqui não é chamado e cuja alusão parece referir um outro canal não só mais desejado, como também absolutamente feminino.

Em resumo, depois de 2 dias e meio de fuga, ficou claro que se impunha uma intervenção para remover o patife obstrutor da propriedade alheia, esse paquete de trazer por casa, que me levara, sem aviso prévio, a conhecer paragens localizadas muito para além dos quintos do inferno, algures em terras de Dante.

Não só já não ia ser recambiado para casa, sem sequer levar comigo um diagnóstico conclusivo, como defendera primeiramente o chefe da equipa, como teria de ser intervencionado, tipo campo agrícola, depois da passagem revolucionária da reforma agrária. Tudo isto porque, um abençoado jovem médico, daqueles teimosos e obstinados, jejuou, nadou contra a corrente e resolveu bater o pé, qual prova de triatlo original, na senda da sua nobre demanda de descobrir que raio de coisa era aquela que ele achava ser, na melhor das hipóteses, uma sombra.

Dizem que a sorte protege os audazes. Acredito que sim, contudo, também me protegeu, numa altura em que a diferença entre mim e uma múmia paralítica era apenas a dos meus gemidos de dor, sem ter sequer a consciência de estar a gemer. Portanto, o ditado devia ser alterado para esta situação bem mais abrangente, talvez para: a sorte protege os audazes e as múmias paralíticas.

Tive de esperar pelo fim de quarta-feira e o início de quinta-feira para ser transferido, definitivamente, para os serviços de gastroenterologia do hospital que guarda a memória do nosso Nobel da Medicina, na forma referenciada e clara do uso do mesmo nome. Estou a falar da minha transferência, não confundir com trasladação, até porque continuava vivo e bem vivo, para o Hospital Egas Moniz. A decisão da minha mudança de instalações fora tomada logo após a descoberta da obstrução do canal biliar e era definitiva.

Por mim aguardava essa nova viagem e nova estadia num outro lugar, num outro hospital, já devidamente diagnosticado e pronto para uma intervenção que colocaria um ponto final nas minhas mágoas e sofrimento. Mas, como em tudo na vida, cada coisa tem sua hora, o seu momento, porque tudo tem um tempo certo para ocorrer. Não vale a pena ter pressa em demasia porque, por mais que se deseje o inverso, as coisas só acontecem no tempo certo, quando, efetivamente, têm de acontecer.

No meu caso, seria uma nova viagem a efetuar, mas só quando vagasse uma cama no terceiro piso do Egas Moniz, onde estavam localizados os respetivos serviços, que interessavam à minha situação, nesta instituição. Pondo a coisa de outra forma eu só tinha 3 hipóteses para ser transferido para o local da minha nova estadia.

No primeiro caso, era se um dos pacientes do terceiro piso dos serviços de gastroenterologia morresse e eu fosse ocupar o lugar do morto, o que seria algo como me ficar destinada a cama fúnebre, a segunda situação era um paciente descobrir que ia ser operado por um seguidor do criador de Frankenstein e pôr-se em fuga do hospital indo eu ocupar o leito do apressado fugitivo, a terceira probabilidade era a de alguém ter alta hospitalar e eu receber a cama que vagasse por essa auspiciosa saída. Não existia uma quarta hipótese, nem qualquer outra alternativa para que a transferência tivesse lugar.

Vale a pena referir, que graças às “troikices” de Passos Coelho e ao desinvestimento e cativações de Centeno, já na sua mágica cadeira ministerial de guardião financeiro do pecúlio do povo português, os serviços do Hospital Egas Moniz estavam assoberbados de pacientes e carentes de recursos. Algo que nos 3 anos seguintes se tornaria no calvário de quem fosse caindo nas garras forçadas e afiadas do Serviço Nacional de Saúde, vulgo SNS.

Porém, mais uma vez, a sorte protegeu a múmia paralítica, ou seja, eu. Lá fui, uma vez mais, de ambulância, acompanhado ainda e sempre pelos prestáveis bombeiros, para a minha nova estadia, a cama 316 do Hospital Egas Moniz, acabada de vagar por um paciente que tivera alta ao meu quinto dia de Hospital São Francisco Xavier.

Importa esclarecer que muitos destes meus relatos não foram vividos diretamente por mim, embora eu estivesse presente em todos eles. Foram-me transmitidos por quem também os acompanhou, ou a minha amiga que se provou incansável em toda a saga, ou os bombeiros, os auxiliares, os enfermeiros e os médicos que, nos meus períodos muito curtos de lucidez, me foram inteirando dos diferentes factos e situações.

Só já na nova estadia, a tal cama 316 do Egas Moniz, é que o efeito da morfina passou por completo e eu regressei, qual migrante contrariado, à realidade e ao presente abandonando a bruma onde fora Senhor por alguns dias.

Sempre me lembrarei desse tempo de Senhor da Bruma, sem qualquer noção de existir, absolutamente irresponsável pelos meus atos, entregue a uma amante chamada de Morfina, mas que, para mim, fundia Vénus e Minerva numa só entidade mítica e maravilhosa. Iria ter saudades, minha querida amiga Berta.

Foi no dia seguinte que, pela primeira vez, me falaram da Peça, sim, a do Chinês. Contudo, amiguinha, isso fica para a quarta parte da nossa curta novela. Despeço-me com um beijo de saudades, este teu amigo de sempre,

Gil Saraiva

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