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Carta à Berta

Carta à Berta é o local dos Desabafos de um Vagabundo, do Senhor da Bruma, essa bruma a que chamam de internet, de um Haragano, o Etéreo, qual cavalo selvagem que galopa entre cartas alegadamente, quiçá, sem fundamentos.

Carta à Berta é o local dos Desabafos de um Vagabundo, do Senhor da Bruma, essa bruma a que chamam de internet, de um Haragano, o Etéreo, qual cavalo selvagem que galopa entre cartas alegadamente, quiçá, sem fundamentos.

Carta à Berta: Leiria - O Muro da Vergonha

Muro da Vergonha.jpg

Olá Berta,

Espero que tudo esteja bem contigo. Hoje tenho uma coisa insólita para te contar. Não te preocupes que não me vou alongar como da última vez. Não sei se conheces Leiria ou não. Eu, por acaso, só lá estive uma vez. Contudo, a história de hoje vem dessas bandas.

Não faço ideia quem é o presidente da autarquia, pode até ser uma pessoa muito bem-intencionada, todavia, aquilo que fez não pode acontecer numa região que, pelo que me é dado saber, pertence a Portugal.

Estou a falar das obras realizadas pela Câmara Municipal de Leiria ou por sua ordem, não imagino se direta ou indiretamente, num dos maiores bairros sociais desse burgo, pertencente à edilidade, sob sua orientação e responsabilidade. É esse facto que me faz dizer que algo vai mal no conceito que têm de país laico, solidário e em harmonia com as minorias populacionais, refiram-se elas a raça, etnia ou religião, já para não enumerar, exaustivamente, todos os outros casos de tratamentos diferenciados, onde a diferença vira ofensa e insulto grave, para dizer o mínimo.

No caso, aqui, a Câmara juntou uma boa parte da população de etnia cigana num único bairro. Poucos haverá que o não são, se é que existe algum caso. Este tipo de segregação, absurdo e abjeto, começa logo por trazer aquele fedor a Chega, e, segundo sei, esse partido não tem nenhum representante que tenha acento entre os vereadores de Leiria.

Pode até a autarquia vir a alegar que esse foi o desejo daquelas pessoas. Pretendiam ficar juntas e unidas. Contudo, não interessa o que elas poderiam ou não preferir, não se segregam ciganos, imigrantes, estrangeiros de qualquer tipo, negros, amarelos, roxos ou às bolinhas, seja essa a sua preferência ou não.

Depois, não se coloca o bairro, coincidentemente, afastado de todos os outros numa área isolada. E por fim, por mais que o edil aprecie Donald Trump, não se constrói um muro de betão armado, à volta de mais de metade do bairro, com 50 centímetros de largura, 2 metros de altura e apenas a 3 metros e pouco afastado das portas das casas. O espaço é tão apertado que, quem tente fazer a curva, na rua junto ao muro, arrisca-se a deixar por lá uma boa parte da pintura. Ainda mais se se tratar de uma carrinha, um género de um veículo bastante usado por estas populações.

Não penses que, quem sai de casa, tem qualquer tipo de paisagem que possa apreciar. Talvez os projetistas tenham elaborado o bairro durante as férias do arquiteto paisagista. A verdade é que não tem, não existe vista alguma, apenas resta aos moradores fixar os olhos no cinzento do muro. Aliás, como se trata de um bairro térreo, à janela, a imagem é a mesma, betão e só betão, tão frio, tão triste e tão amorfo como a soberba de quem o mandou erigir. Enfim, tudo cinzento, faça chuva ou faça Sol.

Na reportagem que vi da TVI, os responsáveis pela obra ainda têm, depois de tudo isto, a distinta lata de ironizar com a situação, dizendo que o muro até protege os residentes de possíveis fogos, que possam acontecer no futuro, nas matas vizinhas, como se o muro fosse um prémio extra oferecido a quem por ali reside.

Uma verdadeira vergonha, ainda por cima porque a obra usou, a acreditar no que os moradores afirmam, com indignação, fundos comunitários para os segregar e aprisionar. Parece anedota, seguida de outra que se prende com o nome dado ao bairro pelos inteligentes autarcas, a saber, Bairro da Integração.

Não sei o que fará a Comissão Europeia quando se enviarem estes dados para Bruxelas. Alguém que saiba como os fazer lá chegar, deveria remetê-los, com urgência. Não me parece bem usarmos esses Fundos para a prática da segregação de etnias. É revoltante, abjeto e mete nojo. Não haverá ninguém, Governo ou outra qualquer entidade, para obrigar esta Câmara a concertar o erro que cometeu, mas quanto antes?

Afinal, cada dia que passa nesta comunidade, nas circunstâncias referidas, não ofende os residentes apenas, ofende a mim e a muitos mais como eu, ofende Portugal.

Despeço-me saudoso com um beijo, este teu amigo,

Gil Saraiva

Os Bombeiros Voluntários

BVdeBorba.jpg

Olá Berta,

Escrevo-te para desabafar contigo sobre uma notícia que li hoje no Diário de Notícias. Não sei se já a leste também, entretanto, devido ao tempo que esta carta levará a chegar a ti. Contudo, não importa, o desabafo é mais lato do que a notícia em si.

Esta madrugada a Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Borba foi atacada por um grupo de etnia cigana, talvez uns 20, diz o jornal, descontentes com o facto de a corporação ter desviado para o 112 uma chamada de urgência que os atacantes, ou gente próxima destes, tinha feito para o quartel. Para além dos danos psicológicos e do medo que ficou e ficará instalado entre os soldados da paz, ainda existiram 2 feridos ligeiros entre os voluntários. Sem a intervenção pronta da GNR o caso poderia ter tido ainda mais graves consequências.

Os Bombeiros estão também a ser criticados por, na sua página, se terem referido aos atacantes como “pessoas”, com a palavra escrita entre aspas. Indagados sobre o assunto, os Voluntários, já esclareceram que as aspas nada têm a ver com a etnia dos atacantes, mas com a força desmedida do ataque e a raiva que parecia possuir os meliantes.

Estou inteiramente solidário com a associação humanitária, bem como com as declarações que escreveram e prestaram. Não faz sentido que uma qualquer parte de uma dada população decida atacar os soldados da paz, devido a uma decisão de serviço, que se exige, para otimizar recursos e competências, a cada momento do dia. Os bombeiros não reencaminham uma urgência, para outro serviço de apoio, se disso não tiverem necessidade.

Contudo, e agora falando em termos genéricos, até os Bombeiros Voluntários deste país precisam de uma autoridade superior que monitorize as suas ações, servindo para isso a criação fiscalizações rigorosas no que concerne às atividades destes, às suas instalações, aos recursos e à gestão de instalações e de outros serviços e contratos existentes. Afinal, estes indivíduos também são pessoas, com todos os defeitos e qualidades que, genericamente as pessoas têm, ou seja, se uma grande maioria está ali por um bem mais elevado, nem todos seguirão esse padrão. Uma fiscalização cuidada evita erros, problemas, excessos, gastos indevidos e desperdícios.

Conforme sabes, fui presidente de uma associação de bombeiros voluntários no distrito de Lisboa e posso-te confidenciar que esse tipo de fiscalização deve ser sempre bem-vinda. Em primeiro lugar, é preciso não esquecer que os bombeiros, mesmo sendo voluntários, são pessoas pagas pelo serviço que prestam às suas associações e que recebem um ordenado mensal, 14 vezes por ano, isto sem contar com os diferentes suplementos e remunerações assessórias a que têm direito em determinadas situações.

Para além disso, as associações têm, na sua área de intervenção não apenas o combate ao fogo ou assistência rodoviária ou de saúde, mas outras, como o fornecimento de água às populações, passando pelo reabastecimento de piscinas, vigilância e controlo de condições de segurança em recintos de eventos e espetáculos e, há ainda, os que possuem atividades recreativas ou desportivas dedicadas aos seus sócios, sejam piscinas, ginásios, serviços de consultas médicas, entre muitos outros. Em resumo, uma associação destas movimenta muitas centenas de milhares de euros anualmente, tendo por isso de ser devidamente escortinada no respeitante às suas ações, gastos, despesas e receitas.

Não te passa pela cabeça as coisas que podem fazer facilmente com que uma associação passe de uma situação folgada em termos económicos para uma verdadeiramente aflitiva e deficitária. Muitas vezes nem se trata de marosca ou falcatrua, mas de puro desleixo. Existem contratos anuais com diversas empresas e entidades que precisam de muita verificação e, até as tabelas de serviços prestados, necessitam de uma atualização constante, para que os bombeiros não fiquem no prejuízo.

Os exemplos que te posso dar, com base da minha experiência, vão desde veículos que não são os da associação a serem reparados, como se o fossem, na oficina da instituição, ficando os custos todos a seu cargo. Uma marosca de alguns mecânicos para ganharem uns cobres extra, que pode custar milhares à associação, passando por avenças anuais, pagas mensalmente, feitas com canalizadores, eletricistas, formadores de atividades extra, técnicos de manutenção das piscinas, etc., que envolvem quantidades elevadas de dinheiro sem que, por exemplo, o prestador do serviço seja visto no quartel durante meses a fio, quando era muitíssimo mais económico contratar um técnico especializado caso a caso, ou ter alguém pago como funcionário a prestar esse trabalho. Mas os truques ou os devaneios podem ser encontrados em quase todos os setores, seria complicado enumerá-los.

Para não estar aqui a explicar tudo posso dizer-te que das verbas recebidas, num só ano, a instituição pode perder mais de 45 porcento das suas receitas, sem quase dar por isso. Até as vendas de veículos especializados, e o respetivo equipamento, à associação, carecem de enorme escrutínio. Sabias que, quando fui eleito presidente, para encher uma piscina de um sócio, o preço da tabela era de 25 euros, enquanto que para o fazer os bombeiros gastavam mais de 100? Como este exemplo podia dar-te outros 50. Enfim, é preciso profissionalizar a gerência das estruturas de direção. Alguns dos diretores ou o presidente, deviam passar a ser pessoas com requisitos de gestão obrigatórios e estar na associação a tempo inteiro sendo remunerados pelo serviço prestado. Só assim se pode evitar que as fugas, as maroscas e os truques aconteçam.

Em conclusão, o que te quero dizer é que os soldados da paz, são, na sua esmagadora maioria, instituições compostas por gente simples, muitas vezes sem grande nível académico, mas que tudo fazem por uma profissão pela qual são capazes de dar a vida, contudo, a gerência e a fiscalização são absolutamente necessárias, para se poder arrancar, uma a uma, todas as ervas daninhas que possam minar algo tão prestigiante.

Desculpa lá o desabafo de um vagabundo, mas gosto demasiado dos nossos corpos de bombeiros, para assistir indiferente a situações como a de hoje. Recebe um beijo deste teu saudoso amigo,

Gil Saraiva

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